
A saga de um herdeiro (01) - O herdeiro guerreiro



CINDA WILLIAMS CHIMA

Traduzido por Claudia Santana Martins
FAROL
2008


Para minha me, Carol Bryan Williams, que contava 
histrias.

Agradecimentos:
Minha sincera gratido  minha agente, Michelle Wolf son, 
que fez toda a diferena; s minhas editoras, Arianne Lewin 
e Donna Bray, por acreditarem em mim; aos Hudson 
Writers (Deb Abood, Pam Daum, Cathy Fahey-Hunt, Anne 
Gallagher, Ellen Matthews, Marsha McGregor, James 
Robinson e Jane Sahr), pelo presente de que todo escritor 
necessita: crticas atentas e gentis; acima de tudo, obrigada a 
Rod, Eric e Keith, por terem entendido.



Condado de Coalton, Ohio, Estados Unidos 
Junho de 1870

O cheiro de madeira queimada e rosas sempre o levava de 
volta ao menino que fora e que nunca mais seria.
As Rosas vieram busc-los em seu dcimo vero. Naquele 
tempo, Lee era baixo e franzino, embora o pai sempre 
dissesse que as mos e os ps grandes prometiam altura e 
ombros largos quando crescesse. Ele era o caula, um pouco 
mimado, o nico dos quatro filhos a demonstrar os sinais 
tpicos de uma pedra de mago. Os pais queixavam-se de que 
ele levava dois dias para fazer o trabalho de um. No era 
exatamente preguioso, mas bastante inbil.
Fazia apenas duas semanas que haviam voltado, aps um 
ms em fuga. Voltar fora um erro. Lee entendeu isso mais 
tarde, mas o pai era fazendeiro, e um fazendeiro no pode 
ficar longe dos campos por muito tempo durante o perodo 
de crescimento. Alm do mais, os ataques anteriores das 
Rosas haviam sido espordicos. Eles percorriam a cidade 
pelo rio, procuravam nas fazendas remotas e ento 
desapareciam, s vezes por um ano inteiro.
Os vizinhos os chamavam de bandidos, especulando que 
haviam sido soldados na recente Guerra da Rebelio. Apenas 
sete anos antes, o general confederado, John Morgan havia 
liderado um grupo de invasores por aquelas colinas do sul de 
Ohio.
A famlia de Lee sabia que no era isso. Sabia o que esses 
invasores estavam procurando, e por qu. As Rosas seguiram 
as linhagens a oeste desde as cidades porturias do leste. 
Caavam os descendentes do Urso Prateado, recolhendo os 
que eram dotados para o Mercado. O irmo, Jamie, fora 
levado quando Lee ainda era um beb, e a famlia vivia na 
Pensilvnia. Jamie era um encantador. Lee no se lembrava 
dele, na verdade, mas eles sempre acendiam uma vela de 
cera para Jamie nos dias santos.
Lee estava feliz por estar em casa, de volta quelas colinas 
verdes e arredondadas, feitas especialmente para os 
sonhadores. Naquele dia fatdico, havia sado de casa cedo 
para evitar que o mandassem fazer algum trabalho. Passara a 
manh  margem do rio, o que lhe rendera uma poro de 
peixes-gatos que pretendia levar para a ceia. Ele caminhou 
calmamente pela estrada que levava para casa  apenas dois 
rastros deixados pela carroa, na verdade , desviando-se 
sempre que algo lhe despertava o interesse.
Ao chegar perto de casa, sentiu o cheiro forte de madeira 
queimando. Era estranho, pois era vero e as lareiras de 
pedra e aquecedores a lenha no eram usados desde abril. 
Talvez o pai estivesse limpando a terra ou queimando 
arbustos. Nesse caso, Lee deveria ter ficado em casa para 
ajudar. Pelo ngulo em que estava o sol, sabia que j era 
tarde para o almoo. A me devia estar subindo pelas 
paredes.
Foi ento que ele viu uma coluna escura de fumaa subir aos 
cus atravs da copa das rvores  sua frente. Pela 
localizao, sabia que estava vindo do terreno da casa. 
Talvez a cozinha tivesse pegado fogo. Comeou a correr, os 
peixes sacudindo desajeitadamente ao seu lado.
Acabou descobrindo que era mesmo a cozinha, mais o 
celeiro e o galpo no jardim. Estava tudo em chamas, 
construes de madeira e palha fceis de serem incendiadas, 
e metade j havia sido devorada pelo fogo. A casa principal, 
porm, era de pedra, com telhado de ardsia e, portanto, 
mais resistente. O pai havia quebrado as pedras das colinas 
em torno para constru-la. Uma bela casa para aquela parte 
do mundo, e talvez por isso tivesse atrado a ateno. Lee 
parou  beira da floresta sem saber o que fazer. Os peixes 
escorregaram dos seus dedos sem que ele percebesse.
Por que no havia ningum combatendo o fogo, bom-
beando gua do poo, passando baldes e encharcando a 
madeira que as chamas ainda no haviam atingido? 
Vasculhou o terreno com os olhos. No havia ningum l, 
nem o pai, nem a me, nem o irmo de Lee, ningum.
Mantendo-se sob o abrigo das rvores, ele deu a volta na 
casa, sabendo que as sebes e muros que entremeavam os 
jardins lhe dariam cobertura. O pai viera do Velho Mundo e 
tinha orgulho daqueles jardins. Eram civilizados, 
circundados por pedras, como os do lar ancestral da famlia.
O instinto lhe dizia para se manter escondido. Agachou-se, 
desaparecendo na sombra do muro de pedra que passava 
perto da floresta, seguindo-o de volta at a casa. A pele do 
rosto enrijeceu-se por causa do calor do fogo quando passou 
junto  cozinha, atravs da horta, rumo  porta de trs da 
casa. A porta estava entreaberta. Ele a escancarou com um 
empurro.
Estava tudo revirado l dentro. Era evidente que a famlia 
estava  mesa quando o ataque acontecera. Se ele tivesse 
voltado a tempo, estaria com eles. A comida estava 
espalhada pelo cho  pes, pedaos de frutas e os bolinhos 
de canela de que Martin gostava tanto. A moblia havia sido 
quebrada em pedaos e incendiada como lenha, as mesas 
reviradas, a loua estilhaada contra a parede. Algum estava 
com muita raiva ou queria chamar a ateno. Lee desviou-se 
dos cacos de vidro no cho, lembrando-se de que estava 
com os ps descalos.
Insinuou-se mais para dentro da casa, mal respirando, 
mantendo-se colado  parede, os ouvidos atentos a qualquer 
pista que indicasse que os intrusos ainda estavam ali. Ao 
avanar em direo ao salo principal, ouviu um som, uma 
batida ritmada. O som aumentou de volume quando Lee se 
aproximou da frente da casa. Ao deslizar a mo pela parede, 
tocou algo molhado. Trazendo a mo para junto do rosto, 
sentiu o cheiro metlico de sangue. Havia sangue 
esparramado por todo o cho e paredes. Poas vermelho-
escuro cristalizavam-se entre as pedras do cho. Seu corao 
martelava no peito; ele teve de lutar para conseguir respirar, 
mas se forou a continuar.
Um corpo jazia na entrada do salo. Um homem vestido de 
maneira refinada demais para ser da regio, com colete, 
camisa de seda e gravata que no eram feitas em casa, como 
as roupas de Lee. Parecia de meia-idade, mas era 
provavelmente bem mais velho. Um homem que no 
carregava arma  vista, e que no precisava de uma. Um 
mago, com certeza.
O irmo de Lee, Martin, jazia de bruos logo alm da 
entrada, o corpo quase partido em dois. A maior parte do 
sangue devia ser dele. Martin era dez anos mais velho do 
que Lee, alto e de ombros largos, conhecido por trabalhar 
duro. Prtico. No era um sonhador como Lee, Anaweir, 
nenhuma magia nele, no era preo para os magos.
 Martin.  Os lbios de Lee formaram a palavra, mas ele 
no teve flego para emitir qualquer som.
Lee arrastou-se para dentro do quarto, sentindo o sangue 
pegajoso sob os dedos dos ps. Encontrou os corpos de mais 
dois magos, e ento viu o pai estendido na lareira, suas 
pernas l dentro, como se tivesse sido jogado.
O pai, que lhe contava histrias de castelos e manses do 
outro lado do oceano. Que podia roubar fogo do ar com os 
dedos e tecer escudos com a luz do sol. Que o chamava de 
herdeiro-mago e comeara a lhe ensinar os feitios que 
moldariam a magia para que ele a usasse. Que fora poderoso 
e esperto o suficiente para proteg-los de tudo. At agora.
Lee caiu de joelhos, nauseado, e vomitou o pouco que 
restava de seu caf da manh. Ento ouviu o barulho de 
novo, o som de pancadas.
A me estava aconchegada na cadeira de balano junto  
lareira, o tric no colo. O som que ele ouvira eram as batidas 
da cadeira contra a parede. Agora que estava mais prximo, 
ele conseguia ver as agulhas de tric, batendo uma contra a 
outra, ocupadas. Ela, porm, no havia feito ponto algum. 
Embora tivesse novelos de linha na cesta e no colo, no 
estava tricotando nada.
        Me?  sussurrou ele, chegando-se junto a ela, olhando 
com cautela ao seu redor.  Foram as Rosas?
Ela fitava a lareira onde o pai jazia, frio e mutilado. 
Balanava-se e no tricotava nada, no dizia nada. No 
precisava. Ele sabia que haviam sido as Rosas;  claro que 
haviam sido as Rosas. Quem mais poderia ser?
        Est ferida, me?  disse ele de novo, um pouco mais 
alto. Ps a mo dentro da dela, mas os dedos da me no se 
fecharam em torno dos dele, e nos olhos dela havia um 
terrvel nada.
Ele conteve um soluo. Nada de chorar. Ele era o homem da 
casa agora.
        Onde est Carrie?  perguntou ele. A irm no estava 
entre os corpos no cho, o que fazia sentido, j que as Rosas 
queriam Carrie viva.
A me no respondeu. Carrie talvez tivesse sido levada, ou 
podia estar escondida. Se havia sido levada, as Rosas 
rumariam para o sul em direo ao rio, depois a oeste, para 
Cincinnati, ou a leste, para Portsmouth, onde poderiam 
tomar um barco. Se ela tivesse sido levada, ele no saberia o 
que fazer.
Se estivesse escondida, ele sabia onde ela estaria. Saiu da casa 
pelo mesmo caminho que havia seguido para entrar.
Eles a chamavam de celeiro de hortalias, mas era, na 
verdade, uma caverna que formava um tnel na encosta de 
uma montanha a alguma distncia do terreno. Naquele 
espao frio e mido, eles estocavam comida: batatas, nabos, 
cenouras, feijes secos e ervilhas em sacos.
A boca da caverna era coberta por rosas vermelhas, 
trepadeiras e rosas selvagens brancas e rosadas. Estavam 
todas floridas, um perfume enjoativo. Ele abriu caminho 
atravs dos caules espinhosos e entrou.
        Carrie?  sussurrou ele.  Sou eu.
Por um momento, nada aconteceu. Ento houve um sbito 
movimento na escurido, e a irm lanou os braos em 
torno dele, murmurando:
        Lee! Por que veio aqui?  perigoso demais. Voc devia ter 
fugido quando viu que eles voltaram.
        Carrie, eles mataram papai e Martin, e h algo errado com 
a me, ela no fala comigo.  As palavras precipitavam-se 
umas sobre as outras, mais altas do que pretendera.
Carrie inspirou fundo e apertou-o contra si, de modo que o 
resto do que ele tinha a dizer fosse dito contra o ombro dela. 
Ela murmurou-lhe palavras de conforto, mas no por muito 
tempo. Ela endireitou as costas, as mos descendo at os 
cotovelos dele.
        Agora me escute.  Ela o segurou a curta distncia. 
Vestia calas e uma camisa spera, a faca embainhada na 
cintura. A me detestava ver Carrie vestida como homem, 
mas s vezes ela o fazia mesmo assim.  Voc tem de ser 
muito corajoso agora.
        No se preocupe.  Ele se empertigou, tentando fazer a 
voz soar mais grossa, como a de Martin.  O pai me 
ensinou a proteger voc contra os magos.
Carrie engoliu em seco.
        Bobinho. Voc  um mago. Vai ter de ter coragem o 
bastante para ir buscar ajuda.
Lee tentou interromp-la, mas ela continuou:
        Quero que v direto para o sul at o rio. Siga o rio at a 
cidade. Fique escondido e longe das estradas. Quando vir 
algum que voc conhece, conte o que aconteceu e pea 
que mandem ajuda para mame.
        Voc no vem comigo?  Ele j se sentia sozinho. 
Tentou no pensar em Martin e no pai, pois sabia que as 
lgrimas retornariam.
        Vou embora por uns tempos  respondeu ela.   
perigoso demais para mim ficar com voc e mame. As 
Rosas esto procurando por guerreiros. No por magos ou 
Anaweirs. Vo deixar voc em paz se eu no estiver por 
perto.  Ao ver a expresso no rosto dele, apressou--se em 
tranqiliz-lo.  Eu volto quando for seguro.
Lee pensou na me, quieta e assustada dentro de casa. Sabia 
que era errado, mas no queria voltar l sozinho.
        Leve-me com voc, Carrie. Por favor.
Ela sacudiu a cabea. Era praticamente adulta, mas lgrimas 
corriam-lhe pelas faces.
        Voc tem de ficar, Lee. Mame  Anaweir. Precisa de 
algum que tome conta dela.
        Est bem  disse ele em tom insolente, no querendo 
que ela soubesse o quo assustado estava. Precisava ir logo, 
j que tomaria o longo caminho at a cidade. Empurrou as 
rosas para o lado de novo, espetando-se no processo, e saiu 
para a fraca luz do sol. E para os braos dos magos que 
aguardavam ali.
        Carrie!  gritou ele.
Mos o agarraram, segurando-o firme, carregando-o para 
longe da boca da caverna. Ele lutou e chutou, acertando o 
rosto de algum com o cotovelo, sentindo a cartilagem 
ceder e em seguida o jorro de sangue quente. Contorceu-se 
todo, mas no conseguiu se libertar.
Havia muitos deles, cerca de meia dzia. Estranhos com 
barbas, vestidos com roupas de domingo, como o mago 
morto na entrada do salo. Lee no conhecia nenhum 
feitio de ataque, na verdade, mas sabia como encontrar o 
fogo, ento colheu o fogo dos ares e mandou-o em espiral 
na direo dos homens ao redor. Ouviu algum 
praguejando, e ento eles o jogaram no cho.
O mago com o nariz sangrando apontou para Lee, 
murmurando um feitio. Um frio terrvel o acometeu, e 
todo o seu corpo se tornou flcido. O mago passou as mos 
por sob os braos de Lee, ergueu-o e segurou-o assim, os ps 
um pouco acima do cho, pendurado como uma marionete.
        Diga para ela sair  ordenou o mago com o nariz 
sangrando, lanando chamas sobre Lee com suas mos 
quentes.
Os msculos de Lee contorceram-se em espasmos e ele 
gritou  no conseguiu evit-lo. Mas logo fechou a boca 
com obstinao.
        No temos o dia todo. A Rosa Branca est logo atrs de 
ns.
O mago lanou seu poder sobre ele novamente, como metal 
derretido correndo pelas veias, mas Lee estava preparado 
desta vez. Inspirou fundo, mas no fez nenhum som.
        Saia ou a gente quebra o pescoo do garoto!  berrou 
Nariz Sangrando.
As rosas que obscureciam a entrada da caverna tremeram, e 
ptalas caram ao serem empurradas para o lado. Carrie 
emergiu para a luz meio agachada, de faca em punho. Ao 
ver Lee nas mos dos magos, aprumou --se e deixou a faca 
cair ao cho.
Nariz Sangrando deu uma sacudidela triunfante em Lee.
        Voc nos levou diretamente a ela. Carrie caiu de joelhos, 
curvando a cabea.
        Por favor, soltem o meu irmo. Eu irei com os senhores.
Lee tentou falar, dizer a Carrie para se levantar, que lutariam 
contra os magos juntos.
        Carrie, no...  Seu protesto transformou-se num grito 
de dor quando Nariz Sangrando lanou chamas sobre ele.
        Wylie. Chega  disse um mago grisalho, com uma 
cicatriz na face. Ele parecia estar no comando.  Traga o 
leitor.
Wylie jogou Lee para o lado como se no pesasse nada e 
remexeu numa bolsa amarrada  cintura. Retirou dela um 
cone de prata e passou-o para o lder. Dois magos se 
postaram, um de cada lado de Carrie, agarrando seus braos 
e colocando-a em p. O lder arrancou sua camisa para fora 
das calas e enfiou o cone, roando a pele dela, at chegar 
ao peito. Carrie estremeceu, mas virou a cabea para o lado e 
no disse nada. Aps um momento, ele fez um gesto com a 
cabea e retirou a mo.
        H uma pedra de guerreiro  disse ele, com um sotaque 
do Velho Mundo. Satisfeito, devolveu o cone a Wylie.  
Deus sabe muito bem o preo que pagamos por ela. Vamos 
tirar a menina daqui antes que a Rosa Branca nos alcance.
Os magos trouxeram seus cavalos e comearam a montar, 
enquanto o lder atava as mos de Carrie  frente do corpo 
com uma corrente de prata.
Wylie jogou Lee contra o tronco de uma rvore morta. O 
mago ajoelhou-se ao lado dele, ergueu seu queixo e ps as 
pontas dos dedos contra a garganta do garoto. Lee olhou 
dentro dos olhos cinzentos e soube que estava prestes a 
morrer.
O lder percebeu.
        Solte o garoto, Wylie  disse ele com irritao, calando 
as luvas de montaria.
Wylie ergueu a cabea.
        Ele  uma testemunha. Ns matamos um mago. Se 
ficarem sabendo disso no Conselho...
        Temos trs mortos do nosso lado tambm  observou o 
lder.  Se o pai do menino tivesse ficado com sua prpria 
gente, ainda estaria vivo. Esse a  uma criana. No 
tornemos as coisas piores.
        No foi voc que matou. Este aqui pode ser um mago, 
mas tem sangue mestio.  Wylie apertou os lbios com 
desgosto.  Magos, guerreiros, feiticeiros, at Anaweirs se 
misturando como iguais. No  natural.
        Talvez eles saibam o que esto fazendo.  O lder 
apontou para Carrie.  Pelo menos a menina  saudvel. O 
que  mais do que posso dizer sobre guerreiros de nossa 
terra.
Os dedos de Wylie ainda pressionavam a garganta de Lee, 
que podia sentir o poder neles, uma leve vibrao contra a 
pele.
        Eu mandei soltar o garoto  disse o lder.  J estamos 
demorando demais.
Wylie finalmente se ps em p e se afastou, procurando por 
sua montaria.
Carrie fora colocada sobre um dos cavalos. Os olhos estavam 
fixos  frente, a boca formando uma linha estreita, as faces 
reluzentes. O lder segurou as rdeas do cavalo dela e 
montou seu prprio animal. Apontou para Lee, 
neutralizando o feitio que fora lanado sobre ele, mas Lee 
permaneceu deitado, com medo de se mover, sabendo 
agora, com toda a certeza, que era, no fundo do corao, um 
covarde.
E foi ento que aconteceu. Um raio de luz relampejou 
atravs das rvores, azul e branco, e mortal, deixando um 
rastro de estrelas brilhantes  como os fogos de artifcio 
que Lee tinha visto certa vez em Cincinnati. O ar crepitou 
com a eletricidade e, mesmo a distncia, seu cabelo ficou em 
p. O golpe atingiu o alvo com preciso e, por um 
momento, Carrie e o cavalo que montava pareceram 
contornados pelas chamas, como alguns corpos celestes ao 
passarem na frente do sol. Houve uma tremor no ar, um 
tipo de vibrao visual, e ento eles desapareceram, cavalo e 
amazona evaporaram, como se nunca houvessem existido.
         a Rosa Branca!  gritou um dos magos. Virando o 
cavalo, lanou-se ao ataque cavalgando por entre as rvores. 
Os outros magos deram a volta com os cavalos e o seguiram, 
bradando em fria, mas a Rosa Branca j havia feito o que 
viera fazer e estava em franca retirada.
Em questo de minutos, cavalos e cavaleiros haviam sumido. 
A poeira assentou lentamente atravs dos feixes de luz solar, 
e a clareira ficou em silncio, a no ser pelo som do vento 
movendo os galhos ao alto.
Quando veio a escurido, Lee j estava a quilmetros de 
distncia, sentado, com as pernas cruzadas  beira do rio. 
Quando a lua finalmente clareou as rvores, brilhou sobre o 
rio Ohio, que corria como uma fita de prata em ambos os 
lados. Do outro lado do rio comeava o Kentucky, uma 
escurido misteriosa pontuada pelas luzes dos assentamentos 
espalhados.
 No vou ser mais um urso  disse para si mesmo. Seria 
mais feroz; seria invencvel.  De agora em diante, sou um 
drago.
Antes de continuar, pegou a faca da irm e escreveu uma 
palavra na lama macia  beira d'gua. Escreveu a fim de fix-
la na mente.
A palavra era Wylie.


Trinity, Ohio, Estados Unidos 
Mais de cem anos depois

O beb acordou quando Jessamine lhe tirou as cobertas. Ela 
pensou que ele fosse chorar, mas ele apenas olhou 
solenemente para ela com olhos azuis brilhantes, enquanto 
ela abria sua camisa e examinava a inciso. Estava ainda um 
pouco avermelhada e inchada nas bordas, mas no havia 
sinal de infeco. Perfeito. Ela esperara, em parte, que o 
procedimento o matasse, mas ele parecia estar se 
recuperando bem. Apenas um ms aps a cirurgia, o 
paciente ganhara peso, a colorao da pele estava boa, o 
pulso e a respirao, normais.
Nenhuma razo para que no pudesse viajar. Nenhuma 
mesmo.
Fechou a camisa do beb, satisfeita consigo mesma. Aqueles 
imbecis do hospital haviam criado dificuldades e reclamado 
de tudo: dos mtodos dela, do fato de ela ter levado seu 
prprio pessoal para assisti-la, de no deixar que 
observassem o procedimento.
Idiotas. Talvez ela devesse ter permitido que alguns deles 
entrassem na sala de cirurgia. Talvez tivesse valido a pena 
ver a cara deles antes de apagar-lhes a memria.
 claro, levaria anos at que ela pudesse ver os resultados do 
experimento. Um tempo considervel investido, caso 
fracassasse, mas com muito a ser ganho no caso de sucesso. 
Talvez o fim da escassez de guerreiros. Um suprimento 
ilimitado para alimentar o Jogo. A vitria final da Rosa 
Branca.
Jessamine deu uma olhada ao redor. O quarto estava cheio 
de coisas de beb, mais parafernlia do que ela seria capaz de 
carregar. Ela poderia comprar mais coisas quando chegassem 
ao seu destino. De que um beb precisaria para viajar? 
Fraldas e roupas. Uma cadeira de viagem. O que comeria? 
Leite? Ela deu de ombros. Pediatria no era sua 
especialidade.
No cho do armrio embutido, encontrou uma grande bolsa 
que j continha fraldas e uma caixa de lenos de papel. 
Nenhuma mamadeira, porm. Abriu a gaveta de uma 
cmoda e achou uma pilha de roupinhas. Enfiou algumas 
das roupas na bolsa, que era decorada por elefantes e girafas 
em cores primrias. Jessamine franziu o cenho e passou as 
mos pelo conjunto elegante que vestia. Removeu uma 
cortina de cabelo escuro da frente do rosto. No gostava da 
idia de andar por a com uma bolsa de fraldas no ombro e 
um beb no colo. Devia ter contratado algum para tomar 
conta do fedelho desde o princpio.
Puxou uma cadeirinha de plstico do armrio e a colocou no 
cho junto ao bero. Como a trava resistiu quando tentou 
baixar a grade lateral, Jessamine se debruou 
desajeitadamente e ergueu o beb da cama. Instalou-o no 
assento e comeou a remexer no cinto de segurana.
Como se faz para achar uma bab? No tinha a menor idia.
 O que voc est fazendo aqui?
Jessamine levou um susto. Linda Downey, uma 
encantadora, estava em p junto  porta. Era s uma criana, 
na verdade, de ps descalos, vestindo jeans e camiseta. 
Linda era a tia do beb, lembrou-se Jessamine, e no a me 
Anaweir. timo. No que isso importasse, mas era 
prefervel evitar uma cena.
Jessamine ps-se em p, deixando o beb na cadeirinha e o 
cinto de segurana todo emaranhado.
        Eu no sabia que tinha algum em casa  disse ela, em 
vez de responder  pergunta.
Linda inclinou a cabea para o lado. Era bem bonita, com 
longos cabelos escuros tramados em uma grossa trana. 
Movia-se com uma graa despreocupada que Jessamine 
invejava. Por outro lado, se Jess tivesse de escolher um dom 
em detrimento de outro, sempre escolheria o dela prpria.
         claro que tem algum em casa  disse a menina, com 
o jeito insolente dos adolescentes.  No se deixa um beb 
sozinho.
Ao menos a apario sbita e inconveniente da encantadora 
solucionava um problema.
        Estou feliz que esteja aqui  disse Jessamine 
imperiosamente, com um gesto de mo elegante.  Preciso 
que arrume as coisas dele, o suficiente para alguns dias. 
Comida, roupas e tudo o mais.
        Por qu? Aonde pensa que vai com ele? Jessamine 
suspirou, flexionando os dedos de longas unhas pintadas.
        Se precisa mesmo saber, vou lev-lo de volta comigo.
        O qu?  As palavras soaram quase como um grito, e o 
beb ergueu os braos, assustado. Linda deu um passo  
frente.  O que quer dizer com isso?
        Estou levando o beb de volta para a Inglaterra. No se 
preocupe  acrescentou ela.  Cuidaro bem dele. 
Simplesmente no posso me dar ao luxo de deix-lo por a.
        Do que voc est falando?  indagou Linda.
        Desde a cirurgia... o valor dele aumentou  disse 
Jessamine com calma.
Linda ajoelhou-se junto ao assento para carro, examinando o 
menino como se pudesse descobrir algo por meio de uma 
inspeo detalhada. Estendeu um dedo, e o beb agarrou-o. 
Ela ergueu os olhos para Jessamine.
        O que voc fez com ele?
        Ele precisava de uma pedra, e eu lhe dei uma. Um 
milagre. Algo que ningum jamais fez. Eu salvei a vida dele. 
 Jessamine sorriu, voltando as palmas para cima.  S que 
agora ele  Weirlind.
        Um guerreiro?  Linda sussurrou.  No! Eu falei pra 
voc! Ele  um mago. Ele precisava de uma pedra de mago. 
 Ela sacudiu a cabea ao diz-lo, como se a negativa 
pudesse mudar as coisas.  Est tudo l no Livro Weir dele. 
Ele  um mago  repetiu ela, desolada.
Jessamine sorriu.
        No mais, se  que algum dia foi. Seja razovel. Uma 
pedra de mago  difcil de encontrar. Os magos vivem quase 
eternamente. Mas os guerreiros... Os guerreiros morrem 
cedo, no  verdade?  A ltima parte foi intencionalmente 
cruel.
A encantadora levantou-se, os punhos cerrados.
        Eu deveria saber que no podia confiar em uma maga.
Jessamine empertigou-se. Estava perdendo a pacincia com 
aquela menina intil.
        Voc no tinha muita escolha, tinha? Se no fosse por 
mim, ele estaria morto agora. Meu negcio no  caridade. 
Eu aceitei o trabalho porque quero us-lo no Jogo. E acho 
que voc deve se lembrar de com quem est falando e 
torcer para que eu no perca a calma.
Linda inspirou fundo e deixou o ar sair com um tremor.
        O que devo dizer a Becka?
        No me interessa o que vai dizer a ela. Diga que ele 
morreu.  Os Anaweirs e o que eles pensavam no tinham 
nenhuma importncia.
        Mas por que tem de lev-lo agora? Ele no pode disputar 
um torneio at ter crescido.  A voz da menina suavizou-
se, tornou-se persuasiva.  Ele est vivo, mas como voc 
sabe se o poder vai se manifestar nele? E o que vai fazer com 
ele enquanto isso?
Jessamine sentiu a presso gentil, o toque do poder de uma 
encantadora. Deu de ombros.
        Talvez eu leve voc junto para ficar de olho nele. Em 
um ano ou dois, voc poder ir para o Mercado.  Jess 
julgava que obteria um bom preo pela menina, tambm. 
Encantadores e guerreiros eram difceis de se encontrar.
Linda deu um passo atrs.
        Voc no se atreveria!
        Ento no tente seus truques de encantadora comigo. J 
gastei muito do meu tempo com ele. Pretendo ficar de olho 
no meu investimento enquanto ele cresce.
        Se ele crescer. Se algum no o apanhar primeiro.  
Linda estendeu as mos numa splica.  Todos sabem que 
voc  a procuradora de guerreiros da Rosa Branca. Por 
quanto tempo acha que ele vai sobreviver se estiver com 
voc?
Nesse ponto a menina tinha razo. A pedra que Jess usara no 
beb tinha vindo de uma guerreira de 17 anos de idade que 
havia sido sua ltima grande esperana. Uma menina que 
nunca entraria num torneio. Havia sido massacrada por 
agentes da Rosa Vermelha quando se viram incapazes de 
rapt-la. Uma manobra ilegal, mas as regras relativas aos 
Weir Anamagos haviam sido feitas para serem quebradas.
        Imagino que voc tenha uma sugesto.
        Deixe-o ser criado pelos pais. Volte e leve-o mais tarde.
O beb estreitou os olhos e soltou um guincho, o rosto 
tomado por uma colorao zangada azul e vermelha. 
"Criaturas insondveis, os bebs", pensou Jessamine. 
Insondveis, imprevisveis e bagunceiras.
        Pode ser difcil lidar com ele mais tarde, se no for 
criado adequadamente  disse Jessamine.
Linda ergueu as sobrancelhas.
        Est dizendo que uma maga no vai ser capaz de lidar 
com um guerreiro?
Jessamine balanou a cabea, concedendo.
        E se outra pessoa vier lev-lo para jogar?
        Em Trinity? Ningum vai procurar por ele aqui.  
perfeito. Voc  uma cirurgi-curandeira. Bloqueie os 
poderes dele, de modo que no se destaque.  Linda 
sentou-se junto ao beb, alisando-lhe a franja de cabelo 
ruivo dourado.  Voc pode ficar de olho nele com fa-
cilidade. Os pais so Anaweirs. Fceis de serem controlados. 
Diga que precisa v-lo regularmente. Becka far tudo o que 
pedir. Voc salvou a vida do filho dela.
Jessamine tinha de admitir que a sugesto da encantadora 
tinha seu atrativo. Levaria anos at que o menino fosse de 
alguma utilidade, e ele no seria nada alm de um fardo at 
l. Dessa maneira, ela poderia manter o moleque guerreiro 
longe do perigo e longe de si, at que tivesse idade 
suficiente para ser treinado.
Ela olhou bem dentro dos olhos azuis e dourados da 
encantadora.
        E quanto a voc?  controlvel? Ser capaz de desistir 
dele quando chegar a hora?
Linda voltou-se para o beb.
        Como voc mesma disse, no tenho muita escolha, 
tenho?

Captulo Um
O Lobeck Voador

- Jack!
A voz da me interrompeu-lhe os sonhos, e ele abriu os 
olhos com relutncia. Era tarde, ele notou. A luz havia 
perdido aqueles tons de aquarela das primeiras horas da 
manh e entrava audaciosamente pela janela. Ele havia 
ficado acordado at tarde na noite anterior, observando as 
estrelas. Era noite de lua nova, e algumas das principais 
constelaes s haviam surgido no horizonte aps a meia-
noite.
 J vou!  gritou ele.  Estou quase pronto  mentiu, 
seus ps tocando o piso de madeira. As calas jeans estavam 
amontoadas junto  cama no mesmo lugar onde as despira 
na noite anterior. Ele as vestiu s pressas, pegou uma 
camiseta limpa na gaveta e pendurou um par de meias no 
ombro.
Jack fez uma curva em alta velocidade e entrou no banheiro. 
No havia tempo para um banho. Lavou o rosto, molhou os 
dedos e passou-os no cabelo.
        Jack!  A voz da me tinha aquele tom de ltimo aviso.
Ele desceu saltitando as escadas dos fundos e entrou na 
cozinha.
A me o esperava com granola e suco de laranja. Devia estar 
distrada, porque tambm lhe havia servido uma xcara de 
caf. Ela deixara seu cereal inacabado e estava arrumando 
uma pilha de papis.
Assim era Becka. A me de Jack era uma mulher de mil 
paixes. Embora fosse doutora em literatura medieval e 
formada em direito, tinha dificuldade em gerenciar a 
economia domstica: coisas como agenda escolar, dinheiro 
para o almoo e devolver os livros da biblioteca dentro do 
prazo. Desde uma tenra idade, Jack assumira a tarefa de 
organizar tanto as suas prprias atividades quanto as da me.
Becka olhou para o relgio de pulso e gemeu.
        Preciso me vestir! Tenho uma reunio daqui a uma hora. 
 Ela empurrou um grande frasco azul pela mesa na direo 
dele.  No se esquea de tomar o remdio.  Enfiou os 
papis em uma grande pasta.  Vou estar na biblioteca pela 
manh, e no tribunal  tarde.
        No se esquea de que eu tenho o teste para o time de 
futebol depois da aula  avisou Jack.  Caso voc chegue 
em casa primeiro.
A me vivia preocupada. Sempre dizia que era porque ele 
quase morrera quando beb. Pessoalmente, Jack achava que 
essas coisas eram inatas. Algumas pessoas sempre se 
preocupavam, e outras nunca o faziam. Ele supunha que seu 
pai pertencesse  ltima categoria. Talvez fosse difcil se 
preocupar estando a trs estados de distncia.
        Teste para o time de futebol  repetiu Becka 
solenemente, como que para gravar na memria. Ento 
subiu correndo as escadas.
Algum bateu com fora na porta lateral. Jack ergueu a 
cabea, surpreso.
        Oi, Will. Chegou cedo.
Era Will Childers, reclinando-se para espiar atravs da tela 
da porta. Embora Jack fosse alto, Will o superava em altura e 
era to robusto que poderia jogar no time de futebol 
americano da universidade. O estojo do trompete parecia 
um brinquedo a seu lado.
        Jack! Vamos! Agora de manh a gente tem o ensaio da 
banda de jazz, para o concerto da semana que vem.
Jack deu um tapa na testa e levou a tigela de cereal para a 
pia. Enfiando os ps dentro dos sapatos sem desamarr-los, 
agarrou a mochila com os livros que o esperava junto  
porta. Felizmente seu saxofone ficara na escola.
        As aulas j comeam cedo demais nos dias normais  
resmungou Jack, seguindo Will at a rua em passo acelerado.
Cortaram caminho pelo gramado da praa e ziguezaguearam 
por entre os clssicos prdios de arenito da faculdade. 
Trinity era uma dessas tpicas cidades do Meio-Oeste norte-
americano, que viviam em funo de sua universidade, com 
ruas ladeadas por majestosas casas vitorianas e velhos 
carvalhos e bordos . Cheia de gente capaz de recitar de cor 
cada pecado que Jack j cometera. Ele vivera l toda a sua 
vida.
Graas a Will, eles chegaram ao ensaio apenas alguns 
minutos atrasados. S quando Jack j estava sentado na sala 
de chamada (onde os alunos se reuniam ao chegar  escola 
para receber as comunicaes e instrues do dia) e o 
primeiro sinal j havia tocado foi que ele se deu conta de 
que havia esquecido de tomar o remdio.
O incrvel era que aquilo jamais acontecera antes  proeza 
obtida, at ento, graas  me. O remdio era a prioridade 
nmero um para ela. Ela nunca o havia esquecido, nem 
mesmo uma nica vez, e nem mesmo desta vez. Ele  que 
tinha pisado na bola.
Jack conhecia bem a histria. Jessamine Longbranch, a 
famosa cirurgi cardaca de Londres, atravessara o oceano 
para tir-lo das garras da morte. Ela ainda visitava os Estados 
Unidos uma ou duas vezes ao ano e fazia um exame 
completo em Jack.
O jeito de ela lidar com os pacientes deixava muito a desejar. 
Ele se despia da cintura para cima e ela fazia um rpido 
exame, passava as mos pelos msculos de seus braos, 
pernas e trax, auscultava-lhe o corao com um 
estetoscpio peculiar, em formato cnico, media-lhe a 
altura, o peso e a presso sangunea, e o declarava saudvel.
Ele sempre se sentia como um pedao de carne naqueles 
encontros com a doutora Longbranch, apalpado e cutucado 
 cata de gordura e ossos, questionado sobre suas atividades 
fsicas. O inquilino deles, Nick, dizia que era uma falha 
comum em cirurgies: eles preferiam lidar com pessoas 
anestesiadas.
Todas as visitas terminavam com um lembrete para que ele 
tomasse o remdio. A doutora Longbranch sempre levava 
um novo estoque em suas visitas, e a me de Jack 
encomendava mais de seu consultrio em Londres. O 
remdio do frasco azul assumira um papel de talism, o elixir 
que mantinha o mal a distncia.
No havia ningum em casa para lhe levar o remdio, ele 
sabia. Becka estava na biblioteca da universidade; depois iria 
para o tribunal e estaria inacessvel em ambos os lugares. Ela 
no levava um celular porque estava convencida de que eles 
causavam tumores cerebrais.
Talvez ele pudesse telefonar para Nick em casa ou mesmo 
no apartamento de Nick. Ele atenderia ao telefone se 
estivesse trabalhando na casa, embora nunca verificasse as 
mensagens na secretria eletrnica. Ou talvez Jack pudesse 
convencer Penworthy a deix-lo voltar para casa para buscar 
o remdio. Valia a pena tentar. Jack pediu um bilhete de 
autorizao do professor para sair ao saguo no exato 
instante em que o ltimo sinal tocou.
Leotis Penworthy, o diretor do Colgio de Trinity, estava 
vistoriando o saguo da escola, interceptando estudantes que 
ainda no haviam entrado nas classes e tomando os nomes 
dos infelizes que ainda pingavam pela porta da frente.
Penworthy trajava calas com a bainha nos tornozelos e um 
casaco esporte de polister azul claro trs nmeros menor 
do que o seu. Sua barriga derramava-se sobre um cinto, 
escondido em algum lugar ali embaixo. O rosto estava 
sempre afogueado, como se a constrio na cintura forasse 
o sangue a subir at as tmporas.
        SENHOR Fitch!  vociferou Penworthy, pegando pela 
gola um garoto que tentava passar despercebido por ele.  
Sabe que horas so?
Era um embate cmico. As roupas de Fitch eram uma 
catica mistura de pechinchas de um bazar de caridade com 
peas de estilo militar chique em tamanho grande, mangas 
arregaadas e calas presas com um cinto para no 
escorregar do corpo esguio. Ele descolorira as pontas de seu 
cabelo claro e usava trs brincos em uma das orelhas.
        Desculpe, senhor Penworthy.  Fitch fitou Jack de 
relance por sobre o ombro de Penworthy, depois voltou os 
olhos para o cho outra vez. Os cantos de sua boca se 
retorceram, mas a voz era solene.  Precisei fazer umas 
atualizaes on-line esta manh, e acho que acabei 
perdendo a hora.
Fitch era webmaster do site e administrador de sistemas no 
oficial da escola. Uma fonte barata de experincia tcnica de 
alto nvel.
        No pense que pode usar o site como desculpa, senhor 
Fitch. Ns lhe demos aquele computador para que fizesse o 
trabalho nas suas horas de folga.
Harmon Fitch vivia atrasado. A me trabalhava  noite, e 
Fitch tinha quatro irmos e irms mais novos para pr no 
nibus escolar.
        Senhor Penworthy  interrompeu Jack.  Com 
licena. Eu, ahn, esqueci algo em casa e queria saber se eu 
poderia ir buscar  declarou, mantendo um tom neutro.
O diretor voltou sua ateno a Jack. Penworthy o detestava, 
e comunicava essa opinio de cem maneiras diferentes.
        Senhor Swift  disse Penworthy, os lbios se abrindo em 
um sorriso predatrio.  Incrvel como um rapaz to 
inteligente possa ser terrivelmente desorganizado.
        Tem razo  disse Jack, com polidez.  Peo desculpas. 
Eu estarei de volta antes do fim do perodo da chamada, se 
me deixar.
Fitch j estava no meio do corredor. Penworthy no notou. 
Tinha agora um novo alvo, bem melhor.
        Lamento  disse o diretor num tom que no lamentava 
nada.  Os alunos no podem sair do prdio durante o 
horrio das aulas.  uma questo de responsabilidade.
Jack no queria explicar a Penworthy sobre o remdio. No 
era algo de que gostasse de falar. Mas sabia que uma 
explicao era seu bilhete para casa.
        Tenho de ir para casa pegar um remdio.  para o meu 
corao. Esqueci de tomar esta manh.
Penworthy franziu o rosto, balanando-se sobre os 
calcanhares como um daqueles bonecos inflveis que logo 
se pem em p quando so derrubados. Jack sabia que seria 
difcil lhe negar o pedido (uma questo de responsabilidade). 
Mas o diretor tinha suas prprias armas.
        Muito bem  replicou Penworthy.  Nesse caso, faa o 
favor de registrar a sua sada na diretoria e v para casa 
buscar esse remdio. Mas esteja preparado para cumprir 
deteno esta tarde para compensar o tempo perdido.
        Mas eu no posso  protestou Jack.  Tenho teste de 
futebol.
        Bem, senhor Swift, que isso lhe sirva de lio.
        Os olhos plidos de Penworthy brilharam, triunfantes.  
Nada  melhor para reforar a memria do que 
conseqncias.
Jack sabia que estava numa fria. Se no comparecesse ao 
teste, no poderia participar do time. E ele achava que tinha 
condies de entrar pelo menos no time de juniores.
        Deixa pra l, ento  disse ele, voltando-se para os 
telefones pblicos junto  diretoria da escola. Becka tambm 
no permitia que Jack tivesse um telefone celular.  Vou 
telefonar para casa e ver se consigo que algum me traga o 
remdio.
        Desde que seja um adulto  avisou Penworthy.
        Temos uma poltica de tolerncia zero em relao a 
drogas na escola.
Ningum atendeu em casa nem no apartamento de Nick. 
Com certeza, algumas horas de atraso para tomar o remdio 
no fariam mal. Em todos os seus dezesseis anos de vida, 
Jack no conseguia se lembrar de um nico sintoma. A 
cirurgia o havia curado, at onde sabia. Longbranch nunca 
explicara exatamente para que a medicao servia. A me de 
Jack, geralmente to cheia de perguntas, tratava o remdio 
como uma poo mgica.
Ele se sentia bem, de qualquer maneira. Se quaisquer 
sintomas aparecessem, poderia dizer que estava doente e 
eles o deixariam ir para casa. Ps o telefone no gancho e 
voltou  classe principal.
Menos de um minuto aps Jack ter voltado  sua carteira, 
Ellen Stephenson tocou-lhe o ombro.
        Que medidas voc conseguiu no experimento de 
respirao?  sussurrou ela.  Eu fiz meu relatrio ontem  
noite e meus nmeros no bateram.
Jack enfiou a mo na mochila, pegou a pasta de cincias e 
passou-a para Ellen.
        Os meus tambm no. Estava pensando se a mquina 
no est descalibrada.
Ela curvou a cabea sobre a tabela de dados de Jack, 
espremendo os olhos para ler as anotaes desleixadas, 
prendendo atrs das orelhas os cabelos castanhos curtos. 
Eram lisos e brilhantes, como um tipo de capacete. Ela 
virou-se de lado na cadeira, estendendo as longas pernas no 
corredor entre as carteiras. Havia algo diferente nela hoje, 
mas Jack no conseguia adivinhar o qu.
Batom. Ela estava usando batom cor-de-rosa. Jack no se 
lembrava de j t-la visto usando maquiagem antes. Ele 
tamborilou os dedos de leve sobre a carteira, contemplando 
os lbios de Ellen de perto enquanto ela lia a pgina. Fazia 
muito tempo que ele no olhava para ningum que no 
fosse sua ex-namorada, Leesha.
        Pelo menos os seus dados variam tanto quanto os meus  
concordou ela, devolvendo-lhe a pasta. Suas mos colidiram, 
tocaram-se por um momento, e ela retirou a sua 
rapidamente. A pasta caiu no cho, espalhando os papis.
        Oh, droga, me desculpe.  Ajoelhando-se ao lado da 
carteira de Jack, ela arrumou apressadamente as folhas numa 
pilha. Olhou para ele, em silncio, estendendo-lhe o mao 
de papis.
Os olhos dela eram cinza-claro sob uma franja de clios cor 
de fumaa, e havia uma pequena salincia no alto de seu 
nariz, como se tivesse sofrido uma fratura no passado. Jack 
resistiu ao impulso de estender a mo e toc-lo. Em vez 
disso, enfiou os papis de volta na pasta e ofereceu a mo 
para ajud-la a levantar-se.
Isso pareceu atrapalh-la de novo. Ellen ajeitou a saia e o 
cabelo.
        Talvez na aula a gente possa perguntar sobre isso ao 
senhor Marshall.
        Perguntar sobre...? Ah. Claro, tudo bem.  Jack 
pigarreou.  Se voc quiser.
O sinal tocou, surpreendentemente alto. Jack comeou a 
guardar os livros e a pasta na mochila.
        Humm... Jack?
Ele ergueu os olhos e viu Ellen em p entre ele e a porta, sua 
prpria mochila pendurada no ombro.
        Eu estava pensando, o que voc acha de estudarmos 
juntos hoje  noite para a prova de cincias sociais? Eu fiz 
algumas anotaes  acrescentou ela.  Ns... ah... 
podamos compar-las...
Jack olhou para ela com surpresa. Ellen nunca mostrara 
nenhum interesse nele antes, a no ser como padro de 
comparao de algum tipo. Ela era nova no Colgio Trinity, 
mas j possua a reputao de tirar boas notas. Na verdade, 
ela tirava notas mais altas do que Jack em algumas das 
matrias em que ele se distinguia.
"Talvez ela no tenha mais o que fazer", pensou Jack. Fora 
chato para ela mudar de escola um ano antes da formatura. 
Ellen no saa muito com a turma. Ele no se lembrava de 
t-la visto nas festas ou no Corcoran's depois de um jogo.
Ela era mesmo uma graa, e ele no estava namorando 
ningum. No desde que Leesha o havia trocado por aquele 
imbecil, Lobeck. Ele provavelmente estaria no teste de 
futebol e...
O teste.
        Eu adoraria, quero dizer, eu queria poder  disse ele, 
pendurando a mochila no ombro.  Mas tenho teste de 
futebol hoje  noite, e no sei quando vai terminar.
        Teste de futebol?  repetiu ela, olhando-o de cima a 
baixo.  Srio? Voc joga?
Jack enviou uma prece aos deuses do futebol.
         o que eu espero.
        Tudo bem  disse ela, desviando o olhar para baixo, e 
corando.  Claro. Talvez outro dia.
Ela deslocou a mochila mais uma vez e rumou para a porta, 
movendo-se com uma elegncia atltica que tirou a 
respirao de Jack.
        Stephenson!  chamou ele. Ela parou junto  porta e se 
virou.
        Outro dia, promete?  sorriu ele.
Ela devolveu-lhe um sorriso hesitante e foi-se embora.
"Idiota", resmungou para si mesmo. Grandessssimo idiota. 
Sabia por experincia prpria que as meninas nunca 
convidavam duas vezes. Ele tinha muitas amigas, conhecia a 
maioria delas desde que haviam compartilhado suco de ma 
e biscoitos de aveia no jardim de infncia da cooperativa de 
Trinity. No era fcil imaginar como ir alm disso. Cidades 
pequenas eram meio... incestuosas.
Leesha Middleton tinha sido diferente. Havia se mudado 
para Trinity no ano anterior. Voc no se torna amigo da 
Leesha. Voc se rende. Ela podia namorar quem quisesse, 
mas Leesha escolheu Jack. E agora ela havia escolhido 
Lobeck.
Ellen era sangue novo na cidade, tambm. Agora 
provavelmente ele teria de dar o prximo passo.
Jack tentou telefonar para casa de novo na hora do almoo. 
Tentou o escritrio tambm, mas Becka no tinha falado 
com Bernice. Ele estremeceu, imaginando a reao da me 
se recebesse a mensagem no fim da tarde. Com alguma 
sorte, ele chegaria em casa antes dela. De qualquer maneira, 
sentia-se bem. timo, na verdade.
Quando Jack e Will chegaram ao campo nos fundos do 
colgio, alguns dos que foram mais cedo estavam ajudando 
Ted Slansky, o treinador de futebol, a posicionar as traves. O 
sol emergia por entre as nuvens de vez em quando, mas era 
um sol frio que parecia sugar mais calor do que fornecer.
A arquibancada estava salpicada de alguns espectadores: pais 
interessados, treinadores da comunidade, amigos. Jack 
protegeu os olhos com a mo e vasculhou os assentos para 
ver se havia algum que conhecesse.
        Hasteai a bandeira  disse Fitch logo atrs dele.  Eis a 
rainha e sua corte.
Voltando-se, Jack viu um punhado de jogadores do colgio 
reunidos em um semicrculo reverente numa das 
extremidades da arquibancada, como planetas apaixonados 
em torno do sol deslumbrante. Leesha.
        O que ela est fazendo aqui?  disse Jack, irritado.  Ela 
odeia futebol.  Jack soube a resposta enquanto ainda 
estava perguntando.
        No cabe a ns perguntar, mas to somente servir, 
admirar e desejar.
Talvez Fitch no tivesse idia do quo irritante isso era. 
Talvez.
        Cale a boca, Fitch.
O sorriso de Fitch desapareceu.
        Cara, voc est numa melhor agora. Pode acreditar.
Jack abriu os punhos e deu deliberadamente as costas para a 
arquibancada.
Muita gente havia aparecido. Jack tentou ser otimista. Era 
um bom jogador, jogando no meio-campo e como atacante 
na maior parte das vezes, mas nunca fora um astro.
        Olha s quem apareceu para o teste. Jackson Downey 
Swift. Ou  Swift Downey Jackson? Fico to confuso.
A voz zombeteira veio por trs, mas Jack soube quem era 
imediatamente. Ento uma bola de futebol atingiu-o entre as 
espduas. Com fora.
        Isso se chama passe  disse Garrett Lobeck.   
melhor prestar ateno, se quiser jogar com os adultos.
Jack se virou. Lobeck tinha um sorriso torto no rosto, 
achando que tinha feito um comentrio muito inteligente. 
Era um dos quatro irmos conhecidos pela boa aparncia, 
maus hbitos e um talento para a violncia tanto dentro 
quanto fora do campo. Aos dezessete anos, Garrett era o 
caula e estava a caminho de ser o pior do bando.
        Talvez voc deva pintar o nome na bunda para que o 
treinador saiba que a sua me est no conselho escolar  
continuou Lobeck.  S desse jeito voc consegue uma 
vaga.
         uma surpresa ver voc aqui tambm, Lobeck  
replicou Jack.  Pensei que tivessem tornado voc 
inelegvel depois daquele jogo contra Garfield no ano 
passado.
Lobeck havia quebrado a perna do goleiro em um pnalti 
maldoso. As coisas haviam ficado pretas na poca. Mas 
Lobeck era um zagueiro talentoso, e o pai dele era dono de 
metade da cidade, de modo que lhe foi permitido jogar 
futebol no outono. Becka fora a nica no conselho escolar a 
votar contra.
Jack ergueu a bola no peito do p, fez algumas 
embaixadinhas e passou-a para Fitch.
        Quer dizer que agresso e violncia so permitidos. Eles 
jogaram fora a exigncia de boas notas tambm? Ou voc 
est em algum programa de recuperao para idiotas?
Houve um certo atraso de resposta enquanto Lobeck 
processava a frase. A palavra "idiotas" deve t-lo feito 
perceber alguma coisa, pois seu rosto foi tomado de uma cor 
escarlate, e ele deu um passo em direo a Jack.
De repente, Will estava ali.
        Qual  o problema, Lobeck? Ningum da quinta srie 
para atormentar?
Lobeck era grandalho, mas Will era to alto quanto ele, e 
era puro msculo. Lobeck no gostou da mudana em suas 
probabilidades de sucesso.
        Fica frio, Childers. No precisa ficar nervosinho.  
Lobeck franziu a cara para Jack e correu em direo  linha 
de fundo.
Eles comearam com exerccios fsicos, dribles e passes, 
arremessos e chutes a gol. Jack estava em p junto  lateral, 
esperando sua vez de arremessar, quando escutou uma outra 
voz familiar atrs dele.
        Jackson  ela pronunciou o nome em duas slabas 
desapontadas , no vai nem me dizer "oi"?
Ele precisou se virar para no demonstrar que a presena 
dela o afetava.
        Oi, Leesha.
Ela estava vestindo um casaco rosa plido com capuz, e os 
cachos volumosos do cabelo estavam puxados para trs 
numa presilha. Leesha ps-lhe a mo no brao. Ele olhou 
para a mo, tentando ignorar a prpria pulsao martelando 
nos ouvidos.
        Ainda sinto saudades de vez em quando, Jack.  
Sinceros olhos castanhos olhavam fundo nos dele.
Ele era esperto demais para cair nessa armadilha.
        Claro que sente, Leesha.  Jack achava que estava 
conseguindo manter a voz branda e firme. Voltou o olhar 
para o outro lado do campo, sabendo, sem ver, que ela 
estava fazendo beicinho, uma pequena linha franzida entre 
as sobrancelhas, o lbio inferior projetado para a frente. A 
mo dela ainda estava em seu brao.
        No tenho certeza quanto ao Garrett  disse ela.  s 
vezes ele  to... possessivo.
Quando Jack no respondeu, Leesha disse:
        Voc vem  minha festa? Jack piscou e olhou para ela.
        O qu?
        Voc vem  minha festa?  no Clube Lakeside.
A vez de Jack se aproximava. Ele removeu a mo de Leesha 
de seu brao. Mas ela o segurou pela camisa, ergueu-se na 
ponta dos ps e beijou-o no rosto. Um beijo casto, para ela, 
mas Jack recuou como se tivesse sido queimado.
        Vou mandar um convite especial pra voc, Jack  
prometeu Leesha, soltando-o.
Algo o fez olhar por sobre a cabea dela, para as ar-
quibancadas logo alm. Onde Ellen Stephenson estava, 
olhando para ele e Leesha. Ento Ellen lhes deu as costas, 
pulando com agilidade do assento para o cho. Em poucos 
passos largos, ela chegou ao porto e foi embora.
Praguejando em voz baixa, Jack voltou-se novamente para o 
campo  e viu Garrett Lobeck observando-o com um ar 
furioso, como uma nuvem de tempestade se aproximando.
        Swift!
Era a vez de Jack. Finalmente. Ele fez o arremesso.
Eles comearam uma srie de partidas, com mudanas 
peridicas de posio.
Jack jogou como zagueiro, meio-campo e, por fim, como 
atacante. Mentalmente, estava abalado, mas fisicamente se 
sentia bem, nem um pouco cansado, embora tivesse estado 
constantemente no campo. Era bom estar ao ar livre de 
novo, depois de um longo inverno. O sol de fim de tarde 
inclinava-se sobre o gramado, quase cegando-o quando 
olhava em sua direo. O campo ainda estava molhado e, 
aps uma hora e meia sendo castigado, estava ficando 
escorregadio.
Jack tinha acabado de receber um longo passe de Harmon 
Fitch e girado para levar a bola para a frente quando, de 
repente, sentiu suas pernas sendo varridas debaixo de seu 
corpo. Ele caiu feio, de costas na lama. Precisou de um 
momento para recuperar o flego. Erguendo-se sobre os 
cotovelos, viu Lobeck indo na direo contrria com a bola. 
Lobeck: o rei do carrinho.
Fitch ajudou-o a levantar-se.
        Tudo bem com voc, Jack?
Jack afastou-lhe a mo bruscamente. Ficou olhando para 
Lobeck. Talvez fosse hora de lhe dar uma lio. Fitch 
percebeu.
        Qual , Jack? Nesse caminho paira a morbidez e a 
mortalidade. Voc precisa escolher melhor as batalhas. 
Espere at haver uma maratona de matemtica ou coisa 
assim. Acabe com ele.  Ele sorriu.  Se voc quiser, 
posso entrar no computador da escola e mudar as notas dele, 
mas duvido que isso faa um grande estrago.
Jack limpou as mos enlameadas na camisa. Fitch tinha 
razo. No havia jeito de ele vencer Lobeck numa briga. 
Alm disso, no estava machucado. Estava encharcado, mas 
no sentia frio, apesar do vento. Havia um formigamento 
nas extremidades, como se o sangue lhe retornasse aps 
longa ausncia. Olhou para o campo com sbita clareza, 
julgando os jogadores, mapeando os obstculos em seu 
caminho.
O time de Lobeck tinha feito um gol e reiniciado a partida. 
Mais uma vez, o time de Jack estava se aproximando do gol. 
Jack havia conduzido a bola at o canto da rea quando 
Lobeck surgiu  sua frente como uma parede, arreganhando 
os dentes em expectativa. Jack fintou para a esquerda e 
partiu pelo centro. Ele sentiu mais do que viu Lobeck logo 
atrs dele, e pelo canto do olho viu a forma gigantesca vindo 
em sua direo no exato instante em que Jack chutou a bola. 
Virou de lado, erguendo as mos com as palmas para fora, e 
se preparou para o impacto.
Jack no saberia dizer o que aconteceu a seguir. Enquanto a 
bola passava pelo goleiro, ele esticou os braos para se 
defender do ataque. Houve uma exploso dentro dele, e algo 
como metal quente jorrou-lhe pelos braos e irrompeu pelas 
pontas dos dedos. Lobeck gritou e levantou vo, seguindo a 
bola at dentro do gol. O impacto foi to forte que ele quase 
ricocheteou de volta para o campo. Por uns cinco segundos, 
Lobeck ficou l cado, tonto, antes de rolar sobre a barriga e 
pr-se de quatro. Ele levou ainda mais um minuto ou dois 
para recuperar o flego. Ento, como um motor lentamente 
retornando  vida, comeou a praguejar.
        Foi falta!  arquejou ele, apontando um dedo grosso para 
Jack.  Voc me jogou pra dentro do gol.  Lobeck tremia 
de raiva e indignao, literalmente.
        Eu nem toquei em voc!  Jack estava suando, quase 
fumegando. Ainda sentia um formigamento, mas estava 
estranhamente exausto. Deu uma olhada rpida para a 
arquibancada. Leesha estava inclinada para a frente, 
observando tudo com avidez. Leesha achava futebol um 
tdio, mas adorava uma briga.
Cambaleante, Lobeck se ps em p. A testa estava toda 
coberta de lama, e o lbio estava sangrando.
        Voc me jogou na rede!  Ele virou-se para o goleiro 
em busca de apoio.  No foi?
O goleiro deu de ombros. Estivera ocupado tentando 
defender o gol do chute de Jack.
Jack estufou o peito e ergueu as mos, pronto para rechaar 
um ataque. Para sua surpresa, Lobeck hesitou e recuou um 
passo. E Lobeck era pelo menos uns vinte quilos mais 
pesado que ele.
        Desista, Garrett  disse Will.  Tinha anos-luz de 
distncia entre voc e o Jack. Voc deve ter tropeado. 
Alm do mais, o chute foi totalmente limpo. Nem pareceu 
que era atrs da bola que voc estava indo.
O treinador Slansky havia seguido a bola at o fim do campo 
e ficado l, observando, junto  grande rea. Lobeck olhou 
com o canto dos olhos para o treinador, ento fez uma 
carranca para Jack.
        Muito bem, rapazes, vamos parar por aqui  disse 
Slansky.  Acho que vi tudo o que precisava ver hoje. 
Alm disso, parece que vai nevar ou coisa assim.
Lobeck apanhou sua bolsa de academia e a garrafa d'gua e 
saiu de mansinho do campo. Will e Jack e vrios outros 
jogadores ajudaram Slansky a guardar o equipamento. O sol 
havia deslizado para trs das nuvens, e o horizonte a oeste 
parecia ameaador. Will e Jack foram buscar suas coisas nos 
armrios e rumaram para o estacionamento. Leesha havia 
desaparecido.
        Engraado  disse Will.  A previso dizia que ia fazer 
tempo bom hoje.
Cortaram caminho por entre os prdios at a rua. O vento 
sacudia freneticamente os balanos quando os dois passaram 
pelo ptio de recreio da escola primria. As copas dos 
pinheiros  volta do estacionamento curvavam-se e 
danavam. Pedaos de lixo corriam pelo cho. Jack 
estremeceu, sentindo-se exposto sob o cu turbulento.
        Grande chute, Jack  Will sorriu.  Queria ter trazido a 
minha cmera. A expresso na cara de Lobeck foi 
impagvel.
Jack deu de ombros, apertando mais a jaqueta em torno de 
si.
        Eu nem vi o que aconteceu, na verdade. Acho que ele 
tropeou.
Ele examinou a rua em frente, um tnel vazio sob as rvores 
ondulantes. Um corredor polons. Sentiu agulhas 
espetando-lhe os braos. Por que estava to nervoso? 
Lobeck havia partido antes deles, e era improvvel que 
tentasse uma emboscada. No com Will por perto.
Olhou para trs  tempo de ver algum emergir entre duas 
casas e mover-se rapidamente na direo deles, como se 
estivesse flutuando por sobre a grama. Algum trajando um 
longo casaco que lhe esvoaava ao redor das pernas, alto e 
magro demais para ser Garrett Lobeck.
        Will!  Jack agarrou o brao do amigo.
Will se voltou, seguindo o olhar de Jack. Ento sorriu.
        Ei, Nick!  gritou Will.  De onde voc veio?
E as dimenses do estranho mudaram, subitamente 
tornando-se reconhecveis. L estavam a barba aparada com 
cuidado, os olhos negros penetrantes, a franja de cabelos 
brancos. Por que ele lhe parecera to estranho? Mas quando 
Nick Snowbeard falou, a voz era to estranha quanto a 
imagem.
        Jack! V para casa agora e tome o remdio! Rpido! Sua 
me est esperando por voc.
A voz de Nick feria como uma chicotada, fazendo Jack 
recuar, cambaleante.
        Nick?  disse Jack, incerto.
        Eu mandei voc ir! Will, assegure-se de que ele chegue 
l. Conversaremos mais tarde.
Nick deu-lhes as costas, o rosto feroz e determinado, 
olhando para o fim da rua em direo ao colgio. Will 
agarrou Jack pelo brao, literalmente arrastando-o para casa.
Comearam a correr, lado a lado, os ps ressoando no 
concreto. Jack lembrou-se da mensagem que deixara na 
secretria eletrnica. Becka devia ter mandado Nick 
procurar por ele. Estava zangada por Jack ter ido ao treino 
de futebol em vez de ter voltado direto para casa. Ele estava 
frito.
Comeou a se perguntar se era boa idia correr para casa 
para tomar o remdio para o corao, mas a essa altura 
estavam dobrando a esquina na rua Jefferson.
A maioria dos vizinhos estava do lado de fora, apesar do 
tempo. Mercedes estava no jardim da frente. Ela vestia uma 
pesada jaqueta japonesa de algodo. Com pernas longas e 
finas e rosto pontiagudo, parecia uma espcie de flamingo 
extico.
        Jackson!  Ela parecia muito aliviada por v-los.  
Melhor entrar em casa. Sua me est procurando por voc.
ris Bolingame se curvou sobre seu porto da frente para lhe 
dizer a mesma coisa. Era uma mulher alta e imponente, que 
usava os longos cabelos loiros em uma nica trana grossa 
decorada com bijuterias de vidro, como alguma deusa 
nrdica. At Blaise Highbourne estava caminhando pela rua, 
balanando a cabea leonina de um lado para o outro, 
procurando-o nas ruas transversais. Era como se a rua inteira 
o estivesse escoltando para casa.
Por outro lado, era assim que eram as coisas em uma cidade 
pequena. Todos sabiam da vida de todos.
Uma chuva misturada com neve caa do outro lado da rua 
quando ele e Will se despediram na calada. Jack entrou, 
pronto a encarar o remdio e a bronca da me.
A me estava sentada  mesa da cozinha, o rosto manchado 
pelas lgrimas, cercada por uma guirlanda de lenos de 
papel, como oferendas em um santurio.
        Jack!  gritou ela, levantando-se num pulo.  S 
cheguei em casa h uma hora. Quando recebi a mensagem, 
fiquei to preocupada. E a voc no chegava...  A voz 
dela falhou.
        Me desculpa, me. Eu queria voltar pra casa e tomar o 
remdio, mas o senhor Penworthy no deixou. Quer dizer, 
ele teria deixado, mas a eu teria de cumprir deteno. E 
perderia o teste de futebol.  Ele hesitou, dando-se conta 
de que estava tornando a situao pior.  Lembra? Eu falei 
pra voc do teste esta tarde.
        Teste de futebol! Voc devia ter voltado direto pra casa! 
Eu j telefonei para a escola, o hospital e a delegacia de 
polcia. Os vizinhos esto todos procurando por voc.  
Agora ela estava furiosa mesmo.
Ele assentiu, o rosto quente pelo embarao.
        Eu sei. Eu encontrei o Nick.
        Nick?  Ela piscou, distrada.  Eu nem falei com ele. 
 Ela se concentrou para voltar ao ataque.  Como pde 
ser to descuidado? E se alguma coisa tivesse acontecido 
com o seu corao?
        Srio, me, me sinto timo.
E era verdade. Apesar do exerccio de trs horas, de ter sido 
jogado ao cho e coberto de lama, sentia-se realmente leve. 
Era difcil de explicar. O mundo parecia estranhamente 
ntido, mais em foco. Havia um lado intenso e primitivo em 
tudo. O vento uivava, e ele podia ouvir o chapinhar do 
granizo no telhado. As velhas janelas chacoalhavam nos 
batentes de madeira. Sentia vontade de voltar para fora em 
meio ao vento, brandir o punho e uivar de volta.
        Pois est com uma aparncia pssima! Tem lama no seu 
cabelo!  disse ela, puxando-o para um abrao.
Estendeu a mo para pegar o frasco sobre a mesa.  Aqui, 
tome o remdio logo. A doutora Longbranch disse que se 
voc algum dia esquecesse uma dose, era para tomar assim 
que se lembrasse.
Ela serviu uma colher de sopa do lquido cor de noz e a 
passou para Jack. O remdio carregava consigo o cheiro de 
pores midos e papel velho, das folhas do ltimo outono 
remexidas no fundo de uma pilha. Ele o engoliu.
        Agora  melhor subir e tomar um banho. E talvez se 
deitar um pouco antes do jantar. Tenho trabalho para fazer 
hoje  noite. Quem sabe a gente encomenda comida 
tailandesa?
        Claro. Est timo  disse ele, o sabor do remdio 
prolongando-se na parte de trs da lngua. Tinha um gosto 
de velhas tristezas, velhos arrependimentos. Esfregou os 
olhos com os dedos, assaltado por uma misteriosa sensao 
de perda.
Becka estava descarregando a maleta.
        Tia Linda vem amanh.
        ?  Jack levantou a cabea. Fazia mais de um ano desde 
a ltima visita da tia. O mais surpreendente era que ela 
tivesse telefonado para avisar que vinha.  O que 
aconteceu?
        No sei  disse Becka.  Ela diz que vem pra ver voc.
Ted Slansky estava sentado  surrada mesa da sala de 
equipamentos, bebendo um refrigerante de cereja e 
revisando suas notas sobre os testes da tarde. Esfregou o 
queixo, combinando informalmente jogadores e posies, 
levemente consciente do fedor de suor e couro que 
permeava o lugar. Os papis agitaram-se com um 
movimento sbito de ar quando a porta se abriu.
Ele ergueu a cabea, esperando ver um de seus jogadores, 
algum com a esperana de receber um comentrio 
antecipado. Entretanto, dois homens estavam em p junto  
porta, os casacos longos caindo-lhes com folga dos ombros, 
abertos na frente, como se no sentissem o frio. Um era um 
homem de mais idade, alto e magro, com uma barba de 
velho sbio. O outro tinha aparncia jovem e atltica, com a 
linha do queixo acentuada e cabelo escuro e liso. Eles 
examinaram a sala rapidamente e depois se voltaram para 
Slansky.
        Havia um rapaz aqui?  perguntou o mais velho. Era 
uma pergunta estranha, e enunciada com um leve sotaque, 
como o de algum nascido alm-mar.
Slansky quase deu uma risada, mas no o fez. Por algum 
motivo, no parecia uma boa idia.
        Havia uns trinta rapazes aqui, na verdade, mas acho que 
todos j foram embora a essa altura  respondeu ele.  
Vocs olharam l na frente? Alguns talvez ainda estejam 
esperando por suas caronas.
        No h nenhum l na frente  disse o mais velho, como 
se fosse culpa de Slansky.
Slansky encolheu os ombros, inquieto. Havia algo de 
ameaador nos dois homens.
        Qual deles  o seu? Posso dizer se ele esteve aqui ou no. 
 Ele ps a folha de inscries na frente dele sobre a mesa.
        No sabemos qual deles   sibilou o mais jovem.   
por isso que estamos aqui.
Em resposta a isso, o mais velho ergueu a mo para calar o 
outro. Ele pegou a folha sobre a mesa, varrendo-a 
rapidamente com os olhos, ento dobrou-a e colocou-a no 
bolso.
        Ei!  protestou Slansky.  Eu preciso disso. 
Ele teria dito mais, mas o homem barbado ps-lhe a mo no 
ombro. Slansky sentiu a forma e o peso da mo do homem, 
seu calor queimando-o atravs do bluso. Ficou em silncio, 
os olhos arregalados, tomado por um medo irracional.
O prdio tremia sob o ataque do vento. O homem mais 
jovem se empertigou, a cabea inclinada como se escutasse 
algo.
        No devia ser to difcil, se o rapaz no tem treinamento 
 grunhiu ele.  H alguma perturbao, algum 
interferindo...  Sua voz diminuiu de volume at sumir.
        Por que havia trinta rapazes aqui?  perguntou o mais 
velho com suavidade, dirigindo-se a Slansky. Apertou com 
mais fora o ombro do treinador, que sentiu o corao 
responder, como se o homem pudesse fazer o rgo parar 
de bater com um toque. O suor escorreu por entre as 
espduas do treinador.
        Teste de futebol  replicou ele, engolindo em seco.                
        Teste de futebol  repetiu o homem, incrdulo.        
        Houve uma descarga de poder aqui  continuou ele.        
        Quem sabe, uma briga?        
Slansky balanou a cabea.        
        s vezes as coisas ficam bem competitivas, mas...        
        Ele balanou a cabea de novo.  Nenhuma briga.
        Notou alguma coisa incomum? Algum dos jogadores... se 
destacou? Talvez um jogador novo tenha feito algo notvel?
Slansky tentou desesperadamente recordar-se do teste da 
tarde.
        Houve algumas boas jogadas, mas... quem sabe se voc 
me disser o que diab... o que vocs esto procurando, eu 
possa ajudar vocs.
O homem de barba fez um gesto impaciente. Puxou a lista 
de jogadores do bolso e jogou-a para Slansky.
        Circule o nome dos cinco melhores jogadores  
ordenou ele.  Vamos comear por a.
Quando o treinador terminou de faz-lo, o estranho enfiou a 
lista de volta no bolso. O homem mais jovem transferiu o 
peso do corpo de um p para o outro, impaciente para ir 
embora. O inquiridor moveu a mo do ombro para a cabea 
de Slansky. O treinador sentiu alfinetadas por todo o couro 
cabeludo, como se seu cabelo tivesse ficado todo em p. Ele 
tremia, aterrorizado.
        Ana memorare  sussurrou o homem. Foi assim que lhe 
soou, como uma frase em latim que Slansky poderia ter 
lembrado, dos tempos em que estudara na escola catlica.
Slansky acordou algum tempo mais tarde e ergueu o rosto da 
mesa. Deu-se conta de que devia ter cado no sono, pois 
estava ficando escuro l fora e a sala estava fria. De alguma 
maneira, havia derrubado a lata de refrigerante de cereja. 
Perguntou-se por que a porta estava aberta e onde a lista de 
inscrio tinha ido parar.
Aps o jantar, Jack saiu escondido pela porta de trs e 
atravessou a entrada de cascalho at a garagem, carregando o 
livro de cincias sociais e o caderno debaixo do brao. Subiu 
as escadas que levavam ao apartamento de Nick e estava 
levantando a mo para bater na porta quando ouviu a voz 
dele vindo de dentro.
 Entre, Jack.
Como de costume, o apartamento do velho caseiro estava 
bem arrumado, embora diversos livros estivessem abertos 
sobre a escrivaninha. Eram apenas trs cmodos, e o lugar 
estava repleto de coisas: livros, aeromodelos, uma mquina a 
vapor em miniatura que Nick e Jack tinham construdo no 
ano anterior, potes de produtos qumicos e extratos vegetais. 
Ramos de plantas secas pendiam do teto, como um extico 
jardim de ponta-cabea. Havia um grande armrio de 
madeira que fora outrora um mostrurio de loja, com uma 
fileira de pequenas gavetas cheias de ferramentas antigas e 
objetos recuperados. Um quarto inteiro era dedicado aos 
livros, arrumados em duas fileiras nas estantes do cho ao 
teto, em cada parede. O apartamento sempre cheirava a 
tinta, verniz, especiarias e poeira; extico, como um dos 
mercados indianos junto  universidade. Nick em casa 
lembrava a Jack um urso velho em sua toca se preparando 
para o inverno.
Nick Snowbeard ergueu os olhos de seu jantar solitrio.
        Sente-se, Jack. Chegou bem na hora da sobremesa.
Jack sentou-se com cautela na cadeira que lhe foi oferecida. 
Nick arrastou os ps pelo apartamento, vestido em seus 
trajes habituais: camisa de flanela e calas de trabalho.
A sobremesa era sorvete de chocolate e marsh-mallow. Jack 
conseguiu esvaziar metade do prato antes que Nick 
comeasse o sermo.
        Quer dizer que voc se esqueceu de tomar o remdio  
disse Nick abruptamente.  A sua me deve ter subido 
pelas paredes.  Ele ainda parecia brusco e enrgico, o que 
no lhe era usual.
        Suponho que sim.  Jack desviou o olhar para a janela. 
Uma bandeja rasa fora colocada sobre a mesa. Havia sido 
coberta com diferentes cores de areia, arrumada com um 
ancinho em um desenho intricado, com pequenos objetos 
espalhados por cima.
        Por que no veio para casa e tomou o remdio quando se 
lembrou?  A voz de Nick interrompeu o devaneio de 
Jack.
        O senhor Penworthy disse que eu teria de cumprir 
deteno depois da ltima aula se eu sasse da escola pra ir 
buscar. E eu no queria perder o teste de futebol.
Nick balanou a cabea, as sobrancelhas exageradas 
juntando-se numa carranca.
        Devia ter voltado para casa mesmo assim, com ou sem 
deteno. O que a sua me est pedindo  bem pouco: que 
voc coopere e tome conta de si mesmo. O que voc fez 
hoje poderia ter tido conseqncias srias. Voc no 
imagina o que  perder um filho.
O velho falou como se por experincia prpria. Jack 
suspirou, uma exploso frustrada de ar.
        Voc  adolescente. Acha que  imortal.  Nick 
recolheu os pratos e os levou para a pia. Ps a chaleira no 
fogo.  Como foi o teste?
Jack contou a Nick tudo o que havia acontecido com 
Lobeck. Quando Jack terminou a histria, Nick estava 
franzindo a testa de novo.
        Garrett Lobeck saiu voando pelo ar? E voc no tocou 
nele?
Jack deu de ombros.
        No sei o que aconteceu. Ele ficou furioso. Acho que ele 
s estava procurando um pretexto para anular a jogada.
        Ele se machucou?  insistiu Nick. Por que o sbito 
interesse em Lobeck?
        Ficou com o lbio sangrando. Vai ficar inchado amanh. 
Pra combinar com a cabea dele  acrescentou Jack.
        Acha que ele vai fazer um escndalo a respeito? Contar a 
outras pessoas que foi atacado ou algo assim?  Snowbeard 
inclinou-se para a frente, espalmando as mos sobre a mesa 
como para segur-la no cho. As mos do velho pareciam 
suaves e incrivelmente jovens para algum da idade dele. 
Qualquer que fosse a idade dele.
        Vai saber! Ele disse que eu fiz falta nele. Falando srio, 
algum j devia ter machucado ele h muito tempo.
Nick deu um sorriso contido.
        No me entenda mal, Jack. No  que eu seja contra um 
bom chute no traseiro quando  merecido.
Nick levantou-se de repente e caminhou at a janela, 
cutucando com o dedo indicador as peas de metal sobre o 
canteiro de areia.
        O que  isso?  perguntou Jack, ansioso por distrair Nick, 
que parecia determinado a interrog-lo.
        Ahn? Isto? No  nada. Um amuleto contra o mal. Magia 
antiga. As excentricidades de um velho.
Coisa tpica de Nick Snowbeard. Ele era capaz de dizer 
qualquer absurdo e ningum reclamaria.
Quando Nick ficou satisfeito com a disposio dos objetos, 
voltou  mesa. E ao assunto Lobeck.
        Algum mais viu o que aconteceu? Havia algum l para 
assistir ao teste?
Jack sacudiu a cabea.
        O goleiro  quem estava mais prximo, e acho que ele 
no viu nada.  Tentou lembrar quem estava na 
arquibancada. Pensou em Leesha.  Havia algumas pessoas 
na arquibancada.  Jack olhou para Nick com curiosidade. 
 Por qu? Acha que ele vai me processar ou coisa assim?
A chaleira apitou. Nick levantou-se, tirando-a do fogo, e 
encheu o bule com gua quente. Serviu em uma xcara de 
porcelana, com creme e acar.
O tempo estava piorando. A chuva misturada  neve 
pipocava contra o vidro das janelas, e os carvalhos atrs da 
garagem rangiam em protesto. Um frio mido parecia abrir 
caminho por centenas de passagens invisveis, correndo 
dedos gelados pela espinha de Jack.
Jack ainda estava irritado a respeito do remdio. Hoje ele 
no o tomara e havia se sentido... diferente. Mais vivo. 
Agora, sentia-se... anestesiado. Como se estivesse sendo 
sufocado.
        No sei qual  o grande problema com o remdio. A 
doutora Longbranch diz que eu preciso continuar tomando. 
Ela nunca faz exame algum, ento como  que ela sabe? Eu 
me sinto timo, e me senti bem hoje sem ele. Talvez seja 
hora de eu comear a diminuir a dosagem at parar. Acho 
que a gente deveria arrumar um outro mdico, algum da 
regio. Eu nunca gostei muito da doutora Longbranch 
mesmo.
        Voc disse  sua me como se sente?
        Eu tentei, mas ela no quer nem ouvir.  como se ela 
achasse que a Longbranch fosse um tipo de... maga.
Nick engasgou, cuspindo, respingando ch pela mesa.
        Tudo bem com voc?
        Perfeito.  Nick secou a barba com um guardanapo.  
Sugiro que converse com sua tia Linda antes de fazer 
qualquer coisa drstica.
Jack o fitou. Tia Linda? Por que ele precisava que ela desse 
uma segunda opinio? Becka muitas vezes brincava que 
Nick tinha sido um presente da tia Linda, j que fora ela 
quem o recomendara. Todos os presentes que ela dava eram 
incomuns, desde exticas esculturas da frica at um jogo 
de qumica que os pais de Jack haviam vetado quando ele 
tinha trs anos de idade, alm de aulas de navegao e fins 
de semana na praia. Alguns presentes eram perigosos, alguns 
extravagantes e nada prticos, mas todos interessantes. 
Nunca uma camisa plo ou um vale-presente.
Nick nunca falava muito sobre sua histria pessoal  se 
tinha alguma famlia ou como conhecera a tia Linda. De 
alguma maneira, ele conseguia se desviar desse tipo de 
pergunta sem dificuldade. Era do norte da Inglaterra, tinha 
estudado em Cambridge, embora nunca houvesse concludo 
a ps-graduao. Tia Linda havia estudado numa escola 
particular na Inglaterra quando tinha a idade de Jack. Talvez 
tivessem se conhecido l.
No importava. Jack estava cansado de ser o menino 
milagroso, o sobrevivente, cansado de engolir o remdio 
que era emblemtico de sua condio especial.
        Claro, Nick, o que voc quiser. Eu falo com ela. Ela vem 
aqui amanh, alis  disse ele.
Os olhos negros de Nick brilharam sob as grossas 
sobrancelhas.
         mesmo? Isso  bom, creio.
Impaciente, Jack apanhou o livro de cincias sociais e virou 
as folhas at encontrar a pgina apropriada.
        Muito bem. Vamos voltar aos assuntos importantes. 
Tenho prova de cincias sociais amanh. Ser que voc 
poderia me fazer perguntas a respeito dos exploradores, pra 
me testar?  Jack empurrou o livro na direo de Nick, 
com certa rudeza. Histria era a especialidade de 
Snowbeard. s vezes ele falava de eventos ocorridos havia 
muito tempo como se houvesse participado pessoalmente 
deles.
O velho ficou ali sentado por um momento, batendo um 
dedo contra os lbios franzidos. Suspirou e girou o livro de 
forma que pudesse l-lo. Encontrou o ponto e indicou-o 
com o dedo.
        Vasco da Gama  disse ele.

Captulo Dois
A Viagem de Carro
Jack acordou, confuso por um momento pelo som de vozes 
vindo do andar de baixo. Afastou a colcha, depois se deitou 
de costas por algum tempo, arrependido. Outra noite 
acordado at tarde.
Mas havia algo mais, algum vestgio de um sonho que o fez 
estremecer. Algo sobre pessoas mortas, algum procurando 
por ele. E Nick. Jack franziu a testa. Fazia muito tempo que 
no tinha um pesadelo. Um de que se lembrasse, pelo 
menos.
O tempo havia melhorado. O vento finalmente se acalmara, 
depois de uivar por quase a noite inteira. Havia a promessa 
de um dia ensolarado no cu luminoso. O quintal estava 
dourado, cada folha tingida de prata com o gelo, reluzindo.
Quando dobrou a curva da escada de trs e entrou na 
cozinha, l estava ela, sentada  mesa. Tia Linda.
Desta vez os cabelos dela estavam tingidos de ouro e platina, 
curtos e espetados para todos os lados. A pele parecia um 
pouco bronzeada, sem dvida resultado da recente viagem 
aos trpicos. Vestia cala jeans e uma camiseta justa, com 
pesadas botas de couro para caminhadas.
Elas deviam estar falando sobre ele, pois a conversa parou 
quando ele entrou na cozinha. Houve um pequeno 
momento de embarao, at que tia Linda se levantou para 
abra-lo. Jack era bem mais alto do que ela, mas ela curvou 
o queixo dele para baixo para poder ver-lhe o rosto. Os 
olhos dela eram azuis salpicados de dourado, como uma 
pedra extica.
        Voc cresceu tanto, Jack  disse ela, largando-lhe o 
queixo, mas ainda estudando seu rosto.  Acho at que est 
mais alto do que o seu pai. Parece que os meninos se tornam 
homens antes que a gente perceba.  Ela parecia um pouco 
triste por algum motivo, mas Jack se sentiu muito contente, 
como se a mudana fosse mrito seu.
        Eu estava contando as novidades a Linda. Acho que me 
esqueci de tudo depois do susto de ontem  noite.  Becka 
parecia to excitada quanto uma criana no Natal.  Ganhei 
uma bolsa de estudos para uma pesquisa sobre Literatura 
Inglesa Medieval em Oxford neste vero.
        Oxford? Quer dizer, na Inglaterra? Mas e o seu emprego?
        Mike Mixon concordou em fazer meu trabalho no 
tribunal durante o vero. As coisas esto calmas no 
momento, de qualquer modo. Faz muito tempo desde a 
ltima vez que tirei frias de verdade. No vou ter de 
trabalhar o tempo todo, e h tanta coisa que quero mostrar a 
voc!  disse Becka.
        Voc vai adorar a Inglaterra, Jack  acrescentou tia 
Linda.  Nossa famlia vem de l. Tantas vozes antigas, e 
tanta histria sob o solo  disse ela, como se aquele 
comentrio no necessitasse de nenhuma outra explicao.
        Bem.  Jack estava dividido entre excitao e apreenso. 
 Papai disse que talvez ns fssemos finalmente construir 
aquele veleiro neste vero.
        Tenho certeza de que podemos dar um jeito  disse 
Becka com suavidade, como se houvesse alguma 
possibilidade de que aquilo viesse a acontecer.
        Talvez a gente possa visitar voc para variar  Jack 
sugeriu a Linda.
Linda desviou o olhar.
        Eu adoraria que vocs viessem me visitar, mas 
infelizmente eu subloquei meu apartamento em Londres, j 
que tenho viajado tanto.
O meio de vida de tia Linda sempre fora um tanto quanto 
misterioso. Ela trabalhava com imveis, dizia, representando 
manses e castelos por todo o Reino Unido. Jack supunha 
que ela fosse muito boa nisso: ela sempre parecia ter 
bastante dinheiro e tempo livre para gast-lo.
        Mame disse que voc veio me ver  disse ele, sem 
rodeios.
Ela assentiu, juntando os dedos da mo num gesto 
pensativo.
        Eu gostaria que voc viesse comigo numa viagem de 
carro.
        Uma viagem?
        Vou desenterrar alguns parentes mortos  continuou ela 
 e perguntar a eles onde est o dinheiro da famlia.
        Parentes mortos?  Tudo o que ele parecia ser capaz de 
fazer era repetir o que ela dizia como um papagaio.
Tia Linda riu.
        Voltei para os Estados Unidos para fazer um pouco de 
pesquisa genealgica. Vou de carro at o condado de 
Coalton para pesquisar uns registros antigos.
        Oh.
Jack tentou no fazer careta. Estranho, ele nunca tinha 
ouvido tia Linda mencionar nada sobre genealogia antes.
        Vai ser to divertido  disse Becka com entusiasmo. Ela 
adorava remexer em arquivos velhos e empoeirados, legais 
ou de outra natureza.  Queria poder ir tambm. Jack e eu 
fomos l uma vez, mas no encontramos muita coisa. Talvez 
vocs dois tenham mais sucesso.
        Se-e-e-i  disse Jack com ceticismo. Linda sorriu.
        O que eu preciso mesmo  de msculos para desenterrar 
os corpos. Por que voc no convida um ou dois amigos? 
Que tal o Will?  esse o nome dele? Ou quem sabe Harmon 
Fitch?
Como ela conseguia lembrar os nomes deles? Ela no vinha 
com muita freqncia, e sua ltima visita tinha sido havia 
mais de um ano.
        Tenho certeza de que viajar para o sul de Ohio para 
pesquisar a genealogia da minha famlia vai soar ainda mais 
fascinante para eles.  Agora ele realmente fez uma careta.
        Vamos l  implorou Linda.  A gente vai se divertir 
tanto. Ficaremos num hotel com piscina. Vocs vo poder 
comer porcaria e ficar acordados at tarde. Tudo por minha 
conta.
Ambos sabiam que todo o dilogo era s uma formalidade, 
um ritual pelo qual tinham de passar. Jack jamais fora capaz 
de lhe dizer no.
        Chame os seus amigos agora  disse Linda, empurrando 
o prato.  Quero estar na estrada s dez.
        Voc quer sair agora?  Becka sacudiu a cabea.  Ento 
Jack no pode ir com voc. Ele tem de ir  escola.
         mesmo?  Tia Linda parecia confusa, como se a idia 
de estarem em perodo escolar nunca tivesse lhe ocorrido. 
 Que inconveniente. Eu queria ir at o tribunal hoje. 
Acho que eles no abrem no fim de semana.  Ela ps trs 
ou quatro colheres de acar no ch e mexeu.  Deixa pra 
l  declarou ela, de repente.  Iremos aps a aula. Est 
combinado. Jack, convide os meninos esta manh.
Para a surpresa de Jack, Will parecia disposto a ir. 
Possivelmente porque seus pais haviam encomendado 
hmus vegetal suficiente para cobrir cinco metros qua-
drados, carga que seria entregue aquela tarde. Parecia um 
bom fim de semana para estar fora da cidade. Mas o 
envolvimento de Linda Downey foi o fator decisivo. Will 
era normalmente tmido com as garotas, mas ficava com a 
lngua absolutamente presa quando Linda estava por perto. 
"Voc sabe que a sua tia  de tirar o flego, Jack", dissera ele 
certa vez, em tom solene, quase como se pedisse desculpas. 
E Jack tinha de admitir que ela era mesmo.
Jack e Will demoraram-se no vestbulo junto  diretoria do 
colgio, na esperana de que Fitch aparecesse antes de o 
ltimo sinal tocar.
Penworthy estava no seu posto de costume junto  porta da 
frente. Estava entretido numa conversa com um homem 
que Jack nunca vira. O homem estava vestido todo de preto, 
e era bem mais alto do que Penworthy.
        Ei! Voc! Swift!
Jack virou-se e viu Garrett Lobeck saindo do escritrio do 
diretor, ladeado por seus amigos, Jay Harkness e Bruce 
Leonard. Provavelmente cumprindo deteno antes das 
aulas. Qualquer um deles era maior do que dois Jacks.
Lobeck aproximou-se at invadir o espao pessoal de Jack.
        Precisamos conversar sobre aquela sua jogada podre de 
ontem  disse Lobeck. S que soou mais como 
"convechar" e "chogada", porque os lbios de Lobeck es-
tavam to inchados que pareciam duas vezes maiores do que 
o normal.
        Escute aqui  disse Jack.  Eu chutei para o gol. S isso. 
No tenho culpa se voc estava no caminho. V se esquece 
isso.
        Eu vou ferrar voc, Jack, juro que vou. Voc s tem de se 
perguntar quando.  Lobeck tentou fazer uma cara de 
escrnio, mas desistiu. Aparentemente era doloroso demais. 
Leonard e Harkness arreganharam os dentes, contudo. 
Lobeck estava representando para o seu pblico. Ele tinha 
de fazer alguma coisa, afinal. Todo mundo no colgio ficaria 
sabendo da histria do futebol antes do fim do dia, com 
Garrett andando para todos os lados com a evidncia exposta 
no rosto.
Jack no saberia dizer por que decidiu fazer aquilo. Algum 
tipo de impulso suicida, provavelmente. Ele inclinou-se at 
ficar a poucos centmetros de distncia do rosto de Lobeck. 
Jack era to alto quanto ele, apesar de no to corpulento.
        Vai. Pode vir  disse Jack, com um sorriso amigvel.  
Da prxima vez, quebro o seu nariz, e voc pode dizer 
adeus  sua carreira de modelo.
Lobeck estreitou os olhos como se no pudesse acreditar no 
que estava ouvindo. Estendeu a mo com a aparente 
inteno de agarrar a camisa de Jack. Ento pareceu mudar 
de idia e, em vez disso, mostrou-lhe o dedo mdio.
        SENHOR LOBECK!
Todos tiveram um sobressalto. Era Penworthy, 
acompanhado do estranho que Jack havia notado antes.
Penworthy enfiou um bilhete de deteno na mo de 
Lobeck.
        Senhor Lobeck, parece que o senhor no passou tempo 
suficiente na deteno esta semana. Mais do que ningum, o 
senhor deveria saber que gestos obscenos so expressamente 
proibidos dentro da escola.
Lobeck vibrava como uma caldeira prestes a explodir. 
Quando finalmente conseguiu pr a boca para funcionar, 
deixou escapar uma longa seqncia de obscenidades. 
Penworthy continuou destacando bilhetes de deteno at 
Lobeck ficar sem combustvel.
        Ahn, senhor Penworthy  disse Will, com cautela para 
no se meter no meio das detenes voadoras.  A gente 
s estava indo para a sala de chamada.
Lobeck e seus amigos tambm pareciam ansiosos para ir 
embora.
Jack ergueu o olhar e viu o estranho o encarando. Contra a 
vontade, Jack viu-se paralisado, encarando-o de volta. O 
homem tinha mas do rosto altas e bem definidas, traos 
aristocrticos que eram prejudicados apenas por um nariz 
um pouco grande demais. Sua tez era plida como a de um 
acadmico ou de algum cuja pele no reage ao sol. Olhos 
incrivelmente verdes eram protegidos por sobrancelhas 
pesadas e negras demais para algum de pele to clara. Jack 
teve a rpida impresso de uma inteligncia penetrante e de 
fora fsica antes que Penworthy interviesse.
        Antes que se vo, senhores, gostaria que conhecessem o 
senhor Leander Hastings, nosso novo diretor-assistente  
apressou-se em dizer.  Ele substituir o senhor Brumfield. 
 Ps a mo no ombro de cada garoto, um por um.  
Senhor Lobeck. Senhor Harkness. Senhor Leonard. Senhor 
Childers. Senhor Swift.  O olhar de Hastings posou por 
um breve momento sobre cada um deles.  O senhor 
Hastings vai liderar nosso time de disciplina estudantil e ser 
responsvel pelo controle de presena.
        No vou gastar todo o meu tempo distribuindo 
detenes.  Os lbios de Hastings retorceram-se, como se 
aquilo fosse uma piada particular.  Na verdade, pretendo 
desenvolver um programa para alguns dos...  Ele fez uma 
pausa, tentando escolher as palavras certas.  Para alguns 
dos... alunos mais dotados.
Hastings tinha uma presena que parecia no combinar com 
a administrao de uma escola. Ele lembrava muito... um 
lobo.
        Sim, claro... educao para os dotados...  irrompeu 
Penworthy, como se essa fosse uma enorme e indesejvel 
surpresa.  Uma idia excelente, presumindo que tenha 
tempo para isso.
        Mas  claro. Eu arrumarei tempo  replicou Hastings.  
Nada  mais importante do que agarrar o talento onde o 
encontramos e lhe dar o melhor uso.  O olhar dele caiu 
sobre Jack.
Jack no tinha ouvido falar que Brumfield ia embora. Queria 
perguntar algo a respeito, mas no conseguiu. Uma profunda 
sensao de frio surgiu em algum lugar no peito, 
dificultando a respirao, quanto mais a fala. Teve um forte 
pressentimento de perigo vindo em sua direo. Certa vez, 
quando era pequeno, estava brincando com Will nos trilhos 
do trem quando percebeu que o trem se aproximava. Sentiu 
os trilhos vibrando atravs das solas dos sapatos, ouviu o 
som agudo do apito, mas no conseguiu se mover. Ento 
Will agarrou-lhe o brao e puxou-o para o lado da estrada de 
ferro.
        Ahn, a gente tem de ir para a sala de chamada antes do 
ltimo sinal  disse Will, mais uma vez puxando o brao de 
Jack.
Mas Hastings estava falando de novo, e ningum se moveu.
        Vocs jogam futebol? Algum de vocs est no time?
        A gente fez o teste essa semana.  Will fez um gesto, 
incluindo os outros quatro.  No sabemos ainda se 
conseguimos entrar ou no.
        No lugar de onde eu vim, eu era auxiliar tcnico  disse 
Hastings.  Penso em participar do programa aqui.
Jack no teve dvidas de que isso aconteceria, quer o 
treinador Slansky gostasse da idia, quer no.
O ltimo sinal tocou, e foi como se um encanto se 
rompesse. O grupo virou-se em trs direes diferentes: 
Will e Jack para a ala do primeiro ano, Lobeck e seus amigos 
para o corredor do segundo ano, e Penworthy e Hastings de 
volta para o escritrio.
Fitch freqentava a mesma aula de clculo que Jack, de 
modo que este pde lhe perguntar sobre a viagem antes da 
hora do almoo. Fitch assentiu com tranqilidade, como se a 
possibilidade de viajar centenas de quilmetros para ver 
registros antigos de tribunal sobre os parentes falecidos de 
Jack fosse uma forma natural de recreao. Fitch nunca se 
importava muito com o que outras pessoas pensavam e tinha 
um talento para descobrir um ngulo interessante em 
qualquer situao. Durante a hora do almoo, ele telefonou 
para a me no trabalho. Ela respondeu que ele podia ir, des-
de que a viagem no lhe custasse nada.
Will teve mais dificuldade para se livrar do hmus.
        Mas vai ser educativo  implorou ele ao telefone.  A 
tia do Jack  geloga. Ahn, quero dizer, genealogista. E eu 
vou escrever um relatrio a respeito para a escola  
acrescentou ele. Esse ltimo comentrio devia t-los 
convencido, pois Will estava sorrindo ao recolocar o 
telefone no gancho.
Quando Jack chegou em casa, um Land Rover branco 
desconhecido estava estacionado no fim da rua. Uma 
escolha surpreendente para tia Linda, que geralmente 
alugava um carro esporte quando vinha de visita. Jack 
encontrou Becka na cozinha, dispondo sanduches em uma 
caixa trmica.
        Linda foi visitar o Nick  explicou ela.  Ela me pediu 
que dissesse a voc para fazer as malas.
A bolsa de viagem de Jack estava aberta sobre a cama dele. 
Junto dela estava um pequeno pacote embrulhado em papel 
parafinado com uma estampa azul brilhante. Ele tomou o 
pacote nas mos e o examinou com curiosidade. No pesava 
quase nada.
        Mercedes deixou isso pra voc  disse tia Linda, em p 
junto  porta, pegando-o de surpresa.  Ela disse que 
poderia ser til na viagem.
Como Mercedes se envolvera nessa histria? Ser que os 
planos de viagem deles tinham sido publicados no website 
da cidade? Ou exibidos no letreiro magntico das reas 
pblicas da universidade? Jack resmungou, chateado. s 
vezes ele detestava morar em uma cidade pequena.
Rasgou o papel. Era um colete sem mangas, tecido em uma 
leve fibra cinzenta que lhe parecia familiar. Trs botes de 
prata decoravam a frente. Quando Jack olhou mais de perto, 
viu que eram rostos de trs ursos diferentes, em prata, ouro 
e cobre.
        No  exatamente o meu estilo  resmungou ele, 
jogando-o na cama.  E nem  meu aniversrio. Mas 
agradea a ela de qualquer jeito.
O que tinha dado na Mercedes? Ela sabia o tipo de roupas 
que ele usava. Nunca usava nada mais extico do que jeans e 
camisetas. Ela o via praticamente todos os dias da semana.
Linda permanecia  porta, os braos cruzados.
        Experimente  disse ela. Jack ergueu os olhos, surpreso. 
Queria argumentar, mas sabia que, se Linda queria que ele 
vestisse aquela coisa, no havia como evitar.
        Sinto-me um idiota  grunhiu ele, apanhando o colete da 
cama e vestindo-o por sobre a camiseta. Servia como uma 
luva. Finalmente se deu conta do que aquilo lhe lembrava. 
Era feito com l idntica  do cobertor de beb que 
Mercedes lhe havia feito anos atrs, agora guardado em uma 
caixa sob a cama.
        Parece bom  disse Linda.
Ela retorceu uma mecha de cabelo entre o indicador e o 
polegar. Havia uma tenso nela que ele no percebera de 
manh. Ela havia acabado de voltar do apartamento do Nick. 
Ser que o velho caseiro lhe dissera algo que a deixara 
perturbada?
Quando ele fez meno de tirar o colete, ela ergueu a mo.
        No tire.
Jack sups que deveria ficar feliz pelo colete no ser cor-de-
rosa com bolinhas roxas. Will e Fitch teriam um bocado a 
dizer a respeito daquilo.
        Muito obrigado, tia Linda. Ouvi dizer que  o que todos 
os jovens esto vestindo hoje em dia.
Resmungando baixinho, ele abriu a ltima gaveta e comeou 
a preparar a bagagem.
Linda percebeu sua expresso mal-humorada.
        Jack, escute-me. No estou tentando deixar voc 
embaraado.  s que... Mercedes ficaria muito feliz se voc 
o usasse. Por que no veste uma blusa por cima, se isso o faz 
se sentir melhor? Est mesmo frio l fora.  E ela abriu 
aquele sorriso que sempre fazia com que as pessoas 
quisessem agrad-la.
Jack se perguntou o quo lisonjeada ficaria Mercedes em 
saber que ele estava vestindo o precioso colete dela como 
roupa de baixo. Ele encontrou sua blusa do estado de Ohio 
no cho, vestiu-a por sobre a cabea e fechou o zper da 
bolsa. Ento se lembrou do que planejara lhe contar.
        Ah, sim. Tanto Will quanto Fitch vm conosco  disse 
ele.
Jack achou que ela ficaria contente, mas ela franziu a testa, 
como se houvesse se esquecido completamente de que os 
havia convidado.
        Oh! Talvez seja melhor ns dois irmos sozinhos  
sugeriu ela, aps uma pausa.
Jack a encarou, sem conseguir acreditar.
        Voc no pode estar falando srio. Foi voc quem me 
disse para convid-los, pra incio de conversa.
Ela passou os braos em torno de si mesma, balanando-se 
de um lado para outro.
        Eu...  s que...
        A me est empacotando comida suficiente para um 
batalho. Ela at fez brownies, pra variar, em vez daquelas 
barras horrveis de cereal, cenoura e ma.
        Est bem. Deixa pra l. S espero que eles cheguem logo. 
Quero sair daqui o mais rpido possvel.
"Nunca a vi to irritada", pensou Jack. Quando voltaram  
cozinha, Becka estava fechando a caixa trmica.
        Isso deve manter vocs forrados se Linda no parar para 
comer. Ela parece que est mesmo em algum tipo de misso. 
Vou guardar o remdio na sua bolsa  disse ela, de modo 
enftico, enfiando o grande frasco azul entre as roupas de 
Jack.  No fique to entretido com a histria da famlia a 
ponto de se esquecer de tomar.
E ento Will e Fitch chegaram, parecendo tomar todo o 
espao da cozinha. Will trajava a jaqueta do colgio, 
camiseta e cala jeans. Fitch vestia uma jaqueta camuflada 
do exrcito, uma blusa amarela brilhante com o logotipo de 
uma estao de rdio de msica country bordado na frente e 
calas de alpinismo verde-cinza com uma gravata vermelha 
no lugar do cinto.
Jack deu-se conta de que, no importava o que vestisse, 
jamais seria preo para a combinao de Fitch, que jogava 
por suas prprias regras e nunca ficava chateado se os 
colegas o chamassem de excntrico. "Excntrico  bom, 
estranho  ruim", Fitch sempre dizia. Jack sentiu-se um 
pouco melhor.

Captulo Trs
Desenterrando Parentes Mortos

Linda pisava firme no acelerador. Parecia determinada a 
compensar pelo menos parte do tempo que haviam 
desperdiado na escola. Sempre que Jack, que estava no 
banco do passageiro, dava uma espiada no velocmetro, o 
marcador estava em torno de 135 quilmetros por hora. 
Tivera esperana de que ela fosse lhe pedir que dirigisse, 
mas compreendeu que eles apenas perderiam tempo com 
ele ao volante.
Passaram por uma srie de velhas cidadezinhas: um 
semforo, um posto de combustvel ou dois. Ao escurecer, 
comearam a ver o entulho de minerao a cu aberto: 
montes de escria e resduos. Equipamentos de ferro para a 
perfurao de petrleo agachavam-se como mosquitos 
gigantes na poeira, sugando o sangue negro para fora da 
terra.
        Algum de vocs j esteve aqui antes?  perguntou Will.
        Minha me me trouxe aqui uns anos atrs  admitiu 
Jack. "Arrastou" teria sido uma palavra mais adequada. Becka 
o fizera andar por todas aquelas colinas, procurando pela 
propriedade da famlia. Nunca encontraram.  Minha 
tatarav Susannah viveu aqui. Era uma mulher bem 
interessante, acho. Tocava banjo e rabeca e fazia um vinho 
de cerejas pretas fantstico.
Linda continuou a histria sem tirar os olhos da estrada:
        Susannah  quem estamos procurando. Dizem que ela 
possua a Segunda Viso. Comungava com os espritos, lia a 
sorte nas cartas e tinha sonhos profticos.
        Parece algum tipo de bruxa  comentou Fitch.
        Minha me sempre se interessou por esse tipo de coisa 
 disse Jack, sorrindo.  H boatos de que corre magia 
pela nossa famlia, sabe?
        Melhor que alergias  disse Fitch, espirrando.
        Susannah tinha um squito considervel por aqui, 
principalmente de mulheres.  Linda deu uma guinada para 
no atropelar uma marmota.  Naqueles tempos, sempre 
parecia que eram os homens que faziam o futuro, e que as 
mulheres precisavam se proteger dele.
Jack olhou pela janela. Essa casa dos ancestrais estava no 
caminho que ia para lugar nenhum; um lugar de cemitrios, 
onde se escavava carvo e se enterrava pessoas.
Estava escuro quando chegaram a Coal Grove, a sede do 
condado, uma cidade sem nenhum semforo. Um velho 
tribunal com a fachada ornamentada ancorava uma das 
extremidades da praa. As lojas estavam todas fechadas, 
embora vrios carros lotassem o estacionamento junto ao 
cinema; luzes e msica escapavam de um lugar chamado 
Caf Pssaro Azul, na diagonal oposta ao tribunal. Sexta-feira 
 noite em Coal Grove, pensou Jack. Ainda mais devagar do 
que Trinity.
Linda entrou com o Land Rover em uma das ruas que dava 
na praa e estacionou junto ao meio-fio sob um enorme 
bordo. No havia postes de luz, e estava completamente 
escuro  sombra da grande rvore.
        Onde estamos?  perguntou Will, confuso.  No 
vamos para um hotel?
        Preciso ir ao tribunal primeiro  respondeu Linda, 
erguendo-se do banco da frente do carro.
Linda pendurou uma mochila sobre o ombro e fechou a 
porta do carro com fora. O som pareceu mais alto do que 
seria natural na rua silenciosa.
Jack esticou-se todo fora do carro, sentindo as pernas um 
pouco bambas aps a longa viagem. O ar da noite era frio e 
perfumado, e havia um som suave de sapos a alguma 
distncia. Um cachorrinho comeou a latir furioso atrs de 
uma porta de tela em uma casa prxima. A luz da varanda 
estava acesa, e podiam ver uma silhueta por trs da tela.
Linda guiou-os at o outro lado da rua e entraram no 
estacionamento atrs do tribunal. Um prdio moderno de 
tijolos alojava-se do outro lado do estacionamento, distante 
da praa. Dois carros de polcia estavam estacionados junto 
ao prdio. Uma luz de vapor de mercrio projetava uma luz 
plida sobre a cena.
        Mas o tribunal no est fechado?  insistiu Will.
        Oh, tenho certeza de que fica aberto nas noites de sexta.
Linda liderou o trio ao longo da parte de trs do prdio, 
entre caambas de lixo verde-cqui, adentrando as sombras 
de uma ruela do lado oposto. Ela seguiu a lateral do prdio 
at encontrar o que estava procurando: uma escadaria de 
concreto, com um corrimo de ferro em estilo antigo, que 
descia para um andar no subsolo. Ao fim da escadaria havia 
uma porta.
Linda olhou de um lado para outro da ruela e ento desceu 
as escadas, fazendo um gesto para Jack e seus amigos a 
seguirem. Remexeu na porta por um momento at que esta 
se abriu sob ruidosos protestos das dobradias. Ela virou-se 
para trs.
        Eu falei que estava aberto!  disse ela, e sumiu l dentro.
        Tenho um mau pressentimento sobre isso!  sussurrou 
Jack para Fitch.
Fitch deu de ombros. Com Linda no comando, no havia o 
que fazer a no ser ir atrs.
A entrada levava a um velho poro. O cheiro de papel 
velho, mofo e terra mida era opressivo. Tia Linda tirou trs 
lanternas poderosas da mochila. S que um pouco tarde 
demais.
        Ai!  Will j havia batido a cabea em uma viga baixa 
do teto.
Jack correu o facho de luz da lanterna pelas paredes. 
Estavam cobertas por estantes cheias de enormes livros de 
registro estampados com letras douradas. Tudo parecia ser 
de algum tom de cinza fosco, pois estava coberto com uma 
grossa camada de p. Fitch j comeava a espirrar. No alto 
das paredes, acima dos livros, havia fileiras e mais fileiras de 
caixas de metal.
Uma antiga escada de madeira dava acesso ao piso principal 
do prdio. Caixas de arquivos estavam empilhadas em quase 
todos os degraus, deixando apenas um estreito caminho para 
o topo. Linda encontrou um interruptor na parede junto aos 
degraus, e a sala foi subitamente inundada de luz.
        O que voc est procurando?  perguntou Jack  tia.  
E por que a gente no pode voltar amanh?
Linda j estava levantando um livro da parede. Ela era 
surpreendentemente forte, considerando seu tamanho, e 
moveu o imenso volume para uma mesa inclinada de leitura 
no centro da sala. Linda tinha uma mancha de p no alto do 
nariz.
        Estamos procurando por registros de bitos  explicou 
ela.  Temos de encontrar o registro da sua tatarav 
Downey. Minha estimativa  que ela morreu entre 1900 e 
1920. O tribunal no abre amanh, ento  melhor fazermos 
isso esta noite.
O livro sobre a mesa tinha como ttulo "Livro de bitos A". 
Jack leu por cima do ombro de Linda. As pginas estavam 
repletas de longas colunas de escrita intricada. Nome. Data 
de falecimento. Local de falecimento.
Local de nascimento. As datas no incio do livro eram todas 
do fim da dcada de 1860. Linda virou rapidamente as 
pginas amareladas, examinando-as de cima a baixo at 
chegar ao fim do livro. Terminava em torno de 1875. Cedo 
demais.
        No d pra simplesmente escrever pro pessoal da capital, 
Columbus, pra conseguir essa informao?  perguntou 
Fitch, espirrando de novo.  Ou procurar na internet?
        Eles no tm registros eletrnicos dessa poca  replicou 
Linda, erguendo o livro com a ajuda de Jack e recolocando-
o no lugar.  Alm disso, estou com pressa. Agora 
precisamos procurar pelo Livro de bitos B ou C.
Os livros de registros nas prateleiras no pareciam estar em 
uma ordem em particular. O volume junto ao Livro A estava 
rotulado como BB e era da dcada de 1950. Eles dividiram-
se para examinar as lombadas dos livros por todos os lados 
da sala. Era uma grande baguna. Processos do Tribunal de 
Pleitos Comuns. Livros de testamentos. Registros de terras.
Os olhos de Jack ficavam se desviando para a escada que 
levava ao andar principal. Era a delegacia de polcia que 
tinha visto do outro lado do estacionamento; tinha certeza 
disso. Ser que a paixo por genealogia seria considerada 
uma boa justificativa para arrombamento e invaso? Tia 
Linda sempre parecia inventar suas prprias regras quando 
precisava, mas nunca a vira desobedecer  lei.
Por outro lado, talvez ele no a conhecesse muito bem.
Will estava vasculhando metodicamente uma pilha de 
livros, sem dvida incentivado pela plida esperana de um 
jantar no fim da noite.
        Ei!  disse ele de repente.  Que datas estamos 
procurando?
        Incio de 1900  respondeu Linda, movendo-se para ver 
o livro que ele estava examinando.  Pode ser este.  Ela 
correu o dedo pela folha, ento virou vrias pginas.  Essa 
 a poca certa!
Aqueles ltimos registros incluam informaes sobre a 
causa da morte, a maioria por doenas de que Jack nunca 
ouvira falar: escrfula, edema, febre cerebral. Algumas ele 
tinha visto apenas em livros de histria: tsica, febre tifide, 
varola. Algumas mortes eram acidentais, com descries 
sumrias: afogamento. Queda do telhado. Coice de cavalo.
Os lbios de Linda moveram-se silenciosamente enquanto 
virava as pginas delicadas.
        Aqui est!  disse ela.  "Susannah Downey. Nascida 
em 1868; esposa de fazendeiro; morreu em 12 de maio de 
1900; causa da morte: acidente."
Eles todos se juntaram em torno para conseguir ler as 
garatujas.
        Ela era bem jovem  observou Jack.  Alguma idia de 
como ela morreu?  Estava interessado, apesar de tudo.
        No  respondeu Linda, transcrevendo o registro em um 
caderno que tirou da mochila.  No diz onde ela viveu 
nem onde foi enterrada.  Ela parecia desapontada.
        Nenhum dos outros tem esse tipo de informao  disse 
Fitch.  Isso  importante?
        Preciso achar a tumba dela  disse tia Linda.  Pra isso 
precisamos descobrir em que cemitrio ela foi enterrada. A 
no ser que ela tenha sido enterrada na prpria propriedade. 
Nesse caso, teremos de verificar os registros de terras.
Estavam todos to concentrados no que haviam encontrado 
que Jack levou alguns segundos para processar o que estava 
ouvindo. Ergueu a mo pedindo silncio e indicou o teto 
com um movimento de cabea. L estava o som 
inconfundvel de passos no andar superior.
Todos ficaram paralisados. Havia um gosto amargo e 
metlico no fundo da boca de Jack, e seu corao parecia um 
peixe se contorcendo de aflio. Linda inclinou a cabea 
como se pudesse ver a sala de cima atravs das tbuas toscas. 
Ela soltou a respirao num som fraco e primitivo de medo. 
Ento fechou rapidamente o livro e o ps de volta em seu 
nicho. Quase no mesmo momento, uma porta se abriu no 
topo das escadas e um plido retngulo de luz apareceu na 
escadaria escura.
A escada estava entre eles e a porta de sada.
        Fujam!  sussurrou tia Linda enquanto saltava na 
direo do interruptor de luz.
O quarto foi mergulhado em trevas. Jack tropeou na mesa 
central ao tatear em desespero no escuro at achar o 
contorno da porta. Tia Linda estava derrubando coisas atrs 
dele, fazendo uma barulheira infernal. Que diabos ela estava 
fazendo? Ele podia ouvir Will e Fitch um pouco  frente. 
Olhou rapidamente para trs e viu uma silhueta alta e negra 
no topo das escadas, emoldurada pelo amarelo sujo das 
lmpadas de vapor de mercrio. No conseguiu distinguir o 
rosto nem os traos fsicos. Jack ainda estava olhando 
quando a silhueta se voltou para ele.
Jack sentiu o toque daquela ateno como um golpe fsico. 
Cambaleou, segurando-se em um armrio de arquivos para 
no cair.
De repente, Linda estava ao lado dele, empurrando-o com 
fora para a frente.
 Voc! Ande, saia! Eu encontro vocs no Caf Pssaro 
Azul em meia hora!
Atrs deles, Jack ouviu uma exclamao abafada, o som de 
algo pesado caindo, depois uma srie de palavres. Will e 
Fitch deviam ter alcanado a sada, pois uma luz cinzenta 
jorrava da escadaria. Ele se lanou na direo dos amigos. 
Assim que alcanou a soleira, ouviu uma exploso. Houve 
um claro ofuscante de luz, e algo o atingiu em cheio nas 
costas, derrubando-o sobre o bloco de concreto logo alm 
da porta. Ele caiu de quatro e mordeu a lngua com fora. O 
sangue tinha um gosto salgado. Ento Will e Fitch o 
agarraram pelos braos e o arrastaram escada acima e at a 
ruela. Quando finalmente conseguiu se pr em p, Jack 
virou o torso para ver se Linda vinha atrs deles, mas a ruela 
estava vazia.
A ruela levava de volta  praa principal na frente do 
tribunal. A rua ainda estava deserta. Cruzaram correndo o 
gramado e se espremeram entre os arbustos plantados em 
torno do coreto. Havia cerca de um metro entre os 
pinheiros e as fundaes de cimento do prdio. Agacharam-
se ali, a respirao acelerada, olhando para o tribunal e 
depois um para o outro, com os olhos arregalados.
Finalmente, Will disse:
        Que diabos foi aquilo?
        Aquilo o qu?  retrucou Jack. Ele prprio tinha 
perguntas demais para responder s deles.
        Aquele cara esquisito na escada, pra comear  
respondeu Fitch.  Aquele com o sabre de luz sinistro.
        Sabre de luz? Fala srio.  Jack voltou a olhar para o 
tribunal.
        Sabre de luz. Lana-chamas. Phaser. Desintegrador 
eletromagntico. Aquilo que ele usou para atirar em voc, 
cara.  Fitch limpou o sangue do rosto com as costas da 
mo e tentou um sorriso.
        Por que voc no est morto?  perguntou Will.  
Aquilo devia ter matado voc, no entendo por que voc 
no est morto. Tem certeza de que no est ferido?
        No  disse Jack lentamente.  Alguns arranhes, 
talvez.
Havia uma regio dolorida entre as espduas, como se ele 
tivesse sido atingido nas costas por uma bolada forte. A 
nica outra sensao era uma espcie de formigamento por 
todo o corpo.
Fitch, atrs de Jack, estendeu a mo e deu-lhe um puxo no 
capuz. O tecido se desintegrou entre seus dedos.
        Bela camisa  disse ele, entregando a Jack os farrapos 
carbonizados. Tinham um cheiro de plvora, como o de 
rojes logo aps serem lanados.
Jack despiu o que sobrara da blusa. Toda a parte de trs 
desaparecera. Por baixo, o colete novo parecia inteiro. Na 
realidade, no parecia ter sofrido qualquer dano.
        Sorte sua estar usando colete  prova de balas  
observou Will com secura.  Pena que ningum disse a 
mim e ao Fitch pra trazer os nossos.
Jack voltou-se novamente para o tribunal, ainda iluminado 
somente pelo brilho plido da luz de segurana. Se algum 
havia acionado o alarme, por que ningum acendera as 
luzes? E por que o homem no topo das escadas no havia 
dito nada, no havia se identificado?
No havia nenhum sinal de perseguio. A praa e o 
tribunal estavam em silncio.
        Escutem  disse Jack, engolindo em seco.  Eu 
lamento tudo isso. Quando convidei vocs para vir conosco 
nessa viagem, nunca pensei... No sei quem era aquela 
pessoa ou o que tia Linda est tramando, mas...
Fitch interrompeu-o.
        Onde ela est?
Ningum tinha uma resposta para isso. Jack imaginou-se 
explicando para a me que eles haviam perdido a irm dela 
enquanto cometiam um arrombamento e afastou essa 
imagem para longe.
Fitch apoiou as costas cautelosamente na base de pedra do 
coreto e fechou os olhos. O cabelo plido descobriu sua testa 
quando uma brisa soprou.
        Estranho que ele no tenha acionado o alarme.
Jack deu de ombros. J tinha ouvido falar de batalhas 
campais por stios arqueolgicos. Mas genealogia? No que 
haviam se metido? Nervoso, olhou para o relgio.
        Tia Linda disse para a encontrarmos no Pssaro Azul em 
meia hora. Est na hora.
Ele rezava para que ela aparecesse como prometido. No 
sabia o que faria se ela no fosse.
Ainda evitando o tribunal, esgueiraram-se pela parte de trs 
do coreto at o lado oposto da praa, depois cortaram 
caminho entre os prdios at a prxima rua. Traaram um 
largo crculo em torno do Pssaro Azul. Passava um pouco 
das nove quando entraram no bar.
Ao entrar, foram assaltados pela msica alta, seguida pelo 
cheiro de tabaco envelhecido e cerveja. Levou alguns 
minutos at que os olhos deles se ajustassem  luz. A nica 
iluminao vinha dos anncios de cerveja em neon. O lugar 
estava lotado com todos os tipos de cliente: jovens, velhos, 
alguns bem vestidos e outros que obviamente tinham vindo 
direto do trabalho. Era, afinal de contas, sexta-feira  noite. 
Jack tinha a sensao de que todos no lugar se conheciam, 
enquanto ele e seus amigos eram claramente forasteiros. 
Alm de serem menores de idade, o que lhes foi lembrado 
imediatamente.
        Posso ajudar vocs, meninos?  A moa mostrava um 
certo ar de autoridade, embora no parecesse muito mais 
velha do que eles. Um pssaro azul com um sorriso cheio de 
dentes erguendo uma cerveja estava bordado no bolso da 
camisa dela.  Vocs tm documentos?
        No vamos beber  explicou Will.  Ser que a gente 
no pode s se sentar na parte do restaurante?  perguntou 
ele.  Estamos esperando algum.
A garonete estudou-os por um momento, o olhar 
demorando-se mais em Will. Ento encolheu os ombros.
        Claro, por que no?  Indicou com a cabea uma mesa 
vazia no fundo.  Sentem-se. Posso trazer o cardpio, se 
quiserem.
        Isso seria timo  respondeu Will.
        Pelo jeito, voc tem bom apetite  replicou a garonete, 
sorrindo para Will enquanto ajeitava o rabo de cavalo.  
Voc malha?
Descobriram que a garonete tinha interesse em 
fisiculturismo. Ela e Will progrediram rapidamente para 
flexes e exames mtuos de bceps antes que ela finalmente 
partisse para buscar os refrigerantes.
Jack olhou feio para Will.
        No acredito que voc esteja com fome.  Sentia o peso 
enorme da apreenso em seu corao, o que no o deixava 
pensar em comida. Ou em qualquer outra coisa.        
        Ora, por que no?  disse Will, despreocupado, 
examinando o cardpio.  Eles no vo nos servir cerveja, e 
no podemos simplesmente ficar sentados aqui.        
        Como sabemos que aquele cara no est aqui?  Fitch 
estava encolhido, como se quisesse diminuir sua altura.                  
Jack olhou em volta. No viu nenhum homem alto em 
casaco longo, no sentiu nenhuma presena glida e 
ameaadora, mas no seria difcil se esconder naquela 
multido.
        Vocs se importam se eu me juntar a vocs? 
Jack ergueu os olhos, surpreso, e encontrou um par de olhos 
azuis e dourados. O cabelo espetado dourado e prateado de 
tia Linda estava despenteado, e havia a sombra de um 
machucado sobre uma das faces. A jaqueta de brim parecia 
ter sido usada para limpar o cho.
Todos os trs comearam a falar ao mesmo tempo. Linda 
balanou a cabea, os lbios contrados. A garonete havia 
voltado.
        Vejo que encontraram a amiga de vocs  disse ela, 
distribuindo ruidosamente os copos, olhando para Linda 
com cimes.  Prontos para fazer o pedido?
Jack pediu qualquer coisa, observando Linda. Ela se sentou 
de frente para a porta; sempre que esta se abria, levantava a 
cabea.
"Ela est morta de medo", pensou Jack.
Linda inclinou-se para a frente.
        Vocs trs esto bem?  Ela estudou cada um deles como 
se temesse que algum pedao deles estivesse faltando, 
parecendo se sentir to culpada e infeliz que Jack se viu 
desejando fazer algo para que ela se sentisse melhor.  Jack, 
eu vi voc cair...
        Eu estou bem  Jack apressou-se em dizer. Olhou para os 
outros a seu redor.  Vocs esto todos bem, no esto?
        Bom...  Will deu de ombros.  Eu quase molhei as 
calas quando aquele maluco abriu a porta.
        Por que ele atirou na gente?  perguntou Fitch.  Se 
no era da polcia, nem um vigia noturno, por que estava 
rondando por l durante a noite? No tem nada l a no ser 
um monte de velhos registros legais.  Ele fez um 
redemoinho com o gelo em seu copo e olhou para Linda.  
A no ser que estivesse procurando a mesma coisa que ns. 
Como em Tomb Raider.
Linda no disse nada. A garonete deu a volta na mesa, 
distribuindo os pratos  frente de cada um.
        S o que ele precisava fazer era pedir  disse Will.  
Eu teria dado pra ele o Livro de bitos A, sem problemas.
Jack estudou seu sanduche de carne como se fosse algo 
desconhecido e no comestvel. Fitch brincava com a 
comida, e Linda ignorou o que estava em seu prato 
enquanto bebia uma segunda cerveja direto na garrafa. Will 
era o nico que parecia com fome.
Voc acha que ele estava s tentando nos assustar?
 perguntou Jack, sentindo o ferimento em suas costas 
latejar.  Ou ele viria aqui atrs de ns?
        Aqui ele no vir  disse Linda, mexendo distrada em 
uma unha quebrada.  Ele sabe que no encontramos nada 
ainda. E agora ele sabe que tudo o que ele tem a fazer  me 
seguir.  Com isso, ela fechou a boca, como se percebesse 
que j havia falado demais.
Jack deixou cair os talheres no prato com um rudo alto.
        Ento voc sabe quem era aquele cara?  Mais e mais ele 
fazia perguntas cujas respostas ele j sabia.
        Sim. Eu sei quem ele . Mas eu no esperava que ele fosse 
vir at aqui.  Ela olhou para Fitch e Will.  Se eu 
soubesse, nunca teria trazido vocs dois.
"E quanto a mim? Eu sou dispensvel, ento?", Jack se 
perguntava, oscilando entre a raiva e a perplexidade.
Os alto-falantes retumbavam com o rock enquanto as 
pessoas lotavam o Caf Pssaro Azul. Algum abriu porta 
quando o lugar comeou a esquentar. Linda olhava o tempo 
todo para a porta aberta.
        Ele est l fora?  perguntou Jack. 
Linda fez que sim com a cabea.
        No muito longe, de qualquer maneira. O lance  o 
seguinte  disse ela como se continuasse a conversao 
anterior: estou procurando por uma... uma relquia de 
famlia. Tinha esperana de encontr-la neste fim de 
semana. Ele deve estar procurando por ela tambm. Ou ele 
seguiu as pistas at Coal Grove por intermdio da genealogia 
de Susannah, ou me seguiu at aqui. E se ele me seguiu...
Ela se calou. Estava olhando para Jack. Ele se mexeu no 
assento, desconfortvel.
Will devorou o ltimo pedao de sanduche.
        E que arma era aquela que ele usou?
        No sei  disse Linda.  Eu... eu no cheguei a ver 
nada.
"Ela est mentindo", pensou Jack.
        Por que a gente no volta simplesmente para casa?  
sugeriu Fitch.  Ele no pode ficar por aqui para sempre. A 
gente sempre pode voltar outro dia.
Linda balanou a cabea.
        O fato de ele estar aqui pode significar que j  tarde 
demais. No podemos correr o risco de que ele encontre a 
relquia antes de ns.  Ela encarou cada um deles.  
Tenho de encontrar a relquia neste fim de semana ou corro 
o risco de perder tudo.
        Ento, qual  o nosso prximo passo?  perguntou Fitch.
        No h nenhum prximo passo para vocs dois  disse 
Linda.  Vou levar vocs para o hotel e vo ficar l at que 
tudo tenha terminado. Eu... eu nem sempre planejo bem as 
coisas...  ela voltou o olhar para as prprias mos.  Foi 
um erro envolver vocs. No vou pr vocs em risco de 
novo.
        E quanto a mim?  perguntou Jack, percebendo que mais 
uma vez havia sido excludo.
Ela no era capaz de encar-lo.
        Se eu conseguir encontrar a relquia, vou precisar da sua 
ajuda, Jack. Tenho algumas informaes internas que vo 
nos ajudar.  s que... no sei como faremos para despistar o 
cara. E se ele nos vir juntos...
Fitch apoiou o queixo nas mos.
        Talvez a gente possa ajudar.
Linda inclinou-se em direo ao centro da mesa.
        Vocs no conhecem eles  murmurou ela.  Isto no 
 um jogo.
Jack jamais vira a tia, sempre to irreverente, parecer to 
sria.
        Escute s  insistiu Fitch  voc disse que esse cara vai 
seguir voc. Assim, voc no vai encontrar nada sem que 
ele fique sabendo.
Tia Linda assentiu com cautela.
        Mas ele provavelmente no conseguiu nos ver muito bem 
no tribunal  continuou ele.  E ele  s um. Aposto que, 
se tiver de escolher, vai seguir voc.  o que eu faria  
admitiu ele, corando um pouco.
        O que voc tem em mente?
        E se voc o atrair para longe daqui enquanto ns trs 
procuramos pela... coisa?  disse Will.  Se ele estiver 
seguindo voc, no vamos estar em perigo.
        Talvez a gente deva mesmo se dividir agora  disse 
Linda, cedendo.  Se eu levar vocs para o hotel, podemos 
ser seguidos. O prximo lugar aonde precisamos ir  a 
biblioteca. Deve ser seguro o suficiente.
Jack no gostou disso. Linda conhecia o homem do tribunal 
e estava com medo dele.
        No quero aquele cara seguindo voc por a. Acho que a 
gente devia ficar junto.
Ela deu de ombros.
        Ele me seguiria de qualquer maneira. No h nada que eu 
possa fazer a respeito. E, se voc estiver comigo, vai estar 
em perigo.  Era bvio que ela no os considerava grande 
proteo contra o que quer que a esperasse l fora.
        Quo importante  que voc... vena?  perguntou Jack.
        Vencer  tudo.  Ela olhou para ele e repetiu:  Tudo.
Algo no jeito como ela o disse levou Jack a se perguntar se 
essa misso desesperada tinha algo a ver com ele.
O plano foi arquitetado  mesa surrada no fundo do Caf 
Pssaro Azul. Tia Linda entregou a Jack um mao de notas, 
um carto de crdito e o nmero de confirmao da reserva 
do hotel. O hotel ficava na rodovia, e eles teriam de chegar 
l por conta prpria. Linda achou que o retorno dos rapazes 
ao Land Rover no seria uma boa idia, se quisessem evitar 
atrair a ateno do estranho l fora. Will ps o celular e o 
caderno de tia Linda no bolso interno da jaqueta. Ela havia 
rabiscado algumas instrues l dentro. Fitch carregava duas 
das lanternas. Quando tudo estava combinado, ela chamou o 
garom. A voz dela assumiu um sotaque local.
        Sabe o que ?  disse ela ao garom, com a voz 
carregada de charme.  Meu ex-marido est l fora 
esperando no estacionamento, e estou com medo que possa 
haver problemas. Ele me seguiu a noite inteira. Estou com 
medo que haja uma discusso, e no quero meus filhos 
envolvidos nisso.
O garom assentiu, compreensivo. Era um homem 
grandalho de tez avermelhada, ombros largos e mos 
grossas. Se achou que a famlia dela tinha uma aparncia 
peculiar, ele no disse nada.
        Ser que eles podem sair pelos fundos?  continuou 
Linda.  A cozinha tem uma sada pra fora?
O homem assentiu novamente.
        Sem problemas. Sei como so essas coisas. Tambm 
tenho uma ex-mulher.  Ele indicou com a cabea uma 
porta nos fundos em que estava escrito TOALETES.  V 
por ali e siga sempre em frente. Tem uma porta que leva 
para o beco.
        Muito obrigada  disse Linda.  Se voc no se 
incomodar, acho que vou ficar por aqui um pouco at ter 
certeza de que eles esto a salvo longe daqui.
        Sem problemas  disse o garom, solcito. 
Jack e seus amigos levantaram-se da mesa.
        Tenham cuidado!  disse Linda ao v-los partir. 
        Jack olhou para trs. A tia parecia to pequena e 
vulnervel sentada sozinha  mesa.
Eles empurraram a porta de vaivm no fundo do restaurante 
e se viram em um corredor dilapidado, com piso de linleo 
e toaletes em ambos os lados. Havia uma outra porta bem no 
fundo, sob uma placa de sada.
A porta dava para um beco entre duas grandes caambas. A 
msica do bar parecia irritantemente alta quando abriram a 
porta. Fecharam-na rapidamente atrs de si e permaneceram 
junto s caambas por algum tempo. Ningum apareceu. 
Ento, como fantasmas, os rapazes se esgueiraram pelo beco 
at a rua adiante.
        Com licena.
O recepcionista noturno estava empoleirado num banco 
atrs do balco, entretido com um minigame. Parecia ter uns 
vinte e poucos anos, magrelo, com um suprimento generoso 
de acne ps-adolescente. Depois de dar uma olhada rpida 
em Jack e seus companheiros sem demonstrar interesse ou 
curiosidade, retornou ao jogo, que tocou uma musiquinha 
quando ele avanou para a fase seguinte.
Jack pigarreou e repetiu:
        Com licena.
        Humm?  Desta vez ele no levantou os olhos da tela. O 
nome no crach dizia "Stan".
        Temos uma reserva. Em nome de O'Herron  insistiu 
Jack.
Finalmente, Stan ficou sem vidas, e o jogo chegou a um fim 
sbito e trgico. Com relutncia, ele o desligou e voltou sua 
ateno a Jack.
        No alugamos para adolescentes  disse ele 
abruptamente. Tomou um longo gole de uma lata de 
refrigerante.   melhor irem para casa, meninos.
        A reserva est em nome da minha tia  continuou Jack, 
passando-lhe o carto de crdito e o pedao de papel com o 
nmero de confirmao por cima do balco.  Ela vem 
mais tarde.
Por que tia Linda tinha um carto de crdito com o nome 
O'Herron? Por algum motivo, no havia pensado em 
perguntar a ela.
Stan olhou para o carto com desconfiana.
        Sei, e cad essa sua tia agora?
        Ela, ahn, ela encontrou algum num bar na cidade. Disse 
que ia ficar l um pouco mais, mas eu e meus primos... a 
gente estava ficando cansado.  Jack reprimiu um bocejo. 
 Ento ela nos disse pra vir na frente.
Will e Fitch bocejaram tambm.
Stan balanou-se no banco, cruzando os braos sobre o 
peito, o retrato da teimosia. Bem naquela hora, o telefone 
tocou. Mantendo agora toda sua ateno ao trio que tinha  
frente, Stan atendeu e escutou por um instante.
        , eles esto aqui  respondeu Stan a algo dito pela 
pessoa do outro lado da linha , mas acho que no posso 
fazer o registro deles sem a sua presena.  Subitamente, 
ele no parecia to seguro de si.
Ele escutou por um instante, sacudindo a cabea como se ela 
estivesse l para ver o gesto, ento disparou em um dbil 
protesto:
        Senhorita O'Herron, eu acho melhor vir aqui e fazer o 
registro...  comeou ele, mas em seguida parou, escutando 
de novo.  Bom, acho que sim, se a senhorita estiver aqui 
em algumas horas...  Escutou um pouco mais, engolindo 
rpido, o pomo de Ado subindo e descendo.  Claro, 
qualquer coisa que eu puder fazer por voc, meu amor, voc 
sabe.  Enfim, com relutncia, Stan desligou o telefone: 
outra vtima do misterioso charme de tia Linda.
        Muito bem, acho que no h problema em deixar vocs 
esperarem por sua tia no quarto  disse Stan, subitamente 
gentil. Jack teve a sensao de que Stan ficaria por ali bem 
alm do fim do turno dele, esperando que Linda chegasse. 
 Vocs tm alguma bagagem?
        Nossa tia est com o resto das nossas coisas  explicou 
Fitch.
Eles foram guiados escada acima at uma passagem no 
segundo andar, do lado oposto do hotel em relao  
recepo. O quarto tinha o aspecto confortvel de uma casa 
de programa de habitao popular: duas camas de casal com 
cabeceiras que imitavam madeira, copos plsticos no 
banheiro. Havia um fedor persistente de fumaa de tabaco e 
queimaduras de cigarro no carpete. Eles tentaram ligar a 
televiso, mas no havia cabo, e a recepo era ruim. No 
havia muito mais a fazer, ento eles se despiram e foram 
para cama.
        O que voc acha que a sua tia est procurando?  Era a 
voz de Will na escurido.
        No fao idia  disse Jack. Tia Linda partilhava 
informaes em doses mnimas e miserveis. Ele se 
perguntava onde ela estaria naquele momento, e se o 
homem do tribunal a estava seguindo. Deu-se conta de que 
estava com os punhos cerrados sob o lenol e se forou a 
relaxar os dedos. Agora que parara de se mover, as costas 
haviam se enrijecido. Mudou de posio, tentando ficar 
confortvel sobre o colcho impiedoso.
        No entendo. Por que vocs querem se envolver nisso?
        J estamos envolvidos, no estamos?  observou Fitch.
        Eu posso ir  biblioteca sozinho  sugeriu Jack.  Eu sei 
o nome das famlias. Vocs podiam ficar por aqui. Talvez 
seja melhor se no nos virem juntos.
        Talvez seja mais seguro ficarmos juntos  disse Will.
Jack ergueu-se sobre um cotovelo.
        Eu posso chamar a minha me. Ela poderia vir nos 
buscar em algumas horas. A gente se livraria disso agora 
mesmo.
A idia de explicar tudo isso a Becka o deixava deprimido. 
Ele talvez nunca visse Linda de novo, a no ser em curtas 
doses supervisionadas.
        Voc deixaria Linda aqui sozinha?  Will soou 
escandalizado.
        Aquele homem est atrs dela  acrescentou Fitch.  
Ela est com medo. A gente deve ajudar, se puder.
"Ela os encantou", pensou Jack. "Assim como ela fez 
comigo, a vida inteira."
        Olha, eu sei que vocs querem ajudar a donzela em 
apuros, mas vocs j pararam para pensar que vocs podem 
se machucar? E, se ela  inocente, por que ela no nos conta 
o que est acontecendo? Por que ela no chama a polcia?
        Talvez a polcia no possa ajudar.  Fitch estava 
claramente lutando para encontrar um sentido em meio 
quele caos.  Eu no ia querer ter de lutar com aquele cara 
do lana-chamas.
        Pelo menos a polcia tem armas. O que acha que o cara 
vai fazer quando descobrir o que estamos tramando?
Eles no tinham muito a argumentar contra isso. Houve um 
longo silncio desconfortvel que no foi rompido at que a 
respirao regular dos outros dois fez Jack perceber que 
estavam dormindo.
Jack deitou-se de costas, fitando o teto de gesso falso. O 
sono parecia distante. Tia Linda era a madrinha dele, mas 
havia algo mais forte entre os dois, algum vnculo gentico e 
espiritual que ia alm da cerimnia do sacramento. Ele no 
conseguia se livrar da sensao de que ela o trouxera junto 
por algum motivo, que essa relquia que ela estava caando 
tinha algo a ver com ele.
Mas no era s isso. Ele sentia o perigo se aproximando, 
chegando mais perto a cada respirao. Puxou o fino lenol 
at o queixo. O hotel parecia uma frgil casca de ovo, um 
dbil escudo contra as trevas. E Jack temeu que todos os 
seus parentes e amigos no fossem suficientes para salv-lo.

Captulo Quatro
Sombra Assassina

O esqueleto da casa era firme. Fora construdo com rochas 
irregulares extradas do prprio terreno e ainda estava em 
p, pedra sobre pedra, aps anos de abandono. Mas o 
esqueleto era s o que restava. O telhado, a varanda e as 
partes de madeira haviam apodrecido, revelando uma beleza 
nua e em decomposio. Um conjunto de pedras na parede 
junto  entrada tinha a inscrio A. Hastynges, 1850. Os 
vestgios das outras construes estavam quase obscurecidos 
pelos arbustos: um celeiro, talvez, um galpo, os restos de 
uma parede de pedras.
Linda estremeceu, passando os braos ao redor do prprio 
corpo. No havia sido difcil encontrar de novo esse lugar de 
antigas tragdias. Lee a havia levado ali certa vez, ao tentar 
explicar-lhe quem ele era. Ela correu as mos pelas pedras 
frias, aveludadas pelo musgo, e parou no local onde havia 
sido a entrada, o olhar voltado para o grande rio. Podia v-lo 
cintilar na luz das primeiras horas da manh, alguns 
quilmetros ao sul.
Ela havia atrado o mago em uma extensa perseguio, ao 
longo de estreitas estradas tortuosas nas montanhas, rumo s 
interestaduais, fazendo um grande crculo em torno do 
condado de Coalton, sem ficar muito distante de Jack. 
Conhecia a regio melhor do que o perseguidor e evitou 
quaisquer armadilhas que ele tivesse preparado para ela. At 
aquele momento.
Ela circulou as runas, atravessou o mato novo atrs da casa, 
reconhecendo os restos de um requintado jardim, os caules 
de velhas rosas, queimados pelo inverno, apoiados contra as 
fundaes das velhas paredes. As folhas dos bordos 
vermelhos ainda jaziam como sangue no solo. Caminhou de 
volta  frente da casa.
 Uma flor delicada entre as runas.  A voz era como o 
murmrio de folhas mortas.
Ela parou onde estava como um animal assustado, um grito 
preso na garganta.
Ele estava l, no jardim da frente, alto e magro, barbudo, 
vestindo um longo casaco, sem chapu, reluzindo de tanto 
poder. "Wylie", pensou ela, o nome voltou-lhe como se 
viesse de uma vida passada. Ela jamais o encontrara, mas 
havia conhecido muitos como ele. Ela tentou se retrair, 
esconder quem era, sabendo que j era tarde demais. 
Embora a apario dele no fosse inesperada, ele a pegara de 
surpresa.
Ele sorriu, um rearranjo lento e sugestivo do rosto. Ela no 
disse nada, com medo de que a voz a trasse.
        Diga-me, quem manda uma encantadora fazer o trabalho 
de um mago?
Ela sacudiu a cabea sem dizer uma palavra. Ele a alcanaria 
em trs passos, se no a deixasse sem sentidos primeiro.
        Qual  o seu nome? Quem  o seu responsvel? Ele  da 
Rosa Branca?
Um pergunta atrs da outra, rpido demais para que ela 
respondesse, mesmo que quisesse. Ele no esperava 
respostas. Se ela estivesse sob o controle de um mago, ele 
teria de lhe arrancar essa informao a fora.
Ento Wylie no sabia quem ela era. Provavelmente havia 
seguido a pista da espada de algum outro jeito. J era alguma 
coisa, mas no serviria para nada se ele a apanhasse.
        A espada est por aqui em algum lugar?  indagou ele. 
 Esta  a propriedade dos Downey?
Ela sacudiu a cabea em silncio. Dizendo a verdade, de 
fato.
        Eu perguntei sobre a espada  murmurou ele.   
melhor cooperar, se no quiser que eu a machuque. Caso 
contrrio...  Flexionou os dedos, e chamas subiram-lhe 
pelas mos e braos.  Vou arrancar suas penas, passarinho. 
Vou remover suas ptalas, uma por uma, e fazer voc gritar. 
Termos afetuosos tpicos dos magos.
Ela no disse nada.
        Primeiro conversamos, depois brincamos. Faz muito 
tempo desde que tive... o prazer...
Ele se moveu suavemente em direo a ela, um predador 
experiente. Entretanto, assim que a bota pousou sobre o 
jardim, ele ficou rgido e caiu para trs com um espasmo, 
levando a mo ao rosto e se arranhando. Tombou de costas 
sobre os arbustos, contorcendo-se de dor, berrando como se 
estivesse sendo esfolado vivo. Ela o viu rolar desesperado na 
sujeira e, finalmente, entendeu o que ele estava dizendo.
        Me ajude, encantadora! Tem um feitio de proteo! Me 
tire daqui!
        V pro inferno, mago  replicou ela.
Linda no ousou ficar para ver o resultado da armadilha que 
preparara. No tinha idia de quanto tempo a antiga magia 
resistiria. Virou-se e correu declive abaixo at a estrada de 
terra onde o Land Rover a esperava, atrs de um trailer. 
Outro carro, um cup cinza comum, estava estacionado bem 
ao lado.
Ela atirou-se no banco do motorista do Rover e enfiou a 
chave na ignio com mos trmulas. S aps vrias 
tentativas conseguiu dar a partida. Engatou a primeira 
marcha, girou o volante e desceu, velozmente e aos 
solavancos, pela rua esburacada que levava  auto-estrada. 
Quando olhou pelo espelho retrovisor, no viu ningum a 
seguindo.

A Biblioteca Regional de Coal Grove ficava em um prdio 
imponente de tijolos vermelhos que havia sido um dia uma 
escola. Ficava na praa em frente ao tribunal, a meia hora de 
caminhada do hotel. Como era sbado de manh, a 
biblioteca j estava cheia quando eles chegaram. Uma 
mulher com aparncia maternal  mesa da recepo 
indicou-lhes o caminho para a seo de genealogia nos 
fundos.
Um homem vestindo uma camisa de trabalho azul, cala 
jeans e botas de caubi estava sentado a uma grande mesa 
junto  coleo de genealogia. Uma montanha de livros 
espalhava-se  sua frente, e ele estava ocupado digitando 
notas em um laptop. Um cabo de extenso cor-de-laranja 
brilhante serpenteava pelo cho e por trs de uma estante.
        Cuidado com o cabo, meninos  disse ele, empurrando 
os livros para liberar espao na mesa para que eles pudessem 
se sentar.
Jack tirou o caderno de tia Linda da bolsa e o ps sobre a 
mesa. Os trs entreolharam-se, sem saber o que fazer.
O estranho ergueu os olhos do teclado.
        Qual  o problema? No sabem por onde comear?
        No  disseram os trs juntos.
        Ora, eu acho timo ver jovens se interessando por 
genealogia  disse o homem, sorrindo.  Eu mesmo s 
comecei quatro ou cinco anos atrs. Que nomes vocs esto 
procurando?
        Ahn, Taylor  disse Jack rapidamente.
        Hmmm, Taylor, Taylor...  Os dedos voaram pelo 
teclado.  Tenho um Ransom Taylor aqui, nascido em 
1830.  esse?
        No sabemos  respondeu Fitch, dando de ombros.  
Somos novos nisso. Ahn, ser que voc pode nos explicar 
sobre os livros aqui?
        Claro.  O homem ps-se em p de imediato, parecendo 
ansioso em compartilhar o que sabia.  De onde vocs so?
        Erie, na Pensilvnia  falou Fitch de novo. 
O homem assentiu.
        Bem, aqui vocs tm livros com a histria dos condados, 
a maior parte dos condados do sul de Ohio e alguns da 
Virgnia do Oeste. Esta regio de Ohio fazia parte da 
Virgnia, vocs sabem. Aqui  ele arqueou o brao 
vagamente ao longo das pilhas  esto os dados de 
recenseamento. Eles tm registros de recenseamento em 
microfilme de 1830 at 1920 nestes armrios. Os dados de 
estatstica vital esto nestas prateleiras de metal: casamentos, 
nascimentos, mortes e registros de cemitrios.
        Registros de cemitrios?  repetiu Will, interessado.
        Isso, a sociedade genealgica do condado tem estudado os 
cemitrios e copiado as lpides h anos. Esto quase 
terminando. O nico problema  que no foram catalogados 
ainda.
        Aqui tem jornais antigos?  perguntou Jack, correndo as 
mos pelos livros de registros de cemitrios. Havia trs 
grossos volumes. Ao que parecia, tinham muito trabalho 
pela frente.
O benfeitor deles confirmou.
        Temos o Telegrama Postal e o Democrata de Coal Grove 
em microfilme, desde meados de 1850. Esses tambm no 
foram catalogados, mas  uma leitura bem interessante.
Fitch tinha um plano.
        Muito bem  disse ele, fazendo um gesto de cabea para 
Jack e Will.  Will e eu vamos cada um pegar um desses 
livros de cemitrio e comear a procurar pela sua... ahn... 
por nossos parentes mortos. Jack, voc examina os jornais 
em microfilme e v se encontra um obiturio ou coisa 
assim.
Jack escolheu um rolo de microfilme do Telegrama Postal. 
Susannah Downey morrera em maio de 1900. Ele rolou o 
filme para a frente at chegar em maio de 1900, e varreu 
cuidadosamente com os olhos cada pgina do jornal 
buscando qualquer referncia ao falecimento dela. Aps 
quase uma hora lendo histrias sobre quem visitou quem e 
quem andava adoentado, Jack passou do Telegrama Postal 
para o Democrata de Coal Grove. E l estava.
        Vejam isso!
Os rapazes amontoaram-se ao redor de Jack, lendo por cima 
do ombro dele. Era um texto de notcia: "SRA. DOWNEY 
MORRE AO CAIR DE CAVALO. Os vizinhos em Coal 
Grove ficaram chocados ao saber da morte inesperada da 
senhora Susannah Downey, natural do municpio de 
Munroe, que morreu ao cair de um cavalo no domingo 
passado. Lee Hastens, um visitante no municpio, 
encontrou-a cada no bosque atrs da fazenda da famlia  
noite. O cavalo estava por perto, espumando, como se o 
tivessem feito cavalgar em alta velocidade por uma longa 
distncia. Embora conhecida por ser uma amazona 
habilidosa, a senhora Downey caiu contra a estaca de uma 
cerca. Um corte profundo no peito foi a causa da morte. O 
reverendo Eugene Crter presidiu o servio fnebre na 
Primeira Igreja Metodista. A senhora Downey deixa marido 
e um filho pequeno."
        Uau  murmurou Will.  Que jeito de morrer. 
Jack havia visto fotos da tatarav coloridas  mo no velho 
ba no sto. Ela havia sido fotografada com o marido, que 
parecia severo e solene. Susannah, porm, parecia prestes a 
cair no riso. Era linda, com pesados cabelos loiro-
avermelhados enrolados sobre a cabea, mos pequenas e 
graciosas e traos delicados. Havia uma forte semelhana 
entre a mulher da fotografia e a bisneta, Becka.
Fitch apertou o boto de imprimir na mquina de 
microfilme.
        Diz a onde ela foi enterrada?  perguntou Jack.
        No  respondeu Fitch , mas diz que ela morava no 
municpio de Munroe. Os cemitrios no esto listados por 
municpio?
Will consultou o ndice do livro que estava examinando e 
abriu-o nas ltimas pginas.
        H oito ou dez cemitrios no municpio de Munroe -
relatou ele.  A maioria deles parece ser pequena.
        Correu o dedo pgina abaixo.  Aqui! Susannah
Downey, esposa de Abraham. De 1868 a 1900.  no velho 
cemitrio metodista.
Estavam falando cada vez mais alto e, de repente, Jack 
percebeu que o homem com botas de caubi havia 
levantado a cabea da mquina de microfilme que estava 
usando e escutava com interesse a tudo o que diziam. Jack 
lanou um olhar de aviso aos amigos e voltou-se para o 
livro.
        Espere a um minuto!  disse ele.  Essa no pode ser 
ela. As datas esto todas erradas. Ela teria de ter vivido muito 
antes disso.  Virou-se subitamente para o homem com o 
laptop.  E se uma pessoa no estiver no livro de 
cemitrios? Desde quando so feitos registros de bito?
O homem sacudiu a cabea.
        No antes de 1867, que  quando o Estado comeou a 
exigir que os condados mantivessem registros. Talvez haja 
um registro estadual no tribunal, mas isso seria pouco 
comum no caso de uma mulher. Vocs j estiveram l?
Havia um brilho de interesse no olhar do homem ao fazer 
aquela pergunta?
        No  disse Fitch.  Pensamos que qualquer coisa to 
antiga assim estaria na biblioteca.
        Aqui no tem nenhum registro original  indicou o 
homem.  Apenas catlogos e registros transcritos. Vocs 
deveriam tentar o tribunal, embora eles no abram no fim 
de semana. Vo ficar aqui at segunda?
        Provavelmente, no  respondeu Fitch.  Temos de 
voltar pra escola, a menos que a gente consiga convencer 
nossa me a nos deixar cabular a segunda. Ela est com a 
nossa tia Fran  acrescentou ele.  Conhece Frances 
Dunlevy, que trabalha na lavanderia do lado da mercearia na 
praa?
Jack fitou Fitch com surpresa.
        Claro que conheo a Fran  respondeu o homem, 
confirmando com a cabea.  Foi minha colega de escola 
no segundo grau, na verdade.
A essa altura, Will tinha copiado a informao do livro de 
cemitrios em seu caderno. Fitch levantou-se abruptamente.
         melhor a gente ir. Dissemos  mame que estaramos 
de volta s trs  disse ele.  Vamos traz-la aqui amanh. 
No estamos chegando a lugar algum assim.
Ele rebobinou o microfilme, tirou o rolo da mquina e o 
colocou de volta na caixa. Will e Jack hesitaram, mas Fitch 
continuava arrumando rapidamente as coisas para sair. 
Agora absolutamente convencido de que o homem com 
botas de caubi os estava vigiando, Jack devolveu os livros 
de cemitrios  estante, e Will guardou o caderno de volta 
na bolsa.
        Meu nome  Sam Hadley  disse o caubi, entregando-
lhes um carto.  Sou genealogista autorizado e fao 
pesquisas por encomenda. Digam  sua me que pode entrar 
em contato comigo por intermdio da biblioteca, se achar 
que precisa de ajuda.
        Certo  replicou Jack.  Obrigado pela ajuda. E boa 
sorte com a sua pesquisa.
Eles pagaram pela cpia que fizeram no balco da recepo. 
Fitch apontou com a cabea o banheiro masculino, que 
ficava junto  porta da frente. Os trs entraram no banheiro. 
Os dois compartimentos l dentro estavam vazios.
        O que voc pensa que est fazendo?  perguntou Will 
assim que a porta se fechou.  Por que tivemos de sair com 
tanta pressa? A gente podia ter perguntando quele tal de 
Hadley como chegar ao cemitrio metodista. E por que voc 
estava inventando todas aquelas histrias? Estava com medo 
de que algum comeasse a nos interrogar?
Fitch removeu os culos com calma e limpou-os com papel-
toalha.
        O negcio  o seguinte  disse ele.  Alguma coisa no 
est certa. O cara disse que conhecia nossa tia Fran. No 
existe nenhuma Frances Dunlevy. Por que ele diria que a 
conhece quando no  verdade?
Will deu de ombros.
        Vai ver ele  uma dessas pessoas que querem que os 
outros achem que elas conhecem todo mundo.
        E se ele for o cara do tribunal?  sugeriu Fitch. 
Jack comparou a figura alta, magra e implacvel na escadaria 
com a estatura corpulenta de Sam Hadley.
        No. A no ser que ele seja algum tipo de meta-morfo.
Todos riram, nervosos.
        Sem dvida ele parecia muito interessado no que a gente 
estava fazendo  disse Fitch, pensativo.  Se bem que esse 
pessoal de genealogia adora falar sobre esse tipo de coisa. 
Fico imaginando quanto ser que ele ouviu do que a gente 
estava conversando.
Jack deu de ombros.
        No h nada que se possa fazer agora. Vamos ver se a 
gente consegue algum pra informar onde fica esse 
cemitrio.
        O livro informava a localizao de cada cemitrio  
lembrou Will. Puxou o caderno da bolsa e virou 
rapidamente as pginas.  Fica na Estrada da Capela 
Metodista.  Assumiu um ar de sbio.  Faz sentido.
        Vamos indo.  Jack apontou para a porta do banheiro 
com a cabea.
Abriram a porta bem a tempo de ver o homem com botas de 
caubi passar apressado, o laptop pendurado no ombro. Eles 
encolheram-se de volta no banheiro e viram-no sair pela 
porta da frente da biblioteca. Jack correu at uma das janelas 
que davam para a frente do prdio. Um Mercedes preto 
estava estacionado em uma das vagas em frente  biblioteca. 
O homem abriu uma das portas de trs, jogou o laptop no 
banco traseiro e entrou no carro, instalando-se ao volante. O 
carro deu a r e disparou em velocidade pela rua, 
desaparecendo ao contornar uma esquina.
Fitch e Will estavam logo atrs de Jack.
        Acho que no era um carro da regio  observou Fitch. 
 Estava com uma pressa danada.
E se o cara ouviu tudo e est indo para o cemitrio agora 
mesmo?
Tia Linda nos disse para descobrir onde Susannah 
Downey foi enterrada e que ento ela nos telefonaria com 
mais instrues  replicou Jack.  Ele teria de saber mais 
do que ns.
        Isso  bem possvel, j que a gente no sabe quase nada 
 resmungou Will.
Eles entreolharam-se, aborrecidos. Fitch virou-se sem uma 
palavra e voltou para dentro da biblioteca. Parou junto ao 
balco da recepo e falou com a senhora idosa que ali 
estava. Voltou trazendo um pedao de papel.
        Ela me disse como chegar no cemitrio metodista  
anunciou ele.  Acho que no  longe.
Will arreganhou os dentes.
        A bibliotecria est provavelmente em conluio com o 
caubi  disse ele.  Ela e toda a cidade. Vo todos nos 
esperar no cemitrio com serras eltricas. Como num filme 
de terror.
        Talvez.  Fitch enfiou o papel no bolso das calas.  
Mas vo levar algum tempo pra isso. Eu perguntei sobre 
cinco cemitrios diferentes. Isso deve retardar ou dividir os 
caras, no mnimo. Vamos ter de esperar at que anoitea, de 
qualquer jeito, se vamos desenterrar defuntos.  Ele sorriu, 
mas havia pouca alegria no sorriso, apenas aquela famosa 
persistncia de Fitch.
"Quem sabe? Com tudo o que j aconteceu, essa bem pode 
ser a nossa tarefa", pensou Jack.
O sol se escondera enquanto estavam na biblioteca, 
tornando o clima mais frio. O vento ganhara fora tambm. 
Jack lembrou-se com saudades da jaqueta quentinha que 
havia deixado no carro de tia Linda. O que o lembrou de 
outra coisa.
O frasco do remdio estava ainda na traseira do Land Rover. 
Havia deixado, mais uma vez, de tomar uma dose pela 
manh. Jack revirou os olhos. Becka cairia em cima dele se 
soubesse que tinha ficado sem remdio duas vezes na 
mesma semana.
"No importa", disse ele a si mesmo. No foi nenhum 
problema da ltima vez, no vai ser problema desta tambm. 
No havia o que fazer. A vida parecia estar ficando mais 
complicada.
Em todo caso, sentia-se bem. Incrivelmente bem, como se 
antes estivesse vendo o mundo atravs de uma lente 
embaada e agora o vu tivesse sido removido. O dia parecia 
cheio de possibilidades, um presente a ser aberto. No pde 
conter um sorriso.
A voz de Will interrompeu-lhe os pensamentos:
        O que faremos agora?
Jack olhou para o relgio. Ainda tinham muitas horas de luz 
do sol pela frente.
        A gente vai precisar de algumas coisas. Ps, lanternas, 
agasalhos, coisas assim.
        Vamos at ali.  Fitch apontou para a fachada de uma loja 
no outro lado da praa.
Um cartaz desbotado anunciava: EXRCITO E MARINHA 
DO BICK. Abaixo, lia-se: ARMAS, MUNIO, 
CAMUFLAGEM, ROUPAS, ISCAS, LICENAS DE CAA. 
Parecia perfeito.
        Vamos fazer compras  disse Jack.

Os rapazes estavam matando tempo no Caf Pssaro Azul, 
alimentando a jukebox e flertando com a garonete por 
sobre uma segunda leva de sobremesas. Estavam fortalecidos 
pela comida da taberna e vestidos para batalha. Jack vestia 
uma camiseta de mangas compridas e uma blusa preta com 
capuz sobre o colete da Mercedes. Will escolhera um colete 
impermevel cheio de bolsos, e Fitch parecia um soldado 
punk urbano com uma jaqueta camuflada, uma corrente 
com placas de identificao militar e pesadas botas. As bolsas 
de viagem no cho continham lanternas e ps.
O celular tocou; Jack tateou os bolsos at encontr-lo. 
Atendeu.
Linda no perdeu tempo com gentilezas.
        Vocs esto bem? Descobriram alguma coisa hoje?
        Sim  respondeu Jack s duas perguntas, os olhos nos 
dois amigos.  Temos uma localizao. O velho cemitrio 
metodista.  Num reflexo, olhou em volta. No havia 
ningum perto o bastante para escut-los, especialmente 
dado o volume da msica.  No sabemos onde no 
cemitrio, mas parece que ele  pequeno. Sabemos como 
chegar l.
        timo.  Ela soou aliviada.  Viram algum suspeito? 
Algum seguindo vocs?
Jack hesitou. Afinal, no tinham nenhuma evidncia 
concreta de que o caubi estava tramando algo. 
Provavelmente estavam s sendo paranicos. S que...
        Havia um... um genealogista na biblioteca que pode ter 
nos escutado falando sobre o cemitrio.
Linda emitiu uma exclamao de irritao e medo.
        Qual era a aparncia dele?
        Gordo. Careca. Botas e camisa de caubi. Ele parecia saber 
um bocado sobre genealogia. Tinha um carto de visitas e 
tudo. Ele nos ajudou a achar as coisas na biblioteca.
Houve um breve silncio.
        Certo  disse ela enfim, como se a descrio a tivesse 
acalmado.  Mas no viram o homem do tribunal? Nem 
ningum... parecido com ele?
Era uma coisa estranha, mas por algum motivo Jack sabia 
exatamente o que ela queria dizer. No, Sam Hadley no era 
como o homem do tribunal.
        No  disse ele.  No o vimos. O que voc andou 
fazendo?  J havia decidido no mencionar o remdio. 
No adiantaria em nada preocup-la.
        Estive viajando por a  disse Linda de maneira evasiva. 
A voz dela soava frgil, sem flego, quase descontrolada.
        Qual  o problema?  indagou Jack.  Aconteceu 
alguma coisa?
        S estou cansada. Estive acordada a noite toda, dirigindo 
por todo o sul de Ohio. Nosso amigo est me seguindo.
        Voc no pode parar num hotel e se entocar por l, 
dormir um pouco? Ele no vai incomodar voc se houver 
um monte de pessoas por perto. No foi o que voc nos 
disse?
Ele queria palavras de encorajamento e foi isso que ela lhe 
forneceu, mas no rpido o bastante para soar convincente.
         uma boa ideia  disse ela, com hesitao.  Talvez eu 
faa isso. Onde vocs esto?
        No Pssaro Azul  disse Jack.  Esperando escurecer.
        Tenham cuidado. Eu... eu gostaria de poder ir com vocs 
ao cemitrio, mas estou ainda a umas duas horas de 
distncia, perto do rio. Acho... que o despistei, mas no 
tenho certeza.  Ela fez uma pausa.  Se ele no me 
encontrar, talvez v atrs de vocs. Se vocs desconfiarem 
de qualquer coisa, por menor que seja, quero que os trs 
voltem para o hotel e esperem at eu voltar. Se eu no 
estiver de volta at o meio-dia de amanh, telefonem para 
Becka.
Jack no gostou nada daquele tom. Houve uma longa pausa, 
mas quando ela voltou a falar, foi em um tom de voz 
pragmtico.
        Agora oua com ateno. Vou dizer apenas o que voc 
precisa saber, porque o homem que vimos pode facilmente 
obrigar voc a falar. No conte a Will e Fitch mais do que 
precisar.
        Tudo bem  respondeu Jack, com cautela.
        O objeto que esto procurando  uma arma. Uma espada. 
Pertencia a Susannah. Agora pertence a voc.
        Ah... sei. Certo.
Ele precisou se conter para no repetir as palavras de Linda, 
para no fazer as perguntas que o assaltavam. Por que 
Susannah tinha uma espada? Poderia ser uma arma da Guerra 
Civil, talvez? E por que pertenceria a ele? Susannah morrera 
muito antes de ele ter nascido. Parecia-lhe que Becka ou 
Linda teriam mais direito a ela.
        Deve estar enterrada atrs da lpide, em algum tipo de 
estojo. Preste ateno, isto  importante: a pessoa a abrir o 
estojo tem de ser voc. Ningum mais. Vou lhe dizer o 
feitio que voc vai precisar para abrir o estojo.  Ela fez 
uma pausa, como se esperasse uma pergunta, mas ele no a 
fez.  Est ouvindo, Jack?
Ele fez que sim com a cabea sem pensar, e ento disse:
        Estou.
As palavras soavam como latim, uma msica suave e 
familiar, a verdade por trs de todas as lnguas que sabia. Jack 
as repetiu para ela vrias vezes, at ela ficar satisfeita, 
ignorando Will e Fitch, que o fitavam enquanto ele 
memorizava a frase.
        No vai esquecer?
        No.
        Veja se a espada est l dentro, depois feche e leve o 
estojo com voc para o hotel. Vou buscar vocs l.
        Ahn, tia Linda?  Ele olhou para os amigos do outro 
lado da mesa.  Talvez eu deva ir sozinho.  Era meio uma 
declarao, meio uma pergunta.
Houve um outro longo silncio.
        Talvez voc deva mesmo.
        Eles no vo gostar dessa ideia.
        Deixe-me falar com eles.
Sem dizer nada, Jack estendeu o celular para Fitch, que 
ergueu as duas mos e sacudiu a cabea.
        Pode esquecer, Jack. No vou deixar ela me convencer. 
Eu vou com voc, quer voc queira, quer no.
Will tinha os braos cruzados diante do peito, parecendo 
assustado e, ainda assim, teimoso como uma mula.
        Eles no querem falar com voc. 
Tia Linda suspirou.
        Sinto muito, Jack. Eu no devia ter envolvido seus 
amigos nisso.  Ela fez uma pausa.  Muito bem. Eles 
podem ajudar a cavar. Apenas faam o que tm de fazer 
logo. Voltem para o hotel e esperem. Vou pra l o mais 
rpido que puder. Telefono mais tarde.
Estava bem mais frio quando saram do Pssaro Azul, mas 
Jack mal notou. As preocupaes remanescentes foram 
eclipsadas por uma espcie de euforia. Sentia-se tenso e 
esperto como um gato, cheio de uma energia que parecia 
prestes a extravasar. Os medos do dia anterior haviam sido 
esquecidos. Algo antigo se acendera dentro dele, uma clara e 
poderosa sede de aventuras. Sentia-se invulnervel, como se 
os estranhos e os planos que eles pudessem ter fossem 
irrelevantes. Olhou para os dois companheiros e sorriu. 
Qualquer coisa podia acontecer. E isso parecia bom.
A igreja era uma construo branca e modesta sobre uma 
faixa estreita de terra plana ao longo da estrada, a uns trs 
quilmetros da cidade. As colinas erguiam-se por trs dela, 
um denso e negro nada contra o cu mais luminoso. O estilo 
da construo era metodista, com uma torre tradicional e 
uma grande porta dupla na frente. Um santurio simples, 
sem nada de especial. Junto  entrada, havia um cartaz 
emoldurado em madeira branca com letras magnticas. 
PASTOR: WILLARD F. GUFFEY. SERMO DE 
DOMINGO: DAS CINZAS S CINZAS, DO P AO P.
Havia um pequeno estacionamento de cascalho entre a 
estrada e a igreja. Estava vazio. No havia nenhuma luz em 
torno do prdio.
Saram da estrada e aproximaram-se da frente da igreja. Jack 
iluminou com a lanterna uma placa de lato sobre as portas 
duplas. PRIMEIRA IGREJA METODISTA. FUNDADA EM 
1850.
O cemitrio era separado do resto do ptio da igreja por dois 
pilares de tijolos cerca de seis metros atrs do prdio, 
provavelmente os suportes do porto de uma cerca que 
havia muito desaparecera. As primeiras lpides estavam 
agrupadas logo do outro lado das colunas.
Jack olhou de volta para a Estrada da Capela Metodista. 
Haviam visto muito pouco trnsito, e a igreja estava cercada 
por uma densa floresta. At onde podia dizer, no tinham 
sido seguidos. No havia casas  vista. Uma vez que fossem 
para trs da igreja, parecia improvvel que pudessem ser 
vistos da estrada.
Passaram por entre os pilares e entraram no cemitrio. Jack 
logo percebeu que havia muito mais tmulos do que os 
listados no livro. Algumas das lpides estavam quebradas, 
desgastadas e ilegveis. A grama crescia por sobre algumas 
delas, e outras haviam desmoronado. As mais velhas e 
dilapidadas pareciam ser as mais prximas da igreja.
Jack encontrou uma lpide legvel junto  velha parede. 
Ajoelhou-se, apontando a lanterna para a superfcie. BRAM 
WHALEY, 1863, MORTO EM CHANCELLORSVILLE. 
Uma placa da associao dos veteranos da Guerra Civil havia 
sido colocada ao lado.
        Susannah morreu em 1900  disse ele.  Vocs acham 
que o tmulo dela est mais no fundo, porque  mais antigo?
        Talvez  disse Fitch.  Mas os membros da famlia 
costumavam ser enterrados juntos. Por isso a gente pode 
encontrar tmulos mais novos e mais antigos no mesmo 
lote.
        Como  que voc sabe dessas coisas?  indagou Jack.
Os trs dividiram o cemitrio em trs sees e passaram a 
examin-las metodicamente, iluminando as superfcies de 
pedra fria com as lanternas, raspando o musgo com as unhas, 
arrancando o mato que escurecia a base das pedras, s vezes 
cavando a terra com um graveto para expor as linhas 
inferiores das inscries.
Percorreram todo o trajeto desde a igreja at a colina, 
andando em paralelo, temendo no notar alguma coisa. As 
rvores cresciam mais prximas umas das outras ao fundo da 
propriedade e, em alguns casos, as razes haviam empurrado 
as lpides completamente para fora do solo, dividindo 
famlias. A lua havia surgido, mas brilhava fracamente por 
trs de uma fina cortina de nuvens. No conseguiam ver 
nada alm do alcance das lanternas. Logo, estavam quase  
sombra do penhasco.
        Aqui tem um Downey  disse Jack baixinho.
Ele estava em uma pequena alameda, bem  esquerda do 
cemitrio. Will e Fitch aproximaram-se para ver. Era uma 
pequena lpide branca com uma caveira no topo. JOSEPH 
DOWNEY, 1823-1872.
        Aqui tem outro  disse Will. Estava perto daquele que 
Jack encontrara e era uma criana, JEREMIAH DOWNEY, 
18 MESES DE IDADE, FILHO DE JOSEPH E MARTHA, 
MORTO EM 1860.
Eles esgueiraram-se mais alm sob as rvores, examinando 
pedra por pedra.
Foi Will quem a encontrou. Uma grande lpide, um pouco 
distante das outras, quase contra uma cerca de arame que 
marcava o fim da propriedade. SUSANNAH HALE 
DOWNEY, 1868-1900, AMADA ESPOSA DE ABRAHAM, 
SEMPRE SER LEMBRADA.
        Vejam isso!  Fitch passou o p pela grama rente que 
cercava o tmulo.  O lugar todo est coberto por mato, 
mas o tmulo da sua tatarav est to bem cuidado quanto 
um jardim.
A pedra estava livre de musgo e entulho, e plantas de 
primavera abriam caminho pela relva. Uma pequena rvore 
havia sido plantada atrs da lpide.
        Onde est o meu tatarav?
O nome de Susannah era o nico na pedra. Talvez Abraham 
tivesse se casado de novo. Se era o caso, Jack jamais ouvira 
falar a respeito.
        Olha s!  Will recolheu os restos de vrias rosas de 
caule longo que tinham sido espalhadas pelo lote. As ptalas 
enegrecidas caram suavemente ao cho quando ele as 
levantou.  Voc ainda tem famlia vivendo por aqui?  
perguntou Will, olhando por cima do ombro como se um 
parente pudesse aparecer a qualquer momento para desafi-
lo.
        No sei.  Jack meneou a cabea. Mesmo que houvesse, 
Susannah morrera havia muito tempo. No era possvel 
haver algum ainda vivo que se lembrasse dela. Pensou na 
jovem risonha das fotografias. SEMPRE SER LEMBRADA. 
Ela parecia mesmo ser algum difcil de se esquecer.
        E agora?  Fitch estremeceu e enfiou as mos nos bolsos 
da jaqueta.  Estou me sentindo como um violador de 
tmulos.
Jack ajoelhou-se e abriu o zper da bolsa. Tirou de dentro 
duas ps.
        Agora a gente cava. Tia Linda disse que a gente deveria 
procurar por algo enterrado atrs da lpide.
Will tomou uma das ps de Jack e escolheu um ponto cerca 
de 30 centmetros atrs da lpide, longe o suficiente para 
que a pedra no desmoronasse.
        Ser que a sua tatarav no podia ter mantido as relquias 
da famlia no sto, como todo mundo?  perguntou Fitch, 
apoiando-se contra a lpide de Susannah.  E como  que a 
sua tia Linda sabe que tem alguma coisa aqui?
        No sei  respondeu Jack, afundando a p na terra a 
curta distncia de Will.  Mas acho que isso era algo que a 
minha tatarav no queria que casse em mos erradas.
        Como as nossas, talvez  disse Fitch em tom seco.
Parecia que a terra atrs da lpide no fora remexida havia 
um sculo. Ou nunca. Era feita de argila e xisto e cheia de 
razes. Fitch ficou de guarda enquanto os outros dois 
manejavam as ps. De vez em quando viam os faris de um 
carro passando pela estrada da capela. As rvores nos 
bosques em ambos os lados queixavam--se quando o vento 
passava por elas. Fora isso, o nico som era o tinir das ps 
contra a pedra e a respirao ofegante dos cavadores.
Aps algum tempo, eles haviam cavado um buraco de 
tamanho considervel, com quase um metro de com-
primento e cerca de um metro de profundidade. Apesar do 
ar frio, Jack suava com o esforo. De repente, a p bateu em 
algo com um som metlico e abafado que era diferente dos 
anteriores. Isso se repetiu uma, duas vezes. Ele continuou a 
cavar, retirando pequenas quantidades de terra at 
conseguirem ver o contorno de algo tosco e retangular. Will 
cavou com energia renovada, aumentando o buraco, 
tentando achar a outra extremidade da caixa, se  que era 
isso o que era.
Jack removeu a terra das laterais, para que pudessem ver 
quo profunda era a caixa. Agora todas as quatro arestas 
superiores estavam expostas. A caixa tinha cerca de um 
metro de comprimento e era estreita.
Jack apoiou-se na p, cansado. Algo estranho estava 
acontecendo. Sentia a cabea girar e ouvia um murmrio 
nos ouvidos, o som de mil vozes ansiosas. Sentou-se 
pesadamente  beira do buraco, com as pernas balanando 
no ar, e ps as mos sobre os ouvidos.
        Ei, voc est bem?  Fitch iluminou o rosto de Jack 
com a lanterna.  Por que no descansa um minuto? Voc 
fez a maior parte do trabalho.  Virou-se e remexeu na 
mochila, tirando duas garrafas d'gua. Jogou uma para Jack e 
outra para Will.  Bebam.
Fitch apanhou a p e se ps a trabalhar com afinco, fazendo 
a terra voar. Will esvaziou a garrafa ruidosamente e jogou-a 
para o lado, continuando a cavar, motivado pelo prmio que 
parecia quase ao alcance deles.
Agora Jack conseguia distinguir parte do que as vozes 
diziam.
        Quem vem reivindicar a espada?
Havia um rumor de tambores, a princpio bem distante, 
depois mais alto, cada vez mais prximo, martelando dentro 
de sua cabea. Jack fechou os olhos e reclinou-se contra a 
lpide de Susannah; sua respirao saa em arfadas curtas e 
fracas, e o corao batia com fria. O suor jorrava de seu 
corpo. Lembrou-se do remdio esquecido. Talvez estivesse 
tendo um ataque cardaco.
        Esto ouvindo alguma coisa? Pessoas falando? Tambores? 
Qualquer coisa?
Will e Fitch pararam de cavar para olhar para Jack.
        Esquece  ele se apressou a dizer.
Os tambores e as vozes cresceram em volume. E ento uma 
voz de mulher, baixa e calma, surgiu por entre o rudo.
        Acalmem-se. Ele  o herdeiro  disse ela.
As vozes e os tambores calaram-se. Jack secou o suor do 
rosto com a manga e respirou com mais tranquilidade.
A caixa em si tinha apenas 20 centmetros de profundidade, 
e Fitch e Will logo removeram a terra de trs lados. Will 
conseguiu enfiar a ponta da p sob ela e tentou for-la para 
fora. O solo relutou em entregar o que havia guardado por 
tantos anos. Foram necessrias vrias tentativas, mas, enfim, 
um dos cantos se soltou, e Will a apoiou cuidadosamente 
contra um dos lados do buraco. No parecia muito pesada. 
Ele desceu para dentro do buraco e empurrou a caixa para 
cima. Fitch agarrou a extremidade mais prxima e arrastou-a 
para fora, por sobre a grama.
        Devem ter enterrado a caixa dentro de uma bolsa de 
couro  disse Will.
A bolsa se desintegrara quase por completo, e o couro caiu 
quando viraram a caixa. Terra e areia haviam se incrustado 
na superfcie. Will cuspiu nas mos e limpou um pouco da 
sujeira.
        Est coberta de jias!  exclamou ele quando a luz se 
refletiu nelas.  Vocs no acham que so verdadeiras, 
acham?
Jack recobrara-se o suficiente para levantar-se do tmulo e 
inclinar-se para a frente a fim de dar uma olhada.
        Quem ia enterrar jias valiosas num cemitrio?  Fitch 
correu uma unha por sobre uma das pedras. Era vermelha 
cor de sangue, lapidada e mais ou menos do tamanho de seu 
polegar.  Isto  provavelmente o mais prximo que vou 
chegar de um tesouro enterrado.
Fitch reclinou-se, tateando a lateral do estojo. Jack levou 
alguns instantes para entender o que ele estava fazendo.
        Fitch, no!
Tarde demais. Houve um claro e um estrondo. Fitch voou 
para trs, aterrissando de costas na grama, a muitos metros 
de distncia. Uma pequena nuvem de fumaa subiu em 
direo aos cus.
Will correu at ele, mas Fitch j estava se sentando, 
sacudindo a cabea.
        Que diabos foi isso?  Tinha o rosto manchado de 
fuligem e cuspiu sangue pela boca.
Will e Fitch olharam para o estojo com respeito rancoroso. 
Em algum lugar prximo, um co estava latindo.
Jack se perguntou se o barulho atrairia vizinhos curiosos. Ou 
algo pior.
        Talvez a gente deva levar isso para um lugar mais seguro 
 sugeriu Will.
        Talvez a gente seja feito em pedacinhos se tentar  
replicou Fitch com cautela.
        Deixem eu tentar  disse Jack.
Os outros dois o fitaram. Pondo-se em p com esforo, Jack 
cambaleou at onde estava a caixa e a tomou 
cuidadosamente nos braos. Carregou-a at uma distncia 
segura e a depositou no cho.
        Por que vocs no enchem o buraco e limpam a rea o 
melhor que puderem, enquanto eu tento entender o 
mecanismo dessa tranca?
        Tenha cuidado, Jack  avisou Fitch.
Fitch e Will apanharam as ps e comearam a empurrar a 
terra de volta para o buraco. Na escurido, era difcil ver o 
tamanho da baguna que haviam feito. Jack suspeitava que 
de manh seria bastante bvio que algum andara cavando 
por ali.
Jack correu as mos pela tampa decorada at encontrar o 
pequeno fecho, bem onde sabia que estaria, como se ele 
houvesse aberto o estojo uma centena de vezes. As palavras 
da velha frase lhe voltaram, e ele as sussurrou ao pressionar 
os dedos contra a fechadura. O estojo se abriu facilmente 
com um estalo.
Dentro do estojo forrado de veludo, estava uma espada 
embainhada. A bainha era decorada em ouro e prata, e o 
punho que se projetava dela era moldado em um elaborado 
desenho espiral em ouro. Um brilhante rubi estava 
incrustado no punho da espada. Quando Jack aproximou a 
lanterna, conseguiu ver inscries plidas contra o metal 
polido, smbolos e palavras que no compreendia.
Ps a lanterna no cho, segurou com cuidado o punho da 
espada e a desembainhou, notando que o punho cabia em 
sua mo sem escorregar. A espada criou uma luz prpria ao 
emergir, uma chama prateada que correu ao longo da 
lmina. Tinha dois gumes, e o metal parecia ondulado, de 
um jeito que indicava que havia sido dobrado e redobrado 
em reforo. Como Jack sabia disso? Ele mesmo no poderia 
dizer. Aps um sculo enterrada, no tinha nenhum trao 
de ferrugem. Parecia pronta para ser usada.
Will e Fitch, atrados pela luz, olharam por cima do ombro 
de Jack.
        Sinistro  murmurou Fitch.
        No  disse Jack.  No tem nada de sinistro. Jack 
ergueu a arma com as duas mos e soube que
ela pertencia a ele, embora houvesse sido forjada muito 
antes de ele ter nascido. Era mais leve do que imaginara, 
mais leve do que seria de se esperar, considerando--se seu 
tamanho.
        Sombra Assassina  sussurrou Jack, como se a arma 
falasse com ele.
E o poder da lmina correu-lhe pelas mos e depois pelos 
braos como se, de alguma maneira, a espada o estivesse 
segurando.
        Jack...  era Will, soando temeroso, incerto.
A espada ardia na mo de Jack ao brandi-la, um casamento 
de homem e metal, carne e ao. Feroz e primitivo. Ele se 
expandiu, estendendo-se ao longo da lmina, e a espada 
lanou luz e sombra por sobre a grama, iluminando as pedras 
inclinadas. A lmina cantava ao cortar a escurido, uma, 
duas, trs vezes, dividindo-a, deixando um rastro de luz. 
Matadora da Sombra. Jack girou, segurou o punho com 
ambas as mos e balanou a espada, cortando uma planta de 
cinco centmetros de espessura com apenas um murmrio 
de esforo. Ele viu sangue diante dos olhos, e no era o 
sangue das rvores. Precisou de considervel autodisciplina 
para terminar a dana. Quando baixou a espada, sua luz 
diminura para um cintilar suave.
         to doce  disse ele, engolindo em seco, tentando pr 
a voz sob controle.  Eu... eu no fazia ideia...
        Tome cuidado com isso. Tipo, no v pirar, est bem?  
Algo na voz de Fitch deixava transparecer que ele sentia 
algo mais perigoso ali do que o gume de uma lmina antiga.
Will olhou para a bainha no estojo, como que receando 
chegar perto.
        Isso  algum tipo de cinto?
Jack enfiou a lmina no cho e ergueu a bainha com as duas 
mos. Estava atrelada a um cinto leve de malha de metal 
lavrado de forma inteligente. Havia sido projetado para ser 
usado de duas maneiras, em torno da cintura ou por sobre o 
ombro, com um boldri. Boldri.
De onde tirara aquela palavra? Em algum lugar dentro dele, 
uma porta para o conhecimento havia se aberto. Jack ps o 
cinto ao redor da cintura e o fechou apertado, posicionando 
a bainha sobre o quadril esquerdo de forma que pudesse 
puxar a espada com a mo direita num movimento 
transversal. Caa confortavelmente sobre os quadris. Tia 
Linda havia dito para pr a espada de volta no estojo, mas...
        O que  aquilo?  Fitch falou baixinho, mas de um jeito 
que chamou a ateno de Jack.
Ele estava olhando em direo  igreja, com as mos na 
cintura. Jack seguiu-lhe o olhar. Um brilho estranho vazava 
atravs das janelas traseiras do prdio, criando sombras 
loucas. Algum estava caminhando do outro lado da igreja 
com uma lanterna, e a luz desta se refletia nas janelas de trs.
        Ei  sussurrou Fitch.  Tem algum aqui! 
Com um movimento rpido, Jack apanhou o estojo e jogou-
o para Will.
        Segura isso a! Vamos precisar.
Jack arrancou-a espada da terra com a mo direita e segurou-
a junto ao corpo com a ponta para baixo. Esconderam-se nas 
sombras atrs da lpide de Susannah, tomando o cuidado de 
evitar o buraco ainda no tapado.
Algum dobrara a esquina da igreja, carregando uma 
poderosa lanterna. A princpio, conseguiram enxergar 
somente uma silhueta corpulenta, por causa do claro. A 
figura avanou rapidamente em direo ao local onde se 
escondiam, apontando a lanterna para as lpides em seu 
caminho. Parou a uns trs metros de distncia, iluminando a 
lpide de Susannah Downey. Eles ouviram um grunhido de 
satisfao. E ento uma voz.
        O que esto fazendo aqui fora no escuro, meninos?  
Era o caubi, Sam Hadley.
Era intil permanecerem escondidos. Fitch saiu de trs da 
pedra, protegendo os olhos contra a luz.
        A gente decidiu ver se algum dos nossos parentes est 
enterrado aqui. Mas acho que comeamos meio tarde.  
intil tentar achar qualquer coisa no escuro. Acho que 
vamos ter de voltar amanh.  Sacudiu os ombros de forma 
exagerada.
Quando Hadley falou de novo, tinha um tom cortante na 
voz.
        Susannah Downey no era a pessoa que estavam 
procurando?
        No, era Taylor  respondeu Fitch, enfiando as mos nos 
bolsos da jaqueta, tentando afetar tranquilidade.  Mas 
achamos que ela era casada com um Downey. Como a gente 
falou, esta parece ser a pessoa errada. Nossa Susannah  
anterior, e parece que esta se chamava Hale. A gente s 
achou que seria uma boa ideia vir dar uma olhada no 
cemitrio e ver se algumas dessas lpides nos dariam alguma 
pista.
Jack percebeu que Fitch estava nervoso porque as palavras 
jorravam dele como bolas de gude de um saco.
        A gente j estava indo embora  acrescentou Will, 
movendo-se para junto de Fitch. Ele havia apanhado a bolsa 
de viagem e segurava o estojo sob o brao em posio 
horizontal, do jeito mais natural possvel, torcendo para que 
Hadley no conseguisse ver bem no escuro.
Jack permaneceu nas sombras, atrs da lpide de Susannah. 
Sentia nitidamente uma outra presena seguindo o caubi, 
algo ameaador, sfrego, aproximando-se. Apertou mais 
forte o punho da espada, o brao formigando todo at o 
ombro.
        Vocs querem uma carona at a cidade?  perguntou o 
caubi.
        No, obrigado  disse Will.
Nesse momento, Jack saiu das sombras para se juntar aos 
amigos, postando-se logo atrs deles.
        O que voc tem a?  Havia um tom rspido na voz de 
Hadley ao se dirigir a Jack.
Jack tentava manter o corpo entre o caubi e a espada, mas 
o brilho da lmina se destacava como um farol na escurido.
        Ele est com a espada.  A nova voz era terrivelmente 
fria e estava perto demais para a tranquilidade deles.
Uma sombra mais negra se destacou da lateral da igreja e se 
aproximou com um andar estranho, flutuante. Era um 
homem, alto e esguio, as roupas tremulando ao redor de si 
enquanto avanava. Ele ergueu um brao esqueltico e 
apontou para a espada na mo de Jack. A lmina flamejou 
em tons vermelhos, como se banhada em sangue. Era o 
estranho do tribunal. Mago! O pensamento surgiu, 
totalmente formado, na mente de Jack, um aviso. Um antigo 
terror acendeu-se dentro dele.
Os olhos de Hadley voltaram-se nervosamente para o mago 
e, a seguir, novamente para Jack.
        Parece que vocs andaram cavando por aqui  disse ele, 
gesticulando em direo  lpide de Susannah.  Parece que 
roubaram algo que no lhes pertence.  Ele olhou com 
mais ateno para os rapazes.   melhor entregarem ao 
homem e ir pra casa.
        No  respondeu Jack, inflando o peito.  Se quiser a 
espada, venha pegar.
Era como se um estranho falasse atravs dele. Hadley no o 
assustava. Era o mago que lhe atraa a ateno. Se no fosse 
pelo colete, o mago o teria matado no tribunal. Linda havia 
insistido que o vestisse. Como ela soubera que Jack 
precisaria dele?
O mago aproximou-se, movendo-se como se sentisse muita 
dor. Jack o observou com cautela. A barba cobria-lhe a 
metade inferior do rosto, mas a metade superior estava 
vermelha e coberta de feridas, como se houvesse se 
queimado. A voz era seca e sem emoo, como escamas 
deslizando sobre rochas.
        Sem dvida, esta foi uma aventura excitante para vocs 
trs, mas agora acabou. Me d a arma.  Ele sorriu, um 
horrvel rearranjo do rosto destroado.  Tenho certeza de 
que podemos achar uma recompensa adequada pelo trabalho 
que tiveram.
"Ele vai nos matar, assim que tiver a espada", pensou Jack. 
Voltou-se para Will e Fitch, pensando se tambm haviam 
entendido. "Eu no devia t-los deixado vir junto." Como se 
ele estivesse no comando!
        Onde est a encantadora?  Era o mago de novo.  
Tenho assuntos a resolver com ela.
A maneira como o mago dissera assuntos deixava claro que 
queria dizer dor e algo mais. Do que ele estava falando? De 
quem estava falando?
Embora assustado, Jack tambm se sentia impulsivo, 
selvagem e rebelde. Tomara posse da espada; sentira seu 
poder e no tinha inteno alguma de entreg-la sem luta.
Hesitou, sem saber o que fazer, em p e com uma perna de 
cada lado dos ossos da tatarav, de costas para a lpide. Uma 
sbita brisa moveu as folhas acima, sussurrando para ele.
Foi quando teve uma ideia de onde poderiam se refugiar. 
Colocou-se entre os amigos e o mago e gritou:
        Corram para a igreja!
Will e Fitch no precisavam de mais nenhum estmulo. 
Viraram-se e correram para a construo, pulando lpides 
como numa corrida de obstculos. Jack recuou rapidamente, 
sempre de frente para o mago. Ergueu a espada com ambas 
as mos, o lado cego voltado para si. Ela respondeu, 
flamejante, iluminando a cena.
No conseguia ver nenhuma arma nas mos do mago, mas 
de repente uma cascata de chamas azul--esverdeadas rolou 
na direo de Jack. Instintivamente, ele usou a espada para 
aparar o golpe, que explodiu em uma chuva de fascas que 
lhe caram inofensivas sobre os ombros. Duas vezes mais ele 
se defendeu de ataques semelhantes. O calor das chamas 
secou-lhe o suor do rosto. O fogo do mago tinha um odor 
cido e desconhecido, como o gosto de sangue na boca.
O mago, com o horrvel rosto queimado, estendeu as mos 
na direo dele e comeou a falar no mesmo velho latim que 
Linda havia usado, a linguagem da magia. Jack sabia que 
tinha de det-lo, que as palavras continham poder. 
Desesperadamente, brandiu a Sombra Assassina com ambas 
as mos em um arco largo e achatado. Chamas rugiram da 
ponta afiada da lmina, e o feitio permaneceu inacabado, 
pois o mago se jogou ao cho. As chamas passaram por ele 
gritando e atingiram as rvores atrs dele. As rvores 
permaneceram em p por um momento, ento tombaram, 
cortadas de lado a lado na altura do peito de uma pessoa. E, 
de algum modo, Jack havia chegado  porta da igreja.
Uma instvel escadaria de madeira levava em poucos 
degraus  porta de trs da igreja. Fitch e Will j estavam no 
topo da escada, sem saber o que fazer a seguir. Jack apontou 
a espada para a porta e a empurrou. Houve um grande 
estrondo e a porta se escancarou, pendendo torta das 
dobradias quebradas. Will e Fitch encolheram-se para 
entrar. Jack entrou de um salto e virou-se para encarar os 
atacantes.
Estes estavam um pouco confusos, como se no esperassem 
resistncia. O mago estava de novo em p, encarando Jack. 
O caubi olhou para as rvores cortadas, para a abertura 
irregular no dossel da floresta acima, depois novamente para 
Jack. Tinha a boca aberta e o rosto redondo lustroso com o 
suor.
        O garoto  um demnio  gemeu ele.  Fui contratado 
para pesquisar. Lidar com demnios no faz parte do meu 
contrato.
        No h nenhuma mgica nesse rapaz  disse o mago com 
desdm.  O poder est na lmina. Esse a  um tolo 
aventureiro Anaweir que est mais encrencado do que 
imagina.  Jack escutou a palavra "Anaweir" (que lhe soou 
como a palavra inglesa "unaware", que queria dizer 
"ignorante, desinformado") sem entender muito bem a 
escolha de palavras.  Agora v buscar a espada para mim.
        Eu  que no entro l  protestou Hadley.  Ele vai me 
fritar vivo.
        Magia  intil no santurio. A espada no tem nenhum 
poder especial l dentro.
E, de fato, agora que Jack estava dentro da igreja, a lmina se 
apagara, tornara-se mais pesada, de forma que ele precisava 
das duas mos para levant-la. O poder da espada no ardia 
mais dentro dele. O que tinha nas mos no era nada alm 
de metal.
Algo que o mago dissera ecoou na mente de Jack. Magia?
Fitch estava junto dele, armado com um candelabro.
        Por que no esto vindo atrs de ns?  sussurrou ele, 
dando uma olhada nervosa ao redor.  So warlocks ou 
vampiros ou coisa assim, e por isso no podem entrar numa 
igreja?
"Magos", Jack quase murmurou.
        No sei  disse em voz alta. No sabia se o mago era 
capaz de entrar, ou se simplesmente preferia mandar Hadley 
para enfrentar a espada em uma situao em que magia era 
ineficaz.
        Aquela espada ainda  afiada o suficiente  insistiu o 
caubi.  E eles so trs. Eu nunca concordei em enfrentar 
uma espada, desarmado.  Ele parecia s estar interessado 
em fugir.
         mesmo?  A voz do mago escorria desdm.  Ento 
teremos de... renegociar.
Ele ps a mo no ombro de Hadley, e o caubi berrou, 
primeiro arqueando para trs, depois caindo de joelhos, 
indefeso contra o toque do mago. O mago no recuou, e o 
caubi gritou como se estivesse sendo esfolado vivo, 
suplicando por misericrdia e implorando que lhe desse uma 
nova oportunidade. Quando aquilo finalmente parou, 
Hadley jazia trmulo e gemendo no cho. Jack ficou 
nauseado, sabendo que o objetivo da demonstrao era 
impression-lo.
Com o objetivo de confirmar a impresso, o mago se voltou 
para Jack:
        Veja que a resistncia tem consequncias  disse ele 
com frieza.  Entregue a espada ou vocs trs morrero 
esta noite. E, quando eu tiver acabado com vocs, vo 
implorar para morrer.
Por um instante, Jack foi dominado pela imagem dele 
mesmo em p na entrada da igreja como um heri de 
cinema, brandindo uma espada, pronto para lutar contra um 
homem que lanava chamas das mos nuas, torturava e 
matava com um toque. Virou o rosto e viu Will e Fitch atrs 
dele, seus rostos plidos como pergaminho na escurido da 
igreja. Se antes eles no haviam entendido o que estava em 
jogo, agora sabiam.
Ele fitou a espada em sua mo e ento o mago l fora. De 
onde vinha isso? Nunca havia sido especialmente ousado no 
passado. Devia haver algo na espada interferindo com seu 
juzo. Limpou o suor do rosto e sacudiu a cabea.
Era um impasse. Se deixassem o prdio, o mago os mataria e 
roubaria a Sombra Assassina, pensou ele. No poderia deixar 
isso acontecer.
Fitch afastara-se por um momento, e agora estava de volta.
        O Mercedes est no estacionamento  sussurrou ele.
Jack olhou para trs outra vez. A porta de trs levava 
diretamente ao santurio. Estavam bem atrs do plpito, na 
pequena rea do coro. Era um salo simples, pintado de 
branco, com fileiras de bancos de madeira alinhados em 
ambos os lados de um corredor central. Grandes portas 
duplas abriam-se para o estacionamento no outro extremo.
        Escutem  disse Jack baixinho, voltando-se para Fitch. 
 Provavelmente a gente consegue despist-los no bosque. 
 Eles vo seguir a espada.  Voc e Will se esgueiram 
pela porta da frente enquanto eu os mantenho ocupados. 
Fiquem no bosque e longe da estrada. Quando eu souber que 
vocs j esto longe, fugirei correndo.
        Voc pirou? O cara est atirando chamas, Jack. Se 
sabemos que no vo entrar aqui, vamos s esperar. Eles no 
podem ficar aqui pra sempre.
"Ele no vai esperar para sempre", pensou Jack. "E se nos 
apanhar..."
Hadley havia se posto em p e estava se aproximando, 
instigado pelo mago atrs dele. Agora Jack no sentia 
nenhuma vontade de machucar Hadley. Tinha pena dele.
        No est vendo?  O mago dizia a Jack.  A 
encantadora os enfeitiou, e so vocs que vo pagar por 
isso. Ela no se importa de sacrificar vocs para conseguir o 
que quer.
Nesse exato momento, o celular tocou, surpreendentemente 
alto. Com uma mo, Jack o tirou do bolso, mantendo a 
espada apontada para a entrada.
Era tia Linda.
        Onde vocs esto?
        Estamos na igreja no velho cemitrio metodista, na 
Estrada da Capela Metodista. A espada est comigo, mas 
estamos sendo atacados.
Linda ficou em silncio por um momento.
        Estou perto da  disse ela.  Mantenha-os a distncia 
por uns cinco minutos. Deixe o telefone ligado.
O caubi havia avanado at o segundo degrau. Jack deu um 
passo alm do limiar da porta, a fim de ter espao para se 
mover, e traou um arco da esquerda para a direita com a 
lmina, emitindo chamas, o bastante para afastar o homem 
sem cort-lo. Hadley pulou para trs, quase caindo. A magia 
da espada fluiu para dentro de Jack como uma droga. 
Exultante, ele desceu outro degrau. O caubi desapareceu na 
escurido, e restou apenas o mago, lanando uma salva de 
bolas de fogo aps a outra, como em um tipo de videogame 
frentico. Jack rebateu com chamas em espiral, e seu 
adversrio recuou. Jack avanou para o duelo, em per-
seguio. Estava no ltimo degrau e prestes a sair da escada 
quando ouviu algum gritando atrs de si.
        Jack! Voc enlouqueceu? Entre aqui!  Era Will.
O encanto, de alguma maneira, se quebrou. Jack se lanou 
para trs enquanto uma grossa parede de chamas do mago 
rugia em sua direo, grande demais para ser contida com a 
espada. Will agarrou-lhe os ombros, quase arrastando-o para 
dentro, para longe do calor terrvel. O rosto de Jack ardia, a 
viso borrada pelas lgrimas, os pulmes queimados pelo 
golpe que no o atingira por um triz. Apoiou-se na espada, 
arfando, enquanto Will ainda o amparava do outro lado.
        Sou um idiota  sussurrou ele.  Um idiota. Escutou a 
voz da tia vindo do celular.
        Estou no estacionamento. Saiam pela porta da frente. 
Rpido!
Jack endireitou-se, tirando o peso do corpo de cima de Will 
e da Sombra Assassina, e respirou fundo. A dor que sentiu 
era a garantia de que ainda estava vivo.
        Tia Linda est l fora  disse ele.  Hora de ir. 
Correram para os fundos da igreja.
        Cuidado!  gritou Linda, quando Will e Fitch abriram a 
porta da frente e deram de cara com o caubi.
Era difcil dizer quem ficou mais surpreso. Ele tentou agarrar 
Will, o que se revelou um erro. Will vinha passando um 
tempo considervel na academia de ginstica. Ele se livrou 
de Hadley e, apesar do tamanho do homem, ergueu-o do 
saguo de entrada da igreja e o arremessou no 
estacionamento. Hadley deslizou sobre o estmago, com 
braos e pernas estirados como uma gua-viva. Fitch 
recuperou o estojo, que Will havia deixado cair.
O Land Rover estava parado ao lado do Mercedes. Eles 
dispararam na direo do carro. Will parou junto do 
Mercedes, esticou o brao pela janela aberta e arrancou as 
chaves da ignio. Arremessou-as o mais longe que pde na 
escurido.
Jogaram-se no banco traseiro do Rover, Jack com a espada e 
Fitch com o estojo. O Rover levantou cascalho quando 
saram do estacionamento. Atrs deles, o caubi se pusera de 
quatro. Ento a igreja saiu de seu campo de viso, e seguiram 
em alta velocidade pela Estrada da Capela Metodista.


Captulo Cinco
O Herdeiro Guerreiro

Linda estava calma  agindo at de modo metdico, 
passando o telefone para Fitch a fim de que ele fizesse 
reservas em um hotel em Columbus sob um novo nome, 
pedindo a Will para achar o mapa no porta-luvas e servir 
como navegador, embora ela conhecesse bem o condado. A 
voz dela os envolvia, acalmava e relaxava, amainando-lhes o 
terror e a curiosidade. Como se espadas em chamas e magos 
fossem acontecimentos cotidianos. Ela no disse nenhum 
feitio em voz alta, mas agora Jack conseguia perceber como 
ela usava a voz para enfeitiar. Por que nunca havia 
percebido antes?
Ela no deu nenhuma tarefa a Jack. Tendo arrancado dele 
cada detalhe sobre o que acontecera no cemitrio, deixou-o 
em paz. Ele sentou-se com os ombros cados no banco, a 
cabea jogada para trs, os olhos semicerrados. O corpo 
inteiro lhe doa, e toda a parte da frente ardia, a no ser sob 
o colete. A Sombra Assassina estava de volta ao estojo, 
descansando confortavelmente aos ps dele. s vezes ele 
flagrava Linda o observando pelo espelho retrovisor.
"Ela  que  a encantadora.  dela que o mago estava 
falando. Talvez o que ele disse seja verdade. Talvez ela s 
esteja me usando para obter a espada. Ela disse que a espada 
era minha, no disse?"
O que ele faria se Linda tentasse lhe tomar a espada? Aquela 
era uma pergunta que ele no sabia responder. A espada 
parecia preencher uma necessidade nele que antes ele nem 
imaginara que existia.
Ele se contorceu, desconfortvel, ento se virou e se 
inclinou sobre o banco traseiro para ver se havia algo que 
poderia usar como travesseiro. Viu sua bolsa de viagem e se 
lembrou. O remdio! Abriu o zper e enfiou a mo l dentro, 
tateando em busca da forma familiar, o vidro frio em meio s 
roupas.
"No quero tomar", pensou ele. "Nunca mais".
Tirou-o da bolsa mesmo assim e girou o frasco azul entre as 
mos. Ergueu os olhos e viu tia Linda o observando outra 
vez.
 Deixe pra l, Jack  disse ela, com suavidade.  Voc 
no precisa mais tomar. A gente fala sobre isso mais tarde.
Eles ficaram em um hotel de uma rede ao norte de 
Columbus, com a prometida piscina e banheira de gua 
quente. Ela pediu diversas bandejas de sanduches e 
aperitivos pelo servio de quarto e convenceu o gerente do 
clube de ginstica a deix-los utilizar os aparelhos at a meia-
noite. O homem retornava em intervalos durante a noite 
para ver se precisavam de alguma coisa e para informar 
Linda de que ele deixaria o servio s onze caso ela estivesse 
interessada em sair para beber alguma coisa. Ela recusou. 
Vrias vezes.
"Ele no sabe com quem est lidando", pensou Jack. Bem 
como o mago dissera.
Jack estava com a aparncia e a sensao de quem havia 
passado tempo demais ao sol. A piscina teve um efeito 
relaxante, mas ele no conseguiu aguentar a banheira 
quente. Deitou-se de costas, cochilando junto  piscina, 
acordou de vez em quando para ouvir os outros conversar.
        Acha que aqueles homens vo tentar nos encontrar?  
perguntava Fitch.  Acha que vo tentar recuperar a 
espada?
        Ele est procurando por ns agora  disse Linda. 
Jack notou que ela usou o singular. "O caubi no conta. 
Provavelmente est morto."
A voz de Linda continuou a serpentear por entre seus 
pensamentos.
        Se tivermos sorte, ele no faz ideia de quem somos ou de 
onde viemos. Nada est no meu nome: o carro, o hotel, 
nada pode ser ligado a mim. Ele vai partir do princpio de 
que a espada est comigo. Essa  melhor proteo para 
vocs. E isto.
Enquanto Jack observava por olhos entreabertos, ela 
estendeu a mo e segurou as de Will e Fitch.
        Vocs no devem falar nada a ningum sobre o que 
aconteceu neste fim de semana, entenderam?
Nem uma pista, nem um murmrio, nada de se gabarem ou 
se queixarem.  Ela olhou para um e outro.  Est 
acabado, morto e enterrado. Ser o nosso segredo, uma 
lembrana partilhada apenas por ns quatro. 
Compreenderam?
Eles assentiram solenemente, os olhos arregalados, como 
aclitos de uma nova religio.
"timo", disse Jack a si mesmo. "Minha tia  uma bruxa. O 
que  que eu vou fazer?" Abandonou os amigos ao terno 
cuidado de Linda, sabendo que no podia ajud-los. 
Levantou-se, cambaleou at o quarto e caiu exausto na cama, 
saudando a fuga temporria que era o sono. A espada estava 
no estojo, sob seu brao.
Jack dormiu at tarde e, quando acordou, Will e Fitch 
pareciam razoavelmente normais. Normais demais para que 
fosse normal, na verdade, pois estavam relaxados e fazendo 
piadas sobre as tarefas que os aguardavam em casa. No 
disseram uma s palavra sobre os eventos no cemitrio.
Linda s fechou a conta no hotel depois do almoo, e, 
quando carregaram a bagagem para fora, Jack ficou surpreso 
ao v-la pondo as coisas dela em um novo carro, um Sedan 
bastante comum. Parecia algo rotineiro para ela: utilizar 
identidades falsas, trocar de carros.
Eram quase quatro da tarde quando estacionaram diante da 
casa de Fitch. Ele morava em uma casa destroada com as 
peas dispostas uma atrs da outra como vages de trem, e 
to pequena que no parecia suficiente nem para acomodar 
toda a famlia Fitch.
Quando tia Linda tocou a buzina, foi como mexer num 
formigueiro. Num instante, ele estava imerso at a cintura 
em um mar de pequenos Fitch. Fitch acenou com tristeza e 
desapareceu dentro de casa com sua comitiva.
Na casa dos Childer, um considervel monte de hmus 
ainda permanecia na entrada da garagem.
        Ser que voc pode dar mais umas voltas no quarteiro? 
 implorou Will, fingindo desespero. Saiu com relutncia 
do carro, arrastando a bolsa de viagem atrs de si.  Vejo 
voc amanh.
E ento restaram s os dois. Quando Will j estava longe, tia 
Linda deu meia-volta e seguiu para o centro.
        Aonde vamos?  perguntou Jack, cauteloso.
        Acho que a gente devia ter uma conversa antes de eu 
levar voc pra casa  respondeu a tia, sem olhar para ele.  
Espero que voc tenha um pouco de tempo.
A Cafeteria Lendas ocupava o primeiro andar de uma 
manso vitoriana junto ao lago, a um quarteiro de distncia 
da universidade. Linda escolheu uma mesa no solrio com 
vista para o lago. A luz do sol de fim de tarde entrava pelas 
janelas. Ela se sentou de costas para o lago e de frente para a 
porta.
Jack pediu um pozinho de canela e chocolate quente. Linda 
pediu ch aromatizado com laranja. Ela quase no falou at 
que a garonete terminou de servi-los e se afastou. Ento se 
voltou para Jack.
        O que acha da espada?
        ...  Jack lembrou-se da sensao de poder. Buscou um 
adjetivo apropriado.  Eu nunca vi...
senti... nada parecido.  Ele a levara para o restaurante e a 
apoiara contra a parede, recusando-se a deix-la no carro.
        No achei que voc fosse ter de us-la.  Linda sorriu 
com tristeza.  Voc se saiu bem. Acho que nosso amigo 
nem sabe o que o atingiu. Pelo menos, espero que no saiba!
        Se voc vai continuar fazendo mistrio, esquea
        reclamou Jack.  Por que envolveu a gente nisso, afinal? 
Ou eu estou ficando louco ou no estou e, seja como for, 
no estou gostando disso. Ele podia ter matado a gente. E 
agora voc fez alguma coisa com meus amigos, enfeitiou 
eles de um jeito que eles nem sabem o bastante pra ter 
medo.
        Sou uma encantadora, Jack. No uma feiticeira.
        O rosto de Linda no revelava nenhum trao de humor. 
 Feiticeiros se especializam em magia material: venenos, 
poes, amuletos. Infelizmente, no so muito bons quando 
se trata de pessoas, ento...
        Est bem, ento voc os encantou  interrompeu Jack. 
Tinha vontade de cobrir as orelhas com as mos.  Chega. 
Quanto menos eu souber sobre isso, melhor. Aquele cara no 
cemitrio quase me mata de medo.
        Eles me metem medo tambm, Jack  disse Linda, 
baixinho. Ela o olhou com uma simpatia compreensiva 
demais.
        Quem so eles?  perguntou Jack, aps um minuto, sem 
conseguir se conter.
Linda franziu o cenho e tamborilou as unhas na xcara de 
ch.
        No posso contar tudo. E vai ter de ficar satisfeito por 
enquanto com o que eu disser.
Jack lambeu o glac dos dedos e cortou outro pedao do 
pozinho de canela.
        E se eu no ficar satisfeito?
        Ento vai ter de esperar.
Quando Jack ergueu os olhos, ela estava olhando para a gua, 
o queixo enrijecido.
        Que seja  disse ele, com rancor. 
Linda o estudou por um momento.
        H algo que voc precisa saber sobre nossa famlia. Os 
Downey e os Hale tm um histrico de dons mgicos que 
data de centenas de anos atrs. J tinha ouvido falar disso?
Jack pensou a respeito.
        Bom, tem a Susannah. 
Linda assentiu.
        Ela lia o futuro nas cartas. Esse talento  comum na nossa 
famlia. Mas no  o nico dom. A princpio, a linhagem era 
bem pura. As pessoas como ns tendiam a se casar entre si e 
ter filhos que preservavam a linhagem. Nossos ancestrais 
vieram do Reino Unido, que em certa poca tinha uma 
enorme populao de Weirs.
        Weirs?
        As ordens mgicas. Nossos ancestrais.  Tia Linda 
levantou a xcara e colocou-a de novo no pires, sem beber. 
 Temos a nossa quota de poetas, escritores, 
revolucionrios e visionrios. Mas os Weirs herdam ha-
bilidades incomuns.
Jack deu de ombros.
        Tais como...?
Linda estendeu os braos por sobre a mesa, segu-rando-lhe 
as mos, e olhou-o nos olhos.
        Ns herdamos o poder. Nossos ancestrais incluem 
magos, encantadores, adivinhos, feiticeiros e guerreiros.
Jack ficou imvel, esperando pelo fim da piada. Que nunca 
veio. Linda o observou como se ele fosse uma bomba 
prestes a explodir a qualquer minuto.
"Ela realmente acredita nesse negcio", pensou ele. A me e 
a tia sempre tiveram interesse no que Linda chamava de 
"magia restrita": astrologia, leitura de cartas, quiromancia e 
coisas do tipo. Mas ele sempre tivera a impresso de que era 
mais por entretenimento do que por qualquer outra coisa.
Jack lambeu os lbios.
        Certo. Feitiaria na famlia. O que isso tem a ver conosco?
        Somos herdeiros, voc e eu  respondeu tia Linda.  
Como disse antes, sou uma encantadora.
        Uma encantadora  repetiu Jack. Lembrou-se do que o 
mago no cemitrio dissera. "A encantadora os enfeitiou, e 
so vocs que vo pagar por isso."  E qual ... o seu dom? 
 perguntou ele.
Ela ficou um tanto corada e torceu um guardanapo entre as 
mos.
        Ns, ahn, temos poder pessoal sobre as pessoas
        disse ela, afinal.  Somos persuasivos. As pessoas se 
sentem atradas por ns, quer gostem quer no. Acho que se 
pode dizer que somos... irresistveis.  Ela lhe lanou um 
olhar como que para avaliar sua reao.
Era verdade. Nunca na vida Jack fora capaz de resistir a ela, 
mas sempre havia pensado que era s... o jeito dela. 
Lembrou-se de Will e Fitch no hotel.
        Certo. E quanto a mim? 
Linda hesitou.
        Voc  um guerreiro. Um dos Weirlind, como so 
chamados.
        Guerreiro?  Se o dom de Linda parecia apropriado, o 
dele no se encaixava de modo algum, decidiu.
        No me soa muito mgico.
Tia Linda suspirou.
        As relaes nunca foram muito pacficas entre as 
diferentes ramificaes dos Weirs. Tm havido guerras de 
tempos em tempos, quando uma faco tenta dominar as 
outras. Guerras precisam de guerreiros, que tm... dons 
apropriados.  Ela fez uma pausa.  H realmente guerras 
entre magos. Como eles so a ordem mais poderosa, 
controlam as outras. Muitas das guerras da histria britnica 
se originaram de disputas da nossa famlia. Em anos 
recentes, as batalhas continuaram, sem que aqueles que no 
so da famlia sequer percebam do que acontece.
        Ainda esto lutando no Reino Unido  disse Jack.  Mas 
e aqui?
        Um de nossos ancestrais, um Hale, veio para os Estados 
Unidos por volta de 1600 para fugir das guerras europias. 
Trouxe com ele muitas centenas de imigrantes que tinham o 
dom e que buscavam a paz no Novo Mundo. Fomos 
esquecidos. Por algum tempo.  Ela desviou o olhar.
Jack alternava os pensamentos entre o passado e o futuro. 
Pensou na me, to diferente de Linda.
        Se voc  uma encantadora, quer dizer que a me...
        Becka no  uma herdeira. Ela e o seu pai no sabem nada 
a respeito disso. Os Weirs do Novo Mundo se casaram com 
Anaweirs, aqueles sem dons. Nem todos herdam os dons.
Anaweir. O mago no cemitrio o chamara disso. Naquele 
momento, Jack havia entendido que ele havia dito 
"unaware", ou seja, "desinformado, ignorante" em ingls. O 
que no deixava de ser apropriado, tambm.
        Por que voc no contou  minha me sobre esse seu 
dom?  Ele voltou os olhos para o pr do sol l fora.
        Jack, acredite ou no, quando eu tinha a idade que voc 
tem hoje, eu achava que sabia de tudo. Mas eu no entendia 
o meu dom. Por isso estava despreparada quando encontrei 
meu primeiro mago.
Ele no pde se conter. Virou-se para ela. Mas ela desviou os 
olhos para longe.
        Eu tinha 16 anos. Meus pais no podiam me ajudar. 
Becka no podia me ajudar. Os Anaweirs no so preo para 
os dotados. Mas perderiam a vida tentando. Ento  melhor 
que no saibam.  Ela deu um meio sorriso.  Voc vai 
ver. Contar seu segredo a um Anaweir  como puxar um fio 
solto. Tudo acaba se desatando.
        O que Susannah tem a ver com isso?  perguntou Jack.
        Ela era uma guerreira. Como voc.
        Uma mulher guerreira? 
Tia Linda deu de ombros.
        Tanto homens como mulheres podem ser guerreiros, 
magos ou encantadores. Dizem que ela possua o dom. No 
sei se ela o usava.
        Se tenho algum tipo de poder especial, por que nunca 
notei nada?
Jack fez uma rpida inspeo pessoal s para ter certeza. O 
corpo doa como se tivesse levado uma surra, e o peso das 
roupas sobre a pele queimada o incomodava. Fora isso, 
sentia-se diferente: irascvel, impaciente, eufrico, vivo. Um 
ser estranho e imprevisvel vivia agora sob sua pele. O que 
estava acontecendo?
        Seus poderes foram bloqueados. Aquela medicao que 
voc toma desde a cirurgia impede que os seus poderes se 
manifestem.
Ele levou um momento para compreender o que isso 
significava.
        A doutora Longbranch sabe disso?
Jack estava comeando a se perguntar se ele era o nico a 
no saber de nada.
Linda inclinou-se para a frente.
        O dom  passado de gerao para gerao por meio de 
uma pedra ou cristal que fica atrs do corao. Os magos 
carregam pedras de magos, os encantadores tm pedras de 
encantadores. Voc estava destinado a ser um herdeiro 
Weir, mas... algo saiu errado. No havia nenhum cristal. 
Sem ele, voc estava morrendo.
        Por que eu no tinha um cristal?
        Talvez tenha a ver com a mistura de sangue. No sei. Mas 
voc estava morrendo. Ento eu contatei a doutora 
Longbranch. Eu... eu a conheci por intermdio de umas 
pessoas na Inglaterra.
        O que voc disse  minha me?
        At onde ela e Thomas sabem, voc nasceu com um 
defeito no corao, e a doutora Longbranch foi sua cirurgi 
cardaca. Que  o que ela   acrescentou Linda.
        Uma cirurgi cardaca  repetiu Jack.  E o que mais?  
Inclinou-se para trs, esperando pelo resto.
        Jessamine Longbranch  uma maga. Ela trouxe uma pedra 
e implantou em voc. Voc se recuperou. S que...  Ela 
desviou o olhar.  S que voc deveria ter sido um mago.
Jack pressionou os dedos contra as tmporas.
        Eu nasci mago, e ela ps em mim uma pedra de 
guerreiro?
Linda concordou com um gesto de cabea.
        Por que ela faria isso?
Linda fitou a mesa, contraindo um msculo do maxilar.
        Foi... foi uma experincia. Ela queria ver o que ia 
acontecer.
"Ela est com raiva", pensou Jack, "mas no quer que eu 
perceba".
        E o que  que eu sou, afinal? Mago ou guerreiro? 
Linda o encarou, os olhos marejados de lgrimas que no 
caam.
        No sei, Jack  disse ela, engolindo em seco.  Voc  
um guerreiro, imagino.
Jack deu de ombros, sem entender por que isso seria m 
notcia.
        Ento por que a doutora Longbranch queria bloquear 
esses poderes de guerreiro, sejam eles quais forem?
         importante manter o seu segredo escondido. Embora 
Linda houvesse iniciado aquela estranha
conversa, Jack se sentia como se tivesse de arrancar as 
informaes dela, um precioso fragmento de cada vez.
        Escondido de quem?  perguntou Jack.
        Pode haver pessoas procurando por voc, Jack  disse ela 
baixinho.
        Que pessoas? E por qu?  Jack estava perplexo.
        Magos. Como o homem no tribunal. Eles esto sempre 
procurando por guerreiros para lutar por eles, ou tentando 
matar os guerreiros que lutam em nome dos adversrios. 
Eles no querem que o outro lado leve vantagem. O melhor 
momento para recrutar ou atacar um guerreiro  quando ele 
ainda no foi treinado, antes que chegue  maioridade.
Jack estremeceu e olhou para o salo em torno. A garonete 
havia acendido velas nas mesas enquanto a luz do dia 
esmorecia. Sombras tremeluziam e danavam nas paredes. O 
lago adquirira uma cor cinza ardsia com o escurecer. De 
repente, o mundo parecia um lugar perigoso.
        Mas no estou de lado algum  observou Jack.  No 
quero lutar contra ningum.
        No importa. Eles viro atrs de voc mesmo assim.
"Ela no est me contando tudo", pensou Jack. Sentiu como 
se estivesse espiando pelo buraco da fechadura um quarto 
cheio de demnios e s conseguisse ver aquele que estava 
mais prximo da porta. Era bem possvel que os demais 
fossem at maiores e mais feios.
        Ser que eu no posso me livrar do cristal de algum jeito?
        Voc morreria  disse tia Linda simplesmente. Os dois 
ficaram em silncio por um momento.
        Qual  a probabilidade de algum me encontrar em 
Trinity?  perguntou Jack.
Ela soltou um suspiro suave.
        H magos em Trinity agora, procurando por voc. No 
sei como te encontraram aqui. No sabamos a respeito deles 
at o teste de futebol. Quando voc atirou Garrett Lobeck na 
rede. Voc se esqueceu de tomar o remdio e comeou a 
vazar magia.  Ela hesitou.  Seus poderes esto 
comeando a se manifestar. Com guerreiros, isso costuma 
acontecer na sua idade.
A voz dela tremeu um pouco. Na verdade, havia uma boa 
dose de emoo no explicada em toda aquela conversa.
        Eles vieram atrs de voc naquela tarde, mas voc j tinha 
ido embora.  Linda estremeceu.  Os magos podem 
detectar o uso do poder e relacionar a uma pedra. O Nick 
conseguiu... distra-los.
        Nick!  Ele falou mais alto do que pretendera e olhou em 
volta, sentindo-se culpado. O salo estava quase vazio. Nick. 
At o Nick. Um deles. Um de ns?  Quem  ele, na 
verdade?
        O nome dele  Nicodemus Snowbeard. Ele  um mago  
replicou Linda.  Ele tem tomado conta de voc desde que 
voc nasceu.
Em algum lugar no fundo da mente, Jack sempre se 
perguntara por que um homem to inteligente quanto Nick 
trabalhava como zelador e faz-tudo em uma pequena cidade 
de Ohio. Mas que tipo de influncia Linda poderia ter sobre 
um mago para persuadi-lo a aceitar esse trabalho?
        Uma encantadora pode encantar um mago? Ela pensou 
por um momento e pigarreou.
        Somos mestres da magia da mente. Os magos so mais 
poderosos do que os encantadores, por causa do uso de 
feitios falados. Mas so vulnerveis a ns tambm, 
principalmente se os pegamos desprevenidos. Nem sempre 
eles conseguem detectar o nosso uso do poder. Podemos 
mudar de aparncia, usar de seduo, fazer com que ajam de 
modo tolo.
Ela enfiara a parte sobre seduo no meio de todo o resto. 
"Eu nem quero saber nada disso", Jack disse a si mesmo. 
"Por que  que eu fico fazendo tantas perguntas?"
        Cada uma das outras ordens tem alguma vantagem 
especfica sobre os magos. Por exemplo, um guerreiro pode 
derrotar um mago numa luta fsica, se conseguir impedir o 
mago de lanar um feitio. Como voc descobriu no 
cemitrio. Feiticeiros so especialistas em magia material, 
poes, talisms, ferramentas mgicas e coisas assim. 
Pequenas magias. Um feiticeiro pode produzir um artefato 
que aumente ou limite a magia de um mago. Um encantador 
pode encantar um mago. A maioria dos Weirs Anamagos, 
uma vez alertados de sua presena, pode sentir uma pedra de 
mago, mas os magos no conseguem detectar as outras 
pedras, a menos que haja uma descarga de poder. Mas os 
magos podem usar feitios falados, fsicos e a magia da 
mente, o que os torna mais poderosos do que todos.
Jack se perguntou se deveria estar tomando nota de tudo 
aquilo.
        Quer dizer que o mago no cemitrio nos seguiu de 
Trinity at Coal Grove?
Ela sacudiu a cabea.
        No. Graas a Deus. Conheo ele s de ouvir falar. O 
nome dele  Geoffrey Wylie. Mas parece que ele no sabe 
quem eu sou e, considerando o que aconteceu no cemitrio, 
ele tambm no sabe quem voc . Ele estava atrs da 
espada, e o fato de vocs terem se trombado foi uma 
coincidncia. Temos de torcer para que ele no continue 
seguindo a genealogia. Se descobrirem quem voc , vai ter 
de sair de Trinity.
Jack a encarou. Linda se inclinou sobre a mesa, falando com 
suavidade.
        Temos de reprimir ou esconder os seus poderes.  a que 
entra o novo colete. Ele impede os outros de detectarem a 
sua pedra, mesmo que haja uma descarga de poder. Alm de 
algumas outras vantagens que, tenho certeza, voc j notou.
Deu-se conta da importncia disso lentamente.
        Quer dizer que a Mercedes est nisso tambm?  A 
excntrica Mercedes Forster e suas nuvens de cabelo cinza 
encrespado e estranhas roupas feitas  mo. Mercedes e seu 
jardim cheio de plantas exticas, algumas venenosas demais 
para serem tocadas.
        A Mercedes  uma feiticeira  disse Linda, no tom de 
quem diz algo trivial.
Jack fez um mapa mental da vizinhana.
        O Blaise e o Richard?
        O Blaise  um adivinho  disse tia Linda, no 
conseguindo evitar o riso diante da expresso no rosto do 
sobrinho.  O Richard  um Anaweir. Um no-herdeiro  
ela acrescentou.
        A ris?
        Maga.
        O Hanson e a Sarah?
        Anaweirs. Um casal idoso e simptico que adora bebs.
        E l se vai a vizinhana  grunhiu Jack. Massageou a testa 
com a ponta dos dedos. O que tinha comeado como uma 
presso agora se tornara uma dor de cabea terrvel. Sentia 
como se o mundo houvesse virado do avesso. Queria parar e 
rever cada detalhe de sua vida at ento, peneir-los em 
busca de pistas que o pudessem ter alertado.  Quer dizer 
que so todos meus parentes?
        Pode-se dizer que sim  respondeu Linda.  Vocs 
todos carregam o mesmo sangue antigo.
Jack se afastou da mesa, fazendo o ch se derramar da xcara 
de Linda.
        Bem, muito obrigado por compartilhar isso tudo comigo. 
Finalmente. E agora? Vou pra casa e me escondo embaixo da 
cama? Espero e vejo se algum vem atrs de mim?
        No  disse ela.   tarde demais pra isso. Eles no 
desistem.  s uma questo de tempo at que descubram 
onde voc est.  Aparentemente no gostando de algo que 
viu no rosto dele, Linda se apressou em acrescentar:   
por isso que ns... ahn... eu decidi recuperar a espada da sua 
tatarav. Ns... quero dizer... eu pensei que, talvez, com 
algum treinamento...
        Treinamento?  Tudo isso era uma loucura, mas havia 
algo nas maneiras da tia que era absolutamente irresistvel, 
impossvel de se ignorar. Talvez aquele fosse o dom dela. 
Aquela habilidade de capturar uma pessoa e manipul-la at 
que ela deixasse de lado as regras do bom senso. "A 
encantadora os enfeitiou". Ele olhou dentro dos olhos azul-
dourados de Linda e soube que era verdade. No tinha como 
resistir.  Treinamento para o qu?
        Vamos ensinar voc a lutar, Jack. Em uma luta fsica, 
pelo menos, voc poder ser preo para um mago.  Ela fez 
um gesto em direo ao estojo apoiado contra a parede.  A 
Sombra Assassina ... uma espada lendria. Queremos ter 
certeza de que, quando vierem atrs de voc, vo encontrar 
um adversrio mais perigoso do que o menino no cemitrio.
Jack achara que tinha se sado bem, dadas as circunstncias.
        Quem  ns?  voc quem vai me ensinar a lutar com a 
espada?  Achava isso difcil de imaginar, se bem que, 
quela altura, nada o surpreenderia.
Linda sacudiu a cabea.
        Achei um treinador pra voc. Um mago. Infelizmente, 
no vou estar por aqui.
        Qu? Voc vai embora?
        Jack.
Ela ps a mo sobre a dele. O poder fluiu para dentro dele 
como uma droga potentssima. Ele tirou a mo como se 
houvesse sido escaldado.
        Nem tente isso comigo.
Foi como se ele lhe tivesse dado um tapa.
        Tudo bem. Sem magia. Nesse momento, voc est bem 
escondido em uma famlia Anaweir sem nenhuma feitiaria. 
Meu plano  atrair Wylie para longe.
        O que quer dizer?
Ela afastou o cabelo que lhe caa sobre o rosto.
        Ele vai me seguir. No tem opo. Vai curtir a caada, 
mas nunca vai me pegar.
Jack pensou no caubi, berrando sob as mos de Wylie; 
lembrou-se do mago e do que ele dissera sobre assuntos a 
resolver, e estremeceu.
        Tia Linda. Por favor, no mexa com esse cara. Fique 
longe dele.
        No se preocupe, Jack. Sei tudo sobre magos. 
Pelo jeito como falou, ela sabia de coisas que ele no queria 
saber.
        Agora me escute.  Era como se ela lesse os itens de 
uma lista.  Voc precisa usar o colete sempre. Isso vai 
tornar mais difcil para eles detectar a sua pedra. Voc 
precisa resistir  tentao de usar seus poderes, exceto 
durante o treinamento. No vai ser fcil. Mas cada vez que 
usa seus poderes, voc manda um sinal para olhos inimigos. 
 Linda fez uma pausa.  Leve a espada com voc. 
Mantenha-a no estojo quando no a estiver usando. A caixa 
vai proteg-la de qualquer um que no seja o herdeiro de 
direito.
Linda tirou trs frascos de vidro da mochila. Jack levou um 
susto ao perceber que eram alguns dos frascos que ris fizera 
para ele quando Jack era s um beb. Aqueles para sonhos e 
poes, como contava a histria.
        Pare de tomar o remdio da doutora Longbranch e 
comece a tomar estes.  Ela passou-lhes os frascos. Jack 
abriu um deles. O aroma o fulminou com um golpe que era 
quase fsico. Era potente e inebriante, como uma bebida 
alcolica muito forte. Ele torceu o nariz e reps a rolha.  
Uma colher de ch de cada, uma vez por dia. Voc no pode 
contar aos seus pais sobre a troca e tambm no deve de 
forma alguma contar  doutora Longbranch.
        Longbranch?  Jack ficou confuso.  Ela no est na 
jogada?
        No exatamente  disse ela.  No confie em ningum. 
A no ser no Nick.
O que o fez pensar em outra coisa.
        Por que voc envolveu o Will e o Fitch nessa histria? 
Eles podiam ter morrido.
Linda baixou os olhos para a mesa, as faces rosadas de 
remorso.
        Nunca tive a inteno de arriscar a vida deles. s vezes 
ns, das ordens, somos descuidados em relao aos 
Anaweirs. Eu no fazia ideia de que havia magos por perto 
at falar com o Nick. E a j era tarde demais.  Jack 
lembrou-se de que ela tentara mudar de ideia, e ele resistira. 
 Eu tinha planejado deixar os dois no hotel e ir com voc 
apanhar a espada. Sabia que eles nunca diriam nada... se eu 
pedisse a eles.
        Se encantasse eles, voc quer dizer.
        No vou me desculpar pelo que sou  ela disse com 
suavidade.  Quero que voc tenha orgulho de quem voc 
, tambm. Sei que isso no  fcil de ouvir, mas estou feliz 
de poder finalmente lhe contar a verdade.
        Mesmo? O que impediu voc todo esse tempo?
Linda estremeceu, mas no respondeu. Tirou do bolso da 
jaqueta um envelope selado, que entregou a ele.
        A informao sobre o seu treinador est aqui  disse ela. 
 Alguma pergunta?
Ele sacudiu a cabea. Estava furioso e assustado, com os 
nervos  flor da pele, o sangue quente fluindo por msculos 
e ossos. Fechou os olhos, lembrando-se do peso da Sombra 
Assassina em suas mos.
         como eu disse. No posso contar tudo hoje. Mas isso  
o bastante pra comear.  Ela olhou para o relgio.   
melhor a gente ir, ou a sua me vai mandar uma equipe de 
busca.
Linda deixou algum dinheiro sobre a mesa, e os dois 
deixaram a cafeteria. J estava escuro, e Jack podia ver luzes 
a distncia, sobre a gua. Voltaram em silncio no carro para 
a rua Jefferson, cada um ocupado com os prprios 
pensamentos. A luz da varanda estava acesa quando Linda 
estacionou na frente na casa dos Swift. Tia Linda resolveu 
no entrar.
        Agradea a Becka por me emprestar voc esse fim de 
semana.
Jack saiu do carro e tirou a bolsa de viagem do banco de trs. 
Os trs frascos de vidro estavam a salvo ali dentro. Linda 
passou a caixa com a espada atravs da janela. Trocaram um 
olhar, de simpatia de um lado, furioso e um tanto quanto 
desesperado do outro.
        Guarde o telefone  ordenou tia Linda.  Vou manter 
contato.
        Claro. timo.
Se o que ela disse era verdade, ento ele estava bem 
encrencado, e a tia era a nica corda de salvao que tinha. 
Ela despejara esse fardo sobre ele e agora ia embora. Jack 
virou-se para entrar em casa, mas ela segurou-lhe o brao, 
puxou-o para perto e beijou-o no rosto.

Felizmente, Becka no fez muitas perguntas. Relatrios 
legais se espalhavam por toda a mesa da cozinha. Quando ela 
viu o rosto de Jack sob a luz da lmpada do teto, exclamou:
        Essa no! Voc esqueceu de levar o filtro solar? 
Ele ergueu a mo, tocou a face queimada e fez que sim com 
a cabea. Ela perguntou se ele e Linda haviam encontrado 
novos parentes, e Jack disse:
        Alguns.
Ela perguntou se a viagem havia sido tediosa no final das 
contas, e ele disse, com sinceridade:
        No.
Isso pareceu satisfaz-la.
Ele pensou em ir at a garagem para falar com Nick, mas 
mudou de ideia. J havia visto magos suficientes para um 
nico fim de semana.
Mais tarde, no quarto, Jack guardou os frascos de vidro no 
fundo da gaveta de roupas de baixo e ps a caixa com a 
espada embaixo da cama.
O bilhete com a informao sobre o treinador estava no 
bolso da cala jeans. Jack abriu o envelope e desdobrou o 
papel que havia dentro.
O nome no papel era Leander Hastings. O novo diretor-
assistente do Colgio de Trinity.

Captulo Seis
Jogos Perigosos

Na manh seguinte, Jack levou o frasco azul de remdio para 
o banheiro no andar de cima, com uma colher de medida.
 Vai ser mais fcil me lembrar dele se eu o tomar antes de 
escovar os dentes  explicou a Becka.
Aps o banho, mediu cuidadosamente uma colher de ch do 
remdio de Longbranch e derramou-o na pia. Ento trouxe 
os frascos de poo que estavam no quarto. Abriu-os e 
tomou uma colher de ch de cada. Duas das poes tinham 
gosto forte. A terceira era mais suave, quase agradvel. 
Guardou os frascos de novo na gaveta e vestiu o colete da 
Mercedes por cima da cabea. J se sentia vulnervel sem 
ele. Imaginou se poderia ser atacado pelos magos quando o 
tirasse. Quando estivesse no chuveiro, por exemplo. Vestiu 
uma camisa de flanela por cima. Ainda tinha a aparncia de 
quem passara o dia inteiro no salo de bronzeamento.
A cozinha estava vazia, mas uma tigela de cereal o esperava 
sobre a mesa, junto de um bilhete: "Fui para a universidade. 
Tenha um bom dia. Tome o remdio. Com amor, Me".
Jack despejou leite sobre o cereal e sentou-se para comer. 
Um instante depois, Will bateu de leve  porta da cozinha.
        Entre  disse Jack.  J estou acabando.
Will entrou. Jack pensou se deveria comear a trancar a 
porta, agora que sabia que estava sendo caado. Soltou um 
suspiro.
        A sua tia j foi?  perguntou Will, olhando em torno 
como se ela pudesse aparecer a qualquer momento.
        Ela foi embora.
        Melhor assim  disse Will, parecendo um pouco triste. 
 No me leve a mal. Eu gosto dela, mas ela parece atrair 
encrenca.
Jack se perguntou se seria a tia Linda ou ele prprio que 
atraa problemas. Esperou que Will mencionasse a espada, o 
cemitrio ou o mago, mas ele no o fez.
Em vez disso, Will falou:
        Pegou o uniforme de futebol? Se tivermos sorte, talvez 
tenhamos treino hoje  noite.  Em outras palavras, se 
tivessem sido aceitos no time.
        Peguei.  Jack apontou para a bolsa de ginstica junto  
porta.
        Ento  melhor irmos  disse Will.  Penworthy nos 
aguarda.  Alou a mochila por sobre o ombro e fez uma 
careta.
        Voc tambm est sentindo dores?  perguntou Jack.
        Estou  respondeu Will.  Deve ser de ficar cavando 
tmulos.  Ele sorriu. E isso foi tudo o que foi dito entre 
eles.
Jack no fazia idia de como comear o treinamento. Ser 
que ele deveria abordar Leander Hastings na escola e dizer: 
"Pelo que entendi, o senhor vai me ensinar a ser um 
guerreiro e usar minha espada mgica. Que horrio o senhor 
tem disponvel?".
Ele desejou que tia Linda houvesse ficado para agir como 
intermediria. Nada parecia muito real, agora que ela partira 
e ele estava de volta  escola. E Hastings era, sem dvida, 
intimidador.
Fora as preocupaes, Jack se sentia timo. Era difcil de 
explicar. Sentia-se lcido e concentrado, emancipado, como 
se algum lhe houvesse varrido os velhos cantos 
empoeirados da alma. Provavelmente o remdio da doutora 
Longbranch tinha algum efeito sedativo.
Uma vez na escola, as preocupaes sobre magos e 
guerreiros pareceram exageradas e sem substncia, como um 
pesadelo. Penworthy estava no lugar de costume, mas no 
havia vestgio de Hastings. Jack e Will tinham algum tempo 
livre antes do primeiro sinal, por isso foram at o escritrio 
de educao fsica para ver se a lista do time de futebol j 
havia sado. Descobriram que sim, e que Jack, Will e Fitch 
haviam entrado no time principal. Melhor ainda: Garrett 
Lobeck havia cado para o time de juniores.
        Ele vai ficar furioso  previu Jack, sabendo que, de 
alguma maneira, ele seria culpado por isso e no daria a 
mnima. O primeiro treino estava marcado para aquela tarde.
Ainda no havia nenhum sinal do Hastings quando 
caminharam de volta para suas classes. Talvez fosse melhor 
esperar alguns dias e ver se o diretor-assistente o contatava.
Depois do final das aulas, Jack e Will carregaram as bolsas de 
ginstica at o vestirio masculino a fim de trocar de roupa 
para o treino. O dia estava frio, por isso vestiram calas de 
ginstica sobre as caneleiras e meias. Jack deu uma olhada 
em volta antes de despir a camisa de flanela. Ainda era cedo, 
e ele e Will eram os nicos no vestirio. Jack ps uma 
camiseta de mangas compridas sobre o colete.
Will o olhava com curiosidade.
        Esperando encrenca?  perguntou.
        Nunca se sabe  replicou Jack.
Ao se reunirem no campo de treino, os jogadores se 
cumprimentaram batendo as mos espalmadas nas dos 
companheiros, sorrindo, felizes por terem entrado em um 
ou outro time, dada a competio. A notvel exceo era 
Garrett Lobeck, que,  claro, esperava entrar no time 
principal. Harkness e Leonard, amigos de Lobeck, haviam 
conseguido. Lobeck parecia prestes a explodir, mas estava 
importunando outro jogador. Sem dvida, ficara intimidado 
aps o encontro anterior com Jack. O que, para Jack, era 
timo.
Aps quinze minutos de exerccios de aquecimento, Jack 
percebeu que no estava nem ao menos respirando mais 
rpido. "Devo estar em melhor forma do que imaginei", 
disse a si mesmo. Ento teve incio o coletivo entre o time 
principal e os juniores.
O time principal marcou primeiro, mas depois disso os 
juniores conseguiram impedi-los de fazer outro gol at o fim 
do primeiro tempo de cinco minutos. Jack jogou no meio-
de-campo no segundo tempo. O time dele tomou posse da 
bola junto  rea dos juniores, e um dos zagueiros passou a 
bola para Jack, que comeou a driblar pelo campo, 
desviando-se sem esforo dos defensores do outro time. Ao 
se aproximar do gol, os juniores abriram caminho para ele 
como se tivessem pressa de sair da sua frente. Ele deu o 
chute quando estava prestes a entrar na grande rea. O 
goleiro praticamente pulou para longe do trajeto da bola, que 
entrou direto no gol. O time principal vibrou, e Will e Fitch 
comemoraram batendo as palmas das mos.
Jack sentiu um arrepio de medo, como um dedo gelado 
correndo-lhe espinha abaixo. Havia algo de sobrenatural em 
ao ali. Agora que no estava tomando o remdio de 
Longbranch, manter seus poderes sob controle era mais 
difcil na prtica do que em teoria. Por instinto, passou os 
olhos pelo pblico, que era pequeno: apenas alguns pais e 
namoradas. Eilen Stephenson estava sentada na 
arquibancada, inclinada para a frente, atenta ao jogo. 
Olhando para todos os lados, menos para Jack.
        Muito bom, Swift  disse o treinador Slansky.  Voc 
melhorou bastante desde o ano passado.
Jack foi substitudo logo depois do gol. Ficou em p junto  
lateral, sentindo-se miservel. De que jeito ia conseguir jogar 
toda uma temporada sem chamar a ateno para si?
        A primeira coisa que precisa fazer  melhorar o controle. 
 A voz estava praticamente no ouvido de Jack, que deu 
um pulo e girou nos calcanhares. Era Leander Hastings, 
vestindo uma blusa vermelha de Harvard e calas caqui, as 
mos nos bolsos. Estava prximo o bastante para no ter de 
falar alto para ser ouvido.  Posso ajud-lo nisso.
        Pode?  Jack falou no mesmo cdigo.  Isso seria 
timo. O que o senhor sugere?
        Vejamos  Hastings correu a mo pelo cabelo.  Haver 
treinos de futebol todas as tardes, das trs s cinco, esta 
semana. Vamos marcar para a quarta-feira  tarde, logo aps 
o treino regular. Diga  sua me que estar em casa s oito. 
 Hastings tinha as maneiras de um homem acostumado a 
dar ordens e v-las obedecidas.
Jack concordou com a cabea.
        Vamos praticar aqui?
        No  respondeu o mago.  Vou achar um lugar. Jack 
hesitou.
        E quanto a... preciso trazer alguma coisa?  Ele teria 
dificuldade em guardar a Sombra Assassina no armrio do 
vestirio. Alm disso, tinha certeza de que espadas eram 
proibidas na poltica de tolerncia zero do Colgio Trinity 
em relao a armas.
Havia um trao de sorriso no rosto de Hastings, como se 
houvesse lido os pensamentos de Jack.
        No. No desta vez.
        Swift!  Era o treinador.  De volta ao campo!
Jack fez um gesto de cabea para Hastings e correu de volta 
ao campo. Muito bem. Acontecesse o que acontecesse, o 
importante era que ele tinha um plano. Torceria para que 
tudo desse certo. Hastings o deixava nervoso. Entretanto, a 
tia o havia escolhido, e Jack supunha que ela sabia o que 
estava fazendo.
S que ela dissera outra coisa. Dissera que ele no podia 
confiar em ningum. E agora ele se colocava nas mos de 
um estranho.
Quando olhou de novo para a lateral, Hastings havia sumido.

Muitos dos convidados de Jessamine optaram por vir pela 
gua; no que fosse necessrio, mas por causa das 
reminiscncias de uma era mais elegante. Desembarcaram 
nas docas do Tmisa e passearam pela alameda de btulas at 
o terrao sul da manso, que estava iluminada pela luz de 
tochas, cercada por canteiros de rosas brancas: Glamis 
Castle, Honor, Penlope, Iceberg e Fair Bianca, entre outras 
espcies. Velhas rosas, rosas-ch hbridas, floribundas e 
rosas de arbustos.
Os botes apareciam como manchas brancas na escurido, a 
fragrncia uma lembrana sutil de quem controlava as 
ordens.
Servos em uniformes da Rosa Branca circulavam entre a 
multido, carregando bandejas de vinho e canaps. Cada um 
dos dotados levara uma comitiva de servos: membros das 
ordens inferiores para servir como guardas. Alguns dos mais 
afortunados tinham encantadores nos braos. Eram o foco 
de olhos invejosos e de gestos malevolentes.
Jessamine Longbranch recebeu os convidados no local onde 
a alameda encontrava o terrao. Ela os escolhera de 
propsito; entretenimento era um elemento essencial da 
poltica dos magos, prprio para extrair informaes, 
intimidar e at causar derramamento de sangue de vez em 
quando. Vir era um risco, no vir tambm. Nenhuma opo 
era segura.
Os cabelos de Jessamine caam-lhe sobre os ombros, 
confinados em uma rede de miniprolas. O vestido era 
confeccionado em seda difana, com bordados de rosas 
brancas em locais estratgicos. As mos que ela estendia para 
serem beijadas cintilavam de jias.
Geoffrey Wylie fez-lhe uma reverncia. Estava vestido de 
forma discreta, adequada para uma Casa em declnio. O 
casaco era de um vermelho to profundo que quase parecia 
preto; um rubi brilhava no lbulo de umas das orelhas.
 Jessamine.  Um sussurro de poder roou na pele da 
maga. Um gesto, apenas, para inform-la de que ele se sentia 
em casa. Ele mantinha a cabea virada de forma que um lado 
do rosto era iluminado pela luz das tochas e o outro estava 
sob as sombras.
        Geoffrey! Pobrezinho! O que aconteceu com seu rosto?
Ela lhe agarrou o queixo, virando-lhe a cabea a fim de ver 
melhor. O lado direito do rosto parecia ter sido queimado 
gravemente desde a linha do queixo at a testa. Ele aplicara 
um glamour mgico que teria enganado qualquer um menos 
perspicaz.
Ela estalou a lngua.
        Trombou com algum Drago furioso?  Aquele era o 
nome atribudo a um dos lderes demagogos da Ordem dos 
Servos.
A respirao do mago soou como um sibilo. Queria dizer 
que ele tivera esperanas de que ela no notasse. Ela sabia 
que Wylie era vaidoso. Haviam tido um relacionamento no 
passado.
        No  nada. Um acidente.  Mas a fria nos olhos dele 
dizia que encontrara algum para culpar, e que aquele 
algum ainda no havia morrido. Wylie era poderoso, era o 
promotor dos guerreiros para a Rosa Vermelha. Poucos se 
arriscariam a contrari-lo. Ela arquivou a informao na 
memria.
Jessamine olhou por cima do ombro dele.
        Onde est aquele bonito, o senhor Paige? Eu estava 
ansiosa por v-lo de novo.
        Simon pede desculpas.  A fria havia se dissipado, 
sendo substituda por calma impassvel. Simon
Paige era o mestre de guerreiros da Rosa Vermelha. Um 
ttulo um tanto vazio, j que tivera pouco a fazer por muitos 
anos.
Ele devia ter algo muito importante a fazer, para perder 
aquele evento. Ser que a Rosa Vermelha finalmente 
encontrara um guerreiro? Se era esse o caso, havia coisas 
importantes demais em jogo para brincar de adivinhao.
Ela passou os olhos pela comitiva de Wylie e encontrou o 
que estava procurando. Um belo jovem em uniforme da 
Rosa Vermelha que baixou a cabea quando ela o encarou. 
Um aprendiz de feiticeiro, talvez (davam em rvores, os 
aprendizes de feiticeiro). Um servo que sabia o bastante para 
ter medo dela talvez soubesse de outros segredos tambm. 
Ainda sorrindo, Jess fez um gesto para um dos guarda-costas 
postados discretamente junto  parede.

O sol havia raiado antes de ela haver terminado com o rapaz. 
No porque ele tivesse tanto assim a dizer, mas porque a 
tarefa era muito prazerosa. Ele se mostrara ansioso por 
agrad-la, no fim. Ela estava confiante de que arrancara dele 
cada migalha de verdade, as pequenas pistas e vestgios que 
sugeriam que a Rosa Vermelha poderia lanar um desafio 
muito em breve.
Jess tomou banho, trocou de roupas e levou o ch para 
tomar no terrao. A manh estava fresca e lmpida. O rio 
seguia seu caminho, a antiga estrada dos bretes.
Wylie havia feito ameaas e muito alvoroo,  claro, quando 
descobrira que seu servo desaparecera. Mas esse era o risco 
de se trazer uma comitiva para uma reunio de magos. Se as 
Casas no podiam se atacar diretamente, os servos podiam 
ser eliminados quando preciso. O que ela podia fazer se o 
jovem de Wylie havia bebido demais e cara despercebido 
no Tmisa, onde o corpo seria encontrado algum dia, 
terrivelmente decomposto?
Pensou no jovem guerreiro que ela deixara nos Estados 
Unidos. O segredo mais bem guardado de Jessamine. Ela fora 
extraordinariamente cuidadosa, havia minimizado o contato 
com ele. Mas plantara olhos e ouvidos naquela cidadezinha 
inspida para vigiar o menino, embora nenhum deles 
soubesse por que ele era importante. No poderiam revelar o 
que no sabiam.
Ele j tinha idade suficiente para que seu poder se 
manifestasse, mas ela o mantivera bloqueado. Jessamine 
mordeu o lbio inferior, pensativa. Precisava optar entre a 
necessidade de comear o treinamento do menino e o 
desejo de mant-lo vivo por mais algum tempo. Talvez fosse 
hora de reclam-lo para si, contatar os mestres dos 
guerreiros e dizer-lhes para prepararem suas ferramentas.
Naquela noite, aps o jantar, Jack no conseguia se 
concentrar na lio de matemtica. Depois de brigar com os 
nmeros por meia hora, apanhou os papis e seu material e 
foi para a garagem.
Nick estava ocupado pintando a casinha de um pssaro azul 
quando Jack bateu  porta, mas afastou o projeto para o lado 
e abriu espao na mesa para a lio de casa de Jack. Era um 
comportamento rotineiro. Por alguma razo, era sempre 
mais fcil se concentrar na cozinha de Nick. Mas hoje Jack 
viera preparado para brigar.
Nick tirou o avental verde com respingos de tinta e 
pendurou-o no encosto de uma cadeira. Jack recusou a 
bebida que lhe foi oferecida e sentou-se, olhando feio para a 
mesa surrada enquanto Nick preparava uma xcara de ch 
para si.
        E ento?  disse Nick, ajeitando-se na cadeira diante de 
Jack. Deu uma olhada na lio de casa intocada.  Voc 
parece que comeu da fruta do conhecimento e no gostou 
do sabor.
Jack estudou o homem mais velho,  procura de algum sinal 
de magia. Percebia uma inteligncia brilhante, nada mais.
Nick o observava de forma penetrante.
        Como voc est, Jack?
        timo  Jack explodiu.  Estou mentindo para a minha 
me, contrariando as ordens da minha mdica e sendo 
caado por magos. Na verdade, quando no estou sendo 
caado por magos, passo meu tempo com eles.
Nick se reclinou na cadeira.
        Mas voc est com a espada. 
Jack assentiu, mal-humorado.
        Estou.
        Voc deveria estar contente, considerando o que 
enfrentou  disse o velho.  Em um combate entre 
guerreiros e magos, em geral, o resultado  o oposto.
        O que vai impedir que eles tomem a espada de volta?
        Eles no podem sentir a presena dela, e no vo violar 
estas paredes. Eu cuidei disso.  Por um momento, ele 
pareceu assustador de novo, e ento o rosto voltou ao padro 
costumeiro, de linhas sorridentes e histria.  Antes, os 
magos estavam caando voc, e voc no fazia idia. No s 
isso: voc estava desarmado. Est em melhor situao agora 
do que antes.
        Acho que eu estava melhor no sabendo de nada.
        No seja tolo!  O tom de Nick era brusco.  A 
ignorncia pode matar voc. Ou pior.
        Ento, por que no me contaram tudo isso antes? Vocs 
me mantiveram no escuro por anos, me observando, me 
drogando com poes, falando pelas minhas costas. 
Praticamente toda a vizinhana. Devem ter achado que sou 
bem estpido.
        Voc era uma criana, Jack  disse Nick gentilmente.  
No era necessrio que soubesse. A situao era estvel, e 
no havia razo para voc se preocupar com essas coisas. J 
existem coisas demais para meter medo nas crianas, como 
monstros embaixo da cama e coisas assim.
Jack tinha de admitir que tivera uma infncia relativamente 
despreocupada. Preocupar-se com magos no a teria 
melhorado. Mas no se sentia muito generoso no momento.
        Bom, estou preocupado agora. E nem a tia Linda 
explicou de verdade o que est acontecendo.
Nick suspirou, parecendo terrivelmente triste.
        No sei no que isso vai dar. Apenas lembre-se de que sua 
tia Linda tem feito tudo ao alcance dela para proteger voc, 
desde que voc nasceu. Ela  completamente devotada a 
voc. Nunca duvide disso.
        Ainda no entendo. Se voc  um mago, por que aceitou 
este trabalho?  Jack indicou os arredores com um gesto da 
mo.  Isso no parece nada excitante, em comparao 
com o mundo de feitios e encantamentos.
Nick sorriu.
        s vezes, quando ficamos mais velhos, o que  excitante 
j no tem tanto atrativo. Digamos apenas que tenho um 
interesse especial em voc e na sua tia. Voc  importante. 
O que torna este trabalho importante. Alm disso, agora que 
voc sabe quem  e o que voc , muitas portas vo se abrir. 
Tanta coisa foi mantida fora do seu alcance at agora! Venho 
guardando coisas por anos  espera deste dia.  Nick se 
levantou, apoiando-se na bengala, e desapareceu no quarto 
que Jack julgara ser a biblioteca. Um instante mais tarde 
estava de volta, com um grosso livro com capa de couro.  
Pode comear com isto aqui  sugeriu o velho mago, 
passando-o para Jack.
O ttulo da capa estava gravado era alto-relevo, em ouro. 
"Weir Hale". Mais embaixo, "Jackson Downey Swift". Ele o 
abriu.
Uma grande parte do livro estava tomada por uma rvore 
genealgica: pginas e pginas de nomes de pessoas ligadas 
entre si e seus filhos. Alguns dos nomes na rvore da famlia 
estavam delineados em brilhantes cores metlicas: azul, 
vermelho, dourado, verde e roxo. O resto estava em letras 
simples e pretas.
Jack ergueu os olhos para Snowbeard.
        O que  isso?
        Este  o seu Livro Weir, Jack. Foi criado quando voc 
nasceu. Todos os Weirs tm um. Olhe na ltima pgina.
L Jack viu seu prprio nome, Jackson Downey Swift, e os 
nomes dos pais, Thomas Swift e Rebecca Downey. Tudo 
escrito com a mesma grafia fluente.
        Os nomes iluminados so herdeiros, e as cores indicam 
de que tipo: magos, guerreiros e assim por diante. Os magos 
esto em dourado.
Jack notou que o nome dele estava em dourado. O guerreiro 
que deveria ter sido um mago.
        Tradicionalmente, o livro  feito pela Ordem dos 
Feiticeiros por encomenda dos pais da criana, usando o 
Livro Weir da famlia como modelo. Neste pas, as coisas se 
tornaram bem confusas por causa da miscigenao. O 
parente Weir mais prximo se torna o padrinho ou 
madrinha. A Linda  sua madrinha, como voc sabe. Ela 
pediu a Mercedes Foster para fazer o trabalho.
        No entendo  disse Jack devagar.  Por que os magos 
so to mais poderosos que as outras ordens?
        Os magos so especiais entre os Weirs porque moldam a 
magia com palavras. Conseguem executar tarefas bem mais 
difceis e sofisticadas por meio de feitios. So limitados 
somente pela extenso do conhecimento da linguagem 
mgica que possuem e pelo poder da pedra que carregam.
Nick apontou para o livro nas mos de Jack.
        Passe algum tempo lendo isso. Estude. Especialmente a 
parte sobre feitios e encantamentos. Ento vamos tentar 
algumas coisas.  Mediu Jack com um olhar.  Acho que 
vale a pena testar para ver se voc tem algum talento como 
mago. Apesar da pedra de guerreiro.
timo. Ele no sabia nem como ser um guerreiro, e agora 
Nick Snowbeard ia ensin-lo a ser um mago tambm.
        Mas no momento  melhor voc terminar a lio de casa 
 acrescentou Nick.
Magia e clculo. Jack suspirou, levantou-se, apanhou o livro 
e a lio de casa.
        Posso estudar matemtica na sala de estudos  disse ele. 
 Vou dar uma olhada no livro depois. Obrigado, Nick.
Mais tarde, no quarto, Jack acendeu a luz de cabeceira. J 
estava ficando tarde. Ps o pesado volume no colo e abriu-o 
na primeira pgina  papel grosso, adornado com a figura 
estilizada de um urso.

JACKSON DOWNEY SWIFT 
UM HERDEIRO MAGO 
UM GUERREIRO CRIADO

Sob Fundao das Corporaes, lia-se:

As Corporaes foram fundadas por cinco primos que 
perambulavam em um vale encantado no norte da 
Inglaterra. L vivia um imenso drago. O drago dormia no 
topo de uma montanha feita de pedras preciosas. Ao 
descobrir o tesouro, os viajantes, sem perceber o drago, 
comearam a lascar pedaos da montanha para levar 
consigo. O drago acordou com um rugido, exigindo saber 
quem se atrevia a lhe roubar o tesouro. A fim de se salvar, os 
primos engoliram as pedras que haviam roubado. Eram 
pedras mgicas que lhes conferiram poderes fantsticos, mas 
que tambm os tornaram escravos do drago e os prenderam 
ao alto vale conhecido como Ravina do Corvo.
Os primos serviram ao drago por sete longos anos.  noite, 
conspiravam juntos, embora o drago dormisse com um 
olho aberto. O mago escreveu um contrato de proteo 
mtua que todos assinaram com sangue. O adivinho os 
avisou de que no deveriam matar o drago, apenas coloc-
lo para dormir, ou perderiam os poderes que haviam 
adquirido com as pedras mgicas. O encantador cantou para 
o drago, distraindo-o, enquanto o feiticeiro preparava uma 
poderosa poo do sono. Ao guerreiro foi dada a tarefa de 
derramar a poo na orelha do drago.
O plano funcionou perfeitamente. Foi somente quando os 
primos celebravam a vitria sobre o mestre de outrora que o 
mago revelou que o contrato que haviam assinado atribua 
aos magos o domnio sobre as outras ordens. Se o contrato 
fosse rompido, o drago despertaria e exigiria uma terrvel 
vingana de todos eles.
Assim foram fundadas as Cinco Corporaes.

Jack sentiu como se houvesse entrado em um conto de 
fadas. Abriu uma pgina no meio do livro e leu o seguinte 
poema:

Gareth chegou no auge do vero 
Com seus cavallos e seus cavalleiros; 
A guerra  sua fortuna e maldico, 
Mil lanas perseguiam os guerreiros. 
Seus cabellos brilhavam ao poente; 
O fracasso da causa era imminente, 
Seu destino, traado de antemo: 
Servo de um mago ele sempre seria; 
Seu doce sangue derramado em vo 
A Ravina do Corvo regaria.

Certo. Isso deixava tudo bem claro.
No fim do livro, havia um compndio de feitios, receitas e 
encantamentos. Reclinou-se para ler. Passava das duas da 
madrugada quando finalmente apagou a luz, a cabea 
fervilhando com o brilho e o mistrio da herana 
genealgica. E, quando adormeceu, um guerreiro de cabelos 
loiro-avermelhados lutava em seus sonhos.

Na manh seguinte, na sala de chamada, Jack estava mais 
letrgico do que de costume. Sentia-se como se houvesse 
ficado acordado e lutando a noite toda. Acabou cochilando, 
esperando pelos anncios da manh. O segundo grau  
incompatvel com uma vida secreta, pensou ele ao acordar 
pela terceira ou quarta vez.
Ergueu a cabea e viu Ellen Stephenson enroscada na 
carteira, observando-o. O estmago de Jack deu uma espcie 
de cambalhota acrobtica para trs. Jack empertigou-se na 
cadeira, tentando parecer vivo, se no alerta.
        Voc parece exausto  disse ela.
Ela, por outro lado, parecia tima, com uma mini-blusa 
branca e cala jeans.
        Ficou at tarde fazendo a lio de matemtica?
        A lio de matemtica!  grunhiu ele.  Certo. Preciso 
terminar aquilo!  "Comear, melhor dizendo".
Jack apanhou a pasta de matemtica. Talvez conseguisse 
resolver alguns problemas antes de o perodo da chamada 
(que era tambm um horrio reservado para estudos e para 
avisos dos professores) terminar.
        Ajuda se eu mostrar pra voc o que eu fiz?  Eilen lhe 
estendeu a pasta de matemtica.
        No precisa. Acho melhor eu me virar sozinho. Obrigado.
        Est bem.  Ela ps a pasta de volta na mochila e apoiou 
os braos no encosto da cadeira. Havia tomado sol; a pele 
dos braos adquirira um leve tom dourado, e algumas sardas 
haviam surgido nos ombros.  Quer dizer que no estava 
trabalhando na lio, ento. Voc tem um emprego de meio 
perodo ou coisa assim?
        No.  Jack sacudiu a cabea.  Estive trabalhando 
numas outras coisas. Projetos especiais  acrescentou ele, 
quando Ellen franziu a testa.
Ellen fazia parte de um programa especial para os melhores 
alunos, por isso estava na maioria das aulas em que ele 
estava. Todas as classes em que ele estava, percebeu ele, de 
repente.
        Eu estava observando voc no treino de futebol  disse 
ela, as palavras saindo aos borbotes.  Quero dizer, 
observando o time. Voc  muito bom, em especial no 
meio-de-campo. Mas no os deixe colocarem voc na zaga, 
 o meu conselho.
Jack procurou uma lapiseira e uma resposta pelo menos 
parcialmente inteligente.
        Obrigado. Voc parece saber um bocado sobre futebol.
        Eu costumava jogar como atacante e goleira na minha 
outra escola.  respondeu Eilen.  Mas no consegui jogar 
este ano. Quando me mudei para c, os testes j tinham 
acabado.  Futebol feminino era um esporte de outono em 
Trinity.
        Talvez voc possa tentar de novo no outono.  
"Brilhante. Aposto que ela nunca pensou nisso".
Jack pegou a folha da lio de matemtica. Hesitou, batendo 
a lapiseira de leve contra a pgina.
        Voc gostaria de ficar at depois do treino de hoje  
noite e ir at o Corcoran's depois?
Ela mordeu o lbio, ento sorriu.
        Seria timo. S que... voc se importa se o Will for 
junto?
        Will?  Jack nem sabia que Eilen e Will se conheciam.
         que eu estava falando com o treinador Slansky e me 
ofereci para ajudar com o time de futebol, e ele disse que 
Will estava planejando alguns exerccios com o time de 
juniores. Ns amos nos encontrar depois do treino para 
conversar.  Ela deu de ombros.  A gente pode fazer isso 
outro dia, mas...
        No, no tem problema. Vamos todos.  Um encontro a 
trs no era bem o que Jack tinha em mente, mas se Will e 
Eilen j tinham planos, ento...
No treino, Jack no foi nada brilhante. A presena de Ellen 
no o deixava  vontade, e ele receava desencadear algum 
tipo de demonstrao mgica.
        Est se sentindo bem, Jack?  perguntou Fitch durante 
um dos intervalos.  Voc parece meio tenso ou coisa 
assim.
        Acho que machuquei um msculo qualquer no treino de 
ontem. Vai melhorar.
Foi um alvio quando o treino acabou. Olhou para Ellen, 
perguntando-se se ela notara o quo mal ele havia jogado. 
Na verdade, ela estava em p junto  barraca de comida 
conversando com Will, fazendo embaixadinhas com uma 
bola, distraidamente. Era evidente que ela levava jeito.
Escolheram uma mesa no canto do Corcoran's. Pediram 
sanduches e milk-shakes. Fitch estava sentado junto  
janela da frente com Alison, a namorada gtica que estudava 
no St. Catherine, um colgio catlico. Eles viviam 
rompendo e reatando; ela rompia com ele sempre que Marte 
estava em retrocesso. Ou algo assim.
Ellen e Will iniciaram uma discusso sobre estratgia, 
jogadores e datas e locais possveis para exerccios. Ellen 
ficava tentando incluir Jack na conversa, mas ele se 
contentava em observ-la.
Quando ela conversava com Jack a ss, parecia desajeitada e 
envergonhada, como se navegasse por estrelas 
desconhecidas. Mas agora que o assunto era futebol, ela 
irradiava entusiasmo, rabiscando idias em uma folha de 
caderno, brincando sobre o tamanho e o talento atltico de 
Will.
        Ele sempre foi grande desse jeito?  ela perguntou a 
Jack, indicando Will com a cabea.  Ele no tem 
exatamente o corpo de um jogador de futebol.
Jack estreitou os olhos em direo a Will, medindo-o.
        Acho que ele era um pouco menor na pr-escola. Mas 
ele  bom em qualquer esporte. Ele era nomeado capito, ou 
o pai dele era o treinador, e me escolhiam para o time.  
Ele sorriu.  E ento,  claro, a gente vencia.
Ellen estava estudando o cardpio de novo.
        Vamos pedir sorvetes  disse ela. 
Will se levantou e pegou a conta dele.
        Eu preciso ir. Minha me est me esperando pro jantar. 
 Inclinou a cabea para Ellen.  A gente tenta nas 
quintas-feiras, ento, a no ser que no se encaixe na agenda 
do senhor Hastings. A gente se v, Jack.
Ellen olhou do cardpio para Jack em uma pergunta 
silenciosa.
        No tenho planos  disse Jack, sorrindo, sabendo que 
Becka voltaria tarde.  Quando voc tem de estar em casa?
Ela deu de ombros, retribuindo o sorriso. Mais confortvel 
do que ele jamais a vira.
Os sorvetes chegaram, com a caixa de coberturas de sundae 
que era a marca registrada do Corcoran's. Ellen cobriu o dela 
com calda quente de chocolate, calda de caramelo, nozes e 
chantilly. Jack fez o mesmo.
Algum se sentou no banco de Jack.
        Oi, Jackson.  Era Leesha Middleton, vestindo um 
suter felpudo branco e uma cala apertada de brim cor-de-
rosa.
Com relutncia, Jack deslizou para o lado, tentando criar 
espao entre eles.
        O que voc quer, Leesha?
Leesha olhou em volta, inspecionando o pblico dela.
        Estava pensando se voc gostaria de ir a algum lugar 
comigo mais tarde.
        Estou ocupado.
        No vai ficar ocupado a noite toda, vai? 
Leesha lanou a Ellen um sorriso arrogante e ps a mo na 
coxa de Jack.
Ele baixou os olhos para a mo dela, depois os ergueu para 
encar-la.
        Lobeck est com gripe ou o qu?
        Veja quem fala. Sem querer ofender, mas acho que voc 
no quer que as pessoas vejam voc com o estepe que 
arrumou. Isso  pattico.
Ellen se ps em p. Jack achou por um momento que ela ia 
embora, furiosa. Em vez disso, ela pegou a jarra de calda 
quente de chocolate e a derramou sobre a cala jeans cor-
de-rosa e o suter branco felpudo de Leesha Middleton.
        Ops.  Ellen se sentou novamente e voltou a tomar o 
sorvete.
Leesha deu um berro to alto que poderia ser ouvido no 
Canad. Todos os olhos no Corcoran's estavam voltados para 
ela. Ela se levantou e passou um guardanapo no jeans, o que 
no adiantou de nada. Ento afastou o suter do corpo 
puxando-o entre o polegar e o indicador para conferir o 
estrago.
        Voc... voc... No acredito que fez isso!
Eilen lambeu o chantilly das costas da colher e olhou 
calmamente para Leesha.
Leesha era pequena, mas pareceu se expandir, como um 
anfbio inchando de ar. Empertigou-se e resgatou a bolsa de 
couro cor-de-rosa do banco junto a Jack. Estava manchada 
de calda tambm.
        Voc vai pagar por isso, eu juro  disse Leesha a Ellen 
em um tom de voz que eriou os pelos na nuca de Jack. 
Ento ela girou nos calcanhares e saiu do restaurante.
Por um momento, o Corcoran's ficou em absoluto silncio.
Eilen olhou para o sundae de Jack, do outro lado da mesa.
        Voc vai terminar isso a?

Captulo Sete
Arte do Guerreiro para Principiantes

O dia seguinte era quarta-feira, dia da primeira sesso de 
treinamento de Jack como guerreiro. S isso j bastava para 
deix-lo apreensivo. Alm disso, a notcia sobre os eventos 
no Corcoran's havia se espalhado como fogo em palha. Eilen 
era a nova herona de Fitch. Will no conseguia acreditar 
que perdera tudo por meros minutos. Lobeck andava de um 
lado a outro do campus, derrubando estudantes do primeiro 
ano e outros objetos pequenos. Leesha parecia prestes a 
explodir. Mas Ellen faltara por motivo de doena.
Aps o treino da tarde, Jack estava ajudando o treinador 
Slansky a recolher as bolas quando notou Hastings junto  
lateral. Estava vestido para jogar, com agasalho, calo de 
futebol e tnis esportivos. Jack apanhou sua garrafa d'gua e 
a bolsa de ginstica e estava caminhando na direo dele, 
quando algum lhe tocou o brao. Era Ellen.
Ele piscou, surpreso.
        Pensei que estivesse doente.  Ela parecia bem plida.
        Bem... ah... estou melhor, acho  disse ela, como se a 
pergunta a tivesse pegado completamente de surpresa.  
Escute, ser que a gente pode ir a algum lugar e conversar?
Jack olhou para o outro lado do campo, onde Hastings o 
esperava, e de volta para Eilen.
        Desculpe, agora no posso. Vou treinar com o senhor 
Hastings.
        Com o Hastings?  Ela olhou de Jack para o mago e de 
volta para Jack.  No sabia que estava treinando com ele.
        Hoje  o primeiro dia  disse Jack, em tom de desculpas. 
 Posso encontrar voc mais tarde, se quiser. No sei 
quanto tempo vou levar, mas...
Ela sacudiu a cabea.
        No, tudo bem. Eu... eu s tinha algumas perguntas sobre 
a lio de casa que eu perdi. Posso pedir ajuda no planto de 
dvidas.
Ela se virou e se afastou rapidamente, os ombros curvados, 
como que se protegendo contra o mau tempo.
Jack a viu cruzar o campo de futebol em direo ao 
estacionamento. Depois foi at onde o mago, que sem 
dvida assistira a toda a cena, o aguardava.
        Quem era essa?  indagou Hastings, indicando Ellen com 
a cabea.
        Ellen Stephenson, uma colega de classe  disse Jack, 
ainda se perguntando o que acontecera.
Hastings franziu a testa, observando-a. Ento voltou a 
ateno a Jack.
        Est pronto para ir? A sua me concordou? 
Jack assentiu. Becka s voltaria do escritrio para casa bem 
tarde, de qualquer maneira.
Hastings guiou Jack at um Volvo preto com placa de Nova 
York no estacionamento. Jack atirou a bolsa de ginstica no 
banco de trs e sentou-se no banco do passageiro. O interior 
estava limpssimo. Nenhum adesivo esportivo ou pedao de 
papel, nenhum resqucio de comida no banco de trs. 
Nenhuma pista que conduzisse ao mistrio que cercava 
aquele homem. Hastings tirou o carro do estacionamento e 
rumou para a cidade.
        O senhor nasceu em Nova York?  perguntou Jack, com 
polidez.
        Eu me mudei muitas vezes  respondeu ele.  Mais 
recentemente, estive em Nova York.
        O senhor sempre foi professor?
        Ensinar tem sido um dos meus papis, embora no no 
chamado cenrio tradicional.
        Como conheceu a minha tia?
Pararam em um semforo. Hastings se virou e o estudou 
atentamente por um momento, como se avaliasse quanto 
Jack j sabia.
        Linda e eu somos velhos amigos  disse ele.
        E o senhor veio a Trinity para ocupar a posio do 
senhor Brumsfeld?  insistiu Jack. Achava difcil conciliar 
trabalhos rotineiros com o papel de mago. Pensou no mago 
no cemitrio e no conseguiu imagin-lo trabalhando como, 
digamos, um contador nos dias de semana.
        Vim a Trinity para ensinar voc, Jack  disse Hastings. 
 Meu trabalho no colgio me d acesso e um disfarce 
conveniente. S isso.
Jack o encarou. Aquele homem de aparncia mortfera tinha 
vindo de Nova York para Ohio s para ensinar a arte do 
guerreiro para principiantes?
        Por que faria uma coisa dessas?  indagou Jack, antes de 
se dar conta do quo rude aquilo soara.
Para a sua surpresa, Hastings enrubesceu um pouco, como se 
estivesse embaraado.
        Se quer mesmo saber, acho que foi porque eu no pude 
dizer no  respondeu ele, olhando direto para a frente.
        Oh.  Linda o havia encantado? No parecia muito 
provvel. Jack decidiu que era hora de passar para territrio 
mais seguro.  Aonde estamos indo?
        Eu me associei a uma academia de ginstica. Reservei uma 
das quadras para uso exclusivo.
A academia ficava em um conjunto de prdios de escritrio 
junto ao complexo virio. Dava para ver pessoas correndo 
em uma pista circular por uma parede de janelas de vidro no 
segundo andar.
A rea da recepo estava lotada de pessoas que tinham 
vindo se exercitar aps o trabalho. Hastings digitou um 
cdigo em um pequeno teclado no balco. Eles passaram por 
um grande salo, entraram em um corredor nos fundos 
paralelo s quadras de raquetebol, s de aerbica e de 
musculao. Hastings pegou uma chave e abriu uma das 
portas.
Parecia com uma quadra de raquetebol com o piso de 
madeira bem polido, mas tinha uma parede coberta por um 
espelho. Jack largou a bolsa de ginstica no cho.
        Para que serve esta sala?  indagou ele. 
Hastings sorriu.
        Esgrima. Apropriado para ns, no acha? 
Jack deu de ombros.
        No sei. No sei bem que tipo de coisa a gente vai ver 
aqui.  Ele sabia que soava irritado, mas no se importava. 
Todo aquele mistrio estava comeando a lhe dar nos 
nervos.
        Vocs guerreiros so pessoas impulsivas  replicou 
Hastings, com apenas um leve toque de rispidez na voz.  
Vai ter de aprender a ter pacincia, entre outras coisas. 
Vamos resolver o seu problema de controle hoje.
Hastings tirou o abrigo. Trajava uma camiseta por baixo. Ele 
parecera alto e esguio quando Jack o vira na escola. Jack 
estava surpreso ao descobrir que o diretor-assistente era 
musculoso, apesar de magro.
        Voc nunca treinou antes.  No era uma pergunta.
        Isso mesmo. Nada.
Jack removeu a camisa, revelando o colete por baixo. 
Hastings gesticulou com impacincia, e Jack despiu o colete 
tambm, ficando s de camiseta.
O mago andou ao redor dele, estudando-o de todos os 
ngulos.
        H quanto tempo parou de tomar a Antiweir?
        Qu?
        A poo que a doutora Longbranch deu pra voc.
        Oh. Uma semana atrs, mais ou menos. Hastings soltou 
um grunhido.
        J usou seus poderes antes?
        Bom...  Jack hesitou.  Sempre que aconteceu, foi... 
acidental.
        Quando estava zangado? Fora de controle?  insistiu 
Hastings.
Jack pensou no episdio no cemitrio. Era difcil dizer 
quanto de magia estivera envolvida l.
        Zangado ou com medo, acho  admitiu.
Hastings tirou um pequeno objeto do bolso do calo e o 
levantou para que Jack o visse. Parecia ser um pio, 
finamente laqueado e decorado com um padro intricado de 
smbolos e pictogramas. Hastings o pouso no banco em 
frente ao espelho.
        Faa-o girar  ordenou ele, afastando-se para o lado, as 
mos na cintura. Aparentemente, Jack tinha de faz-lo de 
onde estava.
        O que isso tem a ver com...
A respirao de Hastings sibilou em frustrao.
        Olhe, nosso tempo junto  limitado, e voc j est 
comeando bem tarde. Apenas faa o que lhe digo.
Jack olhou para o pio, cheio de dvidas.
        Certo  resmungou ele.
Tentou focar toda a ateno no alvo, retesando-se e 
cerrando os dentes sem nenhuma estratgia em particular. 
"Mexa-se!", sussurrou ele para si mesmo. O pio se manteve 
imvel, irredutvel. Jack deu de ombros.
        No est funcionando.
        Tente relaxar. No segure o flego. Imagine o pio 
girando.
Jack tentou de novo, sentindo o olhar atento do professor 
sobre si. O pio no se moveu.
        Vamos tentar outra coisa.  Hastings abriu o zper da 
bolsa e tirou de dentro dois floretes leves com rolhas nas 
pontas. Passou um para Jack.  Apenas faa o possvel para 
manter a ponta do meu florete longe de voc.  Sem mais 
instrues, atingiu Jack com fora embaixo das costelas.
Jack ergueu seu florete e tentou se defender dos ataques que 
agora vinham rpido e com fora. Hastings atingiu o alvo 
mais uma vez, e outra  ombro, peito, costas, estmago , 
sem fazer esforo. Por mais que se concentrasse, Jack no 
conseguia se proteger ou atacar. Gradualmente, Hastings o 
fez recuar at Jack ficar se defendendo num canto.
Jack foi ficando cada vez mais irritado. Aquele homem devia 
ser um professor, no? Ele sabia que Jack precisava de 
treinamento, ento por que o humilhava? Jack levou outro 
duro cutuco nas costelas, e algo nele se soltou. Foi como se 
uma energia quente tivesse se acumulado sem que ele 
percebesse em seus braos e nas pontas dos dedos. O brao 
da espada se ergueu, e chamas irromperam da ponta da 
lmina. O florete de Hastings caiu ao cho.
Imediatamente, a outra mo de Hastings apareceu, lanando 
um arco do que parecia ser ouro em p. A substncia pairou 
no ar, cintilando.
        Agora veja!  ordenou Hastings. Ele agarrou o cotovelo 
de Jack e virou-o at que estivesse de frente para o espelho.
Jack estava no centro de uma estrela radiante delineada em 
purpurina, o corpo cercado por um contorno brilhante.
        Agora desligue isso  disse Hastings. Mantendo a 
ateno focada na imagem no espelho,
Jack comeou a inspirar, como se inalando um sonho. 
Lentamente, a estrela se dissolveu diante de seus olhos, at 
que somente alguns vestgios de purpurina se refletiram sob 
a luz e apagaram-se.
        Esse  o processo que queremos.  O mago parecia estar 
se divertindo.  Agora voc tem de aprender a concentrar 
a energia sem precisar ser provocado. E a controlar a 
energia, quando provocado. Use o brao da espada, se for 
til. Voc precisa perceber o fluxo de energia para control-
la.  como o vapor se acumulando numa caldeira. Voc 
precisa liberar antes que ocorra a exploso.  Apontou 
novamente para o pio sobre o banco.  Tente de novo. 
Agora voc sabe qual  a sensao. Localize a energia. No  
muito difcil. Depois, direcione a energia pelas pontas dos 
dedos.
Jack fechou os olhos e traou uma pequena imagem do pio 
no vazio diante de seus olhos. Coloriu-a e acrescentou a 
misteriosa inscrio na lateral. Depois o fez girar em sua 
mente, cada vez mais rpido, at que as cores se fundiram 
em um borro extico. Sentiu um formigamento nas mos, 
como o sangue retornando, a energia escoando pelos dedos. 
Quando abriu os olhos, o pio estava girando com firmeza 
cerca de trinta centmetros acima do banco.
 Agora faa com que ele pare  instruiu o professor.
Sem fechar os olhos desta vez, Jack conteve a magia, 
permitindo que o pio pousasse suavemente na superfcie 
arranhada do banco de madeira. O pio girou em silncio 
por um momento at cair de lado e parar. Hastings lanou o 
punhado de ouro de novo. Havia um brilho suave em torno 
de Jack desta vez, menos ntido do que antes. Jack 
reembainhou as armas, e a imagem se dissipou como antes.
Seguiram-se vrios exerccios similares, em que Jack 
acumulava energia mgica e depois a descarregava. 
Finalmente, passaram algum tempo trabalhando com o 
florete, comeando com movimentos clssicos de esgrima, 
depois acrescentando magia. Jack aprendeu a conter o 
poder, canaliz-lo para a lmina e enviar chamas em espiral a 
partir da ponta quando queria. Lembrando do modo como 
se sentira no cemitrio, o casamento da carne com o metal, 
e do ataque bem-sucedido contra o mago, Jack se perguntou 
quanto havia contribudo para que aquilo ocorresse.
        Eu tenho uma espada. A Sombra Assassina, esse  o 
nome dela. O que me pergunto  quanto da magia est em 
mim e quanto est na espada?
A princpio, Jack achou que no obteria uma resposta para 
essa pergunta. Hastings franziu o cenho e passou os dois 
floretes para Jack sem nenhum comentrio, indicando que 
deveria devolv-los  bolsa. Tambm lhe entregou o pio e 
uma pequena bolsa de camura macia.
        O pio  um brinquedo dos magos  disse Hastings.  
Voc pode usar para praticar o controle em casa. Tem mais 
do p brilhante na bolsa.
Jack guardou ambos os itens em sua bolsa de ginstica.
        A autoconscincia  o primeiro passo  continuou 
Hastings.  A prtica  a chave. Logo voc vai saber 
manejar seu poder de forma intuitiva, e isso, mais do que 
tudo, vai manter voc a salvo. S ento vamos passar para 
outros treinos.
        A tia Linda disse para eu no usar meus poderes, disse que 
isso enviaria alguma espcie de sinal.
        Ela quis dizer que voc no deve usar os poderes como 
entretenimento.  claro que precisa praticar, ou nunca vai se 
aprimorar. Magia no  uma ferramenta para ser usada de 
maneira imprudente ou insensata. Precisa ser domada por 
um intelecto forte o bastante para mant-la sob controle. 
Fale com o Snowbeard. Se ainda no h feitios de proteo 
sobre a sua casa, ele pode providenciar isso.  Hastings o 
fitou com as mos na cintura.  Voc sabe de quem est se 
escondendo, Jack?
Embaraado, Jack sacudiu a cabea.
Hastings franziu a testa e esfregou o queixo com o polegar.
        Vamos continuar a nos encontrar para trabalhar as suas 
habilidades nas segundas, quartas e sextas. Estou trabalhando 
com alguns dos outros jogadores de futebol tambm, por 
isso no vai parecer estranho.  O mago estava dando 
ordens de novo, quase que inconscientemente.
Hastings se voltou para a porta, mas parou, a alta estatura 
preencheu a entrada.
        A Sombra Assassina  uma das Sete Grandes Espadas 
forjadas pelo feiticeiro Althis Mac, na Ravina do Corvo, h 
mais cinco sculos. As outras seis foram perdidas. O corpo 
da espada  um pedao da Cabea do Corvo. H um poder 
fortssimo nela, e foi feita para a sua mo. Outros podem 
brandir a Sombra Assassina, mas no to bem quanto o 
herdeiro, quando treinado de modo apropriado.  Ele fez 
uma pausa.  H um poder considervel em voc tambm, 
Jack, apesar de seu histrico incomum. Com a arma que tem 
e o treinamento adequado, voc pode se tornar... 
impressionante. Vamos embora.
A lio terminara.

Captulo Oito
O Aprendiz

Jack avanou implacvel contra Hastings, o corpo 
posicionado de forma a representar um alvo menor, o 
cotovelo para cima e a espada estendida para impedir uma 
fuga pela direita, o pequeno escudo protegendo o peito. O 
mago no lhe dava moleza, obrigando-o a se esforar a cada 
passo de sua evoluo. Ao encontrou ao com guinchos e 
fascas, e, quando Jack pensou que havia encurralado o 
professor, Hastings girou para longe da parede, a lmina 
sibilando em direo a Jack ao nvel da cintura. Jack teve de 
pular para trs para evit-la, e Hastings estava livre de novo, 
com espao s costas e Jack contra a parede.
        Esta... sala ... pequena... demais!  Jack arquejou, 
forando-o a se afastar mais uma vez.
        Voc nunca chegaria perto de mim numa sala maior  
replicou o mago, os dentes brilhando num sorriso, embora 
estivessem treinando h mais de uma hora.  Nem sempre 
se consegue escolher onde se luta, ou com quem se luta... ou 
mesmo... como se luta. Mas d um jeito para que seja voc 
quem faz a escolha... sempre que puder.
Hastings continuava ensinando, mas agora dava para notar-
lhe a respirao. Talvez estivesse mais lento para bloquear os 
ataques, aparando as chamas. Talvez estivesse sem flego, s 
um pouquinho.
        Vamos ter de terminar isso... voc sabe. A sua me est 
esperando por voc.
        Voc se rende?  perguntou Jack.
O ombro de Jack estava dormente por causa das centenas de 
colises que j absorvera. Sentia os pesos nos pulsos e 
tornozelos, colocados ali com o intuito de fortalecer os 
msculos e prepar-lo para uma espada mais pesada. At o 
florete estava ficando mais pesado, ou talvez fosse o brao 
de Jack, agora pesado demais para levantar.
        A sua me pode esperar um pouco mais  respondeu 
Hastings.
Lentamente, Jack empurrou Hastings pela sala at este se 
encontrar mais uma vez contra um canto. Jack impulsionou 
o brao da espada para a frente, e Hastings se moveu para 
aparar. Naquele momento, Jack endireitou o brao do 
escudo, expondo o peito, mas liberando a mo no 
dominante. Chamas voaram em espiral a partir das pontas de 
seus dedos, e o florete de Hastings caiu ao cho. Hastings 
ergueu as mos, capitulando.
        Eu me rendo, guerreiro  disse ele, sorrindo. 
Jack voltou a ponta da espada para o cho.
        Graas a Deus  disse ele.
Jack apanhou uma toalha e esfregou-a no rosto. O cabelo 
estava colado  cabea e a camisa, ensopada. O piso estava 
escorregadio de suor. A sala fedia a suor.
        Da prxima vez, vamos trabalhar mais com o machado 
 prometeu o mago.  Acho que voc est comeando a 
aprender a brincar com as duas mos.
        A gente estava brincando, no ?  Jack sorriu.
         a primeira brincadeira que eu veno.  Sentiu a 
necessidade de enfatizar o fato, no caso de Hastings no ter 
percebido.
        Voc melhorou muito, Jack.  Hastings era sempre 
econmico em elogios e prdigo em cobranas.
        Como est se saindo com a leitura?
        Estou tentando.
        No pedi pra voc tentar.
Jack fez uma careta.
         como ingls shakespeariano sem a poesia  queixou-
se ele.
As aulas com o mago eram sobretudo fsicas, mas Hastings 
havia lhe dado recentemente um fino volume intitulado Leis 
de Combate. Era uma espcie de Bblia da luta no torneio 
Weir, tratando de elementos da vestimenta, armamentos e 
etiqueta de batalha. O armamento era explicitamente 
limitado a armas de mo medievais, como espadas, fundas, 
maas e outras armas do gnero.
Hastings no respondeu, e Jack insistiu:
        No entendo por que eles no se atualizaram.
        As leis so para os torneios  disse Hastings com 
pacincia, secando os floretes e devolvendo-os ao estojo.  
No foram feitas para serem modernas. No se permite que 
as armas ofusquem as habilidades dos guerreiros.
        Mas no  verdade que algumas armas so melhores que 
outras? E quanto  Sombra Assassina? O que tem de justo 
nisso?
Hastings deu de ombros.
        Essa  uma pea especial. Mas ainda dentro das regras.
        E quanto ao resto? Voc no tem como negar que est 
bem desatualizado.  Ele tirou o livro da bolsa de ginstica 
e o folheou.  Escute isso: "Os encantadores foram criados 
para o entretenimento dos magos". E aqui: "Um mago 
responsvel pode escolher manter e proteger um encantador 
em troca de servios prestados". Isso no pode estar certo. E 
as regras governando as relaes entre as ordens so injustas. 
Todas favorecem os magos.  Ele havia ouvido falar de 
coisas assim, leis municipais obsoletas que ainda estavam nos 
livros. Regras que proibiam o casamento inter-racial ou 
entrar a cavalo em igrejas, por exemplo.
        Voc no tem de gostar das regras  replicou Hastings. 
 Foram escritas por magos, ento  claro que so parciais. 
E eu no falei pra voc ler a coisa toda. S o regulamento do 
torneio.
        Esse j  ruim o bastante. Que negcio  esse de chamar 
guerreiros mortos pra combates de treinamento?
Por que  preciso ter uma regra de que apenas guerreiros 
vivos podem ser usados em batalha?
        Vamos falar sobre isso quando chegar a hora.  A essa 
altura j haviam guardado tudo.   melhor irmos. Voc j 
est atrasado.
Jack percebeu que Hastings estava perdendo a pacincia, 
mas no conseguiu se conter.
        No entendo por que tenho de aprender sobre torneios, 
afinal. Voc acha que um mago vai me desafiar para algum 
tipo de duelo?  mais provvel que eu seja pego de surpresa. 
Talvez voc devesse me ensinar lutas sem armas, como tai 
chi.
        Talvez. Talvez eu faa isso. Mas no vim aqui para discutir 
com voc. Vamos.  Hastings pousou uma mo quente no 
ombro de Jack, empurrando-o porta afora.
Era sempre assim. O mago nunca respondia s perguntas 
dele. Hastings era incansvel ao ensinar cada aspecto de seu 
novo talento  armas, equipamento, condicionamento e 
treinamento fsico , mas no compartilhava nada sobre o 
prprio passado.
Jack tentara anteriormente fazer perguntas sobre a famlia de 
Hastings, sobre onde ele recebera seu treinamento. Dera de 
cara com um muro de pedra. O foco estava sempre em Jack. 
s vezes, Jack tinha a sensao de que Hastings lidava com 
ele como se ele fosse um problema, descascando 
gradualmente as camadas exteriores at que se revelasse por 
inteiro. Ou talvez a pessoa que ele costumava ser estivesse 
sendo desmontada.
Jack s no tinha muita certeza de quem estava tomando seu 
lugar.
No tivera notcias de tia Linda desde a viagem a Coal 
Grove. Ela o abandonara com Hastings. Ser que ainda 
estava fugindo de Wylie? E se ele a tivesse apanhado?
Queria poder telefonar para ela. Sentia-se solitrio e nervoso. 
At seu relacionamento com Nick havia mudado. Nos 
velhos tempos, o apartamento sobre a garagem havia sido 
um refgio. Agora, certas noites ele ia diretamente das lies 
sobre a arte do guerreiro s lies de magia sem nenhum 
intervalo. Como nesta noite.
A voz de Nick interrompeu seus pensamentos.
        Lembre-se de que, de todos os Weirs, s os magos sabem 
usar feitios para explorar e controlar a magia. Nas outras 
ordens, a magia  pessoal e manual.  mais um poder fsico. 
Menos verstil. Est me ouvindo, Jack?
        Menos verstil  repetiu ele, obediente, mordendo outro 
biscoito com gotas de chocolate. Andava sempre faminto 
naqueles dias.
        Os magos so artesos sofisticados da magia, e  por isso 
que tm sido capazes de dominar os outros Weirs por 
sculos.  Nick encontrou uma passagem marcada no Livro 
Weir de Jack.  Agora, vamos repassar o que vimos na 
semana passada. Transformare: a arte de transformar uma 
coisa em outra.
Estavam estudando o Livro Weir, captulo a captulo. 
Feitios falados para mover objetos, confundir o inimigo, 
barreiras e feitios de ataque. Feitios pequenos o suficiente 
para testar no apartamento sobre a garagem.
        Quando voc vai me ensinar alguns encantos de amor?  
perguntou Jack, pensando em Ellen.
        Vamos guardar esses para quando voc for mais velho e 
responsvel  observou Nick secamente.  Encantos de 
seduo so tentadores demais para o adolescente tpico. Vai 
ter de confiar no seu encanto pessoal por enquanto.
        S estou tentando ser eficiente  grunhiu Jack.  Com o 
futebol e a escola, mais o treinamento como guerreiro e 
mago, alm de ler todos os livros que voc me d, no sobra 
tempo pra muita coisa.
Nick passava livros novos para ele toda semana: ensaios 
sobre magia, poes e filosofia, volumes empoeirados que 
pareciam ter ficado fechados por anos.
        H sempre tempo para as coisas mais importantes  disse 
Nick suavemente.
        No me venha com esse papo furado sobre ge-
renciamento de tempo.  Jack suspirou e enterrou o rosto 
nas mos.  S o que fao  estudar e treinar com Hastings. 
Eu nunca durmo. Minhas notas esto caindo. O que eu 
quero saber  se vou ter de estudar assim para sempre.
        A magia se manifesta cedo, voc se lembra  replicou 
Nick.  A maioria dos aprendizes comea a trabalhar com 
isso quando bem jovens. Voc tem de recuperar o tempo 
perdido. Alm disso, por causa da pedra de guerreiro, os seus 
poderes de mago so relativamente fracos.
        Talvez eu deva simplesmente largar a escola, agora que 
estou aprendendo um ofcio.  Quando Nick no lhe deu 
uma resposta, Jack se levantou e comeou a caminhar pela 
sala.  No entendo por que tenho de fazer isso tudo. A tia 
Linda me disse que eu tenho de estar preparado pra me 
defender contra algum que possa me atacar. No sei quem 
e no sei quando. Francamente, no acho que tenha algum 
atrs de mim. Talvez Wylie estivesse atrs da Sombra 
Assassina e eu simplesmente estava no caminho. S tenho 
dezesseis anos, e s faz uns dois meses que comecei a 
treinar. Um mago teria de ser estpido pra achar que eu 
posso ser uma grande ameaa ou um grande aliado.
Ele fez uma pausa.
        A me diz que, quando algum compra armas ou rene 
um exrcito, comea a procurar um pretexto para fazer uso 
deles. E mais: torna-se uma ameaa muito maior aos outros. 
Quanto mais treinamento eu recebo, maior a probabilidade 
de que algum venha atrs de mim.  o que eu penso.
Jack olhou de esguelha para Nick, avaliando a reao dele  
sua teoria. Estivera pensando naquilo por algum tempo.
        Certo. Linda no falou pra voc sobre o Jogo  disse 
Snowbeard.  Sente-se aqui, Jack.
Jack se sentou na cadeira diante do velho mago. Tinha uma 
forte premonio de ms notcias chegando.
        O conflito entre os magos  altamente ritualiza-do, por 
necessidade  comeou Nick.  Caso contrrio, ns nos 
destruiramos uns aos outros, certo? Na verdade, quase 
fizemos isso. A luta  usada para demarcar o poder. Em 
particular, o controle de artefatos mgicos. As Casas dos 
Magos ganham poder por meio de uma vitria. 
Originalmente, havia batalhas de verdade entre exrcitos 
criados e liderados por magos. Mas isso evoluiu para uma 
srie de torneios. Eles usam os guerreiros como substitutos. 
Chamam isso de o Jogo. S que, para os guerreiros, no  um 
jogo coisa nenhuma.  uma luta at a morte.
        Hoje em dia  difcil achar guerreiros  continuou Nick. 
 So os mais raros dos Weirs, e esto ficando cada vez 
mais raros, pois so mortos muito rapidamente. Poucos 
torneios acontecem hoje em dia por causa da falta de 
jogadores. E, quando um lado localiza um guerreiro, o outro 
lado faz o que pode para mat-lo.
Jack sacudiu a cabea, incrdulo, enquanto Snowbeard 
prosseguia:
        H at mesmo um mercado negro de guerreiros e Weirs 
no magos, que chamamos simplesmente de Mercado. Os 
guerreiros so vendidos pelos maiores preos. H tambm 
mercadores que trabalham em tempo integral estudando 
genealogias, seguindo pistas, caando e sequestrando 
guerreiros para lucrar com a venda. Eles tentam encontrar 
jovens guerreiros como voc, que esto comeando a 
manifestar o poder e ainda no se deram conta de quem so.
        Eles compram e vendem pessoas?  Jack estava 
escandalizado.  Eles no podem fazer isso!  ilegal.
Snowbeard sorriu com tristeza.
        Queria que isso fosse verdade. Mas qualquer um com 
poder suficiente pode fazer o que quiser. E os magos so um 
bando poderoso e arrogante. Na perspectiva de um mago, as 
outras ordens so uma classe servil com talentos especficos. 
Aqueles que acreditam nisso pensam nas outras ordens 
como propriedade e, portanto, como uma mercadoria 
negocivel.
        Quantos guerreiros ainda restam? Nick o 
olhou nos olhos.
        Bom, neste momento, tem voc, que eu saiba  disse 
ele gentilmente.  Pode haver outros dos quais eu no 
saiba.
Jack abriu a boca, mas nenhum som saiu. Tomou 
subitamente conscincia do suor escorrendo entre os 
ombros, apesar da brisa agradvel que entrava pela janela.
Agora as coisas estavam se tornando claras para ele. Porque 
sua tia estava convencida de que os magos viriam atrs dele, 
mais dia, menos dia. Porque Leander Hastings viera de to 
longe at Trinity para trein-lo. Porque Nick Snowbeard 
morava sobre a garagem dos Swifts. Porque a doutora 
Longbranch iria... Um tremor correu pelo corpo de Jack.
        A tia Linda disse que a doutora Longbranch implantou a 
pedra de guerreiro em mim porque queria ver o que ia 
acontecer.  Jack se inclinou para a frente, as mos 
agarrando os braos da cadeira.  Ela estava tentando criar 
um guerreiro, no ?
        Desconfio que sim  disse Nick baixinho.
        Ento eu sou algum tipo de aberrao. O Frankenstein do 
mundo dos magos. Por que a tia Linda no me contou?  
indagou Jack.
O velho mago coou a barba.
        Linda se sente... responsvel por voc. Foi ela quem 
envolveu a doutora Longbranch nessa histria. Ela fez isso 
para salvar a sua vida, Jack. Mas a sua situao tem sido 
difcil para ela.
        Difcil para ela?  Jack estava em p de novo.  Difcil 
para ela?  por isso que voc fica por aqui, voc e Mercedes 
e ris e... e todos os outros? Porque eu sou to valioso? Vocs 
todos tm planos de lucrar comigo?
Nick permaneceu imvel, o olhar firme e gentil, at que 
Jack finalmente se deixou cair novamente na cadeira, corado 
e embaraado.
        Apesar de no sermos guerreiros, somos todos pessoas 
que desaprovam esse sistema. Assim como os que 
mantinham as rotas clandestinas para a fuga de escravos aqui 
nos Estados Unidos no sculo XIX. Estamos aqui porque 
voc est em perigo.  por isso que comeamos o 
treinamento. Foi o melhor plano que pudemos imaginar. 
Pode acreditar,  uma vantagem tremenda que voc possa 
usar magia. No  m ideia ter algumas surpresas escondidas 
na manga. Se quiser sobreviver, precisa ter armas  sua 
disposio alm das que o Hastings vai dar a voc.
Jack cobriu o rosto com as mos. Quando fechou os olhos, 
viu uma imagem de si mesmo acorrentado, sendo leiloado 
em um mercado de escravos. Uma imagem de si mesmo 
como um gladiador diante de uma multido sedenta de 
sangue.
        O que voc sabe sobre Leander Hastings?  perguntou 
ele abruptamente.
Se Snowbeard ficou surpreso com a pergunta, no 
demonstrou.
        Hastings  o que chamamos de um mestre, o que 
significa que ele  especialista em diversas artes mgicas. So 
os melhores professores, pois conseguem desenvolver os 
alunos em vrias reas.  claro, a maioria dos mestres tm 
suas especialidades. A do Hastings  o combate. Mas ele , 
acima de tudo, um mago. Uma combinao pouco usual de 
talentos perfeitamente adequada para a sua situao  
acrescentou ele.
        Como sabemos que podemos confiar nele?
        Leander Hastings  o melhor. Tem reputao 
internacional, embora tenha feito muitos inimigos ao longo 
do caminho.  O velho pigarreou.  Acho que no foi 
fcil para ela fazer essa escolha. Entenda, sua tia Linda e 
Leander Hastings estavam... ahn.... juntos, anos atrs.
Jack estava chocado. Tentou imaginar os dois juntos, sua tia, 
pequena e radiante, com o alto, sombrio e perigoso Leander 
Hastings.
        Eles no esto mais...  Jack no completou a frase, mas 
nem precisava.
        No  o velho replicou rapidamente.  Eles no se 
vem h anos.
        Oh.  A raiva de Jack se dissipava, deixando-o com uma 
devastadora sensao de desespero.  Eu perguntei ao 
senhor Hastings por que ele est fazendo isso, e ele disse 
algo sobre no ser capaz de dizer no. No tenho certeza de 
que ele quer estar aqui.
        Hastings no estaria aqui se no quisesse  declarou 
Nick.  Jack, no tente entender tudo de uma s vez.  
muito difcil lidar com tudo isso. Concentre o seu foco. A 
sua tarefa  aprender a usar todas as ferramentas que tem  
disposio. Por exemplo...
Mais uma vez, o mago se ergueu com esforo e arrastou os 
ps at o quarto ao lado. Voltou alguns minutos mais tarde 
com um pacote embrulhado em couro macio. Entregou-o a 
Jack.
Jack o desembrulhou. Era um espelho, emoldurado em 
prata, decorado com drages e magos. Era familiar. Blaise 
Highbourne lhe dera como presente quando era beb. Havia 
sido guardado no ba embaixo da cama de Jack por anos.
Jack o virou entre as mos.
        Onde conseguiu isto?
        Isso pode ajudar voc, agora que parou de tomar Antiweir 
por algum tempo. Blaise  um adivinho. Isto  um espelho 
que mostra a verdade: no passado, no presente e, s vezes, 
no futuro.
        J tem coisas assustadoras o bastante no presente  disse 
Jack.  No quero saber o futuro.  Ele no olhou para o 
espelho.
        D uma olhada  sugeriu Nick.  Mas tenha em mente 
que o significado da imagem nem sempre  claro.  a 
maldio da profecia.
Com cautela, Jack puxou o espelho para si, virando-o de 
forma que pudesse ver o lado de vidro.
A imagem clareou, revelando duas figuras em p sobre uma 
ribanceira alta junto a um rio. Jack esfregou os olhos, 
espantado, e voltou a olhar para o espelho.
Viu uma mulher jovem em um vestido longo, o cabelo 
louro-avermelhado voando solto, e um homem alto e magro 
a encarando, de costas para Jack. Estavam discutindo com 
fria. A mulher se virou e tentou saltar do penhasco, mas o 
homem a puxou de volta e derrubou-a no cho, 
pressionando-a com o corpo. Jack queria desviar o olhar, 
mas estava fascinado.
A imagem mudou, focando o rosto da mulher por sobre o 
ombro do homem, os assustados olhos azuis, os cabelos 
flamejantes espalhados pela pedra.
        No...  sussurrou Jack, mas no desviou o olhar. 
O homem no espelho se inclinou para a frente a agarrou os 
ombros da mulher.
        Escute-me agora. Voc vai dizer onde escondeu o 
menino, e ns vamos l busc-lo. E ento vou levar voc 
embora daqui.  A voz era assustadoramente familiar, mas 
tudo o que Jack podia ver era a nuca do homem.
De repente, a mulher tinha uma faca nas mos, como se 
colhida do ar. Girando a lmina, ela se esfaqueou. O homem 
a segurou nos braos, ninando-a, balanando-a para a frente 
e para trs.
        Aaaaaaah!  Jack jogou o espelho contra a parede. Este 
no quebrou, mas caiu atrs da estante.
        O que voc viu?
        Eu vi um cara atacando a minha me, exigindo saber onde 
eu estava. E a ela se matou.
        Tem certeza de que era a sua me?
        Acha que eu no a reconheceria?  Jack estremeceu. 
Recuperou o espelho de trs da estante e o ps sobre a mesa 
com a face de vidro para baixo.  Agora nem olhar no 
espelho  seguro.
        Como ela estava vestida? 
Jack considerou a pergunta.
        Como... bom, em algum tipo de roupa de poca.
        Certo. Talvez uma ancestral, ento, que apenas se parece 
com a sua me. O espelho vai tentar dizer coisas que voc 
precisa saber. Mas voc tem de interpretar o que vir.
        Escute, eu no preciso ver isso, est certo?
        Tudo bem, Jack. Vamos deixar isso de lado por 
enquanto.

Jack tentou seguir o conselho de Snowbeard nos dias que se 
seguiram, ao menos quanto a se concentrar na tarefa que 
tinha a cumprir. No achava que tivesse escolha alm de ir 
em frente. A pior parte eram os sonhos. Jack comeou a 
adiar o momento de ir para a cama at que estivesse 
absolutamente exausto. Todas as noites ele precisava travar 
batalhas com mercadores e monstros, amigos e parentes que 
se voltavam contra ele e o vendiam pelo valor mais alto. 
Seus amigos, professores, parentes, vizinhos, todos passavam 
por seus pesadelos, interpretando diferentes papis. Durante 
o dia, sentia-se nervoso e mal-humorado, sempre em 
guarda.
O relacionamento com os vizinhos mudara. Comeara a 
compreender que todos na rua Jefferson haviam investido 
nele. Quando Mercedes acenava para ele do jardim da frente 
da casa dela, ele pensava no colete macio junto  pele. 
Quando ris trazia ervilhas para Becka, sorria para Jack em 
encorajamento, perguntava como estava, se precisava de 
alguma coisa. Blaise lhe fez um par de luvas com 
acabamento em prata, com a inscrio A FORA ATRAVS 
DA VIRTUDE. Jack sentia-se alternadamente seguro e 
sufocado na fortaleza da rua Jefferson.
Algo peculiar estava acontecendo com o corpo de Jack. Suas 
camisas se tornaram apertadas no trax e nos braos e o 
jeans, justo nos quadris. Ele disse  me que comeara um 
programa de levantamento de pesos na escola. Ela o levou 
para comprar roupas novas duas vezes em dois meses. s 
vezes ele ficava se olhando no espelho aps o banho, 
espantado. Jack sempre fora magro e tivera boa forma fsica, 
mas agora se via diante de um estranho musculoso.
Passou a vestir camisas de flanela e jeans largo para ocultar a 
metamorfose, o que dava certo quando o tempo estava 
fresco. No ajudava quando ele estava no campo de futebol 
ou no vestirio. Seria engraado, se Jack no estivesse to 
apreensivo. L estava ele tentando esconder o que a maioria 
dos rapazes na idade dele adoraria exibir. Pareo um garoto-
propaganda de esterides, pensou ele. Considerou todas as 
poes que estava tomando e se perguntou se conseguiria 
passar num exame de urina.
O futebol, pelo menos, estava definitivamente melhorando, 
agora que no tinha de se preocupar em mandar algum 
voando para fora do campo. No que a ideia no fosse 
tentadora s vezes. Garrett Lobeck parecia ter recuperado a 
velha arrogncia no que se referia a Jack. Ele ainda culpava 
Jack por no ter entrado no time principal. E o interesse 
persistente de Leesha em Jack no o ajudava em nada. Com 
receio de perder o controle, Jack fazia o possvel para evitar 
um confronto. Naturalmente, Lobeck via isso como um 
sinal de fraqueza.
Jack estava jogando melhor do que nunca. Estava mais forte, 
agressivo e veloz  mais disposto a correr riscos. Parecia 
que as qualidades necessrias na arte do guerreiro eram 
igualmente teis em jogos menos mortais. O sucesso de Jack 
no melhorava o estado de esprito de Lobeck em nada.
Ironicamente, a estrela de Jack parecia estar em ascenso no 
grfico social do Colgio de Trinity. Agora, Jack encontrava 
seu armrio todo decorado antes de cada jogo e tinha o seu 
prprio grupo de torcida. Meninas que Jack conhecera a 
vida inteira de repente o achavam totalmente fascinante.
Via Eilen com frequncia, mas sempre no meio de um 
bando de gente. Nos dias em que no se encontrava com 
Hastings, muitas vezes dava um pulo no Corcoran's depois 
do treino. Eilen se tornara cliente regular l desde que ela e 
Will comearam os exerccios com o time juvenil.
Will e Eilen formavam uma boa dupla, o contraste entre eles 
ressaltando as qualidades de cada um. Will era eternamente 
paciente com os jogadores menos competentes, enquanto 
Eilen pregava um jogo agressivo, estilo europeu de 
confronto. Sob a tutela dos dois, a equipe melhorara de 
modo espetacular. At alguns dos jogadores do time 
principal tinham comeado a participar.
Will, Fitch e Eilen haviam se juntado  Sociedade 
Chauceriana, um clube de cultura medieval fundado por 
Hastings. Estavam planejando um banquete medieval em 
um velho teatro no centro da cidade antes do fim das aulas. 
Jack no participava do clube. J passava tempo suficiente 
com Leander Hastings.
Jack se sentia cada vez mais isolado pelo fardo que carregava 
e pelos segredos que guardava, pela exausto mental e fsica 
e o medo contnuo de que o descobrissem.
Certa tarde, Jack, Will e Fitch permaneceram no Corcoran's 
aps uma vitria sobre o Colgio McKinley. Eilen tinha 
faltado  aula de novo, e Jack se viu preocupado com a sade 
dela. Ela parecera bem no dia anterior.
Leesha tinha acabado de sair, aps distribuir convites para 
sua festa de aniversrio.
        A Leesha ainda quer voc, Jack  comentou Fitch.  A 
princesa quer o que no pode ter.        
        Ela vai ter de entrar na fila, se quiser tempo com o Jack  
disse Will devagar.  Perdi a conta das meninas que vieram 
me perguntar de quem ele gosta. E eu nem sei o que dizer 
pra elas.  Estava estendido na cadeira, as longas pernas 
esticadas  frente.  Voc sabe que a Eilen  louca por 
voc.
Jack se sentou com as costas mais eretas.
        Como assim? Ela disse alguma coisa? Ela no me disse 
nada. Parece que eu nunca consigo nem conversar com ela.
Will revirou os olhos.
        Ela simplesmente no sabe como lidar com a 
competio. Mas, falando srio, Jack, a gente est se 
perguntando o que est acontecendo.  Ele se inclinou para 
a frente.  Tem algo diferente em voc. Fisicamente, 
parece timo. Ganhou um monte de msculo. E est jo-
gando muito bem, como nunca vi voc jogar antes.
Jack estremeceu e deu uma olhada no restaurante em torno. 
Estava ficando tarde, e o lugar estava quase vazio. No havia 
ningum em condies de ouvir a conversa entre eles.
        Mas  como se voc estivesse em outro planeta  
continuou Will.  Voc nem escuta o que a gente fala 
metade do tempo. E est sempre estudando ou se 
exercitando.
Fitch tinha um lpis na mo e estava rabiscando em um 
guardanapo.
        Voc nunca mais est on-line  noite. Uma hora est 
ligado e na outra est caindo no sono durante a aula. Eu 
diria que voc est apaixonado, mas as meninas se jogam aos 
seus ps e voc nem nota. Seria legal se voc mandasse 
algumas pro meu lado  acrescentou ele. Aparentemente, 
ele e Alison haviam se separado de novo, e Jack nem 
soubera.
        A gente est pensando se isso tem algo a ver com aquele 
lance do cemitrio  disse Will baixinho.
Jack desmoronou na cadeira, pousando os cotovelos na 
mesa. Ele havia subestimado os dois amigos e sua habilidade 
de chegar to perto da verdade. "No confie em ningum", 
tia Linda lhe havia dito. Mas fora ela quem envolvera Will e 
Fitch na histria. No final das contas, ele no precisava dizer 
muito.
Fitch assentiu com a cabea quando Jack no respondeu, 
como se este houvesse confirmado a sugesto. Ele se 
recostou na cadeira.
        A sua tia voltou?
Jack sacudiu a cabea negativamente, sem falar.
        E voc no tem dormido bem, aposto  disse Will.
        Acho que no  um assunto sobre o qual voc possa 
conversar com a sua me  disse Fitch lentamente.
Jack ergueu a cabea de repente. O rosto de Fitch era 
inescrutvel. Os amigos de Jack j estavam em perigo por 
causa do episdio no cemitrio e do relacionamento com 
ele. E eles no haviam herdado nenhum dom especial. No 
tinham armas mgicas  disposio. Quanto menos 
soubessem, melhor... para o bem de todos.
        Olha  disse Jack, cansado.  Agradeo a preocupao. 
Mesmo. Mas  um problema que vou ter de resolver 
sozinho.
        No entendo por que no podemos ajudar voc nisso  
disse Will, com teimosia. Ele sempre confiara que seu 
tamanho, boa vontade e habilidades diplomticas poderiam 
resolver qualquer problema.
Fitch pegou um punhado de notas e a conta.
        No somos casamenteiros, e eu tenho minha prpria 
vida amorosa com a qual me preocupar. Mas me parece que 
voc no est muito feliz. Por que no tenta se divertir um 
pouco pra variar?  Ele empurrou a cadeira para trs.  
Mal  que no vai fazer.

Captulo Nove
O Combate

Na noite seguinte, aps o treino de futebol, Hastings levou 
Jack de carro at sua casa para apanhar a espada. Jack tinha a 
sensao de que toda a rua Jefferson observava quando o 
Volvo estacionou. Para sua surpresa, Hastings desligou o 
motor e seguiu Jack at dentro de casa. Becka ergueu os 
olhos da escrivaninha na sala da frente quando eles 
entraram. Estava descala, vestindo cala jeans e uma 
camiseta, com o cabelo preso no topo da cabea com um 
clipe. Estava trabalhando no laptop, com pilhas de papis 
espalhados por todo o piso. Ela se levantou e saiu ao saguo 
da frente.
 Oi, querido. No achei que fosse voltar pra casa to cedo. 
 Ela deu um rpido beijo em Jack, olhando por cima do 
ombro dele para o homem alto que o acompanhava.
Jack tivera esperanas de conseguir entrar e sair da casa sem 
ser notado.
        Ahn, este  o senhor Hastings. Ele  o novo diretor-
assistente, eu falei dele pra voc.  ele quem est me 
ajudando no futebol.
        Ora,  bom conhecer o senhor, afinal  disse Becka, 
afvel.   muito gentil de sua parte passar tanto tempo 
trabalhando com Jack. Eu estive em alguns dos jogos e notei 
quanto ele progrediu.  Ela lhe estendeu a mo.
Hastings tomou a mo dela entre as suas e a segurou por 
alguns segundos mais do que o necessrio.
        Seu filho tem muito talento natural.  Ele absorveu cada 
detalhe da aparncia de Becka daquele seu jeito intenso, 
depois passou os olhos pela sala.  Tenho apreciado 
trabalhar com ele.
Jack estava ansioso para tirar Hastings da casa o mais rpido 
possvel.
        Vim pegar umas coisas para o treino  explicou ele, 
embora ningum parecesse estar escutando. Subiu as escadas 
dois degraus de cada vez. Ouviu a voz de Hastings atrs dele.
        D pra ver que o seu filho puxou  senhora  ele estava 
dizendo.
Jack removeu a espada e a bainha da caixa e conseguiu enfi-
las dentro da bolsa de viagem que tirou do armrio. 
Acrescentou algumas toalhas do guarda-roupa para servir 
como acolchoamento e fechou o zper. Quando voltou para 
o andar de baixo, Becka estava inclinada contra o batente da 
porta, rindo de algo que Hastings dissera, revirando uma 
mecha de cabelo ao redor do dedo. O mago sorria, mas Jack 
no conseguiu deixar de imaginar que havia algo de 
predatrio na postura dele.
        Tudo pronto  disse Jack, bem alto.
        Vo chegar muito tarde?  Becka olhou de um para o 
outro.
        Oito e meia est bem?  indagou Hastings.  Vamos 
comear com um pouco de atraso hoje.
        Est timo  disse Becka.  Jack e eu somos flexveis.
E, com isso, Jack e Hastings finalmente deixaram a casa.
Jack ps a bolsa no banco de trs e subiu no da frente.
        Aonde vamos?  perguntou ele quando o carro se 
afastou do meio-fio.
Hastings no respondeu. Parecia perdido em pensamentos. 
Jack repetiu a pergunta.
        Pensei em praticarmos ao ar livre desta vez.
Como de costume, Hastings no forneceu uma resposta 
completa. Jack logo percebeu que iam na direo do Parque 
Perly. Estivera l centenas de vezes em sua infncia. Era o 
maior e menos urbanizado parque municipal em Trinity, 
cheio de bosques e de difcil acesso, com poucas trilhas de 
caminhada. Ficava longe do lago Erie, e os parques ao longo 
da costa sempre eram mais freqentados, em especial na 
primavera e no vero.
Hastings parecia saber para onde ia. Aps dirigir longos 
quilmetros pela estrada, parou num estacionamento no 
incio de uma das trilhas. No havia nenhum outro carro no 
local. Hastings jogou uma pequena mochila sobre o ombro.

        Vamos. Traga a espada.        
Caminharam por cerca de dois quilmetros e meio para 
dentro do bosque. Hastings mantinha uma passada rpida, 
sem proferir nada alm de instrues. Quando um riacho 
cruzou a trilha, Hastings andou ao longo de seu leito por 
umas poucas centenas de metros, ento virou  direita no 
bosque novamente at chegarem a uma pequena clareira. 
Parecia que as rvores ali tinham sido cortadas havia alguns 
anos. Pequenos arbustos principiavam a preencher o espao 
aqui e ali, mas a maior parte era grama alta e alguns 
espinheiros, como Jack logo descobriu. A luz do final do dia 
banhava a clareira. Aquele, ento, era o destino deles.
Jack ps a bolsa no cho e abriu-a. Libertou a espada do 
ninho de toalhas, passou a bainha ao redor da cintura e atou-
a, bem apertada. Desembainhou sua arma. Era uma sensao 
boa t-la nas mos de novo. Girou-a de forma a refletir a luz 
e ensaiou com agilidade as posies praticadas, ajustando-se 
 espada maior. Como antes, sentia-a leve na mo, sem peso. 
Hastings observou-o por algum tempo, fazendo uma ou 
outra sugesto ocasional.
        Vamos ter de lidar com o seu treinamento de um jeito 
diferente, agora que est usando a Sombra Assassina  disse 
ele finalmente.  Eu no posso ser seu oponente. Vamos 
fazer o melhor possvel com as ferramentas que temos.  
Um rpido vislumbre de sorriso se estampou no rosto do 
mago.
Hastings abriu a mochila e pegou algumas estacas de metal e 
um martelo. Andou em volta da clareira, pregando nove 
estacas ao todo. Ento se ps em p ao centro da clareira e 
falou algumas palavras na agora familiar lngua da magia. Jack 
tentou memorizar as palavras o melhor que pde. Seguiu-se 
um silncio perturbador. Jack percebeu que no conseguia 
mais ouvir os sons da floresta ao redor. A rea fora dos 
limites marcados pelas estacas se tornou enfumaada e 
surreal.
Nick havia dito que Hastings era um mago poderoso, mas o 
professor nunca havia exibido suas habilidades at agora.
Hastings caminhou de volta at Jack.
        Isso vai impedir qualquer um de interferir no nosso 
trabalho  explicou ele.  Vou mandar alguns guerreiros 
contra voc. Sua tarefa  se defender contra eles e mat-los, 
se puder.
Jack estava perplexo.
        Guerreiros? Do que voc est falando?  Ele olhou 
assustado para a clareira ao redor.
        No se preocupe. Pense nisso como um tipo de 
videogame, mas... em maior escala.
O mago se postou num canto da clareira, deixando Jack 
sozinho no centro. Momentos depois, um homem enorme, 
vestindo uma tnica e perneiras, atravessou a fronteira 
enfumaada no lado oposto da clareira. Seu cabelo louro 
estava preso em tranas que lhe caam sobre os ombros 
largos, e ele ostentava uma espessa barba vermelha. 
Carregava um grande machado em uma mo e uma espada 
na outra. No vestia nem armadura nem elmo. Pareceu um 
pouco desorientado a princpio, mas ento seus olhos se 
concentraram em Jack.
        O que  isso? Mandam uma mera criana contra mim? 
Volta para a tua me, menino, at teres crescido!  gritou 
ele.
Sem saber o que fazer, Jack olhou de relance para Hastings, 
em p junto s rvores, calmo, os ps separados e os braos 
cruzados.
No recebendo nenhuma resposta de Jack, o homem se 
aproximou, balanando o machado. Parecia leve nas mos 
dele, como um brinquedo. Os insultos cresciam em volume 
e veneno.
        Volta para aquela que te pariu, antes que eu te mande 
para o inferno!  bradou o homem.
        Ele  real?  gritou Jack para Hastings.
Hastings no disse nada.
O homem estava agora perto o bastante para Jack ver as 
contas que decoravam as tranas em seu cabelo e os largos 
aros de metal em torno dos braos volumosos. Seu cheiro 
era opressor, um fedor de suor e metal e pura fora fsica.
        Ele  real?  gritou Jack de novo em desespero.
No houve resposta.
E ento o homem se lanou sobre ele. Em um momento de 
pnico, Jack ergueu a espada para bloquear o golpe, mas era 
tarde demais. O homem erguera o machado e j o estava 
baixando. Jack sentiu uma dor fria no ombro, e trevas 
surgiram diante de seus olhos. Quando recuperou a viso, 
estava cado com o rosto na grama. Havia aterrissado em um 
espinheiro, e os espinhos lhe furavam palmas e braos. 
Quando ergueu a cabea, viu que o homem desaparecera.
        Veja s, Jack  disse Hastings de seu canto.  Receio 
que voc tenha sido decapitado. No  um bom comeo.  
Ele parecia estar se divertindo.
Jack se ps em p com esforo, arrancando espinhos da pele 
e das roupas.
        Teria sido bom saber as regras antes de comear!
        queixou-se ele.
        Mas voc sabe as regras do jogo  replicou Hastings.  
Estvamos estudando esse tempo todo. As Leis do Combate. 
Agora voc s tem de aplicar o que aprendeu.
        Ele cortou minha cabea, mas ainda estou vivo  disse 
Jack.
Hastings deu de ombros.
        Essas so as regras deste jogo em particular, sob o feitio 
que usei para invocar o guerreiro. No podemos nos dar ao 
luxo de perder voc durante os treinos. Vamos tentar de 
novo.
Ele apontou para a extremidade da clareira outra vez. Desta 
vez apareceu um homem a cavalo, vestindo cota de malha e 
carregando uma lana.
        Abra caminho!  rugiu o homem.  Ou morrers hoje!
De algum modo, Jack sabia que no deveria abrir caminho. 
Buscou sua espada na grama alta e apanhou-a.
        Desmonte!  gritou ele em resposta.  Como pode ver, 
estou a p!
Torceu para que o homem visse que no havia honra em 
atropel-lo.
O cavaleiro desceu de seu cavalo de batalha. Vestia um elmo 
e uma longa cota de malha, mas tinha a face descoberta. 
Parecia ter uns vinte ou trinta anos, o rosto barbeado e 
bastante bonito. O homem se aproximou com a espada 
desembainhada e uma maa pendendo da outra mo. Jack 
ergueu sua espada e colocou-se em posio de combate. A 
Sombra Assassina se incendiou, sedenta de sangue, e Jack 
ficou surpreso em ver que seu oponente parecia um pouco 
assustado.
As palavras dele, porm, eram ousadas.
        Abra caminho, menino. Suponho que sejas o escudeiro 
de um bravo cavaleiro que vem atrs de ti.
        Sou s eu  respondeu Jack, desejando fervorosamente 
ter algum reforo.
        Ento prepara-te para te defenderes!
O homem atacou, a espada estendida, mas Jack estava 
pronto desta vez e aparou o golpe. Havia tremenda fora por 
trs do golpe, e o brao de Jack sacudiu at o ombro. Jack se 
abaixou, e a maa cantou ao cortar o ar onde a cabea dele 
estivera. Jack lanou chamas de sua espada, que o homem 
bloqueou com a dele. Jack o arremessou para trs com uma 
rajada de ar.
Jack se sentia mais confiante agora. Embora o homem fosse 
definitivamente mais forte, Jack movia-se mais rpido, e a 
rotina lhe era familiar por causa das sesses na academia. 
Aps vrios minutos de um equilibrado combate de espadas, 
Jack disparou um raio atravs de sua lmina, que fez voar a 
espada do cavaleiro e derrubou-o ao cho. O homem se 
sentou, estonteado, o brao da espada pendendo, intil. 
Ningum estava mais surpreso do que Jack, que lanou um 
olhar para Hastings pedindo instrues.
        Acabe com ele  disse o professor.
        No  disse Jack, baixando a espada e recuando.
Foi a vez de o cavaleiro ficar surpreso. Aps alguns 
segundos, o cavaleiro se dissolveu e sumiu. O cavalo 
tambm.
Hastings entrou no campo, os olhos brilhando.
        Fez um excelente trabalho nesse ltimo combate  
disse ele.  Excelente trabalho. Mas por que no conseguiu 
continuar?
        No quero matar ningum  explicou Jack, sacudindo 
os ombros. Jamais esperara ter de se desculpar por isso.
        Esse  o seu dom, guerreiro  Hastings o repreendeu. 
 Matar pessoas.  melhor se acostumar.
        Talvez eu no queira esse dom  disse Jack.  Nunca 
pedi por ele.  Enfiou com raiva a espada na terra e cruzou 
os braos.
A voz do mago se suavizou um pouco.
        Eu falei pra voc pensar nisto como um video-game.
Jack estremeceu, olhando para a clareira em torno, ento 
ergueu o queixo com teimosia.
        Isto no  um videogame  replicou.
        Bem, no  nada parecido com uma batalha real  disse 
Hastings.
Jack ficou impressionado com a amargura na voz dele. Mais 
uma vez, Jack desejou saber algo mais sobre o professor, de 
onde viera e o que o motivava. Houve uma pausa breve e 
desconfortvel.
        Quem so eles?  perguntou Jack, referindo-se aos seus 
oponentes.
        Guerreiros  respondeu Hastings.  Campees do 
passado, mortos h muito tempo. Segundo as regras, esto 
aprisionados no mundo ps-morte. Assim, esto disponveis 
para ns para o treinamento quando chamo por eles.  Ele 
esfregou o queixo.  Como voc sabe, no sobraram muitos 
guerreiros para disputar uma justa. Talvez a expresso 
moderna seja "travar um combate".
Ento era isso que aquela passagem nas regras significava. 
Quer dizer que no h como escapar nunca, pensou Jack. 
Nem depois de morto.
        Quem escreveu essas regras, afinal?
        So parte de um contrato assinado pelos representantes 
das cinco ordens quando foram fundadas.
Jack se lembrou da histria em seu Livro Weir sobre o 
drago e os cinco primos.
Hastings ps a mos no ombro de Jack, e Jack pde sentir o 
poder do professor penetrando-lhe como eletricidade nos 
ossos.
        O que voc vai fazer, Jack, quando algum tentar matar 
voc de verdade?
        Ento eu mato de volta  respondeu Jack.
        Voc no vai ter como matar de volta  disse Hastings. 
 Porque a j vai estar morto.
Jack compreendeu.
        Ento acho que vou ter de matar antes.
Hastings pareceu satisfeito com aquela resposta.
Quando finalmente deixaram a clareira, Jack havia lutado 
contra dez oponentes, e estava na frente no placar por seis a 
quatro.
A partir de ento, Jack e Hastings treinaram na clareira pelo 
menos duas vezes por semana. s vezes iam num sbado, 
quando podiam ficar mais tempo. Jack estava sempre 
arranhado e exausto aps esses combates e, com o clima 
ficando mais quente, descobriu que lutar era um trabalho 
que dava muito calor e sede.
Hastings nunca o pressionou de novo a matar algum a 
quem houvesse subjugado, mas Jack dava e recebia alguns 
golpes srios no calor da batalha, alguns dos quais eram 
"mortais" em ambos os lados. Os cortes aos quais sobrevivia 
eram dolorosos quando os recebia, por isso supunha que 
seus adversrios sentiam o mesmo. Uma vez que o combate 
terminava, porm, nada restava alm de desconforto e 
dores.  Parte das regras da invocao  explicou Hastings. 
O mago carregava um frasco de um lquido picante que dava 
para Jack beber uma ou duas vezes aps um combate 
particularmente difcil. Era fantstico para reduzir a dor, mas 
Jack suspeitava que no seria aprovado pela poltica de 
tolerncia        zero em relao a drogas e lcool no Colgio de 
Trinity.        
O desempenho de Jack melhorava continuamente, embora 
Hastings sempre parecesse ter novos desafios para ele. s 
vezes, Jack lutava com dois ou trs guerreiros de uma vez. 
s vezes, os oponentes eram mulheres. Levou um tempo 
para ele se acostumar a isso, mas descobriu que esses 
combates eram to duros quanto qualquer outro. Certa vez, 
Jack lutou contra um adolescente s um pouco mais velho 
do que ele, usando roupas de estilo mais moderno, talvez do 
sculo XIX. Jack o desarmou rapidamente.
        Ele era bem jovem  comentou ele com Hastings.  E 
mal treinado.
        Sim, era  replicou Hastings.
        Os guerreiros costumam ser to jovens quanto eu?  
perguntou Jack.
        s vezes ainda mais jovens  disse Hastings, em tom 
soturno. E recusou-se a falar mais sobre isso.
Jack desistira de fazer perguntas sobre muitas coisas. Ainda 
no entendia como aprender a lutar com uma espada que o 
protegeria dos magos inimigos. Afinal, ele no poderia andar 
por Trinity com uma espada na cintura. Sentia que estava 
sendo preparado para algum tipo de desafio, mas no fazia 
idia do qu. Cada vez mais parecia que sua vida estava sob o 
controle de outras pessoas, em particular de Hastings. Tia 
Linda o havia abandonado. Ele se sentia como um 
esquizofrnico, com um p em cada um dos dois mundos: a 
delicada normalidade da escola e o risco e mistrio do 
mundo dos Weirs. Uma obedincia aptica se alternava a 
uma raiva poderosa que se tornava cada vez mais difcil de 
controlar.
Sua vida amorosa tambm estava fora de controle e, ao 
mesmo tempo, era totalmente insatisfatria. Embora Leesha 
estivesse oficialmente namorando Lobeck, parecia que ela 
colocara Jack de volta em sua lista de favoritos. Ela no 
perdia qualquer oportunidade de flertar com ele, no 
importando quem estivesse ao redor. Em conseqncia, Jack 
estava na lista de Lobeck tambm. Em um tipo de lista 
diferente.
Ellen parecia to tensa, preocupada e irritvel quanto Jack. 
Ela aprofundara seu trabalho com a equipe com o passar dos 
dias, forando-a praticar de modo cada vez mais intenso. Ela 
e Hastings funcionavam como auxiliares tcnicos, 
rivalizando entre si.
E, ento, no fim do ano escolar, uma rpida sucesso de 
acontecimentos veio perturbar a nova cadncia da vida de 
Jack. 

Captulo Dez
A Briga de Rua

A temporada de futebol continuou em junho, e o time 
principal de Trinity chegou s finais. Jack era titular, atuando 
no meio-campo e no ataque. Will jogava na defesa, e Fitch 
era goleiro e meio-campo. O jogo do campeonato distrital 
contra o Colgio Benjamin Harrison estava marcado para a 
mesma noite da festa de aniversrio de Leesha. Do meio do 
campo, Jack fez um lanamento para o gol da vitria, mas 
torceu o tornozelo. O placar final foi 3 a 2.
O vestirio se esvaziou rapidamente, j que a maior parte do 
time ia  festa de Leesha. Jack no tinha pressa, no tendo 
grande interesse em chegar l. O treinador enfaixou-lhe o 
tornozelo. Depois de tomar uma ducha e se vestir, Jack 
notou que estava sozinho. A festa era a alguns quarteires a 
oeste, no Clube Lakeside. Jack caminhou mancando at o 
estacionamento, arrependido por no ter pensado em pedir 
uma carona e nada entusiasmado com a idia de andar a p 
at a festa de Leesha.?
Algum saiu das sombras na entrada do prdio. Jack recuou 
e ergueu as mos em defesa.
        Jack! Sou eu.
Era Ellen. Tinha as costas apoiadas no poste de luz, o rosto 
nas sombras.
        O que voc est fazendo aqui? Todo mundo j foi.
        Eu queria... cumprimentar voc pelo jogo, Jack. Voc foi 
incrvel.
        Oh, obrigado!  Ele se sentiu extraordinariamente 
contente.  No tinha certeza de que voc vinha.
Ela revirou os olhos, como que para dizer, "mas  bvio que 
eu vinha!"
        Como est o tornozelo?
        Vai ficar bom. Um pouco duro, acho.  Ele girou o p 
para demonstrar.
        Que bom.  Ela se endireitou.  Bem, boa-noite  
disse bruscamente, virando-se para ir embora.
        Espere  disse Jack, e ela deu meia-volta.  Quando a 
gente pode se encontrar?
Ela olhou em torno, como se houvesse achado que ele 
estava falando com outra pessoa.
        Se encontrar?
        , voc sabe. Sair juntos. Agora que a temporada de 
futebol acabou, ns dois temos mais tempo.
Ela deu de ombros.
        O que voc est fazendo agora?
        Eu... ahn... estava indo pra festa da Leesha.
        Feliz aniversrio, Leesha.  Ela se virou novamente.
Jack a segurou pelo brao.
        Vamos fazer outra coisa.
Ela enfiou as mos nos bolsos, balanando-se nos 
calcanhares, olhando-o por sobre o seu longo nariz.
        Est falando srio? Ela no est esperando por voc?
        Qual , Ellen?! Leesha e eu no estamos juntos. Ela me 
d calafrios.
Ellen olhou para os prprios ps e empurrou uma pedra para 
um lado e para outro com a ponta do tnis. Ento ergueu a 
cabea e deu um sorriso torto.
        Tudo bem. O que voc quer fazer?
Jack tentou ter alguma idia.
        Eu posso acompanhar voc at sua casa.
Ela arqueou uma sobrancelha.
        Voc est machucado.
        Eu me apoio em voc.
Se Jack se apoiou em Ellen mais do que era estritamente 
necessrio, ela no reclamou.
Quando saram para o estacionamento, o ar estava ameno, 
quente e mido, prometendo um vero em breve. Ellen e 
Jack desceram a rua Bank e rumaram para a praa. Jack se 
deu conta de que nem sabia onde Ellen morava.
        Moro perto do lago  explicou ela quando ele 
perguntou.  Na rua Walnut. Em um daqueles prdios.
Caminharam em silncio por meio quarteiro, movendo-se 
devagar, embora o tornozelo de Jack estivesse relaxando.
        O que quer fazer quando se formar?  indagou Ellen.  
Se voc pudesse fazer qualquer coisa que quisesse.
        Eu?  Jack pensou por um momento.  Bom, eu 
gostava de pensar que ia velejar ao redor do mundo.
        Voc sabe velejar?
Jack assentiu.
        Meu pai e eu costumvamos velejar sempre. Ele mora 
em Boston agora. Ele tem um veleiro l, e a gente vinha 
falando em construir outro.
        Vocs devem ser bem unidos.
        No exatamente. No o vejo h quase um ano.  Jack 
apreciou o fato de Ellen no fazer mais perguntas a respeito. 
Era uma das coisas de que ele gostava nela.  Voc j 
velejou alguma vez?
Ela sacudiu a cabea.
        Eu levo voc a algum lugar neste vero, se quiser. Quer 
dizer, acho que vou estar na Inglaterra na maior parte do 
vero, mas...
        Inglaterra!  Ela o encarou.  Voc vai com o senhor 
Hastings?
        No, minha me vai dar um curso l. Algo sobre a 
influncia britnica na cultura dos Apalaches. Que histria  
essa do Hastings?
        Ele vai levar a Sociedade Chauceriana numa viagem. Will 
e Fitch vo. Pensei que voc soubesse.
Jack sacudiu a cabea. Estava mesmo perdendo o contato.
        E voc? No vai tambm?
Ela sacudiu a cabea.
        No, no posso ir. Vou estar fora durante todo o vero. 
Num acampamento.  Ela soltou um longo suspiro e olhou 
para ele, como que se perguntando se deveria continuar ou 
no.  Talvez eu no volte no outono.
Jack sentiu o peito se contrair de aflio.
        O qu? Por que no?
        Meu pai tem um cargo temporrio na Ohio Power.  A 
Ohio Power era uma usina perto de Trinity.  O tempo 
dele l est quase acabando. Ento  provvel que a gente v 
embora.
Ele parou de andar e voltou-se para ela.
        Ellen, sinto muito. Que droga!
        Eu queria contar pra voc antes. Faz algum tempo que 
sei disso.  Ela deu de ombros.  A gente se muda de 
cidade um bocado. Estou acostumada.
Jack sempre achara que viver toda a vida num lugar em que 
todos conheciam a histria dele era uma desvantagem. 
Agora no tinha tanta certeza.
        Seria bom se ele pudesse ficar num lugar s at voc se 
formar, pelo menos.
        Pois .  Ela sacudiu a cabea.  Fico pensando se vou 
ver voc de novo.
O futuro do prprio Jack parecia meio nebuloso no 
momento.
        Temos tempo at eu partir para a Inglaterra, pelo menos. 
Vamos tentar aproveitar ao mximo.
A essa altura, haviam cruzado a praa e virado na avenida 
Lake.
        Voc sabe danar?  perguntou ela quando chegaram ao 
estacionamento da praia. Ele olhou para ela, surpreso com a 
pergunta. Ela continuou, apressada.  Quer dizer, eu no 
sei danar, e pensei que, se voc souber, talvez possa me 
ensinar. Ou, se voc no souber, talvez a gente...
Ela parou no meio da sentena. Jack olhou para cima e viu 
algum no estacionamento. Trs pessoas. Era Garrett Lobeck 
e seus dois amigos, Harkness e Leonard. Estavam apoiados 
contra uma picape com um engrada- do de cerveja aberto na 
traseira.
        Ora, se no  o heri do jogo  zombou Lobeck.  A 
gente procurou por voc na festa. A gente queria fazer um 
brinde.
Ele terminou o que parecia ser mais uma de muitas cervejas, 
amassou a lata com a mo e jogou-a no cho. Tirou uma 
outra do engradado, e Jack ouviu um psssss quando ele a 
abriu.  Leesha estava procurando por voc tambm. Ela 
estava furiosa.
        Oh. Certo. At amanh  disse Jack. Inclinou a cabea 
para Harkness e Leonard, que estavam no time principal.  
Bom jogo.
Ele tomou o brao de Ellen e comeou a contornar o trio, 
mas Lobeck se colocou em seu caminho.
        Quem voc pensa que ? Aquela sua jogada suja me tirou 
do time principal.
        Se manda, Lobeck  disse Jack, cansado.  Esquece 
isso.
        Vou esquecer quando tiver lhe dado o troco.
 Lobeck se lanou para a frente, tentando socar Jack, mas 
a cerveja e o rpido passo de Jack para o lado combinados 
fizeram com que o punho de Lobeck voasse alm da orelha 
de Jack. Como um enorme caminho, Lobeck levou um 
tempo para conseguir manobrar de volta.  Fique parado e 
lute!  berrou.
        No quero lutar com voc, Garrett  replicou Jack. Deu 
uma olhada de esguelha para Leonard e Harkness, para ver 
se iam participar. Eles estavam bloqueando o caminho de 
Jack, mas, por enquanto, s assistiam.
        Ellen, v. Por favor.
Ellen cerrou os punhos.
        No sejam idiotas. Jack  companheiro de time de vocs. 
Qual  o problema de vocs?  Ela parecia prestes a 
esmurrar algum tambm.
"Voc no est ajudando", pensou Jack. Se houvesse uma 
briga, no fazia questo de que Ellen a presenciasse.
        Oh, ento agora a namorada vai proteger ele.  Leonard 
riu, com um som rude e sibilante.
Farejando o sangue na gua, eles comeavam a circular, 
como tubares famintos. O clima no parecia muito bom.
Lobeck o atacou de novo. Jack conseguiu se desviar do 
golpe uma segunda vez, mas algum o agarrou por trs e 
prendeu-lhe os braos. Devia ser Harkness.
        Acerte-o de uma vez e vamos embora.  A voz veio 
por cima do ombro de Jack, com um sopro repulsivo 
cheirando a cerveja.
Lobeck estava a caminho, uma expresso mortfera no rosto, 
e Jack teve o pressentimento de que ele no erraria dessa 
vez. Lembrou-se de um feitio para confundir as pessoas, 
resultado de suas lies com Nick. Disse as palavras rpido, 
baixinho, e a expresso de cachorro louco de Lobeck se 
transformou em uma de espanto. Ele olhou de Jack para 
Harkness e de volta para Jack.
        Ahn, o que  que eu estava fazendo?  perguntou ele, 
completamente perdido. Comeou a cambalear sem rumo 
pela calada.
        Ei!  Harkness o chamou.  Vai esmurrar ele ou no?
Lobeck se voltou num giro.
        O qu?  Os olhos turvos contemplaram a cena.  Oh, 
claro.  Andou novamente na direo de Jack.
Maravilha. Jack se desvencilhou de Harkness e virou-se em 
tempo de ver Ellen acertar o joelho direito de Harkness com 
os dois ps. Os treinos de futebol estavam se mostrando 
teis, pelo jeito.
Harkness gritou e caiu para trs, segurando a perna, mas a 
essa altura Lobeck estava chegando. O punho direito deste 
se chocou com a bochecha e olho direito de Jack com fora 
estonteante. Na seqncia, o punho esquerdo e depois o 
direito de Lobeck acertaram o estmago de Jack. Jack viu 
estrelas e sentiu o sangue fluir, quente e molhado, pelo 
nariz. Era como se os ossos de seu rosto tivessem sido 
empurrados para dentro dos olhos. Ele cambaleou para a 
frente, inspirando desesperadamente a fim de repor o ar que 
lhe havia sido roubado. E ento a fria e o instinto o 
dominaram.
Ele estendeu os braos para a frente, os dedos esticados, e 
uma rajada de ar atingiu o torso de Lobeck, mandando-o 
pelos ares at aterrissar com fora no asfalto.
A raiva ainda queimava dentro de Jack, assim como o poder, 
branco e quente. Ele arrancou um enorme galho de rvore, 
segurando-o transversalmente ao corpo como um basto de 
luta, e avanou na direo de Lobeck, que estava cado de 
costas, momentaneamente aturdido. Com o retornar da 
conscincia, o rosto de Lobeck foi tomado pela 
incredulidade, depois pelo medo. Ergueu-se sobre os 
cotovelos, lutando para se pr em p, tentando se arrastar 
para trs e para longe do perigo. Trombou com a mureta de 
pedra que cercava o estacionamento. No era uma barreira 
alta, mas era alta o suficiente para det-lo. Jack estava em p 
diante de Lobeck, apoiado com firmeza sobre os ps 
separados. Uma chama reluzente correu ao longo de sua 
arma quando ele a ergueu sobre a cabea, pondo-a na 
vertical para o golpe mortal.
        Jack! No!  A voz de Ellen perturbou-lhe a fria 
sanguinria. Ele sacudiu a cabea com violncia, 
concentrado na tarefa diante de si. Os olhos de Lobeck 
estavam arregalados e sua boca se movia, Jack no saberia 
dizer se implorando ou rezando.
        Jack! Meu Deus, Jack!  Ellen o agarrou pelo cotovelo e 
puxou-lhe o brao para trs com uma fora incrvel.
Jack voltou a si, enfim. Consternado, arremessou o galho em 
chamas para longe. Este voou de um lado a outro num 
grande arco, atravessando o estacionamento, um catavento 
flamejante que se extinguiu no lago. Jack respirou com 
dificuldade e virou-se para os outros.
Harkness estava sentado no asfalto, o corpo dobrado em 
dois, segurando a perna, praguejando baixinho. Leonard 
estava boquiaberto, fitando Jack e Lobeck. No demonstrava 
nenhuma vontade de se meter naquilo. Ellen parecia 
pregada ao cho, as mos erguidas, o rosjto plido e 
horrorizado. Lobeck se apoiou nos cotovelos, com a 
expresso de um pssimo final de dia. Por um longo 
momento, ningum se moveu.
O olho de Jack j estava inchando, de forma que ele mal o 
conseguia abrir. O sangue escorria-lhe do nariz e entrava-lhe 
pela boca. Jack passou as costas da mo pelo rosto e ela ficou 
ensangentada.
 Vamos  murmurou ele a Ellen, usando a outra mo 
para tomar-lhe o brao. Ela arquejou e recuou ante o toque 
dele, e ele a soltou de imediato.  Eu... estou bem agora. 
Prometo. Vamos embora daqui.
Nenhum dos trs rapazes fez qualquer movimento para 
det-los.
A caminhada at a casa de Ellen foi deprimente. O rosto 
dele estava em chamas e cada respirao doa. Ele falhara em 
sua tarefa mais importante: manter seus poderes mgicos em 
segredo e sob controle. Ellen provavelmente estava morta 
de medo, e com razo.
Ele estivera a milmetros de matar o bbado Garrett Lobeck 
numa briga de rua. No que ele estava se transformando?
Talvez o uso do poder j o houvesse exposto. A sorte dele 
no duraria para sempre. Era uma bela noite sob uma lua 
cheia, e a festa em Lakeside acabara havia pouco. Qualquer 
um poderia estar passeando pelas margens do lago e ter visto 
o que acontecera. Ele olhou em torno com cautela. 
Ningum se movia na rua silenciosa alm de Ellen e ele. 
Suas longas sombras se estendiam  sua frente, encolhiam-se 
sob as luzes da rua e ento se esticavam novamente.
Havia pelo menos quatro testemunhas. A mente humana 
tem uma habilidade impressionante tanto de descartar o que 
v quanto de fazer a realidade se adaptar s expectativas. E 
Lobeck e seus amigos haviam bebido um bocado de cerveja. 
Mas essa era a segunda vez que Jack perdia o controle na 
frente de Lobeck. Era difcil imaginar que conseguiria se 
safar de novo.
Ellen era outra histria. Ela estava perfeitamente sbria e 
no era idiota.
Ela no lhe fez nenhuma pergunta. Na verdade, ela no disse 
coisa alguma no caminho at a rua Walnut. Apenas 
caminhava com firmeza, a cabea baixa, as mos nos bolsos.
        Ellen, escute, eu...
        Cale a boca, Jack.
Ento Jack se ocupou pensando no que diria a sua me.
Quando chegaram  varanda da casa de Ellen, Jack j havia 
decidido no lhe dar um beijo de boa-noite naquelas 
circunstncias, com Ellen se sentindo como se sentia e com 
o rosto dele na condio em que estava. Antes da briga, ele 
havia planejado beij-la. 
Ellen olhou nervosa para trs, para o interior escuro do 
apartamento. Parecia terrivelmente ansiosa para que ele 
partisse. Jack imaginou que aquela no era uma boa ocasio 
para se apresentar  famlia.
        Boa-noite, Ellen  disse ele, as palavras abafadas na boca 
machucada.  Sinto muito pelo que aconteceu. Eu me 
diverti bastante antes daquilo.
Para a surpresa dele, Ellen se inclinou e roou os lbios 
sobre sua face no machucada.
        Boa-noite, Jack  disse ela.  Eu tambm sinto muito. 
 Com isso, ela desapareceu dentro do prdio.
Quando ele chegou de volta  rua Jefferson, tinha pouca 
esperana de que a me j tivesse ido para a cama. Ela 
estivera no jogo, e ele supunha que ela esperaria por ele para 
uma pequena celebrao e uma recapitulao da partida. 
Estava certo. A casa dos Downey estava iluminada. Um 
grande cartaz pregado na porta da frente dizia: "Bem-vindo 
ao lar, heri!". Jack no se sentia muito como um heri 
naquele momento. Estendeu a mo para a maaneta, mas a 
porta se abriu antes que pudesse toc-la. E a pessoa junto  
porta era Linda Downey.
        Jack!  disse ela, toda animada.  Jack!  disse ela 
outra vez, agora horrorizada ao ver com clareza o rosto dele 
sob a luz da varanda.
Becka se aproximou, e a festa de boas-vindas se transformou 
numa sesso de primeiros socorros e interrogatrio.
        Est me dizendo que se meteu numa briga? Voc sabe 
que eu sempre falei pra voc ficar longe de brigas.
Becka sempre tivera fortes laos com o movimento pacifista. 
Jack se perguntava o que ela diria se visse o que ele andava 
fazendo na clareira.
        Pode acreditar, eu tentei cair fora. No costumo puxar 
briga com pessoas com o dobro do meu tamanho.
        Ah, no sei no, Jack  disse tia Linda.  Voc parece 
algum que seria capaz de enfrentar praticamente qualquer 
um.  Ela estivera olhando fixamente para ele, e a princpio 
ele imaginara que era por causa do olho inchado.
        Voc no est ajudando, Linda  Becka a repreendeu.
        Eles eram trs  explicou Jack  tia.
        Era algum do Harrison?  indagou Becka, referindo-se 
ao outro time de futebol.  Ou torcedores do Harrison?
        Era o Garrett Lobeck e os amigos dele. Eles esto no meu 
time.
        Ento por que iriam querer bater em voc?  Becka 
parecia perplexa.  Em especial depois da jogada que voc 
fez?
         difcil de explicar  murmurou Jack.   meio 
complicado.
Becka se levantou.
        Bom, eu vou telefonar para Bill Lobeck agora mesmo. 
Cansei de ver os filhos dele aterrorizando a cidade.  Ela 
apanhou o telefone.
        Eu no faria isso, me  disse Jack, afobado.
        Quero dizer, no sei como o Garrett est agora.  
Ambas as mulheres se viraram para ele.  Eu derrubei ele. 
E a a gente foi embora.
        A gente quem?  perguntou Linda.
        Lembra da Ellen Stephenson, me? Eu a acompanhei at 
a casa dela.
Becka estava prestes a telefonar para algum.
        Talvez a gente deva contatar os pais da Ellen, para ter 
certeza de que ela est bem  sugeriu ela.  Ela deve ter 
ficado com muito medo.
        Oh, eu no diria que ficou com medo, pra falar a verdade 
 disse Jack. "A no ser de mim", pensou ele. Quase sorriu 
ao se lembrar de Ellen partindo para cima de Harkness, mas 
isso fez seu rosto doer.  Escute. No acho que ele v me 
incomodar de novo. Por mim, eu esqueceria a coisa toda. 
Tenho certeza de que o Garrett sente a mesma coisa.
        Isso me parece uma boa idia  apressou-se em dizer 
Linda.  Alm do mais, estamos festejando aqui.
        Ela apontou para um grande prato de camares sobre a 
mesa e garrafas de vinho e suco de uva espumante em baldes 
de gelo. Um bolo enorme na mesa auxiliar fora decorado 
com a inscrio "Campees!" e o desenho de uma bola de 
futebol.
        Isto est fantstico  disse Jack, grato pela mudana de 
assunto.  Quando vocs fizeram tudo isso?
        Eu tinha esperanas de chegar aqui a tempo do jogo, mas 
meu avio atrasou  explicou Linda. Ento achamos que a 
festa seria uma boa surpresa.
         uma surpresa maravilhosa  disse Jack.  Quanto 
tempo vai ficar?
        No tenho certeza  respondeu tia Linda.
Becka estava servindo o vinho e o suco de uva em clices.
        Voc chegou na hora certa. Mais tarde voc no teria 
nos encontrado. Jack e eu vamos partir para a Inglaterra 
assim que acabarem as aulas.
        Inglaterra!  Linda se recobrou rapidamente, aceitando 
um clice de vinho tinto.  Vocs esto indo para a 
Inglaterra?
Becka confirmou com a cabea.
        No se lembra? Falamos sobre isso na sua ltima visita. 
Eu tinha esperanas de que voc pudesse nos ajudar a 
arrumar uma casa, mas no consegui entrar em contato com 
voc. Mas Thomas tem uma amiga que tem um chal em 
Oxford. Ela vai passar o vero nos Estados Unidos, por isso 
vai sublocar a casa pra ns. Se voc estiver em casa, a gente 
pode visitar voc, mas no precisa se sentir obrigada.
        Isso parece... maravilhoso.  Linda tentou sorrir, mas 
Jack tinha a sensao de que algo a estava incomodando.

Captulo Onze
Sitiado

A manh seguinte era um sbado e, para comemorar o 
trmino das aulas, a classe de Jack havia programado uma 
excurso a Cedar Point, um parque de diverses junto ao 
lago. Quando Jack se viu no espelho do banheiro, o lado 
direito do rosto estava todo roxo, e ele mal conseguia abrir o 
olho. Fantstico. Vou ter de responder a milhares de 
perguntas sobre isso hoje. Ele queria poder ficar em casa. 
Mas Will viria apanh-lo em meia hora e, aps a conversa 
que haviam tido no Corcoran's, Jack relutava em cancelar.
Tia Linda estava na varanda, bebendo uma xcara de ch.
        Desculpe por eu ter de sair hoje  disse Jack.  No 
teria planejado nada se soubesse que voc vinha.
        A gente conversa  noite, Jack. Divirta-se.  Ela parecia 
triste, quase como se houvesse chorado.  Eu falei que 
voc est diferente?
Ele assentiu. 
        Eu provavelmente percebo mais do que outras pessoas, 
por ter estado fora  disse ela.  Voc deve estar se 
exercitando bastante. 
        Trs ou quatro vezes por semana.        
        Com Leander Hastings?
        .  Ele pigarreou.  Por onde voc andou esse tempo 
todo? Eu... eu... no sabia o que pensar. Estava com medo de 
que Wylie tivesse apanhado voc ou algo assim.
        Desculpe-me. Eu armei uma trilha falsa bem longa para 
ele seguir. E a tive... de tratar de uns negcios, l em casa.
        Voc fala como se fizesse esse tipo de coisa o tempo 
todo.  Jack no pde reprimir a amargura em sua voz.
        Eu tenho bastante prtica em me esconder de magos, se 
 isso o que quer dizer.  Ela ia dizer algo mais, quando 
ouviram uma forte batida na porta da cozinha.
        Entre!  gritou Jack.  Estamos na varanda.
        Jack? Onde voc estava ontem  noite? A gente...  
Will parou no meio da frase quando viu Linda.  Oh, ol  
disse para ela. Ento viu o rosto de Jack por inteiro.  
Minha nossa! O que aconteceu com voc?
        Topei com o Lobeck e os amigos dele depois do jogo 
ontem  noite.  Essa seria a verso resumida da histria, e 
Jack tinha inteno de aferrar-se a ela.
        O qu? Voc ganha o jogo pra ns e ele d uma surra em 
voc?
        Esquece. Acho que ele tinha bebido umas cervejas a 
mais. Tipo, uma dzia a mais. O que fez com que ele se 
lembrasse que no entrou no time principal.
         por isso que voc no foi  festa da Leesha? Ela achava 
que voc ia. Eu e Fitch ficamos procurando por voc.
Jack sacudiu a cabea.
        No. Na verdade, eu estava com a Ellen. Ns... ahn... 
resolvemos esquecer a festa.
        Oh. Tudo bem, ento.  Will inclinou a cabea. Pela 
expresso em seu rosto, ele aprovava a escolha de Jack.  
Voc no perdeu muita coisa. Tinha um monte de gente 
bebendo, um monte de gente chapada.  Will passou os 
dedos pelo cabelo curto e eriado.  Talvez seja hora de 
algum dar uma lio no Lobeck. Talvez eu deva me 
oferecer como voluntrio.
Jack piscou. Os olhos negros de Will estavam furiosos e 
intensos. Era como se Will seguisse uma trajetria. Como 
um grande veleiro, virava devagar. Uma vez a caminho, 
contudo, era melhor sair da frente.
        Est tudo bem, Will. Srio. Acho que ele no vai me 
incomodar de novo.  Jack pendurou uma pequena 
mochila sobre o ombro.  Estou pronto.
Will estudou-o por um momento, sacudindo a cabea.
        Se voc diz...
Fitch estava esperando no carro, e Jack teve de contar sua 
histria de novo. Aquele seria um longo dia. 
Ellen havia prometido encontr-los por volta do         meio-
dia em uma das montanhas-russas. Era um lindo dia, quente 
e ensolarado, e Jack imaginava que praticamente todas as 
turmas do primeiro e segundo anos e a maioria dos 
professores estariam l.
Tendo chegado ao parque, Jack comeou a se animar. Aps 
alguns comentrios iniciais, ningum fez muitas perguntas 
sobre seu rosto ou a briga com Lobeck. A vitria na final 
transformara Jack em uma espcie de celebridade. Ele ficou 
de olho para ver se avistava Leesha, mas no a viu.
Assim que chegaram, foram andar nas montanhas-russas 
maiores, supondo que o parque ficaria lotado mais tarde. 
Jack sempre adorara montanhas-russas e estava comeando a 
compreender que o perigo virtual era muito mais atraente 
do que o real. Quando terminaram de assistir a uns dois 
espetculos bregas em estilo circense, j era quase meio-dia, 
hora de encontrar Ellen.
Ela estava esperando junto  montanha-russa Blue Streak, 
vestindo uma camiseta branca, shorts e chinelos. Quando 
Will e Fitch tentaram perguntar-lhe sobre a briga, ela 
desconversou. Jack tentou captar-lhe a ateno para 
agradecer-lhe, mas ela se recusava a olhar para ele.
Eles andaram na Blue Streak, depois experimentaram alguns 
dos fliperamas, e ento foram almoar. Compraram 
raspadinhas de cereja de sobremesa. Estava ficando quente, 
e os brinquedos aquticos pareciam mais atraentes do que 
nunca.
        Vamos no Thunder Canyon?  sugeriu Will.   hora 
de se molhar.  Ele despiu a camiseta.
        No acabei minha raspadinha.  Jack levantou o copo 
de papel.
        Vamos deixar as raspadinhas aqui  sugeriu Ellen, 
apontando para um largo corrimo junto  lagoa.  A fila 
no est muito comprida agora.
Todos ficaram ensopados no Thunder Canyon. Como a fila 
no era muito longa, eles foram duas vezes. Emergiram, 
sacudindo-se como ces, jogando gua para todos os lados.
        Voc ainda no est molhado o bastante, Jack!
Ellen apanhou o copo dele e ameaou esvazi-lo sobre a 
cabea de Jack. Ele ergueu uma mo, estapeando o brao 
dela, e a maior parte do contedo do copo derramou-se no 
laguinho de peixes abaixo.
        Veja s o que voc fez!  disse Jack, feliz por Ellen ter 
recobrado o senso de humor. Era praticamente a primeira 
vez que ela falava com ele o dia todo.
Jack se virou para ver se as carpas na lagoa iriam atrs do 
gelo. Will tambm se inclinou por sobre o corrimo, rindo, 
mas de repente pareceu intrigado. Jack seguiu-lhe o olhar. 
Peixes mortos subiam  superfcie em um crculo crescente 
em torno da raspadinha que se derretia, as barrigas plidas 
reluzindo na gua lamacenta do parque de diverses. 
Centenas deles.
Por um momento, Jack ficou paralisado, tentando entender 
o que tinha visto. Ento seu olhar encontrou o de Will, e o 
encanto se desfez. Num movimento rpido, Jack apanhou o 
copo com o que restara de sua bebida e colocou-o dentro do 
saco plstico que trouxera consigo para as roupas molhadas. 
Enfiou o saco dentro da mochila, depois passou o brao ao 
longo do corrimo, derrubando o resto das raspadinhas na 
lagoa. Ellen e Fitch gemeram em protesto ao verem suas 
bebidas voarem do corrimo.
        Desculpem-me  disse Jack.  Minha culpa. Eu 
compro uma outra rodada. Vamos pegar limonadas desta 
vez.
E Jack conduziu com firmeza Fitch e Ellen, que ainda 
protestavam, para longe da gua. Will seguiu atrs, 
sacudindo a cabea e franzindo o cenho.
        Isto  interessante  disse Nick Snowbeard, erguendo o 
olhar do microscpio.
Nick havia armado o que era praticamente um laboratrio 
qumico em sua minscula cozinha. Jack e tia Linda estavam 
sentados  mesa da cozinha. Jack havia levantado uma 
barreira mgica de modo que ningum mais pudesse entrar. 
Nick estava deixando seu aluno exibir algumas das tcnicas 
que aprendera.
         um antigo veneno anglo-saxnico que ataca os nervos. 
Solvel em gordura. Bem rpido e eficaz. Difcil de detectar. 
Uma pequena quantidade  suficiente para matar.  Ele 
coou a barba.  Acho que no deve ter sobrado uma carpa 
viva em Cedar Point.
        Quem teria esse tipo de veneno?  indagou Jack.
        Onde ele  encontrado?
         um derivado de plantas. No  difcil de fazer, se tiver 
os ingredientes certos. S no  muito conhecido. Deve ter 
sido algum da famlia.
        Se por famlia voc est falando das Rosas, ento acho 
que acertou na mosca!  explodiu Jack.
        Quem mais ia querer me matar?  Ele se encolheu na 
cadeira.
        Quem mais estava no parque hoje?  perguntou Linda.
        Todo mundo que conheo  disse Jack.  E um monte 
de gente que no conheo.
Leesha Middleton provavelmente gostaria de envenen-lo 
quela altura.
Tia Linda suspirou, encolhendo os joelhos at encostarem 
no queixo.
        Obviamente, algum sabe do segredo.
Nick estava pensativo.
        Veneno pode facilmente errar o alvo. Como aconteceu 
neste caso.  um meio bem... ineficiente de se matar 
algum.
Jack bateu a mo na mesa.
        Eles podem ter envenenado toda a Grande Bacia do 
Oeste, mas duvido que fossem ficar com dor na conscincia 
por causa disso. No entendem? Eles sabem quem eu sou! 
Eles sabem onde eu moro! O que os ir impedir de vir me 
pegar? Ou de pegar a Sombra Assassina?  Ele se endireitou 
na cadeira.  Uma das Sete Grandes Espadas est escondida 
embaixo da minha cama junto         com a minha caixa de 
figurinhas de beisebol. Quanto tempo acha que eles vo 
levar pra descobrir isso?        
Jack sentiu o impulso repentino de ir at em casa para 
certificar-se de que a espada ainda estava l.
        Eu coloquei feitios de proteo ao redor da casa  disse 
Nick, em tom afvel.  No vai ser fcil vir atrs de voc 
aqui. E eu ficaria muito surpreso se matassem voc logo de 
cara.
        Isso faz com que eu me sinta bem melhor  resmungou 
Jack.
        Pode ter sido algum tipo de aviso. Ou uma tentativa de 
fazer voc entrar em pnico e fugir.
        Bom, est funcionando.
Linda ergueu os olhos.
        Nicodemus, como ele est se saindo com a magia?
        Jack tem uma aptido surpreendente para a magia, apesar 
da pedra de guerreiro.
        Estamos falando de truques de salo ou de algo que 
possamos usar de verdade?
        Ele avanou bem mais do que isso  Nick assegurou-
lhe.  Ele tem se sado muito bem. No  o que eu 
chamaria de um mago poderoso, mas  mais poderoso do 
que alguns que carregam a pedra. Nunca vi ningum fora da 
Ordem dos Magos que consiga fazer o que ele faz.
        Conte-me sobre o seu treinamento, Jack  disse tia 
Linda, abruptamente. Jack recapitulou o programa em 
poucas palavras, comeando com as sesses na academia e 
progredindo para as da clareira. Ela franziu a testa.  Isso  
basicamente o treinamento clssico  disse ela.  Ele no 
tratou de mais nada?
Jack pensou a respeito.
        Passamos algum tempo treinando com uma funda. 
Fizemos algumas coisas sem armas, como luta livre e tai chi. 
Estive levantando pesos por conta prpria. Mas passamos a 
maior parte do tempo com os floretes e com a Sombra 
Assassina na clareira.
Linda hesitou antes de fazer a prxima pergunta.
        Como  Leander Hastings como professor?
        Ele sabe o que est fazendo. No se importa de passar um 
bocado de tempo comigo, mas  bem exigente s vezes.  
Jack pensou por um momento.  Ele tem de estar 
totalmente no controle. Ele s responde s perguntas que 
quer responder.
Linda assentiu, como se aquilo no a surpreendesse.
        Isso  bem o estilo do Leander.
Jack no pde evitar pensar que aquilo era bem o estilo de 
Linda tambm. Estava ficando irritado com o interrogatrio. 
Ele tambm tinha perguntas para as quais queria respostas. 
Linda se levantou e comeou a andar de um lado para o 
outro no pequeno espao entre a mesa e o balco.
        Acho que essa viagem  Inglaterra no  uma boa idia 
 disse ela, sem olhar para Jack.
        Do que voc est falando?  indagou Jack, surpreso.
Linda falou rpida e persuasivamente:
        Se voc for, a doutora Longbranch vai querer ver voc. 
E no acho que isso seja uma boa idia... do jeito que voc 
est agora.        
Jack se levantou, os ps levemente afastados, os braos 
cruzados.
        Tia Linda, acho que  hora de ser franca comigo. Tem 
gente tentando me matar. Acho que mereo saber quem e 
por qu.
        Muito bem  disse Linda, pousando as mos no encosto 
da cadeira.  Voc se lembra que eu falei que os Weirs tm 
um histrico de luta, especialmente entre si?
Jack fez que sim com a cabea e se sentou, suspeitando que 
essa seria uma histria longa e desagradvel.
        H, na verdade, duas ramificaes principais da famlia 
que tm lutado entre si por centenas de anos. Comeou com 
dois irmos. Voc se lembra da Guerra das Rosas?
        Uma guerra civil entre duas faces da realeza britnica, 
Lancaster e York, no ?  Jack se esforou para se lembrar 
das aulas de histrica britnica.  No terminou com a 
Batalha de Bosworth Field?  Ele e Nick haviam passado 
um bocado de tempo naquilo. No era de surpreender que o 
velho mago fosse um especialista no assunto.
        No para ns. Um ramo da nossa famlia era da Rosa 
Vermelha e o outro, da Rosa Branca. Durante anos, aps 
Bosworth, a luta continuou, sem que nenhum lado obtivesse 
a hegemonia  disse Linda.  L pelo sculo XVI, at os 
magos mais sedentos de sangue em ambas as casas 
perceberam que as coisas no podiam continuar daquele 
jeito. Foi nessa poca que vrias centenas de Weirs 
migraram para os Estados Unidos, para fugir da guerra que 
nunca acabava e da dominao dos magos. Entre eles, havia 
representantes de todas as ordens. Ns descendemos desse 
grupo de democratas, chamados de o Cl do Urso. Para os 
que ficaram, um novo sistema foi desenvolvido, um sistema 
de torneios.
Jack olhou nos olhos dela.
        Nick me falou sobre o Jogo.
Linda estremeceu, e suas faces coraram de leve.
        O Jogo  repetiu ela.  Assim os magos no se 
envolveram mais na luta de fato. A nfase se transferiu para 
o recrutamento e treinamento de guerreiros... a procriao 
visando gerar guerreiros com certos poderes e caractersticas 
que se provariam vantajosas.  Ela olhou para Jack, depois 
desviou o olhar.  Mas esses esforos saram pela culatra. 
Havia tanta nfase no dom do poder que eles 
negligenciaram a carne e o sangue que carrega esse poder. 
Por causa da procriao consangunea, a linhagem se tornou 
doente, comeou a morrer. Por isso e pelo fato de que os 
guerreiros morrerem aos montes nos torneios. At os que 
tinham sucesso muitas vezes no viviam por tempo 
suficiente para ter filhos.
        Por que eles no pararam simplesmente de lutar?
        Por vrias razes. Tradio. Vingana. Controle de um 
tesouro de artefatos mgicos, os ltimos deles.
 verdade  disse ela, notando a reao de Jack.  O 
vencedor de um torneio passa a controlar o Conselho dos 
Magos, que governa as ordens.  improvvel que aqueles 
que tenham chegado ao poder por meio desse sistema 
queiram mudar as coisas. A nossa famlia  uma aristocracia: 
privilegiada e ociosa, com pouco a fazer a no ser criar 
intrigas. Nos idos de 1700, quando comearam a escassear os 
guerreiros no Velho Mundo, algum nas ordens europias 
deve ter se lembrado dos que haviam partido para os Estados 
Unidos dois sculos antes. Eles tm registros extensos. So 
manacos por genealogia. O ramo da famlia nos Estados 
Unidos havia rompido os laos com as Rosas, usando o Urso 
Prateado como emblema. Muitos de ns se casaram com 
Anaweirs, pessoas sem o dom. Como resultado, nem todos 
so herdeiros. Talvez seja por isso que voc nasceu sem uma 
pedra. Mas muitas pessoas neste ramo da famlia carregam o 
dom e so fisicamente sadias. So vulnerveis, porque no 
sabem que tm um dom ou no foram treinadas. So os no 
afiliados, o que significa que esto desprotegidos. Ento as 
Rosas comearam a vir atrs de ns. Eles procuravam 
pessoas que carregavam cristais, especialmente de 
guerreiros. E essas pessoas desapareciam. Eles adoram roubar 
crianas e criar para o Jogo. Levou muito tempo at 
entendermos o que estava acontecendo. Mas havia alguns de 
ns na famlia que estudavam as velhas artes, que 
conheciam as tradies, que entendiam os significados dos 
Livros Weir.
 Onde est o resto da famlia?  indagou Jack.
        Por todo lado  respondeu Linda , ainda h vrias 
grandes fortalezas no Reino Unido, mas eles esto 
espalhados por todo o mundo. So pessoas muito ricas e 
poderosas, Jack. Pessoas que podem ver o futuro e controlar 
os outros. Pessoas que no tm nenhuma dificuldade pra 
ganhar a vida.
Jack pensou na tia, que sempre tivera bastante dinheiro e 
nenhum meio visvel de sustento.
        Est me dizendo que esses torneios acontecem o tempo 
todo e que ningum sabe disso?
        Nem tantos hoje em dia, por causa da falta de guerreiros. 
Mas eles continuam, sim.  Linda deu de ombros.  O 
sistema de torneios tem funcionado muito bem, sob o ponto 
de vista de um mago. Salva vidas e propriedades. Entenda, os 
magos no tm permisso de atacar outros magos sob as Leis 
de Combate, que no foram mudadas desde que foram 
escritas no sculo XVI. As outras ordens,  claro, so presas 
fceis para eles.
Jack se lembrou do livro de regras de combate que Hastings 
lhe havia dado.
        As regras. Oh, certo. Eu tenho aqui.
Sua mochila estava sobre a mesa. Ele enfiou a mo num 
bolso lateral e retirou o fino volume.
Linda reagiu como se Jack houvesse tirado uma cobra da 
mochila.
        Onde conseguiu isso?  indagou ela.
        O senhor Hastings me deu. Eu andei estudando.
        Voc no vai precisar disso, porque no vai lutar com 
ningum  disse a tia categoricamente.
        Ento por que eu tenho de passar por todo esse 
treinamento?  Jack meteu o livro de volta na mochila, 
mais confuso do que nunca.
Linda agarrou-lhe o brao, piscando para conter as lgrimas.
        Jack, eu s estou tentando fazer o melhor que posso, 
todos os dias, para manter voc vivo. Quando voc nasceu, 
tive de envolver Jessamine Longbranch nisso, ou voc teria 
morrido. Ela  a chefe, a Premi da Rosa Branca. Ela deu a 
voc uma pedra de guerreiro imaginando que um dia voc 
lutaria por eles. Eu consegui convenc-la a deixar voc onde 
estava, dizendo que voc poderia ser treinado mais tarde, 
que seria difcil para a Rosa Vermelha encontrar voc em 
Trinity.  Tia Linda deu-lhe um sorriso plido.  Voc 
sabe como posso ser persuasiva. E, at recentemente, voc 
ficou escondido. O Premi da Rosa Vermelha  um homem 
chamado Geoffrey Wylie. Foi ele que encontramos no 
cemitrio. J que a Rosa Branca sempre soube que voc 
estava aqui, s posso imaginar que o grupo de Wylie esteja 
por trs do veneno. Mas isso no faz muito sentido. Se eles 
sabem quem voc , eles s matariam voc como um ltimo 
recurso.
Nick fez um gesto de cabea, concordando.
        Se um mago quisesse matar voc, no usaria veneno. 
Agiria de modo mais direto. Mas Wylie no iria querer 
matar voc. Ele iria captur-lo e convocar um torneio. Se a 
Rosa Branca no colocasse um jogador em campo, ele 
venceria por desistncia.  Ele esfregou a barba, pensativo. 
 No vi nenhum sinal de magos em Trinity desde o dia do 
teste de futebol. Se eles ainda esto na cidade, esto se 
escondendo, talvez por causa do Hastings. Acho que  cedo 
para entrarmos em pnico.
Linda franziu a testa.
        Se a doutora Longbranch souber que a Rosa Vermelha 
achou voc, ela vai levar voc embora.  Ela notou que 
Jack no compreendera, e prosseguiu.  Ela vai levar voc 
para ser treinado. Eu sei um pouco sobre como eles treinam 
os guerreiros para o Jogo.  A voz dela sumiu, como se ela 
se desse conta, de repente, de com quem estava falando.  
Voc  quase um adulto, Jack. A doutora Longbranch no 
vai esperar muito mais para levar voc, de qualquer jeito. 
Por isso eu contatei o Hastings. Foi ele quem sugeriu que a 
gente recuperasse a espada e treinasse voc em segredo. 
Ele achava que a Sombra Assassina poderia ser um trunfo, 
nivelar as coisas.
        Quem  o Hastings, exatamente?  perguntou Jack.
        Eu o conheo h muito tempo. Ele descende da 
linhagem do Urso, como ns.  um mago poderoso e 
sempre teve um grande interesse em guerreiros e 
treinamento de guerreiros. Ele tem defendido as ordens 
menores, o que chamamos de Weir Anamagos, ou seja, 
Weirs que no so magos. Eu sabia que ele seria um 
professor excelente.
Jack estava comeando a entender quo negra era a situao. 
Trinity no parecia mais segura. Parecia um buraco pequeno 
demais para se esconder. Talvez fosse hora de deixar a 
cidade.
        Tia Linda, eu tenho de ir pra Inglaterra. Minha me j 
comprou as passagens. Ela vem falando h meses sobre todas 
as coisas que a gente vai fazer.
        Voc pode evitar ver a doutora Longbranch?
        Acho que ela j telefonou dizendo que a gente vai.
Linda parecia resignada.
        Ento voc vai ter de comear a tomar a Antiweir de 
novo.
        No!  Jack se ps em p, afastando-se deles.  No 
tomo mais aquela coisa. Voc prometeu.
        Mas, Jack, ela vai suspeitar de algo. A mudana em voc 
foi... notvel.
        Sou adolescente. Adolescentes mudam.  Jack sacudiu a 
cabea.  No vou tomar. Estou falando srio. Prefiro 
morrer.  Ao dizer aquelas palavras, ficou um pouco 
impressionado consigo mesmo. No conseguia se lembrar de 
j ter dito no a Linda.
Linda parecia surpresa tambm, mas guardou qualquer 
comentrio a respeito para si mesma.
        Tudo bem, Jack. Se  assim que se sente.
A semana aps o passeio em Cedar Point foi semana de 
provas, a ltima semana de aulas. Quando Will chegou  casa 
de Jack naquela manh de segunda, encontrou a porta da 
cozinha trancada. Olhando atravs da tela, conseguiu ver 
Jack com a cabea na mesa, adormecido, o cereal deixado de 
lado. Will teve de bater na porta diversas vezes at que Jack 
acordasse, os olhos arregalados. Quando Jack viu quem era, 
levantou-se e deixou Will entrar, trancando de novo a porta 
atrs dele.
        Quer dizer que est trancando as portas agora?  
comentou Will. Ele fez um gesto para que Jack terminasse 
de comer o cereal e se serviu de meia tigela. Jack parecia 
pssimo. O olho roxo estava agora ficando verde e amarelo. 
Havia olheiras sob o outro olho. Ele podia ter um fsico 
perfeito, mas parecia emocionalmente em frangalhos.  
Ficou at tarde estudando cincias sociais ontem  noite?
        Cincias sociais? Ah, .  Em movimentos mecnicos, 
Jack meteu uma colherada do cereal empapa- do na boca.
        O Fitch disse que pode se encontrar com a gente hoje  
noite pra estudar matemtica. A Ellen no poder vir. Parece 
que uns parentes dela esto de visita a semana toda.
Jack deu de ombros, como se no desse a mnima.
        Certo.
        Escute, Jack.  Will hesitou.  Estive pensando se o 
seu problema  algo em que a polcia pode ajudar.
Aparentemente, demorou alguns segundos at que as 
palavras de Will se registrassem no crebro de Jack. Jack 
encarou-o.
        O que voc quer dizer?
        Sabe como , estou pensando se voc e a sua tia esto em 
algum tipo de encrenca. Parece que toda vez que ela vem 
visitar voc, coisas acontecem.  Como Jack no dissesse 
nada, Will apressou-se em continuar.  Meu tio Ross  
sargento da polcia aqui em Trinity. Talvez a gente possa 
conversar com ele. S informalmente, entende? Ele poderia 
dar algum conselho pra voc.
Jack sacudiu a cabea. Havia um ar de resignao nele que 
incomodava Will.
        No, est tudo bem. Vai ficar tudo bem  repetiu Jack, 
sem nenhuma convico.  A gente vai partir para a 
Inglaterra em uma ou duas semanas.
Will assentiu.
        Voc no  o nico que vai viajar neste vero. Voc 
sabia que eu e o Fitch tambm vamos pra Inglaterra?
Isso despertou Jack de sua letargia.
        Ah, sim. A Ellen me contou. Mas no sei muito a 
respeito.
        O senhor Hastings armou tudo. A Sociedade 
Chauceriana vai passar um ms na Inglaterra. Vamos estar l 
no mesmo perodo que voc, j que voc vai ficar l a maior 
parte do vero, no ?
        Acho que sim. Mas como  que o Fitch pode pagar uma 
viagem pra Inglaterra?
         um patrocnio de uma empresa privada. O senhor 
Hastings fez cada um de ns escrever um ensaio. O de Fitch 
foi impressionante mesmo. Todos ns conseguimos um 
subsdio, mas ele conseguiu uma bolsa de estudos integral.
Nesse momento, Will ouviu algum descer as escadas dos 
fundos at a cozinha. Era Linda Downey. Will olhou-a com 
uma mistura peculiar de hostilidade e fascinao. Will estava 
convencido de que a bela tia de Jack era, de algum modo, 
responsvel pelos problemas de Jack.
        Oi, Jack. Oi, Will.  Linda saudou-os calorosamente, 
mas o sorriso dela se desfez quando viu a expresso de Will. 
Jack no percebeu nada.  Eu levo vocs de carro at a 
escola.
Will estava desapontado. Esperava ter algum tempo para 
falar em particular com Jack, tentar chegar ao fundo do que 
acontecera em Cedar Point e persuadi-lo a conversar com o 
tio Ross. No conseguia pensar em nenhum outro jeito de 
ajudar.
        Est bem  disse Jack, como se no tivesse nenhuma 
preferncia.  Vou pegar minha mochila.
Tia Linda havia alugado um pequeno carro esporte de cor 
prata para aquela viagem. Normalmente, Will teria 
implorado para ter a oportunidade de dirigi-lo, mas dessa vez 
eles atravessaram a curta distncia at o Colgio de Trinity 
em silncio. Linda estacionou em frente ao colgio. Quando 
Jack saiu do carro, Linda se inclinou sobre o cmbio em 
direo a Will, falando de modo que s ele ouvisse.
        Por favor, fique de olho nele, Will.
Will ergueu os olhos, surpreso. Ela estava perto, muito 
perto; aqueles olhos impossivelmente azuis estavam fixados 
nele e ela parecia absolutamente sria, quase implorando.
"Ai, meu Deus", disse ele a si mesmo, sentindo o sangue 
subir-lhe s faces.
Ela lhe passou um pedao de papel.
        Esse  o nmero do meu celular. Se acontecer alguma 
coisa incomum, me chame.
        Claro. Est certo.
Os dedos deles se tocaram quando ele pegou o papel. Com 
relutncia, ele deslizou pelo banco do carro e saiu para a 
calada. Ficou ali, hesitante, segurando o papel na mo, 
vendo o carro de Linda se afastar.
Depois disso, Will achou difcil se concentrar na prova de 
cincias sociais, e quase ficou aliviado quando o tempo 
acabou. Ele e Jack entregaram as provas e seguiram para seus 
armrios para pegar o material de matemtica. O armrio de 
Jack era do lado do de Will e estava aberto. Parecia ter sido 
saqueado.
        Acho que deixei meu armrio destrancado  disse Jack a 
Will, sacudindo a cabea.  Devo estar ficando maluco.
Penworthy surgiu de repente.
        Senhor Swift, preciso que venha  diretoria 
imediatamente.  Penworthy parecia to nervoso que 
estava literalmente se contorcendo.
Jack piscou.
         sobre o meu armrio?
        Podemos dizer que sim.  A boca do diretor se retorcia 
em repugnncia sempre que parava de falar.
        Est tudo bem  Jack assegurou-lhe.  Acho que no 
levaram nada.
        Eu j lhe disse para vir comigo  repetiu o diretor.  O 
senhor pode deixar suas coisas aqui.
Algo no tom de voz dele fez Will se voltar para ver. 
Penworthy estava praticamente empurrando Jack pelo 
corredor, e Jack tentava se virar para olhar para Will. 
Perplexo, Will seguiu a uma distncia discreta. O diretor 
conduziu Jack at a frente do prdio e para dentro do 
escritrio da administrao. Will entrou no escritrio 
externo bem a tempo de ver a porta da sala interna de 
Penworthy se fechar. A secretria lanou-lhe um olhar 
inquisitivo.
 Ahn, estou esperando algum vir me buscar  disse 
Will. Ele se sentou numa cadeira junto  porta.  Vo 
chegar a qualquer minuto.
As palavras de Linda voltaram-lhe  mente. "Fique de olho 
nele, Will." Ela estava contando com ele. No tinha 
nenhuma inteno de sair dali at descobrir o que estava 
acontecendo.
Quando Jack entrou na sala do diretor, viu dois homens 
sentados a uma pequena mesa. Estavam trajados de forma 
casual, em blusas de abrigo e calas jeans. Ambos pareciam 
ter cerca de trinta anos, e tinham um ar severo. Um era 
moreno com barba rala, e o outro era loiro e tinha o rosto 
barbeado, com uma cicatriz proeminente atravessando-lhe o 
maxilar. Ambos exibiam um fsico atltico. Eles se ergueram 
ao mesmo tempo com expresses idnticas de perplexidade 
quando Jack entrou na sala.
        Tem certeza de que  esse a?  perguntou um deles a 
Penworthy, indicando Jack com a cabea.
        Este  Jackson Swift  disse Penworthy 
respeitosamente.
O diretor se sentou atrs da escrivaninha e gesticulou para 
que Jack ocupasse a cadeira vaga  mesa em frente aos dois 
homens. Jack sentou-se, observando os homens com 
cautela. Os homens estudavam-no como se estivessem 
vendo algo inesperado.
Cada um dos dois estranhos tirou do bolso uma carteira em 
imitao de couro, abrindo-as para revelar um distintivo. O 
homem moreno falou.
        Jack, meu nome  Brad Hansford, e este  Mike 
Sowicky. Trabalhamos na diviso de Narcticos do 
Departamento de Polcia de Trinity. A gente gostaria que 
voc respondesse a umas perguntas.
Jack estava desconcertado. Ele conhecia vrios policiais de 
Trinity, inclusive o tio de Will, Ross, mas jamais vira aqueles 
dois homens. Olhou de um para o outro e depois para 
Penworthy. As mos do diretor deixavam pontos midos no 
mata-borro da escrivaninha.
        O que est acontecendo?
Sowicky falou pela primeira vez.
        Jack, a gente fez uma vistoria no seu armrio esta manh 
e achou isso.  Ele jogou dois sacos plsticos sobre a mesa. 
Um continha ervas verdes, o outro um punhado de plulas e 
cpsulas.
        Espere a!  protestou Jack.  Eu nunca vi essas coisas 
antes.
         por isso que a gente quer conversar com voc, Jack. 
Queremos esclarecer isso.  Quem falava era Hansford, o 
detetive moreno. A voz dele era reconfortante.
A mente de Jack processava devagar, vazia de pensamentos 
teis.
        Por que estavam vistoriando meu armrio?  indagou 
finalmente, a fim de ganhar tempo.
        Recebemos uma denncia de que voc talvez estivesse 
envolvido em trfico de drogas  disse Sowicky.  Ento 
contatamos o senhor Penworthy, aqui. Ele tem sido de 
grande ajuda.  Sorriu para o diretor, que pareceu 
embaraado e orgulhoso ao mesmo tempo.
        Olha, vocs pegaram a pessoa errada. Eu no vendo 
drogas!  "Sonhando. Eu devo estar sonhando de novo", 
disse Jack a si mesmo. Mas como fazer para acordar?
        Como arranjou esse olho roxo, Jack?  perguntou 
Sowicky.  Se meteu em algum tipo de encrenca?
Jack comeou a dizer alguma coisa, mas mudou de idia. 
Sabia que estava com srios problemas e no entendia por 
qu. Quem colocaria drogas no armrio dele para incrimin-
lo? Claro, havia pessoas que o queriam morto e outras que 
queriam domin-lo, mas por que algum iria querer v-lo na 
cadeia? Esforou-se para pensar com clareza, mas o crebro 
parecia estranhamente preguioso.
Aqueles deviam ser policiais disfarados, dado o modo como 
se vestiam. Mas eles no deveriam ter-lhe  oferecido um 
advogado antes de comearem a fazer perguntas? Ele tentou 
solucionar esse enigma, mas a mente no respondia.        
Hansford estava falando de novo.        
        Por que no vamos at a delegacia e voc responde a 
algumas perguntas? J chamamos os seus pais. Eles disseram 
que vo nos encontrar l.
        Mas eu tenho prova em duas horas!  disse Jack, ento 
se sentiu estpido por ter dito aquilo.
Hansford sorriu. Era, com certeza, o mais amigvel dos dois.
        Com alguma sorte, a gente esclarece isso, e voc estar 
de volta em tempo para a prova.
Jack fechou os olhos. Algo se agitou no fundo de sua mente, 
como minsculas asas. No, no eram asas. Palavras. Uma 
ladainha reconfortante. "V at a delegacia. Converse sobre 
a questo. Vai ficar tudo bem." Ele se empertigou. Eles 
disseram que haviam falado com os pais dele. Mas o pai de 
Jack estava em Boston. Era impossvel que tivessem falado 
com ele. E a me dele teria insistido para lev-lo ela mesma  
delegacia.
Foi ento que caiu em si. Abriu os olhos. Hansford olhava 
firme para Jack, concentrando-se, e Jack conseguiu sentir o 
poder que emanava dele. "V at a delegacia, vai ficar tudo 
bem", a voz insistente dizia.
Os homens eram magos.
Jack respirou fundo, lutando contra o pnico. Acima de 
tudo, sabia que no podia revelar o que sabia sobre o jogo 
mortal que estavam jogando. Sua nica vantagem era o fato 
de eles pensarem que ele era apenas um garoto destreinado 
do segundo grau.
"Deve ser a Rosa Vermelha." Pousou o olhar sobre 
Penworthy. Uma escola cheia de Penworthys no seria o 
suficiente para det-los. Jack precisava de ajuda.
Jack se levantou.
        Acho que vou vomitar  anunciou ele, segurando a 
barriga. E no estava longe da verdade.  Preciso ir. Volto 
num minuto.
Os magos se agitaram, descontentes.
        Por que no vamos logo, Jack?  sugeriu Hansford.  
Vai se sentir melhor assim que estiver ao ar livre.
        Estou falando srio  replicou Jack, erguendo a voz.  
Vou vomitar.
Penworthy levantou-se num salto. O carpete do escritrio 
era de uma plida cor de pssego.
        O banheiro  por aqui, na terceira porta. Vocs podem ir 
com ele, se quiserem.
Com relutncia, Hansford e Sowicky seguiram Jack at o 
escritrio externo. Will estava sentado em uma cadeira junto 
 porta e ergueu a cabea quando Jack emergiu da sala de 
Penworthy acompanhado pelos dois "detetives". Will estava 
prestes a dizer algo, mas naquele momento Jack tropeou no 
p de uma cadeira e caiu praticamente no colo de Will. Com 
a boca junto ao ouvido de Will, Jack sussurrou:
        Will, estou com problemas. Encontre o Hastings, rpido. 
Conte pra ele. 
Hansford e Sowicky agarraram um brao de Jack cada um, 
puseram-no em p e o levaram para fora da sala.        

Will ficou imvel por um momento, atordoado. Hastings? O 
que ele tinha a ver com tudo aquilo? Mas Will se levantou 
rapidamente, lembrando-se do desespero no rosto de Jack.
        Onde est o senhor Hastings?  indagou ele  senhorita 
Prentiss, a secretria, que observava a sada de Jack e sua 
escolta com curiosidade.
        No tenho a menor idia  respondeu ela.  Sei que 
ele est no prdio, mas  semana de provas, ento a agenda 
de todo mundo est um pouco...
Will ergueu a mo para conter o fluxo de palavras.
        Escute,  importante. Preciso achar ele agora mesmo.
Penworthy apareceu  porta da sala dele, endireitando 
nervosamente a gravata.
        Senhor Childers, no gosto do seu tom de voz. Quando 
virmos o senhor Hastings, avisaremos que o senhor est 
procurando por ele.
Will se voltou e olhou feio para o diretor, pondo a mo 
sobre o ombro dele. Dada a diferena de tamanho entre eles, 
o gesto era bastante ameaador.
        No estou brincando, senhor Penworthy. Se sabe onde 
ele est, precisa me dizer, ou... ou todo mundo vai se 
arrepender.
Tanto a secretria quanto o diretor encaravam Will, que 
nunca havia levantado a voz para ningum.
Penworthy recuou um passo, engoliu em seco e pareceu 
encolher ainda mais.
        No sei onde ele est. Talvez esteja ajudando em alguma 
das provas. O intercomunicador ainda est quebrado, por 
isso vai ter de procurar por ele.
        Quem eram aqueles homens e pra onde levaram o Jack? 
 indagou Will.
        So policiais. Esto levando-o at o banheiro. Ele no 
estava se sentindo bem.
        Se virem o senhor Hastings, digam que Jack Swift precisa 
da ajuda dele.
Will girou nos calcanhares e correu para fora do escritrio.
Parecia uma tarefa impossvel. O prdio era imenso, e 
Hastings poderia estar em qualquer uma da centena de 
classes do colgio. Como as portas das salas no tinham 
janelas, seria necessrio abrir uma centena de portas. Will 
seguiu rapidamente pelo corredor, escancarando portas, 
assustando supervisores e alunos fazendo prova, 
perguntando a todos que via se sabiam do paradeiro de 
Hastings. Afinal, dobrou uma esquina e praticamente 
trombou com Fitch.
        Opa, cuidado a, Will. Se atropelar algum, pode haver 
mortos e feridos.
Fitch parou de rir quando viu o rosto de Will.
Will explicou a situao, apressado. O tempo passava, e ele 
no estava chegando a lugar algum. 
         o seguinte  disse ele a Fitch.  Voc continue 
procurando pelo Hastings. Eu vou telefonar pra Linda. Ela 
me deu o nmero do celular dela.        . 
Correu at a fileira de telefones pblicos do lado de fora da 
cafeteria e discou. Ela atendeu quase que de imediato. Pelo 
rudo de fundo, ela parecia estar no carro.
        Al, aqui  o Will. O Jack est em algum tipo de 
encrenca. Ele me mandou procurar pelo senhor Hastings, 
mas no consigo encontr-lo.
Houve um momento de silncio. Ento a voz de Linda 
vibrou no telefone.
        Onde o Jack est agora?
        Da ltima vez que eu o vi, estava saindo da sala do 
diretor com dois homens.
        Will, me escute. Estaremos a assim que pudermos. 
Encontre o Hastings.  E ela desligou.
Os dois seqestradores de Jack seguravam-no com fora. As 
mos deles queimavam-lhe a pele atravs da camisa. Jack 
achou que eles pudessem tentar for-lo a sair naquele 
momento mesmo. Vendo que o corredor estava lotado de 
estudantes, Jack se inclinou, queixando-se em voz alta de 
que se sentia mal. Algum que Jack no identificou chamou 
por ele. Jack no olhou para trs. Os dois magos se 
encaminharam para o banheiro, aparentemente acreditando 
na palavra de Jack.
Hansford continuava tentando confundir-lhe a mente. 
"Voc est bem, Jack", dizia a voz dentro de sua cabea. 
"Coopere e vai ficar tudo bem." Uma vez no banheiro, Jack 
se trancou em uma das cabines e fez o maior barulho que 
pde, simulando tentativas de vmito. No fazia idia do que 
Will faria com a mensagem dele. E se Will no conseguisse 
encontrar Hastings? Jack estava decidido a no ir a lugar 
algum com Hansford e Sowicky. S que ele no parecia ter 
sada.
Os magos estavam ficando impacientes.
        Vamos  disse Sowicky, batendo na porta da cabine.  
Est demorando muito.
        S mais um minuto  respondeu Jack.  No quero 
vomitar no carro de vocs.
        A gente no liga, Jack  disse Hansford.   hora de ir. 
Seus pais devem estar se perguntando onde voc est.
        Escutem  disse Jack em voz fraca.  Quem sabe eu 
vou com meus pais um pouco mais tarde. Depois da minha 
prova. Eles vo querer chamar o advogado deles, de 
qualquer maneira.
        Voc no vai precisar de advogado  disse Sowicky 
com aspereza.  Porque vai ser uma coisa bem informal  
apressou-se em acrescentar.  Agora saia, ou a gente entra 
pra pegar voc.
Jack refletiu sobre suas opes. A porta de uma cabine de 
banheiro no seguraria os dois magos por muito tempo. 
Pensou em tentar um dos feitios de ataque que Nick lhe 
ensinara. Sabia, contudo, que no era muito poderoso como 
mago, e no fazia idia de quem estava enfrentando. Decidiu 
que seria melhor continuar a bancar o idiota at que 
estivessem fora do colgio, e ento tentar peg-los de 
surpresa em um local onde houvesse        menos risco para 
outras pessoas e mais possibilidades de escapar.
Ele acionou a descarga e destrancou a porta. Mas, assim que 
saiu, Sowicky segurou-o pela garganta, prendendo-o contra 
o batente da porta, cortando-lhe o suprimento de ar e 
silenciando-o com eficcia. Jack ouviu Hansford pronunciar 
um feitio, e foi como se metal quente lhe corresse pelas 
veias. Seus braos e pernas de repente pareciam pesados 
demais para que pudesse ergu-los. Um feitio de 
imobilizao, sups Jack. Tarde demais.
Sowicky puxou-o para longe da parede e o jogou de bruos 
no cho; o joelho de algum pressionava as costas de Jack. 
Seu brao foi torcido para trs com tanta fora que teve 
medo de que seu ombro se quebrasse. O outro brao teve o 
mesmo destino, e algo se fechou ao redor de seus pulsos, 
ligando-os bem apertado.
O tempo passava devagar agora, e todos os sentidos de Jack 
estavam em alerta total. O fedor familiar do banheiro do 
colgio assaltava-lhe as narinas, o frio da cermica atingia o 
seu rosto arranhado. Havia sujeira no rejunte entre os 
ladrilhos cinza e vinho do piso, as cores do Colgio de 
Trinity. Ele teve uma frao de segundo para se perguntar se 
isso seria a ltima coisa que veria, se eles o matariam ali 
mesmo. Ento compreendeu que eles provavelmente no 
atariam suas mos se planejassem mat-lo.
        Acabou a brincadeira, Jack  sussurrou algum.
Era Hansford. O cara legal. Eles o rolaram no cho de modo 
que ficasse deitado desconfortavelmente sobre os braos 
amarrados, olhando para o rosto deles, um de cada lado. 
Sowicky ergueu a camiseta e o colete de Jack para expor-lhe 
o peito.
Hansford retirou do colarinho da blusa um cone prateado, 
semelhante ao que a doutora Longbranch usava, s que 
menor. Colocou-o contra a pele de Jack e segurou-o l por 
um momento. Em seguida, fez um gesto brusco de cabea 
para o parceiro e guardou o cone dentro da prpria blusa. 
Jack tentou desesperadamente rolar para longe, mas no 
conseguiu nem se mover.
        Escute com ateno  disse Sowicky.  Vamos levar 
voc vivo, j que vivo voc vale uma fortuna e morto no 
vale nada. Venha com a gente por bem, e ningum se 
machucar. Mas vamos matar qualquer um que se ponha no 
nosso caminho. Quero que pense nisso antes de fazer uma 
cena quando a gente sair.
Nesse exato instante, Jack ouviu a porta do banheiro se abrir. 
Ergueu os olhos e viu Leesha Middleton.
Ele tentou gritar, avis-la para fugir.
Ento se perguntou o que ela estava fazendo no banheiro 
masculino.
Ela fechou a porta atrs de si e veio na direo deles. 
Ajoelhou-se ao lado de Jack no piso de ladrilhos.
Leesha sorriu e despenteou o cabelo de Jack como se fosse 
sua dona.
        Ento vocs o pegaram  disse ela.
Jack abriu e fechou a boca como um peixe fora d'gua.
        Achei que voc tinha dito que ele no era treinado  
disse Hansford.  No conseguimos detectar nenhum 
vazamento de magia. Tivemos de contar com a sua palavra.
        O que deveria ser o suficiente pra vocs.  Leesha 
deslizou as pontas dos dedos sob a camisa de Jack, afastando-
a de cima do colete.  O que temos aqui?  Ela passou um 
dedo pelo colete.  Segredos no revelados? A gente acha 
que conhece uma pessoa...
Jack estava pensando mais ou menos a mesma coisa.
Leesha se sentou no cho ao seu lado e deitou a cabea dele 
em seu colo, acariciando-lhe suavemente o rosto.
        No est to bonito quanto da ltima vez que eu vi voc. 
Parece que o meu namorado deu uma surra em voc.  
bem-feito, por ter boicotado minha festa.  Ela suspirou de 
modo dramtico.  Oh, Jack, que tola eu fui.
"Eu tambm."
        Quem  voc?  murmurou Jack. Ele queria poder se 
mover, um pouquinho que fosse, para aliviar a tenso nos 
braos.  Para quem voc trabalha?  Cada pergunta fazia 
com que ganhasse um pouco mais de tempo.
        Eu? Sou maga. A doutora Longbranch me contratou para 
manter um olho em voc no outono passado. No entendi 
por que Longbranch considerava voc digno de ser 
observado, ento decidi descobrir. Trabalhei duro com voc, 
Jack. Arranquei todos os seus segredos tediosos, mas escolhi 
a hora errada. Na poca, voc era totalmente ignorante e 
no tinha nada a me dizer. E Longbranch mantinha voc 
dopado com Antiweir, por isso seu corpo no vazava magia 
tambm.
Jack no se lembrava muito de seus encontros com Leesha. 
Um borro bastante prazeroso e nada mais.
        Agora trabalho pra mim mesma  continuou Leesha.  
E mereo o que conseguir desta vez, pode acreditar. Presa 
neste fim de mundo, sendo legal com caipiras e idiotas. Se 
bem que nem tudo foi desagradvel.  Ela se inclinou e 
beijou-o.  O que me lembra...
Ela remexeu na bolsa com uma mo e sacou um pequeno 
frasco. Tirou a rolha com os dentes. Segurando o maxilar de 
Jack, forou-o a abrir a boca e despejou o contedo, 
massageando-lhe a garganta para que engolisse a maior parte. 
Parecia ter prtica naquilo.
O gosto era familiar. Leesha confirmou:
        Antiweir. Pra impedir que o guerreiro apronte alguma 
sacanagem. Alguns minutos at fazer efeito, e vamos 
embora.
        Como voc... como descobriu?
        Bem, devo dizer que a mudana fsica atraiu meu 
interesse. E ento Leander Hastings apareceu em Trinity, o 
que indicava que algo estava acontecendo. 
        Conhece o Hastings?        
Leesha chegou mesmo a estremecer.
        Aquele traidor de corao mole? Todos ns conhecemos. 
Depois que ele chegou, vocs estavam sempre juntos. Ento 
resolvi pr alguma coisa na sua bebida na festa, levar voc 
at uma sala nos fundos e ver o que conseguia descobrir. 
Quando voc no apareceu, sa procurando por voc. E qual 
no foi a minha surpresa quando vi voc jogar o coitado do 
Garrett de um lado pro outro no estacionamento.  Ela deu 
um tapa na prpria testa.  Era to bvio!
Hansford pigarreou.
        Falando no Hastings, acho melhor a gente ir.
        O que vo fazer comigo?  indagou Jack rapidamente. 
Leesha estava se divertindo, demonstrando o quo estpido 
ele havia sido. Talvez ele pudesse adiar o inevitvel um 
pouco mais.
        Depende. As duas Casas esto ansiosas... ou melhor 
dizendo, desesperadas pra pr as mos em voc. Isso deve 
subir o preo.
        Vocs so mercadores  disse Jack, entendendo enfim. 
 Voc quer... me vender.
Jack sentiu o estmago se contrair e pensou que vomitaria 
de verdade. S que, deitado de costas como estava, incapaz 
de se mover, ele provavelmente se afogaria. Jack varreu o 
pensamento da mente.
        Isso mesmo, Jack. Um negcio como esse e nunca mais 
vamos precisar trabalhar  disse Sowicky.  Voc  o que 
chamamos de uma mercadoria especial.
Chega de passar horas em bibliotecas empoeiradas e 
tribunais de cidadezinhas, chega de arrancar adivinhos e 
feiticeiros medocres de suas tocas pra vender por uma 
mixaria.
        Acho que ele est pronto.  Leesha se levantou e 
sacudiu o p da saia.  Preciso ir, Jack. Alicia Middleton 
no quer ter nada a ver com um suspeito de trfico de 
drogas. Mas vejo voc mais tarde. Prometo.
Ela se olhou no espelho, retocou o batom, empurrou a porta 
e foi embora.
Hansford e Sowicky agarraram um brao cada um e puseram 
Jack em p, de maneira que ele pendia entre os dois, 
impotente.
        Agora vamos sair daqui, rpido e em silncio  disse 
Sowicky.
Sowicky pronunciou um feitio, e Jack sentiu a energia 
voltando a fluir. Jack esperou um segundo, ento baixou a 
cabea e arremeteu contra a barriga de Sowicky. O mago 
caiu de mau jeito, batendo a cabea contra a parede com um 
barulho considervel. Jack se retorceu e pulou alto, 
chutando com o p direito a virilha de Hansford. 
Entretanto, com as mos atadas, Jack no pde controlar a 
queda e bateu forte contra a quina da pia. A Antiweir estava 
funcionando, embotando-lhe os reflexos, pondo-lhe os 
instintos fsicos em desordem.
Algum, provavelmente Sowicky, agarrou-o pelo cabelo, 
forando-lhe a cabea para trs e para dentro da pia. O mago 
abriu a torneira ao mximo. Jack estava se afogando, 
cuspindo e arfando, inspirando gua em vez de ar. Sowicky 
cravou os dedos em seu torso, rasgando-o por dentro com 
seu poder. Quando Jack tentou gritar, apenas engoliu mais 
gua. Ele se contorceu e girou, mas no pde evitar o toque 
do mago.
Depois do que pareceu uma eternidade, eles ergueram-lhe a 
cabea da pia e o atiraram de joelhos no cho. Sowicky 
atingiu-o com fora nas costas, e Jack vomitou gua sobre os 
ladrilhos, tanto pelo nariz quanto pela boca. As mos dos 
magos sob suas axilas o impediam de cair de rosto no cho.
 Incrvel, no , quanto se pode machucar uma pessoa 
sem causar nenhum dano real  disse Hansford com 
suavidade.  Esta  apenas uma demonstrao sem grande 
refinamento, Jack. A gente sabe como fazer voc se 
arrepender de um modo como voc nunca imaginou ser 
possvel. No se meta conosco.
Eles ergueram Jack outra vez. Segurando firme cada brao, 
praticamente carregaram-no para fora do banheiro. Jack 
notou com alguma satisfao que Hansford estava mancando 
feio.
Jack examinou o corredor com os olhos o melhor que pde, 
os olhos ainda escorrendo a gua em que o haviam 
submergido e que ele no conseguia secar. Havia ainda um 
bom nmero de estudantes por ali. O zumbido de conversas 
parou gradualmente quando aqueles que vagabundeavam no 
corredor notaram o trio andando em direo  porta, os dois 
homens arrastando o prisioneiro entre eles, Jack com o 
cabelo pingando e colado  cabea, as mos amarradas s 
costas. As
pessoas no corredor abriram caminho para eles, os 
estudantes recuaram para junto dos armrios de ambos os 
lados como se desejassem se esconder dentro deles. Algum 
disse o nome de Jack em uma voz baixa e assustada. Ele no 
viu quem era.
Ento ele viu Will e Penworthy junto  porta do escritrio. 
Jack se perguntou o que Will estava fazendo ali, se havia 
conseguido achar Hastings, mas no quis lhe perguntar na 
frente dos mercadores. Penworthy estava boquiaberto. Os 
dois magos avistaram o diretor, e Hansford pareceu em 
dvida sobre oferecer-lhe ou no uma explicao. No final, 
ele disse, bem alto para que todos ouvissem:
        Sinto muito. Ele meio que pirou l dentro. Devem ser as 
drogas. Est tudo bem agora.
Will deu um passo na direo deles.
        Jack, o que est acontecendo?  Falava em voz baixa, 
mas tinha os punhos cerrados e parecia prestes a atacar assim 
que a ordem fosse dada.
        No, Will.  Jack sacudiu a cabea, lembrando-se muito 
bem da promessa dos magos no banheiro.  Est tudo bem. 
Vai ficar tudo bem. Eu preciso ir com eles.
Will avanou outro passo, ameaando bloquear-lhes o 
caminho. A porta da rua se abriu, e a me de Jack entrou em 
passos firmes, com tia Linda logo atrs. Jack praguejou 
baixinho. O que elas estavam fazendo ali? Becka olhou de 
Penworthy para a cena de Jack sendo arrastado para fora 
pelos dois magos. A expresso no rosto dela era perigosa. 
Mas foi Linda quem falou.
        Parem a!  ordenou aos mercadores.
Eles se detiveram, encarando-a, como que surpresos demais 
para fazer outra coisa alm de obedecer.
Becka se virou para o diretor.
        Leotis, acho que voc me deve uma explicao.
Leotis Penworthy parecia mais nervoso do que nunca. Ele 
fez um gesto na direo dos dois homens.
        Becka, estes so o senhor Hansford e o senhor Sowicky, 
do departamento de polcia. Eles precisam fazer algumas 
perguntas ao Jack. Pensei que voc fosse se encontrar com 
eles na delegacia.
        Eu no sabia nada a respeito disso at que Will Childers 
me telefonou, 15 minutos atrs.  Jack reconheceu o tom 
de advogada de Becka.  Quero saber o que est 
acontecendo aqui.
O corao de Jack se contraiu. A me nunca seria intimidada 
pela polcia. Ela jamais permitiria que eles o levassem sem 
desafi-los. Becka podia ser uma temvel adversria num 
tribunal, mas no era preo para magos. E Linda estava ao 
lado da irm, tendo o pleno conhecimento do perigo 
estampado em seu rosto, tentando decidir o que fazer. "Por 
favor, meu Deus", rezou Jack. "Isso no." S ele poderia 
impedir aquilo.
Concentrou-se na me.
        Me, me escute. Estes homens no so da polcia.
Ela olhou para Jack, ento desviou o olhar para os dois 
magos. Sowicky segurou o brao de Jack com mais fora, em 
aviso. Becka colocaria de lado quaisquer preocupaes sobre 
a prpria segurana, por isso ele usou o nico argumento 
que sabia que a convenceria.
        Eles vo me matar se voc interferir. Eles podem fazer 
isso num segundo. Minha nica chance  se voc me deixar 
ir com eles. Estou falando srio.
        Jack  sussurrou ela, a voz falhando na nica slaba , 
por favor. Isso tem de ser algum engano. Vocs pegaram a 
pessoa errada. No o machuquem.
Jack percebia o movimento atrs dele, o leve deslocamento 
de corpos que lhe dizia que ainda havia estudantes no 
corredor.
        Por favor, me. Tia Linda. Deixem-me ir. Faam isso por 
mim.
Pousou os olhos em Linda, torcendo para que ela tambm 
permanecesse onde estava. Ela estudava os dois magos, 
medindo-os.
        Levem-me no lugar dele  sugeriu Linda.  Devo valer 
alguma coisa para o Mercado.
S a voz dela j era o bastante para derreter coraes, e agora 
Linda brilhava, como se estivesse iluminada por dentro. Jack 
sentiu uma sbita presso de poder na direo dos dois 
magos. Os mercadores praticamente cambalearam diante 
dessa presso.
Hansford lanou a mo livre na direo de Linda, e ela voou 
de costas, atingindo a parede, com fora. Ela deve ter 
perdido a concentrao com o impacto, pois o efeito do 
feitio se desfez de imediato. Ela ficou l cada, tonta, por 
um momento. 
        Vamos lev-la conosco  pediu Sowicky a Hansford, 
que parecia estar no comando.  A gente troca o menino e 
fica com a encantadora. Ningum precisa ficar sabendo.        
Becka olhou para Sowicky e ento para Linda, franzindo a 
testa.
Hansford sacudiu a cabea.
        No. No quero mais saber de encantadores. Antes que 
voc perceba, ela nos faria cortar a garganta um do outro. J 
vamos ter trabalho suficiente com este aqui. Vamos embora 
antes que ela comece de novo com aquilo.
Os dois homens pareciam nervosos, como se pudessem 
perder o controle a qualquer momento.
        Vamos  disse Jack com urgncia, torcendo para tir-los 
dali antes que mudassem de idia sobre Linda.
        Que bom que resolveu ser razovel  resmungou 
Hansford, empurrando-o na direo das portas da frente.
"Pelo menos at eu chegar ao estacionamento", pensou Jack. 
A idia de ser leiloado para as Rosas o fez estremecer. "Vou 
fazer com que me matem primeiro", prometeu ele para si 
mesmo, em silncio.
Quando atravessaram as portas de sada, o calor e a luz do 
dia de vero atingiram Jack como um golpe fsico, 
desorientando-o por um momento. Algum gritou:
        Abaixe-se, Jack!
Com uma espcie de grito de guerra, ele se livrou dos magos 
e se jogou para trs no asfalto, aterrissando dolorosamente 
sobre os braos amarrados, arranhando as mos no concreto 
spero. No mesmo instante, algo zuniu pelo ar, logo acima 
da cabea dele, algo com cheiro de fogos de artifcio e 
oznio. Algum gritou. Hansford ou Sowicky. Ambos, 
esperava Jack. Ergueu a cabea.
Hansford jazia de bruos no concreto em frente  porta. 
Havia sido cortado quase que pela metade, seu corpo 
contorcido de um jeito incompatvel com algo vivo. Sangue 
se espalhava em uma poa ao redor dele. Sowicky estava em 
p ao lado dele, pernas afastadas, olhando para todos os lados 
em busca da fonte do ataque. O mercador moveu o brao 
em um arco horizontal, lanando chamas em todas as 
direes, murmurando feitios em desespero. Ele se curvou 
de leve, tentando alcanar Jack onde este jazia no cho, 
agarrando-o pela frente da camisa, tentando coloc-lo em p 
e us-lo como escudo.
Ento houve uma forte rajada, uma exploso snica, que 
deixou os ouvidos de Jack zumbindo. Sowicky levantou vo, 
braos e pernas esticados, levando a frente da camisa de Jack 
com ele. Colidiu com um carro a meio caminho do lado 
oposto do estacionamento com um rudo pavoroso. Sowicky 
caiu imvel sobre o cap do carro.
Leander Hastings passou por Jack e cutucou Hansford com o 
p. Jack no tinha dvidas de que Hansford estava morto, e 
era difcil de acreditar que Sowicky pudesse ter sobrevivido 
quela aterrissagem tambm. Hastings se ajoelhou ao lado de 
Jack. 
        Voc est bem?        
O rosto de Hastings estava sombrio, feroz.        
        Estou bem  disse Jack, rouco.
Jack rolou para o lado. Agora estava de frente para o mago 
morto, sangue e carne espalhados pelo cho.
        timo. No temos muito tempo.
Hastings passou os olhos rapidamente pelo estacionamento, 
depois estendeu as mos sobre o mago aos seus ps. 
Murmurou algumas palavras, e a energia jorrou-lhe dos 
dedos. O corpo tremeluziu e pareceu se desfazer diante dos 
olhos de Jack, dissolvendo-se e infiltrando-se no asfalto. Jack 
fechou os olhos, tremendo. Aps um instante, ouviu 
Hastings se afastar dele para cuidar do outro mercador.
Jack queria ficar onde estava, mas usou as mos esfoladas e 
feridas para se sentar. No havia sinal de Hansford, 
nenhuma mancha de sangue no asfalto. Era como se ele 
houvesse sonhado tudo aquilo. Com esforo, ps-se em p. 
Os limites do estacionamento tinham a aparncia 
enfumaada que indicava uma muralha mgica. O mundo 
alm dela era indistinto. Hastings estava voltando para junto 
dele, tendo se desfeito do outro corpo.
        O que... que voc fez com eles?  gaguejou Jack.
        Esto 15 metros abaixo da superfcie. Isso deve ser fundo 
o bastante.  Ele era duro, frio, implacvel, assustador, mas, 
quando se voltou para Jack, a expresso em seu rosto se 
suavizou.
Hastings segurou-lhe os cotovelos com cuidado e virou-o. 
Fechou as mos sobre as algemas nos pulsos de Jack. Jack 
sentiu uma pulsao de energia no antebrao, e suas mos 
estavam livres. Moveu os ombros em crculos, gemendo de 
dor. Hastings pousou as mos sobre eles; o poder infiltrou-se 
at os msculos, e a dor diminuiu. Jack ouviu a voz do mago 
atrs dele, inesperadamente gentil.
        Est tudo bem, Jack. Voc est a salvo por ora.
Por alguma razo, o gesto trouxe lgrimas aos olhos de Jack, 
e ele se viu tremendo. As mos permaneceram, acalmando-
o.
        Leesha Middleton ainda est l, acho. Ela trabalha pra 
doutora Longbranch. S que  mercadora. Ela sabe quem 
voc .  Jack sabia que estava falando de modo 
descontrolado, mas no conseguia evitar.
        Est tudo bem. Ela provavelmente j se foi. Vou ser a 
menor das preocupaes dela quando a Jessamine descobrir 
o que ela andava tramando.
Jack se deu conta de que estava ouvindo um som de 
pancadas repetidas, como algum batendo nas portas duplas 
da escola por dentro. Jack se virou para encarar Hastings e 
viu um sorriso cruzar de leve o rosto do mago.
        Pensei que voc nunca ia sair de l. Eu no queria 
comear nada l dentro, com todas aquelas pessoas.  
Hastings gesticulou em direo s portas.  Eu pus uma 
barreira, para impedir que eles se metessem. Suponho que 
eu os deva deixar sair antes que a polcia chegue. Est pronto 
para lidar com eles?
Quando Jack assentiu, Hastings disse:
 Apenas finja que est em choque e deixe que eu dou as 
explicaes. As pessoas no vo esperar coerncia de voc 
nesse momento, de qualquer jeito.
De algum lugar no muito distante, Jack ouviu o som de 
sirenes.
Hastings desfez a muralha mgica e, de repente, as sirenes 
soaram muito mais alto. Ele fez um gesto em direo ao 
prdio da escola, pronunciou um feitio. As portas duplas se 
escancararam, e Will Childers veio voando por elas, 
obviamente surpreso quando elas cederam de sbito sob seu 
ombro. Por pouco no caiu de cara no cho. Becka e Linda 
vinham logo atrs dele.
Becka soltou um grito quando viu Jack. Ajudou-o a subir os 
degraus da entrada e fez com que se sentasse. Ela e Linda 
sentaram-se uma de cada lado dele, cada uma segurando 
uma de suas mos ensangentadas, sujando assim as prprias 
roupas, mas sem parecer se importar.
Hastings ficou na calada, fitando Linda. Ela ficava olhando 
para ele e depois desviando o olhar para longe quando ele a 
flagrava, em uma espcie de luta de esgrima, ataque e defesa, 
entre eles. Jack se lembrou do que Nick dissera. "Eles no se 
vem h anos."
Fitch aparecera do nada. Ele e Will ficaram de lado, sem 
dizer nada, ainda alertas, esperando que algum lhes desse 
alguma explicao.
Trs carros da polcia entraram cantando pneu no 
estacionamento. Policiais uniformizados saram dos carros, 
de armas em punho.
        Eles foram por ali  disse Hastings, apontando para as 
quadras de esporte nos fundos da escola.
        Dois homens vestindo jeans e blusas de abrigo. Um loiro 
e o outro moreno. Podem estar armados.
Mais carros da polcia chegaram, e policiais passaram por 
eles, espalhando-se como um enxame pela quadra esportiva 
e avanando para a vizinhana. Uma multido de curiosos 
crescia, estudantes e professores que haviam deixado a 
escola, alm daqueles que chegavam para as provas da tarde. 
Dois policiais reuniram todos no estacionamento dos 
professores, atrs de uma barreira de fita amarela. "Todos os 
policiais de Trinity devem estar aqui", pensou Jack. A fora 
policial simplesmente no era to grande assim. Ele deixou 
Becka e Linda cuidarem dele, evitando contato visual com 
todos.
        Voc est bem, Jack?
Jack levantou a cabea e viu um homem corpulento de 
cabelos cor de areia e bigode. Era o tio de Will, Ross 
Childers.
        S arranhado. E esfolado, acho.
        Gostaria de lhe fazer algumas perguntas que possam nos 
ajudar a pegar esses caras. E voc vai ter de ser examinado. 
 Ele olhou de relance para Becka. Ela pousou a mo no 
ombro de Jack, como para proteg-lo.
        Voc conhecia aqueles homens, Jack?
Ele sacudiu a cabea.
        Nunca os vi antes.  "Verdade".
        Algum motivo por que algum ia querer pegar voc? 
Voc se meteu em algum tipo de encrenca?
Ele sacudiu a cabea de novo. "Mentira."
        Becka? Voc recebeu alguma herana ou coisa assim? 
Fez novos inimigos no tribunal?
Ela pensou a respeito antes de responder:
        Nenhuma herana. Ningum em particular me vem  
cabea.
        Como foi que voc escapou, filho?  perguntou ele.
Algum falou por cima do ombro de Jack, respondendo  
pergunta por ele. Era Hastings.
        Will Childers me disse que estava havendo um problema 
no escritrio. Vim at o corredor e vi o que estava 
acontecendo. Ento sa pela porta lateral e dei a volta pela 
frente, na esperana de surpreend-los quando sassem, e foi 
o que eu fiz. Jack conseguiu escapar na confuso, e eles 
fugiram.  "Tudo verdade, a no ser por aquela ltima 
parte".
        Foi isso mesmo, Will?  Ross fixou os olhos cinzentos 
no sobrinho.
Will concordou, com um gesto de cabea, olhando de 
relance para Hastings.
Becka levantou-se e abraou Hastings.
        Senhor Hastings, no tenho palavras para expressar 
minha gratido  disse ela.  Se no fosse pelo senhor, no 
sei o que teria acontecido.
Linda sorriu hesitantemente para Hastings e estendeu-lhe a 
mo.
        Obrigada, Lee.
Ele tomou-lhe a mo, encarando-a. Era como assistir a uma 
tempestade eltrica em pequena escala entre duas pessoas.

Nos dias que se seguiram, uma verso da histria foi 
divulgada. Os seqestradores haviam abandonado no 
estacionamento da escola uma van que havia sido roubada 
naquela tarde em um shopping center em Cleveland. Houve 
uma srie de encontros acalorados entre Becka, a polcia e 
Penworthy. Por que o diretor no exigira melhores 
identificaes dos policiais falsos? Por que no telefonara a 
Becka quando surgira a questo de vistoriar o armrio de 
Jack? Penworthy no conseguia explicar nada disso. Jack 
chegou a ficar com pena do homem. Fossem quais fossem os 
seus defeitos, o diretor no tinha defesa contra magia.
Leesha Middleton nunca voltou  escola. Houve alguma 
preocupao de que ela pudesse ter se envolvido com os 
seqestradores, mas ento se soube que os pais dela a haviam 
transferido para uma escola particular em Boston, onde 
ficaria mais segura.
A polcia continuou interrogando Jack, que se aferrou  sua 
verso da histria, mas tinha conscincia de que, na opinio 
do tio de Will, algumas coisas no se encaixavam. A 
advogada Becka acompanhava aquelas sesses de pergunta e 
resposta e, de vez em quando, passava o brao ao redor de 
Jack e murmurava:
 Ele  a vtima aqui, Ross, lembra? De sua parte, Jack 
gostaria de ter a habilidade de Hastings de se desviar de 
perguntas. 
A tia de Jack tambm era hbil em esconder o jogo.        
Cada testemunha lembrava a oferta de Linda, de ser trocada 
por Jack, de um jeito diferente. Algum at se lembrava de 
ela ter mencionado o Mercado, e de os seqestradores 
falarem algo sobre "encantadores", mas ela encarou Ross 
com um ar perplexo quando ele mencionou o assunto.
 Ross, como  que eu posso saber do que eles estavam 
falando? Nem fao idia do que eu disse. Eu s estava 
tentando convencer os caras a soltarem o Jack.
A histria criou um certo estardalhao na mdia local e at 
apareceu em algumas reportagens nacionais. Equipes de 
vdeo de emissoras de Cleveland acamparam em frente  
casa deles por alguns dias, mas por algum motivo nenhuma 
das cenas que filmaram foi transmitida. Linda persuadiu 
Becka e Jack a se mostrarem rigorosamente inacessveis aos 
reprteres, na esperana de que a histria morresse logo. 
Seria um desastre se a notcia do ataque chegasse a Jessamine 
Longbranch.
Jack acabou conseguindo fazer todas as provas da semana. 
Todos os dias Hastings ou Nick o levavam de carro para a 
escola, esperavam no corredor fora da sala de exame e 
depois o traziam de volta para casa. Will, Fitch e Ellen iam  
casa de Jack quase todas as noites para estudar. Havia sempre 
um mago ao alcance de seus olhos.
Jack se sentia numa priso. Ele sempre andara livremente 
por toda a cidade de bicicleta ou a p, e, mais recentemente, 
de carro. Agora no podia se mover sem uma escolta. Todo 
o tempo sabendo que, se a Rosa Vermelha no conseguisse 
captur-lo, iria atrs das pessoas a quem amava.
Will, Fitch e Ellen eram os nicos amigos que Jack queria 
ver, os nicos que no lhe faziam centenas de perguntas, 
que no tinham planos secretos. Mas ele sabia que, passando 
tempo com eles, colocava a vida deles em perigo.
Era impossvel conseguir um momento a ss com Ellen. 
Aqueles eram provavelmente os ltimos momentos que 
teriam juntos, e o tempo se esgotava.
As lies de Jack com Hastings foram suspensas; assim Jack 
pde passar horas com Nick afiando suas habilidades como 
mago. Ele ficara perturbado com a facilidade com que os 
mercadores o haviam imobilizado. Agora se concentrava em 
defesas contra feitios.
 A chave para a defesa contra a magia  ficar alerta  
aconselhou-o Nick.  O feitio falado  como qualquer 
outra arma. Uma adaga, por exemplo. Se o seu inimigo pegar 
voc desprevenido, ele pode enfiar a adaga entre as suas 
costelas antes que voc tenha tempo de reagir. Se um mago 
lana um feitio, voc precisa pronunciar o contra-feitio 
antes que o dele faa efeito. Se no conseguir, precisa 
interromper o feitio. Caso contrrio, voc talvez no tenha 
outra chance. Felizmente,  muito mais fcil bloquear um 
feitio do que lanar um.
Isso era uma boa notcia para Jack, cujos poderes como 
mago eram limitados. Ele passou horas revisando feitios e 
contra-feitios.
Na noite do ltimo dia de provas, Jack estava deitado na 
cama lendo fico cientfica, tentando se distrair, feliz por 
haver terminado os estudos naquele dia, quando escutou 
uma leve batida na porta de seu quarto.        
Era Becka.
        Posso falar com voc um minuto?
Quando ele fez que sim com a cabea, ela entrou e se sentou 
ao lado dele na cama.
        Jack, eu estava pensando...  Ela retorceu as mos no 
colo, girando no dedo o anel de opala que pertencera  av 
dela.  Tem alguma coisa sobre a qual voc gostaria de 
conversar?
Jack ps o dedo no livro para marcar onde interrompera a 
leitura e se sentou mais ereto.
        Como assim?
         que... voc parece diferente. Como se estivesse tenso. 
Voc sempre foi... temperamental, mas ultimamente perde a 
cabea por coisas que antes no costumavam aborrecer 
voc. De repente, voc comeou a fazer exerccios o tempo 
todo.  Ela estendeu a mos e tocou-lhe gentilmente o 
bceps.  No que haja algo de errado nisso, mas voc 
nunca se interessou por fisiculturismo antes...  A voz dela 
sumiu.  E... agora isso que aconteceu na escola.
Ela engoliu em seco.
        Eu sei que seu pai e eu sempre estivemos ocupados com 
mil coisas, mas voc nunca foi de criar problemas. Voc 
parecia estar bem, apesar do divrcio. Mas agora...
        Qual , me?  disse Jack, sentindo-se desconfortvel. 
 Vocs no me abandonaram ou coisa assim.
        Eu sei que tenho uma... personalidade forte.  Becka 
olhou-o de esguelha.  Mas quero que saiba que voc pode 
me contar qualquer coisa.
        Est bem  disse Jack com cautela.  Qualquer coisa. 
Vou me lembrar disso.
        Ento, tem alguma coisa que gostaria de me contar?  
Becka ergueu os olhos das prprias mos para Jack.
Jack suspirou, pois estava preso a uma mentira gigantesca 
que no podia largar. Nunca poderia largar. Iniciou com uma 
verdade.
        Eu amo voc, me  E terminou com uma mentira.  
Tenho certeza de que tudo est bem agora.
Algum instinto a impedia de se convencer. O olhar que ela 
lhe dirigiu dizia isso.
        Sabe, Jack, estou com medo. Quase perdi voc quando 
voc era beb. Isso teria partido o meu corao, porque eu 
ficaria sempre imaginando como voc seria ao crescer. 
Mas... se eu perdesse voc agora, seria muito pior. Porque 
agora eu sei como voc  especial para mim.
Ela sorriu com tristeza, beijou-o e saiu do quarto.
Linda comeava a concordar com Jack: ir para a Inglaterra 
no seria muito mais arriscado do que ficar em Trinity. 
Embora fosse do conhecimento de todos que eles iriam, 
Linda no queria que ningum soubesse exatamente quando 
ou como. A tentativa de seqestro foi uma bno 
disfarada, pois permitiu que ela convencesse Becka a 
concordar com seus planos. Eles finalmente decidiram que a 
partida seria uma semana antes do que fora marcado, e que 
partiriam do aeroporto de Pittsburgh em vez do de 
Cleveland.
A Sociedade Chauceriana tambm se preparava para sua 
viagem ao exterior. Dez membros iriam, com os pais de Will 
como responsveis. Fitch andava ocupado tirando livros da 
biblioteca e fazendo buscas on-line, estudando todos os 
aspectos da histria e da cultura britnicas. O entusiasmo 
dele era contagioso. At Jack foi ficando mais entusiasmado 
com os planos de vero.
Hastings e Linda se encontraram vrias vezes naquele 
perodo, quando o professor de Jack o buscava em casa ou o 
trazia da escola, ou passava para uma visita. Eram sempre 
polidos e corteses um com o outro, mas Jack sentia uma 
carga de energia no ar quando estavam juntos, como um 
aquecedor ligado em um dia abafado. Hastings parecia pouco 
confiante, o que no lhe era caracterstico. Jack s vezes 
notava-o em p, observando-a intensamente, a mo 
segurando o antebrao oposto, como que tentando 
solucionar um problema.
Quando chegou a hora de Jack fazer as malas para a viagem, 
no conseguiu se convencer a deixar a Sombra Assassina 
para trs. Ps a espada no estojo, que guardou dentro de uma 
grande mala de mo, lanando um feitio simples sobre ela 
para que ningum mais pudesse abri-la. Jack comeava a ver 
como seus dons lhe poderiam facilitar as coisas, 
especialmente em se tratando de lidar com os Anaweirs.
Ao arrumar suas outras armas mgicas, Jack lembrou-se de 
que no havia olhado no espelho de Blaise desde a noite que 
Nick o devolvera a ele. Tirou o invlucro de couro e 
revirou-o nas mos. Enfim, espiou dentro do vidro 
nebuloso.
A imagem clareou, revelando a nave de uma igreja 
medieval. Velas derretiam nos cantos, pouco eficazes contra 
a escurido. Um corpo jazia em um colcho rstico no cho, 
coberto por um cobertor spero. Estava cercado por uma 
guarda solene de guerreiros. Duas mulheres se ajoelhavam 
junto ao corpo, as cabeas baixas, rezando; suas vozes suaves 
eram o nico som em meio ao silncio. Demnios 
espreitavam nas sombras, circundando o esquife, avanando 
e recuando. A orao das mulheres mantinha-os a distncia.
Jack apertou os olhos, tentando ver quem eram as pessoas. A 
cena com certeza era do passado. Entretanto, as mulheres 
pareciam estar vestindo roupas modernas. A imagem se 
desfez, substituda pelo reflexo do rosto de Jack.
"Obscuro como sempre", pensou Jack. Totalmente intil. 
Ainda assim, ele enfiou o espelho de Blaise dentro da mala 
de mo. Toda ajuda era bem-vinda.
Nick ficaria mais duas semanas para fazer parecer que a casa 
estava ocupada, ento se juntaria a eles em Oxford. O velho 
zelador no parecia muito entusiasmado com a idia de 
visitar a Inglaterra.
        L  muito barulhento  explicou o mago a Jack.  Vai 
ver o que quero dizer quando chegar l. Alm disso, a 
comida  ruim. Os ingleses nunca aprenderam a arte da 
sobremesa.
        Queria que fosse conosco  admitiu Jack.  Mais do 
que nunca, preciso de algum para zelar por mim.
        Apenas se lembre de quem voc , Jack  disse o velho. 
 O mundo vai tentar transformar voc em outra pessoa. 
No deixe. E o melhor conselho que qualquer um pode dar a 
voc.
Jack no contou sobre a mudana de planos a ningum, nem 
mesmo a Will, Fitch ou Ellen. Mas ele os convidou para 
jantar na noite anterior  verdadeira partida. Todas as malas 
estavam feitas e escondidas, tudo pronto para a manh 
seguinte. Eles comeram do lado de fora, na varanda. Tia 
Linda manteve todos rindo com suas imitaes satricas de 
vrias personalidades de Trinity. Normalmente, Becka 
tentava conter a irm irreverente, mas naquela noite ela riu 
com todos os outros. Nicodemus Snowbeard contou uma 
histria muito antiga e romntica sobre reis e rainhas, mal-
entendidos e amor no correspondido. O heri Leander 
Hastings estava l como convidado especial, e ele e Becka 
entraram numa acalorada discusso sobre arte medieval que 
fez os outros lhes implorarem por uma trgua.
        Est bem  disse Becka, inclinando o queixo e erguendo 
o copo.  Desisto, mas no concedo. Gostaria de propor um 
brinde a Will Childers, Harmon Fitch e Leander Hastings, 
todos bravos homens, que ajudaram a salvar a vida do meu 
filho.
Hastings ergueu o copo, sorriu para Becka, e uma certa 
suspeita insinuou-se nas margens da conscincia de Jack.
        Talvez nos encontremos na Inglaterra, ento  disse o 
mago.
Ao anoitecer, Snowbeard acendeu os lampies no corrimo 
da varanda, e os vaga-lumes reluziram nas sombras sob as 
rvores.
Parecia haver um pouco de magia em todos naquela noite. O 
ar estava impregnado dela. Jack se recostou numa cadeira de 
vime contra a casa, calado e alerta a tudo aquilo. Linda e 
Hastings sentaram-se juntos no balano, a uma pequena 
distncia, e conversavam. Will e Fitch jogavam uma bola de 
um para o outro no quintal, a esfera branca quase invisvel 
na luz que diminua. Jack teve a sensao melanclica de 
que algo importante estava mudando ou morrendo, que eles 
talvez nunca ficassem juntos de novo daquele jeito.
Ellen estava sentada na cadeira em frente  dele. Vestia uma 
longa saia volumosa e um suter branco sem mangas. Jack 
no se lembrava de t-la visto com outras roupas alm de 
calas antes. Desde que o tempo ficara mais quente, a pele 
dela ganhara uma rica cor dourada por conta do trabalho no 
jardim. Jardinagem parecia fazer bem a ela, pois ela parecia 
muito... em forma, pensou Jack.
        Eu gosto da sua me  disse Ellen, em tom melanclico. 
Jack olhou de relance para onde Becka estava agora, 
mergulhada numa conversa com Hastings e Linda.        
        Ela  bem intensa s vezes  disse ele.
        , sim  disse Ellen. Ela nunca exigia longas         
explicaes. Ela balanou as pernas, os dedos nus dos ps 
aparecendo sob a saia.  Esta cidade  legal.  Ela olhou 
para a rua Jefferson, onde as lmpadas a gs comeavam a 
brilhar. O som das crianas brincando vinha de longe no ar 
suave.  Queria que voc no fosse para a Inglaterra.
        , eu sei.  Jack fitou a rua. Ellen estava de partida para 
o Wisconsin no dia seguinte e provavelmente no voltaria 
no outono.  Voc tambm vai embora, e nem sei se voc 
vai voltar.
        Pois   disse ela.
Becka se aproximou.
        Quer mais alguma coisa pra beber, Ellen?
        No.  Ellen se levantou.  Preciso ir. Ainda tenho de 
acabar de arrumar as malas. Obrigada por me convidar, 
senhora Downey. O jantar estava timo. Espero que tenha 
um vero maravilhoso.
Jack desceu os degraus com ela at as sombras ao lado da 
varanda.
Ellen tomou as mos dele nas dela.
        Adeus, Jack. Tome cuidado.
Ela o soltou, mas Jack segurou-lhe o pulso e puxou-a para si. 
Trazendo-a para perto, inclinou-lhe o rosto para cima e a 
beijou. O primeiro beijo de verdade entre eles e, como ele 
no queria que fosse o ltimo, beijou-a de novo, sem pressa, 
perguntando-se por que havia esperado tanto tempo. 
Quando finalmente se separaram, Ellen permaneceu no 
lugar, os olhos fechados, o rosto voltado para cima. Como se 
quisesse prolongar o beijo tambm.
Pousando a testa contra a dela, ele disse:
 Tchau, Ellen. Mando um e-mail pra voc quando chegar 
l.
Ela engoliu em seco e se virou. Jack ficou observando 
enquanto ela atravessava o gramado, o suter branco plido 
contra a escurido, at que ela dobrou a esquina. 

Captulo Doze
A Visita  Doutora Longbranch

Linda havia reservado quartos para ela mesma, Jack e Becka 
em um hotel pequeno e elegante em Thurloe Place, junto ao 
Museu Vitria e Alberto e aos Kensington Gardens. O 
quarto de Jack era iluminado, arejado e dava para um jardim. 
Ele escancarou as portas do jardim e respirou fundo. Rosas. 
Empurrou a bolsa com a espada para baixo da cama, ps 
feitios de proteo em torno do quarto e caiu, exausto, na 
cama.
Desde o momento em que o avio pousara, Jack se sentira 
dominado por uma sensao de estar de volta ao lar, apesar 
de nunca ter estado na Inglaterra. As placas de rua, passando 
pelos nibus e os gramados, at a arquitetura, tudo lhe 
parecia incrivelmente familiar. O que era mais 
desconcertante era o murmrio constante, uma cacofonia de 
vozes de Weirlinds mortos havia muito tempo. Estavam em 
todos os lugares, chamando dos cemitrios de igrejas, dos 
jardins e dos edifcios antigos.
        Bem-vindo, guerreiro  sussurravam elas.
Jack comeava a entender o que Nick quisera dizer com 
barulho. No se sentia como se houvesse entrado na cidade 
despercebido.
Aps desfazerem as malas, ele e Becka almoaram no 
restaurante do hotel. Linda tinha outros negcios a resolver, 
pelo que dissera. Embora tivessem viajado a noite toda, 
Becka estava cheia de planos.
        A Harrods  logo aqui, subindo a rua; temos de ir l. 
Podemos ir a p at o Palcio de Kensington, ver os jardins e 
o lago Serpentine, e caminhar pela Rotten Row.  Ela 
sacudiu o garfo no ar.  Amanh vamos at o Palcio de 
Buckingham de manh, e quem sabe ver a Torre de tarde.  
Ela abriu um sorriso travesso.  Acho que voc vai gostar.
        Parece timo, me.  Depois de tudo o que havia 
acontecido, Jack estava verdadeiramente ansioso por se fazer 
de turista.
Ele e Becka passearam por Kensington e Knightsbridge 
naquela tarde, e todos os trs passaram o dia seguinte vendo 
a Londres para turistas: o Palcio de Buckingham e o Big 
Ben, Trafalgar Square e a Torre.
Jack achou a Abadia de Westminster cansativa, e no foi por 
ainda estar no fuso horrio de Ohio. Eles comearam o 
passeio no tmulo de Eduardo, o Confessor. Um clrigo de 
expresso carrancuda fazia um longo e tedioso discurso 
sobre a histria da igreja, enquanto guerreiros fantasmas 
flutuavam sobre seus ombros e sua cabea, gesticulando 
nervosamente para Jack. Suas vozes ecoavam nas pedras 
como um coro desafinado.        
Eles o seguiram atravs da Capela  Virgem Maria, onde 
estavam enterradas trs grandes adversrias da poca dos 
Tudors: Elisabeth I, Maria Tudor e Maria I da Esccia. 
PARCEIRAS TANTO NO TRONO QUANTO NO 
TMULO, AQUI JAZEMOS, DUAS IRMS, ELISABETH        E 
MARIA, NA ESPERANA DA RESURREIO.        
Jack parou junto aos tmulos de Henrique VII e         Isabel 
de York. O casamento deles havia posto fim  Guerra das 
Rosas. Oficialmente, pelo menos. Ali os Weirlinds estavam 
quase frenticos. Um soldado fantasma magrrimo segurou 
Jack pelo brao. Sua carne cinzenta era quase translcida. 
Um grande corte embaixo do queixo se estendia de orelha a 
orelha.
        Cuidado, guerreiro!  proferiu ele, lembrando o 
fantasma de Csar.  Cuidado com a Ravina!
Jack deixou Becka e Linda seguirem um pouco  frente, 
ento virou-se e sussurrou:
        Quer me deixar em paz?
        Cuidado, guerreiro!  repetiu o fantasma.  Eles 
pregaro uma rosa em teu peito, a Branca de York ou a 
Vermelha de Lancaster, e enviar-te-o ao matadouro!
        Olha, no tenho inteno nenhuma de lutar com 
ningum  retorquiu Jack, ento tapou a boca. Um casal 
obeso, de bermudas e regatas combinando, o encarava. Um 
deles levantou uma cmera digital e tirou uma foto.
        Jack, voc vem?  Becka estava em p junto  entrada 
da Capela  Virgem Maria, batendo o p com impacincia. 
 Voc est to distrado hoje!?
        Desculpe.  Jack seguiu-a at a frente do santurio.  
Depois do almoo, ser que a gente poderia ir a algum lugar 
onde no tenha tantos fantasmas?
        Cuidado!  disse o fantasma quando Jack se afastou. Se 
tivesse uma corrente, ele a teria arrastado.
Durante os dias seguintes, eles mergulharam em Londres. 
Foram ao teatro, comeram em pubs e restaurantes indianos e 
pegaram o trem at Kew Gardens. Havia uma excurso de 
um dia inteiro at Bath, a Catedral de Salisbury e 
Stonehenge. Stonehenge foi outro daqueles lugares que 
tinham muito a dizer a Jack...
Jack queria comprar um presente para Ellen, uma camisa de 
um clube de futebol ingls. Do Manchester United ou do 
Chelsea? Comprou as duas. Levou uma hora para se decidir 
sobre o que escrever num carto postal. Escreveu: "Espero 
que esteja se divertindo!" e depois riscou. Enfim, fez uma 
lista de lugares que tinha visto e terminou dizendo: "Sinto 
saudades. Queria que voc estivesse aqui". Enviou o postal 
para o endereo dela em Trinity, torcendo para que os pais 
dela o encaminhassem a ela. Mandou-lhe um e-mail a partir 
de um cibercaf, mas no obteve resposta.
Becka havia marcado uma consulta para Jack com Jessamine 
Longbranch no ltimo dia deles em Londres. Tanto Linda 
como Jack estavam tentando no pensar a respeito, mas a 
data chegou rapidamente mesmo assim. Na noite anterior  
consulta, eles jantaram em um restaurante tailands em 
Knightsbridge. Perdidos em pensamentos, Linda e Jack 
falaram pouco. Finalmente, durante a sobremesa, Linda 
convenceu Becka a visitar a Galeria William Morris 
enquanto levaria Jack  consulta. Foi feitiaria, pura e 
simplesmente. Mas ambos se sentiram melhor com Becka 
fora de perigo.        
Na manh seguinte, Jack e Linda tomaram o metr at St. 
James Park. O consultrio de Longbranch era em 
Westminster, junto  Praa do Parlamento. Por todo o 
caminho, Linda se mostrou insegura a respeito de sua 
deciso de manter a consulta, mesmo depois de eles terem 
sado do trem e deixado para trs o ar viciado da estao do 
metr. Linda tinha certeza de que a doutora Longbranch 
contataria Becka para remarcar a consulta se eles no 
aparecessem. Na prxima vez, Becka e Jack poderiam estar 
sozinhos.
O prdio era antigo, e o elevador era apenas um pouco mais 
recente, mas o consultrio da doutora Longbranch era 
mobiliado com elegncia, com tecidos caros e peas de 
antiqurio. A recepcionista ofereceu-lhes ch, que eles 
recusaram. Eram os nicos na sala de espera. Logo, uma 
enfermeira os guiou at uma sala de exame. Esta, na verdade, 
parecia mais um escritrio, no tendo a aparncia mdica e 
fria das clnicas norte-americanas com as quais estava 
acostumado. A enfermeira o fez tirar os sapatos para pes-lo; 
a seguir, pediu-lhe que tirasse a camisa e se sentasse sobre a 
mesa de exame. Jack tirou a camisa e o colete e depositou-os 
a seu lado sobre a mesa.
Ele baixou os olhos para dar uma espiada em si mesmo. A 
cicatriz cirrgica em forma de estrela brilhava de leve sobre 
o peito. Deu-se conta de que deveria estar bem plido. O 
peito no vira a luz do sol por todo o vero. Linda pareceu 
ainda mais indecisa, vendo as mudanas nele, os msculos 
que se destacavam nos braos e no peito. Ela andava de um 
lado para o outro, nervosa.
Finalmente, Jessamine Longbranch irrompeu na sala. 
Trajava calas de seda e um suter elegante, um jaleco 
branco limpssimo por cima, aquele estetoscpio incomum 
pendurado ao redor do pescoo. Carregava uma pasta  o 
pronturio dele, Jack supunha. Jack ficou impressionado 
pelo fato de ela no parecer nem um pouco mais velha, mas 
ento se lembrou de que os magos no demonstram o 
avano da idade como outras pessoas.
Ela parou diante de Jack e o olhou de cima a baixo, 
segurando a pasta junto ao peito.
- Ora, ora, Jackson  disse ela, pronunciando lentamente o 
nome dele.  Creio que voc cresceu.  Algo no jeito como 
ela falou fez com que ele se sentisse ainda mais tmido do 
que antes. Ela olhou de relance para Linda.  A Becka no 
pde vir? Que pena!
Ela continuou falando enquanto examinava, os dedos 
emanando poder, transmitindo-lhe minsculos choques 
eltricos ao tocar a pele dele. Ele recuou e cerrou os dentes.
- Vamos l, no fique tenso, Jack. Assim est melhor. Essa  
sua primeira viagem a Londres? Espero que sua me e sua tia 
estejam lhe mostrando a cidade.
Jack assentiu, ento ofegou quando ela correu as mos 
quentes pelos msculos de suas costas.        
        Ahn... vimos um bocado de coisas em pouco tempo  
ele conseguiu dizer.  Estou me divertindo bastante.  Ele 
no se lembrava de suas sesses anteriores com Longbranch 
serem assim to fsicas.        
        E devia mesmo  disse a mdica.  Terra         dos seus 
ancestrais, no  isso? Voc j foi  Torre?
Realmente excitante. Todas aquelas histrias sobre tortura e 
assassinato.
A doutora Longbranch mantinha a conversa em andamento, 
fazendo perguntas sobre a estadia deles em Londres 
enquanto examinava a presso sangnea de Jack e apertava 
aquele estranho estetoscpio contra o peito dele. Ela o fez 
descer da mesa e andar de um lado a outro da sala enquanto 
o observava, de braos cruzados. O exame levou mais tempo 
do que de costume, mas Jack disse a si mesmo que era 
porque ele tinha vindo de to longe para v-la. Ela jamais 
demonstrara tanto interesse nele antes. Enfim, a mdica deu 
um passo atrs e o aprovou de cima a baixo.
        Voc est em tima forma, Jack. Diga, quando parou de 
tomar o remdio?
A pergunta pegou Jack de surpresa, como uma facada rpida 
sob as costelas, como Nick diria. Ele levou um momento 
para responder.
        No sei do que a senhora est falando  gaguejou ele.
        Jack e Becka sempre foram bons em seguir instrues, 
Jessamine  disse Linda. O rosto dela havia perdido toda a 
cor.
         mesmo, Linda? Eu estava pensando que o Jack aqui 
parece que gosta de quebrar as regras. J ouviu falar da Rosa 
Branca?
Uma outra facada rpida, mas dessa vez Jack estava mais 
preparado. Pensou por um momento e disse:
        No era um emblema de batalha na Guerra das Rosas? 
York carregava uma rosa branca; Lancaster, a vermelha.
        Muito bom!  Ela se moveu para o lado da mesa de 
exame e correu as pontas dos dedos de leve pelo ombro 
dele. Ele se retesou quando a corrente passou atravs dele. 
Ela no parecia estar fazendo qualquer esforo para atenuar 
os efeitos.  Voc andou estudando histria. H muita 
histria nesta parte do mundo. Muito mais do que a maioria 
das pessoas imagina. E a sua famlia sempre esteve no centro 
de tudo, sabia disso?  Agora ela estava acariciando-o, 
afagando-o como a um cachorro.  Acho que  hora de 
voc se familiarizar com ela. Conheo algumas pessoas que 
podem ensin-lo.
A mudana na voz dela o alertou, e, quando o feitio veio, 
ele estava preparado. Ela o pronunciou rapidamente, 
apertando a nuca de Jack com os dedos, um simples feitio 
de imobilizao. Ele murmurou o contra-feitio baixinho 
antes que ela pudesse complet-lo. Ento ficou quieto, 
tentando parecer to imvel quanto possvel. Ele no tinha 
de fingir estar assustado.?
        Jessamine, que diabos voc est fazendo?  A voz de 
Linda era severa.
        Devo lhe dizer que isto  uma surpresa maravilhosa  
disse Jessamine.  Pensei que levaria meses para que ele 
ficasse em condies de lutar, e agora descubro que voc fez 
isso por mim.        
        Escute  disse Linda com urgncia, persuasivamente.  
No sei o que est pensando, mas ele  s um menino. A 
nica razo pela qual ele est vivo hoje  porque esteve 
escondido. Assim que a Rosa Vermelha souber dele, ele vai 
ser um alvo.        
Jessamine deu risada.
        Ele no me parece um menino. Cresceu 15 centmetros 
e ganhou 20 quilos desde o meu ltimo exame, e  tudo 
msculo. Ele  de tirar o flego.  A voz dela endureceu. 
 Voc se lembra do nosso acordo, no ?  hora de 
desistir dele, Linda. Temos de comear o treinamento. No 
temos mesmo outra escolha. Eu teria de ir busc-lo em 
Trinity, se voc no o tivesse trazido a mim. A Rosa 
Vermelha convocou um torneio para o solstcio de vero.  
Ela fez uma pausa.  Parece que vo apresentar um 
campeo.
        Isso  impossvel!  exclamou Linda.  Como eles 
conseguiram isso? Voc teria sabido disso antes.
        Estamos trabalhando na localizao e eliminao do 
jogador deles  disse a doutora Longbranch com frieza.  
Mas no podemos excluir a possibilidade de fracasso. Se no 
pudermos responder ao desafio, teremos de nos render. E 
isso no vai acontecer.  Ela sorriu.  Se tivermos sucesso 
em apanhar o jogador deles, a Rosa Vermelha se render. E, 
mesmo que o torneio prossiga, talvez Jack vena. Devo 
admitir que estou otimista, agora que o vejo pessoalmente.
        No h chance de ele estar preparado para um torneio no 
solstcio de vero  insistiu Linda.  Ele no sabe nada 
sobre luta.
A mdica tamborilou as longas unhas sobre o ombro dele.
        Ele nasceu para isso, Linda. Ele vai dar um jeito. Meus 
treinadores podem trazer  tona o assassino interior de 
qualquer um. S espero que eles no danifiquem muito esse 
corpo magnfico.  Ela deve ter visto alguma reao quilo 
no rosto de Jack, pois segurou-lhe o queixo e virou-lhe o 
rosto de forma que a encarasse.  No se assuste, meu 
mestio. Eu sei que vai se adaptar logo.  Ela lanou um 
olhar especulativo.  Dizem que uma raa miscigenada  
muitas vezes mais forte do que seus pais. Eu me pergunto se 
ele vai transmitir a pedra de guerreiro para a prole. Uma 
pergunta interessante.
Ela continuou, como que pensando alto:
        Talvez, se ele sobreviver ao torneio, ele possa procriar 
para ns. Gostaria disso, Jack?  ela perguntou, como se 
estivesse lhe oferecendo um osso por rolar na grama.
Jack sentiu-se humilhado, e o sangue correu para o seu 
rosto.
        Veja, ele est corando  disse ela, como se ele fosse um 
cozinho fofinho.
Jack olhou para a tia, enviando-lhe uma mensagem 
desesperada. "Vamos embora daqui."
        Chega, Jessamine  avisou Linda. Ela inclinou a cabea 
de leve para Jack, e ele deslizou os quadris para a beirada da 
mesa.
A doutora Longbranch falava rapidamente agora, de um 
jeito metdico, concentrando-se em Linda.
        A histria  a seguinte: infelizmente, Jack caiu ou pulou 
no Tmisa da Ponte Westminster logo aps a consulta 
comigo. Voc o viu cair. Vai haver vrias outras 
testemunhas. Eu vou me lembrar de que ele parecia 
preocupado, deprimido, quando eu o examinei. O corpo 
nunca vai ser encontrado. Voc vai convencer a sua irm 
disso. Entendeu?
Estava claro que Jessamine tinha pouco interesse se a 
histria convenceria ou no.
        Na verdade, eu tinha esperanas de que Becka viesse  
consulta com Jack. Ns descobrimos que a presena de 
membros da famlia pode ser um grande incentivo durante o 
treinamento. Mas no tem importncia. Tenho algumas 
pessoas aqui que vo levar Jack para o norte e trabalhar 
intensamente com ele at o torneio. H tambm a questo 
de localizar uma espada adequada.
Linda acenou com a cabea para Jack por sobre o ombro da 
doutora Longbranch, um movimento quase imperceptvel. 
Jack pressionou os dedos contra a clavcula da cirurgi e 
descarregou seu poder sobre ela, derrubando-a ao cho.
Jack enfiou os ps nos sapatos e puxou o colete por sobre a 
cabea. Saltou da mesa, e os dois correram de volta para o 
corredor em direo  recepo. Irromperam na elegante 
sala de espera e viram que a recepcionista havia sumido e 
que dois homens corpulentos folheavam revistas. A escolta 
de Jack, pelo jeito. Magos, com certeza. Os dois homens 
ergueram as cabeas, surpresos, e Jack disse:
        Deixei minha espada l fora.
Ele e Linda passaram rapidamente por eles e saram para o 
corredor. Jack esperava que os magos voltassem para ver o 
que tinha acontecido com a mdica, o que os faria perder 
tempo.
Mas quando abriram as portas sanfonadas, o carro do 
elevador no estava l. Podiam ouvi-lo se movendo em 
algum lugar l embaixo. Ele sabia que seu feitio primrio 
no manteria a doutora Longbranch no cho por muito 
tempo.
        As escadas!  exclamou Jack.
O consultrio de Jessamine ficava no nono andar. Eles 
lanaram-se escada abaixo descendo dois degraus de cada 
vez, contornando as plataformas estreitas, quase voando ao 
fazer as curvas. Jack ouvia claramente e com preocupao o 
elevador se deslocando no poo junto  escadaria.
Chegaram ao andar trreo bem a tempo de ver a doutora 
Longbranch e os magos da Rosa Branca saindo do elevador. 
Jack e Linda correram em direo  porta da frente, que 
explodiu em chamas diante deles. Cobrindo os rostos com 
os braos, eles mergulharam nas chamas e as atravessaram 
at o ar fresco l fora.
Estavam na rua Vitria, perto da Praa do Parlamento.
 Em direo ao rio!  sussurrou Linda.
A calada estava lotada de turistas e funcionrios pblicos 
em hora de almoo. Quando Jack olhou para trs, a entrada 
ainda estava em chamas, mas nenhum dos Anaweirs parecia 
notar. Alguns olharam com curiosidade para Jack, que estava 
pondo a blusa por cima do colete. Eles fundiram-se  
multido que tirava fotos do Big Ben e da Ponte 
Westminster. Ponte Westminster! O local do acidente que a 
doutora Longbranch havia planejado para ele.
Eles continuaram se movendo junto da multido em direo 
 gua. Deveriam cruzar o rio? Esconder-se num prdio? 
Mas Jack no conhecia a rea e tinha receio de cair numa 
armadilha. Estava se inclinando para perto de Linda para 
perguntar-lhe o que ela pensava quando algo o atingiu com 
dureza no peito, fazendo-o voar at a calada. Ele se sentou 
a tempo de ver os dois magos da sala de espera correndo em 
sua direo. Eles haviam mirado em Linda, e Jack havia se 
colocado no caminho no ltimo minuto. Mais uma vez, o 
colete havia amenizado o golpe.
Linda ajudou Jack a se levantar, e eles correram em 
ziguezague pela praa, mantendo-se juntos. Os magos 
atiravam somente quando achavam que tinham Linda na 
mira. Parecia que queriam levar Jack vivo. Os dois grupos 
criaram uma espcie de onda ao se mover atravs da 
multido. No havia armas  mostra, por isso no houve 
pnico, mas as pessoas tinham de se afastar s pressas do 
caminho de perseguidos e perseguidores. Algum lhes 
gritou quando passaram:
        Olhem pra onde vo, seus idiotas!
Estavam na rua Broad Sanctuary. Isso deu a Jack uma idia.
        A Abadia de Westminster  considerada uma igreja?
A Abadia estava ainda a alguma distncia.
        Do que voc est falando?
        Ela  considerada uma igreja?
        Boa idia  disse Linda.
        Esquece. Vamos entrar aqui.
Uma igreja menor ficava em frente  prpria abadia. Uma 
elaborada dana do mastro se desenrolava no ptio da igreja. 
Meninas e moas em vestidos medievais tranavam grandes 
fitas em um padro intricado ao redor do mastro. Jack e 
Linda se abaixaram sob as fitas e correram para a porta da 
igreja. Assim que chegaram  entrada, algo atingiu Jack no 
ombro, onde o colete no o protegia, quase o fazendo 
rodopiar. Doa terrivelmente, mas ele conseguiu entrar aos 
tropeos no santurio.
Estava frio e silencioso l dentro. Turistas se amontoavam ao 
redor dos vitrais e dos memoriais em mrmore nos 
corredores laterais. Jack e Linda deixaram-se cair no banco 
mais prximo, olhando de relance para trs para ver se 
algum os tinha seguido at dentro da igreja. Ningum os 
seguira.
O ombro de Jack comeava a latejar. Quando ele tirou a 
blusa, contudo, no conseguiu ver nenhum arranho nem 
marca onde a pele havia sido ferida.
Uma mulher trajando uma saia e suter recatados os 
abordou.
        Bem-vindos  Igreja de St. Margaret. Haver uma 
excurso comeando em dez minutos junto  janela oeste. 
 Ela apontou para um elaborado vitral em uma das 
extremidades da nave.
        Ser que a gente pode s se sentar aqui por alguns 
minutos? - indagou tia Linda.  Precisamos rezar um 
pouco.
A mulher sorriu e se afastou. Jack rezou mesmo um pouco, 
assim que recuperou o flego. Linda se sentava com as 
costas retas, as mos apoiadas contra o assento do banco, os 
olhos fechados. Jack no tinha certeza se ela estava rezando 
ou no.
Ele se perguntou quantos magos os esperavam l fora. O 
bastante para cobrir todas as sadas? "Talvez eu 
simplesmente fique por aqui." No era verdade que os 
fugitivos na poca medieval buscavam asilo em igrejas a fim 
de evitar a lei? Havia algo familiar nos tetos abobadados, no 
piso de pedra desgastado, na tonalidade da luz. Como se ele 
houvesse estado l antes.
Enquanto permaneciam l, o ombro de Jack enrijeceu-se, 
ficando cada vez mais dolorido e perturbando-o como a 
mordida de um inseto venenoso. Quando no conseguiu 
mais ignorar a dor, ele cutucou a tia.
        Acho que algo me atingiu, fora da igreja. Talvez voc 
deva dar uma olhada.
Ela ergueu sua camisa e tocou seu brao com as pontas dos 
dedos. A rea exibia um tom vermelho brilhante agora, 
inchada e quente ao toque.
        Droga!  Linda soltou um longo suspiro.  Deve ter sido 
um graffe  disse ela.   um tipo de adaga mgica.
        Mas no rompeu a pele  comentou Jack.
        Nem precisa. Na verdade,  um encantamento. Muito 
esperto da parte deles, pra falar a verdade. S um mago 
habilidoso pode tratar isso. Eles sabem que no podemos 
ficar aqui.
        Eu pensei... pensei que magia no funcionasse numa 
igreja.
        O dano j foi feito. O seu corpo est simplesmente 
reagindo a ele.
        O que acontece se no for tratado?  Essa era daquelas 
perguntas que Jack tinha de fazer, embora tivesse certeza de 
que no gostaria da resposta.
        Voc morre.
Sentaram-se em silncio por alguns minutos. Linda inclinou 
a cabea, deixando as mos entrelaadas carem entre os 
joelhos. Os ombros dela tremiam, e ele compreendeu que 
ela estava chorando.
        No se preocupe  disse ele, afagando o brao dela, sem 
jeito.  Est tudo bem. Vou pensar em alguma coisa.
Diante disso, Linda se endireitou, secando as lgrimas com 
as costas da mo.
        No, Jack  replicou ela.  Eu vou.
Ela pegou o celular, deslizou para a extremidade do banco e 
comeou a discar.
O ombro de Jack vibrava de dor, uma chama fria que se 
espalhava pelo pescoo. Parecia que no havia jeito de ele se 
sentir confortvel. Tentou falar alguns feitios de cura e 
relaxamento, mas nada parecia adiantar. Ele havia lido em 
algum lugar que os magos eram incapazes de curar a si 
mesmos. Em particular os mestios, como a doutora 
Longbranch o chamara.
As sombras na frente da nave tomaram a forma de meia 
dzia de guerreiros fantasmas medievais que marchavam 
solenemente pelo corredor at o banco de Jack, trazendo os 
elmos sob os braos. Eles se ajoelharam no corredor junto a 
ele, um semicrculo de homens que parecia ter vindo direto 
de uma batalha. A faixa etria variava dos 13 anos  meia-
idade.
O lder era um homem de barba ruiva em uma tnica 
manchada de sangue, bordada com rosas vermelhas. O 
punho da espada se salientava sobre o ombro.
        Ns no te dissemos para ficar longe, rapaz? No te 
avisamos?
Jack lambeu os lbios e olhou em volta. Ningum mais 
parecia notar a invaso dos Weirlinds.
        Eu tinha de vir.
O guerreiro olhou de volta para seus companheiros.
        Ele tinha de vir  repetiu ele, erguendo as mos, 
exasperado.
        Ele tinha de vir  sussurraram os Weirlinds, as vozes 
como vento soprando por galhos cobertos de gelo.
Virando-se de novo para Jack, o guerreiro disse:
        E onde est a Sombra Assassina?
        Eu... eu a deixei no meu quarto  admitiu Jack, sentindo-
se sitiado.
O homem de barba ruiva arqueou uma sobrancelha.
        Ento vieste a terras estrangeiras enfrentar magos com 
nada a no ser tuas mos?  Voltou-se para a guarda.  
Deixando a espada para trs.
        Deixando a espada para trs  disse o eco, como um tipo 
de coro grego.
        Ah, bem  disse o guerreiro.  Agora recebeste um 
ferimento mortal.  Ele pousou uma mo enluvada no 
joelho de Jack.  No te preocupes, rapaz. Manteremos 
viglia com a dama at o fim. Viglia para o herdeiro 
guerreiro!  disse ele aos outros.
        Viglia para o herdeiro guerreiro!
        Jack!
Os guerreiros recuaram, mas no se dispersaram. Jack se 
virou e viu Linda a seu lado.
Ela tomou a mo dele entre as dela.
        No se preocupe. Eu falei com Hastings. Ele est vindo de 
Canterbury. Fica a 96 quilmetros daqui.
        Quanto tempo leva?
Quer Jack se referisse ao graffe ou  viagem desde 
Canterbury, a resposta era a mesma.
        No sei  disse a tia.
Grupos de turistas iam e vinham. Jack se sentia cada vez 
pior. Ele se apoiou contra o canto do banco para no cair. 
Sentia frio num momento e calor intenso no outro. Pior 
ainda, estava comeando a ver coisas, coisas escuras e 
sombrias como demnios agachados nos cantos da igreja. As 
paredes se retorciam e trepidavam, avanavam e recuavam. 
Os Weirlinds se aconchegaram desconsolados no corredor, 
sussurrando entre eles.
Linda achou um bebedouro na entrada do santurio e 
trouxe-lhe um pouco d'gua num copo de papel, que ele 
bebeu com avidez. Ela lhe trouxe mais dois copos.
Ento algum se sentou no banco em frente a ele. Era 
Jessamine Longbranch. Ela parecia reluzente e monstruosa 
para Jack, que mal conseguia focar os olhos. Ele ergueu 
ambas as mos, debilmente, para mant-la a distncia. Os 
Weirlinds estremeceram e resmungaram.
        Jack, voc no parece muito bem. Certamente no to 
bem quanto parecia no meu consultrio esta manh.
        Saia desta igreja, Jessamine, antes que Deus encontre voc 
aqui  Linda murmurou com ferocidade.
        Voc sabe o que h de errado com voc, Jack?  A voz 
da mdica provavelmente tinha a inteno de ser 
reconfortante, mas, sem o vu costumeiro de magia, soava 
somente densa e sinistra.
        Graffe de mago  Jack tentou responder, mas era difcil 
falar com a lngua to pesada na boca.
        Venha para fora, Jack, e eu tomo conta de voc. Caso 
contrrio, vai morrer antes que o dia acabe.  Ela se voltou 
para Linda.  Voc pelo menos deveria saber o bastante 
para no tentar esse tipo de truque.
        Saia daqui, Jessamine  repetiu Linda.
A doutora Longbranch deu de ombros.
        Ns estaremos l fora. Avise quando estiver pronta para 
desistir dele.  Ela puxou para trs os cabelos escuros.  J 
posso ver que Jack  bastante talentoso. Eu detestaria v-lo 
desperdiado.
Ela estendeu a mo para ele, e ele se encolheu no banco 
como um animal acuado. Ela prendeu uma mecha de cabelo 
mido atrs da orelha dele. Ento ela se levantou e saiu da 
igreja, os saltos dos sapatos retinindo secamente no piso de 
pedra.
O fim do dia significava pr do sol ou meia-noite? "Pode ser 
importante", pensou ele, mas j no conseguia se lembrar 
por qu. Sabia que havia algo que precisava dizer 
desesperadamente.
        Tia Linda.  A voz saiu como um murmrio rouco. Ela 
chegou-se junto a ele e aninhou a cabea dele nos seus 
braos, tomando cuidado com o ombro dele, inclinando-se 
de forma a poder ouvi-lo.  Tia Linda, por favor, no deixe 
ela me levar. Por favor. No me importo... com o que 
acontecer. Prometa.
Linda prometeu, as lgrimas escorrendo-lhe pela face.

A mulher que lhes dera as boas-vindas quando entraram na 
igreja retornou. Parecia preocupada.
        O seu filho est doente?  perguntou ela a Linda.
        Sobrinho  Linda corrigiu-a automaticamente.
        Ele est doente, mas  um tipo de doena espiritual -
explicou.
         mesmo?  A mulher arqueou as sobrancelhas. Jack 
estava totalmente esticado ao longo do banco duro, a cabea 
no colo de Linda. Estava tremendo, delirante, sussurrando 
para si mesmo.  Tem certeza de que no  melhor levar o 
garoto para o hospital?
        Por favor. Ele precisa ficar aqui  disse Linda em 
desespero.  Ou vai ser o fim dele.
A mulher hesitou.
        Talvez ele possa ficar mais confortvel.  Ela 
desapareceu por alguns minutos e reapareceu com um 
colchonete fino e cobertores.  Acho que devo me 
apresentar. Meu nome  Sarah Barham. Sou uma das 
professoras da igreja, mas tambm dirijo um programa para 
os sem-teto  explicou ela.  Ns aceitamos doaes aqui 
na igreja. Por isso temos alguns artigos de cama.
        Meu nome  Linda Downey  replicou Linda.  E este 
 Jack. Agradecemos muito a sua ajuda.
Quando Leander Hastings chegou, meia hora mais tarde, 
Jack estava deitado no colchonete num canto da igreja. 
Linda e Sarah Barham se ajoelhavam junto a ele, rezando. 
Estavam cercados de fantasmas de guerreiros ajoelhados, em 
viglia. Jack parecia  beira da morte, as sardas destacando-se 
contra a palidez da pele, a respirao rasa e ineficiente. Os 
guerreiros se afastaram, resmungando descontentes, quando 
Hastings se aproximou.
Linda ps-se em p num salto ao v-lo.
        Depressa, Leander. Eu j tinha quase desistido.
Quando o mago hesitou, ela disse:
        Vamos! No  possvel que haja problema em curar uma 
pessoa dentro de uma igreja!
Hastings se ajoelhou ao lado de Jack e pousou a mo sobre o 
ombro ferido. Estava vermelho, lustroso e inchado, com 
longas listras vermelhas que se estendiam desde o brao at 
o peito. Jack gemeu e tentou recuar, contorcendo-se.
        Segurem-no bem.
Linda e Sarah pressionaram os pulsos de Jack contra o cho. 
Hastings postou as mos sobre o ferimento, pronunciando 
um feitio devagar e de forma bem articulada. De imediato, 
a pele se cobriu de bolhas de uma horrvel tonalidade verde 
e amarela, como se o veneno houvesse subido e se 
acumulado logo abaixo da pele.
Sarah Barham pigarreou.
        Quem  ele, um sacerdote?  perguntou ela a Linda.
        No exatamente  respondeu Linda.
Hastings esperou um minuto, mantendo as mos no lugar, e 
proferiu um feitio diferente. Minutos se passaram sem que 
houvesse mudana. Ento, lentamente, Jack foi perdendo a 
aparncia de figura de cera. Sua respirao tornou-se mais 
regular e todo o seu corpo relaxou. Hastings sorriu para as 
duas mulheres. Estava plido e transpirando, os olhos verdes 
obscurecidos pela exausto. Ele removeu as mos; as bolhas 
haviam diminudo.
A professora da igreja olhou de Jack para Hastings.
        Vejam s. Achei que ele ia morrer  admitiu ela.
        Eu tambm  disse Hastings laconicamente. Levantou-se 
e secou as mos nas calas.  Existe alguma outra sada da 
igreja?  perguntou baixinho.  Alm da bvia?
        H uma outra porta  disse Sarah.  A sudeste. Mas no 
costuma ser aberta ao pblico  acrescentou ela.
        Podemos sair por ela?  Hastings sorriu para a mulher.  
Por favor? O garoto corre perigo.
        Bem...  Ela olhou para Jack, depois novamente para 
Hastings.  Creio que sim. Vou mostrar a vocs onde fica.
Hastings se virou para Linda.
        Preciso que voc retarde aqueles magos l fora pelo maior 
tempo possvel. Eles no devem perceber que Jack foi 
embora. Melhor ainda, veja se consegue convenc-los de 
que ele morreu.  Ele esticou a mo e roou-lhe a face com 
os ns dos dedos.  Tenha cuidado. Acho que eles no vo 
ficar nada felizes.
        Magos!  Sarah recuou um passo, levando as mos  boca 
como se houvesse percebido de repente que aquele homem 
alto e estrangeiro tinha mesmo um certo ar sobrenatural.
        Por assim dizer  disse Hastings, com um sorriso 
reconfortante.  O garoto se envolveu com uma seita.  
Ele se inclinou e ergueu Jack novamente. Jack franziu a testa 
e murmurou alguma coisa.  Mais uma coisa. Linda, voc 
consegue ir at Canterbury e tomar conta da minha 
Sociedade Chauceriana? Eles esto no Albergue Dovecote, 
na cidade velha. Estamos visitando todos os locais dos 
grandes assassinatos. Amanh eles vo querer ver onde 
Beckett foi morto. So um bando sanguinrio, pelo jeito.
Linda assentiu com a cabea, sem falar.
Hastings seguiu a espantada Sarah Barham at os fundos da 
igreja e desapareceu. Linda rearranjou as roupas de cama 
para parecer com uma pessoa deitada e sentou-se junto ao 
colchonete para esperar.
Sarah Barham deixou que Linda ficasse depois das quatro e 
meia, horrio oficial de fechamento da igreja. A encantadora 
manteve-se em viglia, sentada no cho, as costas contra a 
parede. A luz do dia diminua atrs dos vitrais enquanto as 
luzes internas eram acesas. Passava das nove da noite 
quando Jessamine Longbranch entrou de novo na igreja e 
encontrou Linda semi-adormecida em seu posto. A maga 
parou e ps as mos na cintura, fitando Linda.
        Pelo visto... o menino est morto?  Ela fez um gesto 
para o arranjo de roupas de cama no cho.
        Sim  respondeu Linda.
        Sua tola!  As palavras estavam carregadas de veneno.  
No acredito que sacrificou o seu sobrinho desse jeito. Por 
que no deix-lo lutar e dar a ele pelo menos uma chance?
        Voc lanou o graffe, Jessamine, no eu. Voc que 
explique isso para o resto da sua Casa. Jack disse que preferia 
morrer a acabar em suas mos. Eu honrei o desejo dele.
        No estou nada contente com isso. Acho que vou fazer 
uma visitinha  sua irm Becka. Ela est em Thurloe Place, 
no ?
A doutora Longbranch saiu da igreja em passos firmes.
Linda tentou telefonar para Becka vrias vezes, mas 
ningum atendeu. Permaneceu na igreja at cerca de meia-
noite e ento saiu pela porta de trs.

A Sociedade Chauceriana era um grupo flexvel. Quando 
Linda se apresentou como uma especialista em mito e magia 
medievais que substituiria Leander Hastings por alguns dias, 
houve apenas um leve murmrio de preocupao. Os 
rapazes, em especial, gostaram da mudana. As notveis 
excees eram Will e Fitch, que sabiam que a apario 
inesperada de Linda Downey significava que problemas a 
seguiriam.
Linda era uma boa escolha para o trabalho. Ela era uma 
anglfila apaixonada, e compartilhava o interesse da famlia 
por literatura inglesa e estudos medievais. Vivera a maior 
parte de sua vida na Inglaterra e era capaz de adicionar cor e 
detalhes s informaes fornecidas pelo guia oficial da 
catedral. Ficaram todos adequadamente impressionados com 
a pura crueldade do assassinato de Beckett numa igreja. "No 
estvamos longe disso na noite passada", pensou Linda.
Ela tentou telefonar para Becka vrias vezes durante o dia, 
mas ningum atendia no quarto de hotel em Londres. Becka 
certamente no partiria para Oxford sem Jack. Linda deixou 
uma mensagem na Devon House para que Becka lhe 
telefonasse em Canterbury. A histria que havia planejado 
contar era que eles haviam avistado os seqestradores em 
Londres e, embora Hastings houvesse levado Jack para um 
lugar seguro, estavam todos em perigo.
No havia mensagens para ela quando Linda voltou ao 
quarto de Hastings. Havia esparsos indcios da presena 
dele: um livro sobre a mesa, um estojo de couro com 
material para barbear no banheiro, um suter deixado ao p 
da cama. Num impulso, ela pressionou a l contra o rosto, 
sentindo o cheiro dele. Embaraada, ela o deixou cair na 
cama.
quela altura, Becka devia estar desesperada. E se ela 
telefonasse para a doutora Longbranch? Com certeza, agora 
que a maga achava que Jack estava morto, deixaria Becka em 
paz, a despeito da ameaa feita na igreja. A menos que 
Longbranch decidisse usar Becka para se vingar de Linda 
pela traio.
E onde estavam Jack e Hastings? Hastings possua uma 
propriedade em algum lugar em Cmbria. Talvez tivessem 
ido para l. Talvez Hastings tivesse telefonado para Becka e 
lhe contado alguma histria por conta prpria. Qualquer 
coisa era possvel.
Algum bateu  porta. Quando Linda a abriu, Will e Fitch 
estavam em p no corredor, Fitch com uma pasta sob o 
brao. Pareciam estar numa misso.
        Ol, tudo bem? Precisamos falar com voc. Est ocupada? 
 Will transferiu o peso do corpo de um p para o outro.
        De jeito nenhum. Por favor, entrem! Vocs querem ch 
ou alguma outra coisa?  Linda olhou de um para o outro.
Fitch sacudiu a cabea.
        Viemos porque queremos saber por que voc est aqui, e 
o que isso tem a ver com o Jack  disse ele, direto ao 
ponto.
        Entendo. Por que no se sentam?  Ela fez um gesto em 
direo  pequena mesa junto  janela que dava para a rua 
estreita l embaixo.
Eles se arranjaram da melhor forma que podiam, parecendo 
grandes demais para a mesa delicada, com seus cotovelos, 
joelhos, pernas longas e determinao cheia de 
desconfiana.
Fitch ps a pasta na mesa e perguntou:
        Onde est o Jack? Por que voc est substituindo o senhor 
Hastings?
Linda ps os cotovelos na mesa e apoiou o queixo na ponta 
dos dedos, estudando os dois rapazes. Eles haviam 
conquistado o direito  informao. Sem eles, Jack sem 
dvida estaria morto ou pior.
        Jack teve problemas de novo desde que chegou em 
Londres. Ele teve de partir com o senhor Hastings.  por 
isso que estou aqui.
        A gente est cansado de no saber de nada.  Will 
colocou as duas palmas abertas sobre a mesa.  O Jack no 
nos conta nada. Ele s diz pra gente no se preocupar, que 
no tem nada que a gente possa fazer, esse tipo de besteira. 
Achamos que voc pode nos contar o que est acontecendo.
        Eu posso fazer isso. Vocs  que tm de decidir no que 
querem acreditar.
Linda poderia faz-los acreditar que Jack havia sido raptado 
por aliengenas, se quisesse. Mas, desta vez, preferiu 
convenc-los por mtodos no mgicos. Ela respirou fundo.
        Jack deveria ter sido um mago, mas recebeu o implante de 
uma pedra de guerreiro quando era beb.
Fitch estreitou os olhos, desconfiado, como que tentando 
decidir se ela estava brincando.
        Implante de uma... o qu?
        Uma Pedra Weir. Aqueles que carregam uma pedra de 
guerreiro tm certos atributos mgicos que se manifestam 
quando eles atingem a maioridade...
        Certo.  Fitch revirou os olhos.  Jack Swift ...  algum 
tipo de gladiador com super-poderes.  isso o que est nos 
dizendo?
Linda assentiu.
        Existem outras pedras e outras ordens. A dos magos  a 
mais poderosa entre elas. Os magos jogam com os guerreiros 
em um torneio chamado Jogo. S que no restaram muito 
guerreiros. Por isso, Jack  o que se pode chamar de um 
achado raro. Por causa disso, os magos esto atrs dele, 
tentando captur-lo ou mat-lo.
        Espere a  disse Will, com uma carranca.  Magos? 
Como num conto de fadas?
        Mais como um pesadelo, imagino. So artesos da magia, 
que sabem lanar feitios, falados ou no. Diferentemente 
dos guerreiros, os magos no tm nenhuma manifestao 
fsica especfica, mas uma presena poderosa.
Will bateu com as mos na mesa.
        Certo. Se no vai nos contar a verdade,  s dizer e parar 
de nos fazer perder tempo.
        Will  Fitch ps uma mo no ombro de Will , lembra-
se daquele cara no cemitrio, e da espada flamejante e tudo 
o mais?
        Aquele era um mago. Na verdade...  Linda hesitou, 
ento continuou.  Na verdade, h vrios magos morando 
em Trinity.
        Tipo quem?  indagou Fitch, procurando pistas no rosto 
dela. Ento seus olhos se arregalaram atrs dos culos.  O 
senhor Hastings, aposto.
Relutantemente, Linda concordou com um gesto de cabea.
        Quem mais?  Fitch empinou o queixo, assumindo uma 
postura de inquisidor.
        Bem, tem Nick Snowbeard. E Leesha Middleton.
        O Nick? E aquela vaca da Leesha Middleton? A princesa?
          respondeu Linda.  Ela estava trabalhando com 
aqueles homens que tentaram raptar Jack do colgio.
        Sem chance!  Fitch estremeceu.
        No me diga que o Lobeck estava envolvido tambm  
disse Will.
Linda sacudiu a cabea.
        Um brutamontes e um cretino, talvez, mas no um mago.
        No, a no ser que sejam naturalmente estpidos  
acrescentou Fitch.  Vamos poder ver o Jack enquanto 
estamos aqui?
Linda hesitou.
        No sei. Nem tenho muita certeza de onde ele est neste 
momento.
Fitch bateu de leve na pasta com as pontas dos dedos.
        O que isso tem a ver com a sua bisav e o cemitrio?
        Susannah tinha o mesmo dom, a mesma pedra de Jack. 
Ela era uma guerreira como ele. Foi a espada dela que vocs 
desenterraram. Tnhamos esperana de que ele pudesse usar 
a espada para se proteger.
        Uma Pedra Weir pode ser roubada?
        No sem matar a pessoa que carrega a pedra.
        Mas ela pode ser roubada? Tipo, se voc cortar uma 
pessoa? Algum teria algum motivo para fazer isso, talvez 
para implantar em outra pessoa? Como o Jack?
Linda pensou por um momento.
        As Pedras Weir tm algum poder mgico por si mesmas. 
Os magos s vezes as compram de mercadores e as usam 
como talisms. Jack  a nica pessoa de quem ouvi falar que 
teve uma pedra implantada. Foi porque ele no tinha uma.
        Eu estava pensando sobre a tatarav do Jack, Susannah 
Downey, e em como ela morreu. Sempre que eu vejo aquela 
cicatriz em forma de estrela no peito do Jack, eu penso 
nisso.
        Do que voc est falando?  Linda olhou de um rapaz 
para o outro.  Ela morreu num acidente. Vocs no 
disseram que ela caiu do cavalo?
Fitch assentiu e abriu a pasta.
        Mas a causa da morte foi um buraco no peito. Dizia no 
jornal que ela talvez tivesse cado sobre a estaca de uma 
cerca ou coisa assim. Olhe.  Ele tirou da pasta uma 
impresso de microfilme.  Eu acabei ficando com isso 
quando fomos  biblioteca. Soou meio forado pra mim. 
Suponho que a cincia forense no fosse muito sofisticada 
naqueles dias.
Ele passou o papel para Linda. Era o obiturio de Susannah. 
Linda passou os olhos sobre o papel rapidamente, depois 
releu mais devagar.
        "Lee Hastens, um visitante no municpio, encontrou-a 
cada no bosque atrs da fazenda da famlia  noite. Embora 
conhecida por ser uma amazona habilidosa, a senhora 
Downey caiu contra a estaca de uma cerca. Um corte 
profundo no peito foi a causa da morte."
A centelha de uma idia acendeu-se no fundo da mente de 
Linda. Ardia com intensidade cada vez maior, apesar dos 
esforos em apag-la.
Fitch interrompeu-lhe os pensamentos.
        Vai ver  porque a gente esteve falando sobre todos esses 
assassinatos nos ltimos dias. E agora as Pedras Weir.  
possvel que Susannah tenha sido assassinada e tenha tido 
sua pedra roubada?  Fitch parou, olhando para Linda.  
Qual  o problema?
         o Jack  Linda murmurou.  Receio que eu tenha 
cometido um terrvel engano.

Captulo Treze
Cmbria

Jack lembrava-se vagamente de suas ltimas horas na igreja. 
Jazia ferido mortalmente, os Weirlinds em viglia ao seu 
redor. Uma vasta escurido ameaava domin-lo, mas de 
alguma maneira era mantida a distncia pela msica de vozes 
femininas rezando. Ele se agarrou quele som como a uma 
boia salva-vidas at que, enfim, havia uma nova voz e uma 
nova prece; a escurido recuou e o latejar no ombro 
diminuiu. Algum o ergueu, e ele sentiu o ar fresco e a 
chuva contra o rosto. Foi carregado por alguma distncia sob 
a chuva e, a seguir, acomodado no banco de trs de um 
carro. Ele se lembrava do cheiro e da sensao de couro 
contra o rosto. Algum levantou sua cabea e despejou um 
lquido escaldante goela abaixo, e ento ele dormiu. 
Acordou uma vez em meio  escurido e escutou a batida 
das portas do carro e o que poderia ser a voz de sua me. 
Tentou cham-la, mas era impossvel ficar acordado.
Despertou novamente quando a suave luz do dia invadiu-lhe 
o sono. Ele rolou na cama e enterrou o rosto no travesseiro 
para se abrigar da luz. Estava numa cama grande, coberta de 
lenis um tanto quanto grosseiros com uma colcha leve 
por cima. Vestia roupas que no lhe eram familiares: shorts 
e uma camiseta. As lembranas comearam a voltar, e ele se 
levantou rpido, to rpido que ficou tonto e teve de se 
recostar de novo contra os travesseiros.
O quarto era despojado, como se fosse esculpido em rocha, 
com paredes e piso de pedra, uma lareira e uma nica janela 
sem adornos. Havia uma porta de madeira em arco no outro 
lado do quarto. Alm da cama, a nica moblia era uma 
cmoda com uma bacia e um jarro, uma mesinha de 
cabeceira com frascos de feiticeiro alinhados em seu topo, 
duas cadeiras simples de madeira e uma cadeira de balano 
junto  cama. Um estojo ornado de jias estava apoiado 
contra a lareira. Era a Sombra Assassina, a espada de Jack, e, 
junto dela, sobre a pedra, estava o espelho de Blaise em seu 
invlucro de couro. Como haviam chegado l? Ele os 
deixara no hotel, sob feitios de proteo.
Ele tentou desesperadamente se lembrar do que acontecera 
no fim da longa tarde na igreja. No sentia nenhuma dor ou 
desconforto no ombro, nenhum resqucio do graffe de 
mago. Ser que Hastings havia chegado a tempo, ou ser que 
ele estava agora nas mos da Rosa Branca? Esse pensamento 
fez com que se levantasse e virasse as pernas para o lado da 
cama. Sua idia era apanhar a espada. Se eles eram tolos o 
bastante para deixar-lhe uma arma, ele tinha inteno de 
tirar vantagem disso.
Nesse momento, a porta se abriu, e a me dele entrou. 
Becka vestia cala jeans e um suter folgado, e estava 
descala, apesar do frio cho de pedra. Ela carregava uma 
bandeja com um bule de ch e um generoso caf da manh.
        Me!  Jack estava espantado e felicssimo em v-la. 
Becka depositou a bandeja cuidadosamente na mesinha de 
cabeceira e o tomou nos braos. Ficaram ali abraados na 
beirada da cama por um longo instante.
Enfim, Becka sentou-se e olhou para ele.
        Voc parece bem melhor, Jack. Eu fiquei to preocupada 
quando o Leander veio me buscar. Voc parecia pssimo.
Havia torrada e gelia, bacon e ovos, e um tipo de peixe 
defumado. Jack espalhou a gelia na torrada, ganhando 
tempo enquanto formulava uma pergunta. Jack no sabia 
como a condio dele havia sido explicada a ela.
        O senhor Hastings contou o que aconteceu?
Ela franziu a testa, como que se esforando para lembrar.
        Ele disse que voc apanhou um... um vrus, e que 
precisava de descanso, paz e tranqilidade. Ento viemos 
para c.  Ela afastou-lhe o cabelo da testa.  Quer que eu 
v buscar algo pra voc ler? Tem uma biblioteca maravilhosa 
no andar de baixo.
Jack parou de mastigar e fitou a me. Essa no era de 
maneira alguma a reao que estava esperando. Ele 
imaginara um milho de perguntas que ele no poderia 
responder. Ele se perguntou como Hastings havia lidado 
com ela e por que ela no insistira em lev-lo a um hospital. 
Entretanto, talvez ele j soubesse a resposta para aquela 
pergunta.
        Onde estamos?  indagou ele, olhando o quarto em 
torno.  E por quanto tempo estive... doente?
        Esta  a casa do Leander. Faz trs dias que estamos aqui.
Jack deu uma nova espiada no quarto. Era to frugal quanto 
o prprio homem. A nica cor que havia era nos frascos de 
feiticeiro sobre a mesa. Hastings nunca mencionara 
qualquer conexo com a Inglaterra, muito menos que 
tivesse uma casa ali. Mas fazia sentido, se Hastings conhecia 
tia Linda.
        Ainda estamos em Londres?  Alguma coisa no aspecto 
da luz e no silncio l fora lhe dizia que no.
        Estamos em Cmbria. No norte da Inglaterra. Estamos nas 
montanhas, na verdade, no muito longe da Esccia.
Jack se perguntou como os recentes acontecimentos 
afetavam o resto do tempo deles na Inglaterra, e se os magos 
logo no os estariam caando por todo o Reino Unido.
        E quanto a Oxford? Eles no esto esperando por voc?
        Eu tenho todo o vero pra chegar a Oxford.  Ela falou 
languidamente, como se no houvesse mais qualquer 
urgncia em chegar l. Sentou-se na cadeira de balano.  
Jack, tome o seu caf da manh antes que esfrie. Voc no 
come h trs dias, e precisa recuperar as foras.
Por que Hastings havia trazido Becka? Talvez para ajudar a 
cuidar dele, mas isso com certeza tornava as coisas 
estranhas. De qualquer jeito, no via como seria possvel 
manter seus problemas em segredo por muito mais tempo. 
Sentia-se como se toda a sua vida estivesse se desfazendo e 
ameaando destruir sua famlia no processo.
Empurrou o caf da manh para o lado e saiu da cama, que 
era inesperadamente alta, e os ps de Jack atingiram o cho 
com um baque. As venezianas da janela estavam abertas, e o 
ar matutino era fresco. As roupas dele no estavam  vista.
A vista na janela atraiu-lhe a ateno. Estavam talvez no 
terceiro andar, diante de uma linda paisagem de montanhas 
e colinas verdes envoltas em nvoa.
De repente, a porta se abriu, e Leander Hastings entrou. Ele 
tambm trajava um suter pesado para se proteger do frio da 
manh. Parecia surpreso de ver Jack em p e caminhando.
 Becka!  exclamou ele, sorrindo.  Parece que o seu 
filho est mesmo se recuperando.
Hastings postou-se atrs de Becka, pousando as mos nos 
ombros dela. Havia algo que sugeria posse naquele gesto que 
fez com que Jack cerrasse os dentes.
        Ele parece bem melhor  concordou Becka, virando-se 
um pouco para olhar para o rosto do mago.  Mas no 
consigo fazer com que ele coma muito.
Hastings foi para junto da janela e olhou por sobre o ombro 
de Jack.
        Lindo, no ? Eu me sinto renovado sempre que venho 
para c.
Jack deu-lhe as costas com rudeza.
        Me, acho que gostaria de ler alguma coisa depois do caf 
da manh, afinal. Ser que voc poderia ir l embaixo e me 
trazer alguns livros?
Becka olhou para Hastings como se lhe pedisse aprovao. O 
mago assentiu.
         uma boa idia  disse ele.  Jack e eu precisamos 
conversar. Eu vou buscar voc daqui a pouco.
Becka ergueu-se da cadeira de balano e beijou Jack na testa.
        Tente comer um pouco mais  disse ela, e saiu do quarto.
Hastings seguiu-a com os olhos at que a porta se fechou 
atrs dela.
Jack estufou o peito, descansando os punhos nos quadris.
        O que h de errado com ela?
Hastings sentou-se na cadeira de balano junto  cama.
        No h nada de errado com a sua me. Ela est tima.
Ele parecia prestes a sorrir, mas desistiu quando viu a 
expresso no rosto de Jack.
        Voc colocou um feitio nela  Jack insistiu.  Ela no 
est agindo normalmente.
        No usei nenhum feitio desnecessrio nela  replicou 
Hastings, dando de ombros como um homem inocente.  
Embora talvez precise dar a ela... mais instrues, agora que 
voc est acordado.
        Voc nunca deveria t-la trazido aqui.
        Entendo.  Hastings brincava com um anel peculiar em 
seu dedo anular esquerdo. Era uma pedra belamente 
lapidada sobre um engaste de ouro decorado, irradiando 
luzes em milhares de cores.  Eu mantive a sua me a salvo 
 disse ele.  A esta altura, as Rosas esto com certeza 
procurando por ela. No sei o que mais voc quer de mim.
Jack no sabia o que mais dizer ao homem que, mais uma 
vez, havia salvado sua vida. Ento no disse nada.
        Sente-se, Jack.  Hastings fez um gesto em direo  
outra cadeira, com a expresso de algum que tem uma 
tarefa desagradvel a desempenhar. Relutantemente, Jack se 
sentou. Hastings indicou com a mo a bandeja do caf da 
manh.  E melhor comer.
Jack examinou a bandeja e, com rancor, pegou um pedao 
de torrada.
        Como est se sentindo?  indagou o mago.
        Estou bem  admitiu Jack.   como se eu tivesse tido 
um sonho ruim.
        Um sonho bem ruim  concordou Hastings.  O seu 
ombro deve ficar bom, sem nenhuma rigidez. Desde que o 
feitio seja destrudo a tempo, tudo se cura.
        No me lembro bem do que aconteceu.
Jack terminou a fatia de torrada e partiu para os ovos.
        Depois que o feitio foi rompido, eu carreguei voc at o 
meu carro. Linda ficou para trs para distrair a doutora 
Longbranch e os outros. Achei melhor ir buscar a sua me. 
Sabia que ela ficaria preocupada se voc e Linda no 
voltassem, e tive receio de que ela fosse procurar a doutora 
Longbranch. Por isso eu a trouxe para c.
        Eu no sabia que voc tinha uma casa aqui.
- Esta casa  o lar ancestral da minha famlia, embora eu 
s a tenha adquirido h poucos anos. Aqui  o Lake District, 
a terra dos poetas, um dos lugares mgicos do Reino Unido.
Jack ergueu os olhos e viu Hastings ainda o observando, 
como se o estivesse medindo. Aquilo deixava Jack nervoso.
        Por que no me diz o que est acontecendo?  Jack se 
recostou na cadeira, pondo de lado o caf da manh.  O 
que voc quer de mim?
        J ouviu falar que h um torneio marcado para o solstcio 
de vero?  O rosto de Hastings no revelava nenhuma 
emoo.
        A doutora Longbranch nos contou a respeito.  Jack se 
esforou para lembrar. Muita coisa havia acontecido desde a 
visita ao consultrio de Longbranch.  Ela disse que a Rosa 
Vermelha havia feito um desafio, que eles tinham um 
campeo. Ela quer que eu lute.
Hastings assentiu.
        Ela quer, sim. E eu tambm.  As palavras pairaram 
pesadamente no ar entre eles.
A compreenso veio aos poucos, como a mudana da 
luminosidade que marca o incio de um clima tempestuoso. 
Os olhos deles se encontraram brevemente, e Jack sentiu 
que lhe roubavam a respirao. Tantos enigmas, tantas 
incongruncias, e agora tudo fazia sentido. Ficou furioso, 
com Hastings e com sua prpria estupidez.
        Esse era o seu plano o tempo todo, no  mesmo?  A 
voz dele tremia, apesar de seus esforos para mant-la firme. 
Empurrou a bandeja para longe e se inclinou para a frente. 
 Era pra isso que voc estava me preparando, todo o 
treinamento formal, os combates na clareira, tudo!
        Sim.
Hastings no ergueu os olhos, ainda concentrado no anel.
        Esta viagem  Inglaterra tambm foi idia sua?  A me 
dele havia decidido isso por conta prpria, no havia? Jack 
tentou se lembrar.
O mago estendeu os dedos num gesto de confisso.
        Eu teria dado um jeito de voc vir  Inglaterra neste 
vero, de um jeito ou de outro. Eu pensei que talvez voc 
pudesse vir com a Sociedade Chauceriana. No final, voc 
veio com a Becka.
        Ento voc mentiu para a tia Linda  Jack continuou.  
Fazendo-a acreditar que ela podia me manter fora disso.
        Sim, eu menti.  Hastings no se desculpou.  A sua tia 
me passou a tarefa bastante desafiadora de manter voc vivo. 
Ns simplesmente discordamos sobre o mtodo.
        Bem, voc escolheu a pessoa errada. Voc no pode me 
obrigar a lutar por voc. Se for preciso, eu jogo a toalha na 
competio.
        No existe isso de "jogar a toalha" no torneio.  uma luta 
at a morte.
        Ento vai ter de encontrar outra pessoa pra sacrificar.
        No se engane. De um jeito ou de outro, voc vai ser 
sacrificado.
Jack o encarou, achando que tinha ouvido uma ameaa. Mas 
a expresso de Hastings era uma mistura de simpatia e 
impacincia.
O mago se reclinou e fechou os olhos.
        Encare os fatos, Jack. No que diz respeito a voc, isto tudo 
comeou h uns trs ou quatro meses, com a ida ao 
cemitrio, certo? Nas ltimas trs semanas, voc foi atacado 
trs vezes. Isso  s uma amostra do que est por vir.  
Hastings abriu os olhos, fixou Jack com seus olhos verdes. 
 Lembre-se de que a Rosa Branca deixou voc em paz at 
agora. Assim que descobrirem que voc est vivo, viro 
atrs de voc tambm. Talvez a Rosa Vermelha tenha 
tentado envenenar voc. Mesmo que no tenham sido eles, 
com certeza sabem quem voc , graas ao incidente na 
escola. E ainda  preciso levar em considerao os 
mercadores. Voc vale uma fortuna dos diabos. E o mundo 
est cheio de aventureiros que querem ficar ricos.        
Jack no conseguia mais ficar sentado. Levantou- -se e 
voltou para junto da janela. A nvoa estava se extinguindo 
nos locais mais baixos, desintegrando-se em fitas irregulares 
no ar parado. Algumas ovelhas haviam aparecido em uma 
das colinas distantes. Ele desejou poder voar para longe 
daquele lugar, de quem ele era, de seu passado e de seu 
futuro.
Hastings continuou, impiedoso.
        Supondo que consiga voltar para casa, o que pensa que vai 
encontrar l? Trinity vai se tornar um campo de batalha para 
os magos. Os seus amigos, cada pessoa na sua famlia vai ser 
um ponto de vulnerabilidade, especialmente os Anaweirs. 
 Ele fez uma pausa.  Voc viu a sua me. Eu a trouxe 
aqui como um exemplo para voc. Tudo o que eu preciso 
fazer  lanar um feitio, e ela far o que eu mandar. Posso 
demonstrar, se voc quiser.
        V pro inferno  resmungou Jack no ar cristalino.
        O que significa que ela vai estar  merc de qualquer mago 
de qualquer das Casas que v atrs dela. O seu pai, Will e 
Fitch, ningum vai estar a salvo. Quantos deles voc est 
disposto a sacrificar?  Hastings se juntou a Jack na janela. 
Sua voz tornou-se mais suave.  Confie em mim, eu sei. 
Mesmo que voc durma com um olho aberto, minha aposta 
 que voc no passa de seis meses ou um ano. E, mesmo 
que voc sobreviva, vai acabar sozinho. Entenda, no 
existem regras l fora.
Jack apoiou o rosto contra a pedra fria que emoldurava a 
janela. Pensou em Trinity, em suas avenidas tranqilas 
flanqueadas por rvores, nos prdios de pedra da 
universidade, nas casas vitorianas com decoraes berrantes 
da rua Jefferson. E ento imaginou uma runa deserta em seu 
lugar.
        Por que eles fazem isso? Esses torneios, quero dizer?
Hastings falou com pacincia, como se estivesse dando uma 
aula de histria.
        Eles so pessoas cruis e poderosas, com muito tempo 
disponvel e meios para destrurem uns aos outros. Esse 
sistema atende a muitas necessidades. Permite que haja 
disputas com mnimo derramamento de sangue. Os magos 
alegam ser herdeiros do legado do Drago da Ravina da 
Masmorra. Segundo o contrato, voc nos pertence. Desse 
ponto de vista, os guerreiros so considerados propriedade. 
E, portanto, so... descartveis.
Jack pensou em Jessamine Longbranch e em como ela o 
havia tratado. Como se ele fosse algum tipo de animal que 
pudesse ser usado e depois posto para pro- criar. A mo de 
Jack se infiltrou por sob a camisa, onde estava a cicatriz em 
forma de estrela.
        Eles deviam ter me deixado morrer, naquela poca  
sussurrou ele.  Teria sido melhor pra mim.
        Bom, eles no deixaram. E agora temos de lidar com isso.
Hastings tocou o brao de Jack, e Jack recuou.
        O que voc entende sobre isso? Voc  um... um...
        Eu entendo tudo sobre isso.  A voz de Hastings era to 
suave que Jack quase no a ouviu.
"Eu poderia me matar", pensou Jack. Olhou para o peitoril 
de pedra da janela, mediu a queda at o ptio l em baixo. 
Provavelmente, seria o suficiente.  claro, ele poderia acabar 
paralisado. Ento no poderiam obrig-lo a lutar. Suspirou e 
pressionou as palmas contra as plpebras. At suas mos 
tinham calos, por causa do uso da espada. Ele tinha dezesseis 
anos. No queria morrer ou ficar aleijado. Queria se formar 
no colgio, ir para a faculdade e se apaixonar. Nada disso 
parecia provvel agora.
        O que acontece se eu lutar?
Jack percebeu que havia ultrapassado um limite.
        Todos os guerreiros no Jogo so vinculados a um patrono. 
H uma certa proteo concedida a voc e a sua famlia, 
uma vez que seja declarado. Se voc vencer: fama, fortuna. 
E, baseado na atual carncia de guerreiros, provavelmente 
uma trgua considervel at que tenha de lutar de novo.  
Hastings pigarreou.  At eu ouvir falar que a Rosa 
Vermelha estava pondo em campo um campeo, eu tinha 
esperana de que ningum fosse capaz de responder ao seu 
desafio. Se o desafio no  respondido, o Jogo  ganho por 
desistncia. To bom quanto uma vitria e no to 
sangrento.  Hastings quase sorriu.  Voc no tem muita 
experincia, mas a sua arma pode fazer a diferena.
        Vou poder voltar pra casa? Depois?
"Se eu vencer", pensou ele. "Depois que eu matar algum." 
Jack sabia que poderia ter matado Garrett Lobeck. Mas ele 
no estaria enfrentando Garrett Lobeck. Jack varreu aquele 
pensamento de sua mente.
Hastings pensou um pouco.
        No sei, Jack. Essa  provavelmente uma pergunta pra 
voc responder. Voc j est bem diferente do menino que 
foi at Coal Grove.  Ele correu a mo pelo cabelo e se 
apoiou contra a parede.  No  justo, e essas no so 
opes atraentes. Encare deste jeito: mesmo que perca o 
torneio, sua famlia e seus amigos estaro a salvo.  Ele fez 
uma pausa, por uma frao de segundo.  Mas no tenho a 
inteno de ver voc perder.
        O que acontece no torneio?
         uma celebrao que dura vrios dias: cerimnias, 
apostas e os dois lados fazendo pose e desafiando um ao 
outro. Ento os campees lutam entre si em combate um 
contra um. Tudo  regulamentado pelas Leis de Combate.
        Onde acontece?
        Aqui em Cmbria, tradicionalmente, mas  um festival 
mvel. O ltimo foi na Austrlia.
        O que voc lucra com isso?
        Talvez uma chance de mudar o sistema. Talvez uma 
chance de salvar a sua vida. No h nenhuma garantia, nem 
de um nem de outro.
Ele tinha mesmo alguma escolha? Jack no tinha dvidas de 
que Hastings poderia for-lo a participar, quer ele quisesse 
quer no. Ele era como qualquer outro mago no que se 
referia a manipular pessoas. Hastings agia como se seguisse 
algum tipo de livro pessoal de regras. Se era assim, esse livro 
era indecifrvel para Jack.
No havia mesmo esperana. O melhor que podia fazer era 
tentar minimizar o risco para a sua famlia. Talvez isso fosse 
mais fcil do que se jogar de uma janela.
O sopro suave das montanhas resfriou-lhe a pele corada, 
sussurrando-lhe um aviso.
        Vou jogar  disse ele, sem tirar os olhos da janela.
Hastings soltou um longo suspiro. Jack se perguntou se era 
um suspiro de alvio.
        Achei que faria isso  disse Hastings.
        E quanto  tia Linda?
Ela ficaria furiosa com ele, mas no havia nada que ele 
pudesse fazer. Minha escolha. Minha vida e minha morte.
        Estou torcendo para que o torneio termine antes que ela 
descubra que voc est jogando.  Hastings sacudiu a 
cabea.  Ela vai ficar bem zangada comigo. Mas talvez 
zangada no seja to ruim quanto indiferente.
Hastings olhou pela janela.
Jack no conseguiu se conter.
        Mas como pde...? Vocs no...?  A voz dele se desfez 
sob o escrutnio dos olhos claros de Hastings.
        Sim. Estivemos juntos no passado.  Ele deu um meio 
sorriso.  Sabe, Jack, todas as mulheres na sua famlia so 
cheias de magia, herdem a pedra ou no. Elas esto entre as 
vtimas dessa guerra.  Com algum esforo, Hastings 
afastou a melancolia.  Vou tratar dos arranjos para que a 
gente v ao torneio, ento.
Hastings se virou para sair, mas Jack ainda tinha uma 
pergunta.
        Se a Rosa Vermelha j tem um campeo, suponho que 
vou lutar pela Rosa Branca?
O mago parou e se virou, parecendo surpreso e quase como 
se achasse aquilo engraado.
        No, Jack. Pensei que tivesse entendido. Voc vai lutar 
por mim.

Captulo Quatorze
Quando Amantes Se Encontram

Jack retornou ao treinamento no dia seguinte  conversa 
com Hastings. A rotina era quase reconfortante. A idia de 
um prazo era tambm atraente, em comparao com o jogo 
de gato e rato que se desenrolara por meses. Todas as 
manhs ele corria quilmetros pela nvoa, subindo e 
descendo as colinas traioeiras que cercavam a casa de 
pedra. Hastings corria com ele.
Depois voltavam para casa e tomavam o caf da manh com 
Becka. A casa de pedra era quase um castelo, com paredes 
escarpadas como as de uma fortaleza, que davam para uma 
plancie coberta de grama cercada por montes. Jardins 
naturais se estendiam da porta dos fundos at a rea de 
floresta ao p das montanhas. O primeiro andar da casa 
inclua um grande salo, uma biblioteca, uma cozinha e 
reas de refeio. Havia pelo menos seis quartos nos andares 
de cima. Jack nunca viu nenhum empregado por perto, 
embora parecesse sempre haver comida e bebida 
disponveis quando tinham fome. Talvez fosse tudo feito 
por meio de magia.
Aps o caf da manh, praticavam com os floretes na 
clareira atrs da casa. Agora o foco no estava mais em se 
defender, mas em atacar, em penetrar as defesas do 
adversrio, em desferir o golpe mortal. Todas as tardes, 
Hastings mandava guerreiros contra Jack. Alguns eram 
novos para ele, outros j eram velhos conhecidos, de 
combates anteriores.
Agora no havia motivo para erguer uma barreira quando 
ele lutava, para manter bisbilhoteiros a distncia. Ningum 
chegava perto, com exceo de alguma ovelha que se 
perdera nas colinas. De algum modo, Hastings mantinha 
Becka longe dos combates, embora Jack no soubesse dizer 
se era por intermdio de seu encanto pessoal ou de magia.
Jack percebeu que sua falta de experincia deixava Hastings 
preocupado. Apesar do treinamento rgido e da qualidade de 
sua arma, era difcil ignorar o fato de que Jack s vinha 
treinando havia poucos meses. O mesmo talvez se aplicasse 
ao seu oponente, mas ele no podia contar com isso.
Jack desejava saber mais sobre os guerreiros com quem 
lutava durante o treinamento; sobre suas vidas anteriores, 
como haviam se tornado guerreiros, em quantos torneios 
haviam lutado, como haviam morrido. Bom, talvez no essa 
ltima parte...
Na terceira tarde de treinamento, um jovem irrompeu na 
clareira: o quinto adversrio de Jack naquela tarde. O cabelo 
castanho do homem estava puxado num rabicho decorado 
com penas, e ele vestia trajes de camura com franjas. 
Carregava uma machadinha em uma mo, uma espada curva 
na outra e uma faca no cinto. Parecia ser um pioneiro do 
Novo Mundo, do sculo XVII ou do XVIII. Ele correu em 
direo a Jack com um rugido de congelar o sangue.
Jack ergueu a mo.
        Espere um minuto!
Por um momento, Jack achou que o homem no o tinha 
ouvido. Ele continuou vindo, a toda velocidade, como se 
pretendesse arrancar a cabea de Jack sem diminuir o passo. 
Finalmente, no ltimo minuto, o homem freou e derrapou 
at parar um pouco alm do alcance da espada de Jack.
        Como assim, espere um minuto?  O homem fez uma 
carranca indignada.  Voc me chamou para um combate, 
e eu vim, como est estabelecido. Ento v em frente.  
Ele esticou os braos para os lados, uma arma em cada mo, 
pronto para receber o ataque de Jack.
         que...  Jack hesitou  Eu pensei que talvez a gente 
pudesse conversar um pouco antes.
        Conversar um pouco?  O guerreiro fungou e cuspiu no 
cho.  Que diabos, para qu? Estamos lutando, no 
namorando.
        Eu s estava me perguntando de onde voc , como se 
tornou um guerreiro, coisas desse tipo.
Pelo canto do olho, Jack viu Hastings aguardando, as mos 
na cintura, sacudindo a cabea. Provavelmente revirando os 
olhos tambm, mas Jack estava longe demais para ver.
        Por que se importa com isso?  indagou o guerreiro.
        Acho que ns provavelmente temos algo em comum  
insistiu Jack.  J que ambos somos guerreiros, sabe como 
.
O guerreiro olhou-o de cima a baixo, para a blusa de Jack e 
os tnis esportivos.
        Voc no se parece com nenhum guerreiro que eu j 
tenha visto. Se quer mesmo saber, eu comecei lutando 
contra os franceses quando eu tinha 14 anos. Quando me 
cansei daquilo, fui viver com os ndios shawnee. Ento fui 
capturado por magos. Eles me acorrentaram e me puseram a 
bordo de um navio de volta para o Velho Pas. Puseram-me 
nas mos dos mestres dos guerreiros. Eu teria sido capaz de 
cortar a garganta da minha prpria me quando eles 
acabaram comigo. Provavelmente lutei uns oito ou dez 
combates por aqui antes de esticar as pernas. E acho que o 
que temos em comum  que um mago de uma figa nos tem 
presos pelas partes genitais.  Ele apontou para Hastings 
com o polegar.  Agora v em frente, antes que ele faa 
algo de que nenhum de ns goste.
Relutantemente, Jack ergueu a ponta de sua espada e ficou 
de prontido.
        Espere um minuto!  Desta vez era Hastings. O mago 
atravessava o campo em passos decididos.
        Agora olhe s o que voc fez  resmungou o outro 
guerreiro para Jack, praguejando baixinho. Ele se virou para 
encarar Hastings.  No  minha culpa!  gritou ele, 
quando Hastings estava ainda a seis metros de distncia.  
Eu queria lutar, mas ele veio com essa conversa mole. D-
me uma chance, e eu prometo que fao um bom combate. 
 Ele secou o suor do rosto com a manga suja e remexeu os 
ps, nervoso.
        Qual  o seu nome?  perguntou Hastings ao guerreiro.
        Brooks, meu senhor  respondeu o guerreiro, lambendo 
os lbios.  Jeremiah  o meu primeiro nome, meu senhor.
        Eu ouvi voc dizer que lutou em alguns torneios...
Quando Hastings se aproximou, o guerreiro recuou.
        Eu disse isso mesmo, senhor.  Jeremiah Brooks falava 
com relutncia, como se estivesse em dvida sobre se 
deveria admiti-lo ou no.
        timo  disse Hastings.  Preciso de voc para ajudar 
meu aluno aqui.
        Era exatamente isso o que eu ia fazer, meu senhor  
disse o guerreiro, voltando-se para Jack e se agachando para 
pular.
        No!  disse Hastings rapidamente.  Tenho outra coisa 
em mente. Algo um pouco mais... direto.
Brooks comeou a recuar.
        Por favor, meu senhor. Eu vim para um combate e estou 
aqui de bom grado. No me enfeitice.
        No vou machucar voc  Hastings assegurou-lhe.
No convencido, Brooks virou-se para fugir, mas Hastings 
estendeu as mos e o ar tremeluziu ao redor do pioneiro. 
Brooks foi firmemente amarrado, as mos coladas aos 
flancos, as armas, inteis. Ele tentou se libertar, 
contorcendo-se sem sucesso. Os olhos estavam fixos em 
Hastings, arregalados de medo.
Agora foi a vez de Jack.
        No o machuque  protestou Jack.
        No comece voc tambm  Hastings repreendeu-o.  
No vou machucar ningum. S vou tomar emprestado o 
que ele sabe para ajudar voc. Venha aqui, Jack.
        O que voc vai fazer?  Jack perguntou, cauteloso.
        Se vamos trabalhar juntos, voc vai ter de confiar em 
mim de vez em quando  grunhiu Hastings.  Eu falei 
para vir aqui.
Zangado, Jack enfiou a Sombra Assassina na bainha e cruzou 
a distncia entre eles, pondo-se ao lado de Brooks. Hastings 
empurrou os dois para que ficassem de joelhos e se agachou, 
de frente para eles. Ele ps as mos sobre as cabeas deles. 
Brooks murmurava baixinho para si mesmo, praguejando ou 
rezando. Praguejando, sups Jack, baseado no que ouvira at 
ento.
        Vou tentar editar isso, Jack, mas  uma arte e no uma 
cincia, por isso tenha pacincia  disse Hastings, sem que 
Jack entendesse o sentido.
O mago fechou os olhos, concentrando-se, pronunciando 
um feitio, e ento o poder comeou a fluir-lhe pelos dedos. 
Jack sentiu como se seu couro cabeludo estivesse sendo 
espichado para fora do crnio e como se calor e luz flussem 
para dentro de sua mente, uma invaso. Ele queria se livrar 
do toque do mago, mas descobriu que no podia se mexer.
Sua respirao vinha rpida e rasa, em arfadas ineficazes. 
Achou que havia gritado. As imagens comearam a deslizar 
por seu consciente, devagar a princpio, depois mais rpidas, 
como quadros brilhantes de uma fita emaranhada de vdeo. 
Havia paisagens: densas florestas verdes, nunca tocadas por 
um machado, o cho aberto sob um dossel de rvores, uma 
trilha indgena que serpenteava, seguindo um riacho, 
batizado com um nome shawnee, que cantava por sobre as 
rochas ao descer at Ohio. Um largo vale, coberto por 
nvoa, cercado de montanhas, cheio de ossos, aonde os 
guerreiros eram levados para lutar.
Havia pessoas: soldados ingleses de casaca vermelha, 
colonos imundos que transitavam pela floresta to bem 
quanto qualquer shawnee, uma moa numa taberna com 
cabelos dourados e uma blusa que lhe deslizava suavemente 
dos ombros. Magos, de rostos severos e cruis, com suas 
artes negras, com suas coleiras e correntes de metal, que o 
torturavam at que ele implorasse pela oportunidade de 
matar algum, que o fizeram conhecer o medo pela primeira 
vez na vida. Os guerreiros que vinham at ele, altos e baixos, 
alguns muito jovens, mas nenhum muito velho. Ele lia os 
rostos deles, podia ver a esperana e ento a morte em seus 
olhos.
E sensaes: o cheiro da chuva correndo pelos lagos. O 
tilintar e as fascas do ao no ao. O fedor de muitos homens 
sujos juntos por muito tempo. A dana rpida e mortal do 
Jogo. Carne e osso se rendendo  sua lmina, e o som 
molhado quando a retirava. E, no fim, a vida lhe escapando 
suavemente enquanto ele jazia de costas, fitando o cu, o 
sangue jorrando para fora de seu corpo, sabendo que outra 
pessoa lutaria da prxima vez.
Quando Hastings o soltou, Jack caiu de rosto no cho e ficou 
l, tremendo, por um longo tempo. No queria olhar para os 
outros dois, pois no queria que eles o vissem chorar. Pde 
ouvir Hastings falando baixinho  com Brooks, ele 
presumiu. Quando Jack finalmente levantou a cabea, o 
guerreiro havia sumido.
A partir da, Jack sabia tudo sobre Brooks  at demais. 
Para todos os efeitos, ele era o herdeiro das experincias do 
guerreiro. Se isso era bom ou mau, ele no sabia. Ele tinha a 
memria corporal de derramamento de sangue, tanto no 
Novo Mundo como no Velho. Era capaz de dizer que 
direo um homem tomaria numa luta s pelo jeito como 
mudava sua postura ou pela expresso nos olhos. Era capaz 
de atirar uma machadinha e atingir uma rvore a cem passos 
de distncia. No precisava tentar, simplesmente sabia que 
podia. Ele temia os magos e suas mos incandescentes do 
mesmo modo que alguns homens temem cobras e coisas 
voadoras: com um terror irracional e paralisante.
Havia outras coisas. Ele conhecia o sabor de carne seca, 
carne de cervo e de esquilo. Foi s quando Becka comentou 
a respeito que ele se deu conta de que havia adquirido um 
novo vocabulrio nada elegante. Depois disso, ele se 
esforou ao mximo para manter a lngua sob controle.
Cuidado com o que deseja. Mais uma vez, estava zangado 
com Hastings, que lhe havia dado uma histria que nunca 
havia pedido. Ao mesmo tempo, reconhecia-o como o 
presente que era.
Ele venceu os dez combates seguintes em que lutou.
Os dias se passaram, mais do que os poucos que Becka havia 
prometido, e ainda assim ela ficou. Ela era uma presena 
quase etrea, movendo-se pelos corredores e jardins, lendo 
no ptio, escrevendo poesia. Como Jack e Hastings 
passavam muito tempo treinando, ela passava um tempo 
considervel sozinha. Mas nunca se queixava.
Os trs sempre jantavam juntos.  noite, aps a ceia, Becka 
e Hastings saam para longas caminhadas nas colinas. Era 
nesse perodo que Jack tirava proveito da biblioteca. Era 
uma maravilhosa coleo de livros, alguns raros e valiosos: 
literatura inglesa, estudos de grandes filsofos, trabalhos 
cientficos, volumes sobre misticismo oriental. O contedo 
de uma caixa de vidro em um canto exercia uma fascinao 
especial em Jack. Era uma coleo de livros sobre magia. 
Embora fosse protegida por um feitio de tranca, Jack sabia 
desfaz-lo com facilidade. Ele passava horas lendo textos 
antigos, alguns em latim, alguns em ingls mdio, alguns em 
francs (que ele havia estudado na escola, mas o vocabulrio 
era bastante diferente do que estudara). Desejou que Nick 
estivesse l para traduzir. Ele bem que precisava de alguns 
conselhos.
Jack cuidara para no revelar nada a Hastings sobre seu 
treinamento em magia. Acreditava que manter aquilo em 
segredo poderia ser uma vantagem, em um jogo no qual ele 
tinha poucas.
Depois de lutar durante a maior parte do dia, Jack sempre 
chegava exausto ao cair da noite e ia cedo para a cama. Nem 
mesmo sua relutncia em deixar a me sozinha com Leander 
Hastings era capaz de mant-lo acordado.
Jack sentia-se ambivalente em relao  presena de Becka. 
Sabia muito bem que a me nunca aprovaria a deciso dele 
de lutar no torneio, mas estava contente pela oportunidade 
de passar o que poderiam ser os seus ltimos dias com ela 
antes do solstcio de vero.
s vezes ele olhava no espelho de Blaise, na esperana de 
que se lhe revelasse alguma coisa. Mas sobre a superfcie 
prateada uma nvoa pairava, como a bruma que envolvia as 
montanhas ao pr do sol.
Certa noite, dez dias depois da chegada dele a Cmbria e 
quatro antes do solstcio de vero, Becka e Hastings haviam 
sado para a caminhada de costume, e Jack estava imerso 
num livro sobre transformare  ou seja, a arte de 
transformar uma coisa em outra , quando ouviu um rudo 
de uma porta se fechando em algum lugar da casa. Pensou 
que talvez Becka e Hastings houvessem voltado mais cedo. 
Devolveu o livro rapidamente  estante, fechou o armrio e 
reaplicou o feitio de tranca.
No ouviu nenhuma voz vinda do corredor, ningum 
chamando o seu nome. Curioso, ele se esgueirou at a porta 
da biblioteca e olhou para o salo de um lado a outro. Vazio. 
Poderia ter sido o vento? Era improvvel que qualquer brisa 
conseguisse mover as pesadas portas de madeira daquele 
lugar, pensou ele. Um intruso? Talvez os magos da Rosa 
Vermelha ou da Branca o houvessem seguido at ali.
A Sombra Assassina estava no Grande Salo, onde ele a 
deixara depois do treinamento. Ele seguiu silenciosamente 
pelo salo at a enorme entrada com dois andares de altura e 
examinou a sala adiante. Estava fracamente iluminada pela 
luz plida que vazava pelas janelas da galeria. No havia 
nenhum sinal de algum ou de alguma coisa se movendo no 
piso principal ou na galeria acima. A espada ainda estava 
apoiada contra o canto da lareira. Ele respirou fundo e 
correu por sobre os ladrilhos que o separavam de sua arma. 
Tinha alcanado o degrau de proteo da enorme lareira 
quando ouviu um rudo atrs de si. Jack apanhou a espada e 
girou, meio agachado, e se viu cara a cara com Linda 
Downey.
 Jack!  Ela o agarrou e o abraou com fora, tomando 
cuidado para evitar a espada.  Sabia que voc no podia 
estar muito longe da espada.  Ela lhe deu um tapinha no 
brao da arma, ento o soltou e o fitou com ateno.  
Voc est bem? O ombro est curado?
Jack fez que sim com a cabea, completamente atrapalhado 
com aquela reviravolta. Largou a espada de novo na lareira, 
com cuidado, e recuou at suas costas encostarem contra a 
estrutura de pedra. As idias giravam loucamente em sua 
cabea. E agora?
Linda no lhe deu muito tempo para pensar. Parecia estar 
com pressa.
        Onde est o Hastings?  indagou ela.
Jack encontrou sua voz.
        Saiu para caminhar, acho.
        timo. Temos de sair daqui antes que ele volte.
Ela apanhou o estojo e a espada, passando-os para Jack.
        C-como nos encontrou?  gaguejou Jack.
        Eu sabia que ele tinha uma propriedade aqui. S levei 
algum tempo pra encontrar o lugar. Venha, Jack  disse ela 
com urgncia.  Estamos em perigo aqui.
        No posso ir embora sem mais nem menos  protestou 
Jack.
        Podemos escrever para ele quando estivermos longe 
daqui  replicou Linda, com raiva.  Sem endereo de 
remetente.
        Mame est aqui  disse Jack, enfim.
        Becka?  O tom de Linda era de surpresa.  Eu estava 
to preocupada com ela. Ela estava aqui esse tempo todo? 
Graas a Deus ela est bem.  Linda fez uma pausa e 
franziu o cenho.  Mas o que ela est fazendo aqui?
        O Hastings achou que seria melhor se ela no estivesse 
procurando por mim por toda a cidade, fazendo perguntas, 
quem sabe at indo procurar a doutora Longbranch.  Jack 
deu de ombros de maneira nada convincente.
        Ela est na casa?  Linda apressou-se em perguntar.
Jack sacudiu a cabea.
        Ela saiu para caminhar com ele.
Linda fitou-o por um momento, ento pareceu chegar a uma 
concluso.
        Deixa pra l. Preciso levar voc pra um lugar seguro, 
depois eu venho buscar a Becka. O Nick est esperando por 
ns em Oxford. De l, vamos achar um lugar melhor.  
Havia uma mistura de seduo de encantadora e desespero 
na voz dela.  Por favor, Jack. Voc tem de vir comigo 
agora!
        No pode pelo menos ficar para uma xcara de ch?  A 
voz veio de junto  porta.  Ou um copo de vinho, em 
nome dos velhos tempos?  Era Hastings, o brao 
carregado de lenha, Becka logo atrs dele.  Eu j ia 
acender o fogo.  Ele se virou para Becka.  Veja, Becka, a 
sua irm veio nos visitar.
        Linda!  Becka abraou a irm.  Como nos encontrou? 
Eu queria telefonar pra voc, mas no tem telefone por aqui. 
Voc viu o Jack? Ele est bem melhor.
Linda se afastou do abrao de Becka o suficiente para olhar 
com raiva para Hastings.
        Lee, isso  bem a sua cara.
Becka fitou-a, olhando da irm para o mago.
        Vocs se conhecem?
Hastings ergueu os olhos da lareira, apoiando os antebraos 
nos joelhos.
        Becka, perdo. Voc se importaria de ir buscar um pouco 
de vinho pra ns?
Becka assentiu, contraindo os lbios, pensativa.
        Vou ver se encontro algo na cozinha  disse ela, saindo 
do salo.
        Quer dizer que voc abandonou minha Sociedade 
Chauceriana  disse Hastings, levantando-se. Ele apontou 
para a lenha, que se incendiou.  Espero que eles estejam 
em boas mos.  Ele evitava cuidadosamente olhar para a 
encantadora, o que no teria sido fcil para qualquer 
homem.
        Esto suficientemente seguros  replicou ela.  Os pais 
de Will esto com eles. Esto de partida para uma excurso 
pela Esccia e pela Irlanda. O que voc deveria saber, j que 
foi voc quem planejou tudo.
        Ento talvez... talvez voc possa ficar alguns dias...  Ele 
olhou para ela por um instante, depois para o outro lado. 
Para surpresa de Jack, ele soava esperanoso, quase ansioso.
Linda no queria nem saber.
        Eu agradeo tudo o que fez, mas acho que  hora de Jack 
e Becka irem a Oxford  disse ela, afetando calma.  Meu 
carro no est muito longe, e eu vim para busc-los.
Hastings cruzou os braos com um murmrio exasperado.
        Voc acha mesmo que Jack pode ir a Oxford? Com todos 
os magos do Reino Unido  caa dele?
        Bom, aqui  que ele no pode ficar!  resmungou Linda, 
cerrando os punhos.
        Com quem voc est preocupada? Jack ou Becka?  Ele 
ergueu uma mo para impedir um ataque verbal.  No 
percebe? A Jessamine sabe quem ele . O Geoffrey tambm. 
Acabou.
Jack no conseguiu mais agentar aquele jogo.
        Eu decidi lutar no torneio, tia Linda  disse ele.
        Jack!  Ela se voltou para Hastings.  A idia era que 
voc impedisse isso! Que tipo de feitio voc ps nele?
Hastings suspirou.
        Se eu quisesse for-lo a isso, eu poderia t-lo levado 
comigo h muito tempo e me poupado um monte de 
problemas.
Becka retornou com uma garrafa de vinho e alguns copos. 
Ela estudou os rostos irados e serviu um copo para Linda 
primeiro.
        Quem sabe voc se sinta melhor depois de beber um 
pouco de vinho  sugeriu Becka com calma, passando-lhe 
o copo.
        H mais de uma maneira de enfeitiar uma pessoa  disse 
Linda, em tom sombrio. Ento se conteve, olhando de 
relance para a irm.  Becka, eu preciso falar com o 
Leander em particular.
Becka passou um copo de vinho a Hastings e pousou uma 
mo no brao dele, um gesto de apoio.
        Linda, eu quero saber por que est sendo to rude com 
ele. Ele salvou a vida de Jack l em Trinity. Quando Jack 
ficou doente em Londres, ele nos convidou para vir para c 
para que Jack pudesse se recuperar. Ele tem sido 
absolutamente generoso com o Jack e comigo. Ento voc 
aparece aqui sem avisar e age como se ele fosse um vilo na 
prpria casa dele.
        Leander!  Linda vibrava de raiva.
        Oh, est bem!
Com relutncia, Hastings largou o copo na mesa. Passou um 
brao em torno de Becka e murmurou baixinho algumas 
palavras. Becka ficou paralisada, olhos e lbios abertos, como 
se estivesse prestes a dizer alguma coisa. Hastings levantou-a 
e deitou-a gentilmente no sof. Ento pegou seu copo 
novamente, segurando-o  frente dele como um escudo.
        Diga o que tem a dizer, se acha que precisa  disse 
Hastings a Linda.
Linda se virou para Jack.
        Jack, se voc participar desse sistema brbaro, s vai fazer 
com que ele se perpetue.
Hastings esvaziou o copo num instante e o encheu de novo 
com o contedo da garrafa sobre a mesa.
        Linda, no vou deixar que interfira nisso  disse ele com 
suavidade.
        Quer dizer que agora resolveu usar meninos de 16 anos 
para conseguir sua vingana, no ?
        Se eu pudesse fazer isso por conta prpria, no acha que 
eu faria? Voc me conhece bem demais para pensar isso.
Jack estava totalmente perdido.
        Do que vocs esto falando?  indagou ele. Deixou-se 
cair pesadamente numa cadeira.
A voz de Linda era fria e seca.
        Voc no me disse uma vez que o senhor Hastings 
sempre escolhe sobre o que ele quer falar? Suponho que ele 
tenha escolhido no contar a voc sobre a famlia dele.
Jack sacudiu a cabea, j se sentindo deprimido. Sabia que 
estava prestes a ouvir outra histria antiga. Sentia-se como 
se sua vida tivesse sido inteiramente arruinada por eventos 
que haviam ocorrido muito antes de ele ter nascido.
        A irm mais velha de Leander, Carrie, nasceu guerreira. 
Lee passou a infncia mudando-se de um lugar para outro, a 
famlia tentando fugir das Rosas.
        Linda tomou um gole de vinho. Hastings fitava o fogo.  
No deu certo. Aos 18 anos, ela foi encontrada por Geoffrey 
Wylie e reivindicada pela Rosa Vermelha.
        O tom dela suavizou-se.  Ela nem mesmo chegou a 
disputar um torneio, porque foi morta antes pela Rosa 
Branca. O pai e o irmo dele foram mortos, e a me nunca 
mais foi a mesma. Leander tinha dez anos na poca.
        Wylie?  repetiu Jack.
Ela olhou de relance para Jack.
         uma histria que tem se repetido milhares de vezes na 
nossa famlia. S que o Leander ficou obcecado com a idia 
de lutar contra o Wylie e as Rosas desde ento. Por isso, 
quando eu estava procurando algum para me ajudar a 
proteger voc contra as Rosas, pensei nele. Nunca imaginei 
que ele decidiria se submeter ao sistema que matou a irm.
Linda jogou o que restava do vinho dela no rosto de 
Hastings. Ele a segurou pelo pulso com uma mo e sacudiu 
at que o copo casse. Este se despedaou nos ladrilhos, 
espalhando gotas de vinho como sangue sobre a lareira. 
Hastings limpou o vinho de seus olhos com a outra mo.
        No me faa perder a cabea, Linda.  A voz dele era 
enganosamente gentil.
Linda no recuou, mas se inclinou na direo dele, pondo-se 
na ponta dos ps para se aproximar de seu rosto.
        Por qu? Foi isso o que aconteceu com a Susannah?
A luz do dia havia fugido por completo, e a sala era 
iluminada apenas por magia e pelas chamas na lareira. Por 
um momento, a pequena cena pareceu uma pintura, o alto 
mago, a pequena encantadora, ambos emitindo fragmentos 
de luz em espiral; Jack e a me dele, os dois congelados. 
Ento Hastings soltou o pulso de Linda e recuou. Os dois se 
encararam por um longo momento.
        Algo assim  disse ele.
O mago se sentou em uma cadeira junto  lareira e ps a 
cabea entre as mos.
Jack olhou da tia para Hastings e de volta para a tia. Linda 
apoiou-se, cansada, contra a lareira.
        Jack, conhea o homem que assassinou a sua tatarav.
        Mas isso foi h cem anos  protestou Jack.  E ela caiu 
do cavalo!
Nada daquilo fazia qualquer sentido.
        No, Jack.  Hastings se endireitou, mas no olhou para 
ele.  A Susannah era guerreira, mas tambm era pacifista. 
Ela no quis me ajudar a lutar contra as Rosas, nem me 
permitiu treinar o filho dela. Quando ela descobriu qual era 
o meu propsito, ela no quis ter nada a ver comigo. Eu no 
consegui convenc-la de que fugir e se esconder jamais 
daria certo.
        Ento voc a matou e roubou a pedra dela  disse Linda 
baixinho.
Ele estremeceu.
        No exatamente. Ela se matou por minha causa. H uma 
diferena, mesmo que pequena. Ela ofereceu a pedra, e eu 
aceitei.  Hastings estendeu a mo esquerda; a pedra em 
seu anel brilhava.  Uso para me lembrar do que fiz e do 
que perdi. ...  uma fonte de poder, mas, se eu pudesse 
voltar atrs, eu voltaria, numa frao de segundo.
Jack se lembrou da cena no espelho de Blaise, a jovem de 
cabelos ruivos que ele pensara ser sua me, a luta no topo do 
penhasco. Ela havia enterrado a adaga em seu prprio peito. 
Isso, pelo menos, era verdade.
Houve um breve silncio, quebrado apenas pelos estalos da 
resina no fogo, ento Jack falou:
        Como soube disso?  perguntou ele  tia.
        Estava no obiturio dela. O corpo foi encontrado por Lee 
Hastens. Hastings, para ns. Eles no eram muito exigentes 
a respeito de ortografia naqueles tempos. Havia um 
ferimento no peito dela, mas tenho certeza de que no foi 
difcil para um mago plantar a histria sobre uma queda do 
cavalo. Will e Fitch perceberam parte da coisa.
        Mas isso foi h cem anos  repetiu Jack, com teimosia.
Havia um dbil sorriso no rosto de Hastings.
        Eu sou bem mais velho do que voc imagina, Jack. Ns, 
magos, temos vidas longas e grande memria. Por que acha 
que esse sistema de torneios tem durado tanto tempo?
        E quanto ao filho da Susannah?  Aos poucos, Jack 
montava a histria em sua cabea.  O que aconteceu com 
ele?
        O nome dele era Andrew  respondeu Hastings.  Seu 
bisav. Eu o ajudei a fugir com o pai depois que a Susannah 
morreu. Fiquei de olho nele, mantive as Rosas a distncia, 
mas resolvi no interferir na vida dele depois da morte da 
Susannah.  Havia um sculo de dor na voz dele.
O homem no espelho havia chorado, ninando a jovem em 
seus braos.
        Voc estava apaixonado pela Susannah  disse Jack.  E 
 voc quem cuida do tmulo dela.
As palavras lhe voltaram. "Os magos tm grande memria."
Hastings no o contradisse. Esticou as pernas longas e ficou 
olhando para o fogo, abatido.
Aps um momento, Linda disse, num tom de voz capaz de 
cortar diamantes:
        Pois , Jack, parece que o senhor Hastings est 
acompanhando a linha feminina de descendentes da famlia 
Downey. Primeiro a sua tatarav, depois eu. Quem sabe a 
sua me seja a prxima.
        Parem com isso!  Jack falou alto o bastante para calar a 
ambos.
Jack estava recebendo informaes demais, mas ainda no o 
bastante para entender. Ele nunca tinha visto a tia naquele 
estado, nunca, e esperava nunca v-la assim de novo. Havia 
um toque cruel e primitivo na raiva dela que o assustava. 
Agora estavam ambos encarando-o.
        Becka  minha me  continuou Jack, em voz mais 
baixa.  Ela  uma tima advogada e defensora dos direitos 
civis e sempre apoia o lado mais fraco numa luta. Ela adora 
literatura medieval e faz com que os alunos dela adorem 
tambm. Ela gosta de jardinagem e adota bichinhos 
perdidos. E ela no tem nada a ver com isso.
         o que os magos fazem, Jack  disse Linda, em tom 
calmo.  Eles vo atrs do que querem e atropelam as 
outras pessoas no processo. E parece que voc est a 
caminho de se tornar o prximo sacrifcio na jornada do 
senhor Hastings por vingana.
Hastings esticou os dedos.
        Eu no pedi este trabalho. Voc me pediu pra salvar a vida 
dele, e eu estou fazendo o melhor que posso.  Ele sorriu 
com amargura.  No entende? Eu fracassei. H mais de 
cem anos que luto contra as Rosas, tentando organizar uma 
rebelio contra o sistema, treinando guerreiros para se 
defenderem, armando incurses e resgates ousados. E para 
qu? Para todos os efeitos, a Ordem dos Guerreiros est 
extinta.  A voz dele suavizou-se.  No estou dizendo 
nada que voc no saiba. Voc tem lutado nesta guerra 
desde que tinha a idade do Jack. Pelo que ouvi, ainda est 
lutando. Mas no ao meu lado.  Ele sustentou o olhar por 
um longo momento, depois desviou os olhos para o fogo.
Linda parecia comovida.
        Lee, eu...
        Nem isso  o bastante para eles  grunhiu Hastings.  
Agora Jessamine Longbranch est tentando descobrir como 
criar novos guerreiros. Logo vo desencavar e retalhar os 
corpos dos que eles assassinaram.  Ele tocou o anel em seu 
dedo, constrangido.
        Por isso  hora de mudar de estratgia. Eu venho 
cortando os braos da besta e no adiantou. Desta vez, eu 
vou atrs do corao.
        Voc vai tentar obter controle sobre o Conselho? -
sussurrou Linda.   sobre os artefatos?
Hastings confirmou com a cabea.
        Se eu jogar com o Jack e vencer, o Conselho dos Magos e 
todo o arsenal de armas mgicas sob suas malditas regras vo 
ser meus, pelo menos at o prximo torneio. E no vai 
haver outro, se eu puder impedir.  Ele olhou para Jack.  
Como eu disse a voc, eu tinha esperana de que nenhuma 
das Casas fosse capaz de conseguir um jogador. Eles teriam 
de desistir, e voc no teria de lutar.
        Bem, quem sabe voc consegue encontrar e eliminar o 
jogador da Rosa Vermelha  disse Linda em tom cido, 
imitando a doutora Longbranch.  Isso seria perfeito.
Hastings bateu com o punho na mesa, chacoalhando a 
loua.
        Voc tem uma sugesto melhor? Eu no teria feito isso, se 
no achasse que era a melhor chance do Jack.  tarde 
demais. Como voc acha que vai ser o futuro dele? Onde 
voc est pensando em se esconder? Ele ser abatido mais 
cedo ou mais tarde, assim como o resto dos Weirlinds, e no 
h nada que eu ou voc possamos fazer. E, se Jack for 
apanhado por eles, voc sabe o que vo fazer com ele, no 
sabe? Pelo menos, se eu for o patrono dele, isso no vai 
acontecer.
        O senhor Hastings me disse que tanto a Rosa Vermelha 
quanto a Branca vo me caar a partir de agora  disse Jack, 
com pouca emoo.  Ele disse que eles iriam atrs da 
minha famlia pra me pegar.  verdade?
Linda suspirou.
        Esse tem sido o padro  admitiu ela.
        No importa aonde eu v, eles vo me seguir. Eu nunca 
vou poder ir pra casa.  Jack balanou a cabea.  J estou 
cansado, e s faz alguns meses que isso comeou. No posso 
fazer isso a vida toda. Pelo menos esse jeito  simples e 
direto.
Houve um breve silncio.
        Onde vai ser o torneio?  indagou Linda.
Hastings deu de ombros.
        Na Ravina do Corvo, provavelmente.
Linda inspirou rapidamente, tentando tomar flego.
        O que faz voc pensar que vai conseguir sair de l vivo? 
Os membros do Conselho vo tirar a sorte pra escolher 
quem vai ter a honra de cortar a sua garganta.
Hastings sorriu.
        Como patrono, estarei protegido.
        At algum conseguir apanhar voc sozinho. As regras 
dos magos foram feitas pra serem quebradas  disse Linda. 
Para a surpresa de Jack, havia lgrimas nos olhos dela.  
Leander, talvez voc esteja determinado a se matar, mas 
deixe o Jack fora disso.
        Eu j estou dentro, tia Linda  disse Jack baixinho. 
Talvez fosse o efeito da fuso com Brooks, mas havia uma 
parte dele que no era mais uma criana.
Linda parecia sentir isso tambm.
        Voc est diferente. Primeiro o seu corpo, e agora...  As 
lgrimas haviam escapado e agora deslizavam pelas faces.  
Voc tem 16 anos  murmurou ela.  Voc  jovem 
demais pra lutar.
        Eu nunca escolhi isso  disse Jack. Ele se voltou para 
Hastings, sentindo-se estranhamente calmo e resoluto.  
Voc precisa deixar minha me ir embora agora. A tia Linda 
pode lev-la de volta. Seja l o que for que vocs dois 
inventarem pra impedir que ela se preocupe, est bom pra 
mim. Vou estar no seu combate. Mas no quero que ela se 
envolva com isso ou com voc. Acho que mereo pelo 
menos isso.
        Jack, eu sinto muito. Vou mandar sua me de volta com a 
Linda  disse Hastings.
O mago se ajoelhou ao lado de Becka e tomou-lhe as mos. 
Ele falou baixinho e, embora Jack escutasse atentamente, 
no conseguiu discernir a maior parte do feitio. Becka 
piscou e se sentou, parecendo confusa.
        Becka, a Linda est aqui para levar voc at Oxford. O 
Jack vai ficar comigo por alguns dias. Vamos acampar em 
Langdale Pikes. Eu o levo de volta a voc na semana que 
vem.
Jack percebeu que ele estava usando de magia.
Becka fitou Hastings por um momento e assentiu.
        Acho que eu sabia que no podia ficar para sempre. Mas 
obrigada por sua... hospitalidade. Sei que vai se divertir, 
querido  disse ela a Jack, forando um sorriso.  S levo 
um minuto pra pegar minhas coisas.  Pareceu que ela 
pretendia dizer algo mais, mas em seguida se esqueceu do 
que era. Ela se levantou, abraou o prprio corpo. Depois se 
virou e subiu as escadas.
O olhar de Hastings seguiu-a por um longo momento, ento 
ele se voltou para Linda.
        Ela vai dormir por todo o trajeto e, quando acordar, no 
vai se lembrar de muito sobre a estadia dela aqui. Mas ela 
no vai ficar preocupada, sabendo que o Jack est 
acampando comigo.
0         No vou deixar voc aqui, Jack  disse tia Linda, com 
teimosia.  No acha que a sua me vai perceber alguma 
coisa quando voc morrer?
        No h nada que voc possa fazer. Vou ficar bem  
replicou Jack, com mais confiana do que sentia.  Alm 
disso, talvez eu ganhe.
Becka retornou com a bagagem. Linda abraou Jack com 
fora, o rosto molhado de lgrimas. Becka lhe deu um 
abrao mais seco. E ento as duas saram pela porta.
Com a sada das mulheres, a manso ficou parecendo sem 
vida. O mago e o guerreiro ficaram ali por um momento, um 
tanto constrangidos, sem saber o que dizer. L no fundo, 
Jack sempre soubera que daria nisso, desde a primeira vez 
que vira Hastings em Trinity. Mesmo ento, tinha visto o 
perigo nele e, de algum modo, sentido tambm sua histria 
trgica. Cada vez mais, no havia revelaes, apenas o 
desvelar de verdades sabidas havia muito tempo, mas 
lembradas vagamente. Tudo tinha sido escrito havia muito 
tempo. Os destinos deles estavam ligados.
Quanto a Hastings, parecia mais vulnervel do que antes. Ele 
era imperfeito; acima de tudo, humano. Um homem que se 
considerava um fracasso em sua misso de vida. Que estava, 
talvez, caminhando em direo  morte na Ravina do 
Corvo. E levando Jack consigo.
Captulo Quinze
A Ravina do Corvo



Aquelas montanhas eram cheias de magia antiga, almas 
perdidas e melancolia. E naquele dia estavam cheias de 
chuva e nevoeiro tambm. Jack e Hastings deixaram o carro 
num estacionamento a certa distncia de Keswick. Quanto 
mais eles subiam, mais brutal ficava o clima. O vero em 
Lake District parecia com o incio do inverno em Ohio. Jack 
vestia uma jaqueta pesada que havia tomado emprestada de 
Hastings, calas de alpinismo, um grosso suter e botas 
resistentes de caminhada. Carregava suas outras roupas numa 
mochila e a espada pendurada s costas, a fim de que suas 
mos ficassem livres para a rpida travessia do terreno 
inclemente.
Hastings imprimia um ritmo rigoroso, subindo sempre, 
seguindo um caminho que Jack mal conseguia ver sobre a 
rocha traioeira.
O pico agigantava-se diante deles. A Cabea do Corvo, 
Hastings o chamara. Mas sua extrema melancolia combinava 
com o estado de esprito atual de Jack.
Eles subiram ainda mais na ravina, mantendo o pico  
esquerda. A rota que seguiam coincidia com um riacho que 
saltava e rolava por entre as pedras partidas. As rochas ao 
longo da margem estavam molhadas e escorregadias. 
Escalaram os ltimos 90 metros quase na vertical at 
chegarem a um local onde a gua parecia explodir da face de 
um penhasco.
        Esta  a represa da Ravina do Corvo.  Hastings precisou 
gritar acima do troar das cataratas. Aquilo deixou Jack to 
perdido quanto antes. Mas ele sabia que seu destino era a 
Ravina do Corvo, o local tradicional do torneio. Hastings 
havia sugerido que eles entrassem pelos fundos, por razes 
de segurana.
        As Leis de Combate no comeam a valer at que voc 
seja oficialmente registrado no torneio  havia dito 
Hastings.  No quero arriscar uma emboscada no meio do 
caminho.
Jack se lembrou do que Linda havia dito sobre os membros 
do Conselho quererem cortar a garganta de Hastings e 
presumiu que o mago poderia ter razes pessoais para entrar 
despercebido. Como se o terreno e o clima no fossem ruins 
o suficiente, a idia de uma emboscada havia acrescentado  
viagem aquele elemento extra de suspense. Jack se viu 
reagindo a cada barulhinho ou sinal de movimento.
Hastings iou-se com facilidade at uma pequena plataforma 
de rocha junto s quedas e estendeu a mo a Jack para que 
pudesse subir atrs dele. Todas as pedras e pontos de apoio 
estavam escorregadios por causa dos borrifos de gua. 
Hastings apontou para dentro das quedas.
  ali que ns vamos.
A borda ao longo do desfiladeiro no tinha nem 20 
centmetros de largura. Achatando-se contra o penhasco e 
abraando a fria face rochosa, eles conseguiram deslizar 
atravs das quedas e entraram em uma cmara escavada na 
rocha. Era fria e envolta no vapor das quedas trovejantes. 
Olhando para alm das guas da cascata, Jack viu quanto 
haviam escalado.
No fundo da caverna, um estreito caminho serpenteava 
entre dois imensos blocos de pedra. Aquela era a estrada que 
deveriam tomar. Agora eles quase no caminhavam mais, 
apenas escalavam. Se a subida fosse s um pouco mais 
ngreme, eles precisariam de cordas, pensou Jack, apertando 
os dedos ao redor das pedras sobre sua cabea e iando-se 
para cima, tentando no pensar no que aconteceria se 
escorregasse.
Seus pensamentos desviaram-se para o seu adversrio, 
tentando dar corpo s vagas especulaes. Hastings supunha 
que o oponente de Jack devia ser jovem, ou a Rosa 
Vermelha j teria convocado um torneio antes. A Rosa 
Branca havia mantido o trofu por anos, uma situao que 
irritava a outra Casa. Como a maioria dos guerreiros era 
capturada quando criana, ele provavelmente vinha 
treinando havia anos. Talvez aguardasse aquela luta com 
entusiasmo, e no terror.
Mais meia hora de dura escalada e eles estavam sobre a 
borda, olhando para baixo, para a Ravina do Corvo.
No podiam ver muita coisa. O vale estava coberto por uma 
nuvem cintilante que poderia ser nvoa, mas que mesmo os 
olhos leigos de Jack reconheciam como uma barreira de 
magia.
        Como sabia como chegar aqui?  perguntou Jack, lutando 
para recuperar o flego e com esperanas de atrasar o mago 
por tempo suficiente para alcan-lo.
        J tive de entrar e sair despercebido da Ravina do Corvo 
no passado  replicou Hastings. O mago no estava nem 
respirando rpido. Hastings soltou sua mochila e tirou dela 
dois mantos bem leves. Vestiu um por sobre as roupas e 
passou o outro a Jack.  Vista isso  ordenou.
Jack vestiu o manto e cobriu a cabea com o capuz.
        J esteve num torneio antes?  indagou Jack.
        Nunca participei, mas perturbei alguns.
Hastings enfiou a mo dentro da mochila e puxou
de dentro um pequeno objeto, que entregou a Jack. Era uma 
pedra cinzenta, talhada toscamente, oval, mais ou menos do 
tamanho da palma da mo dele. Era coberta por runas e 
smbolos desconhecidos e pendia de uma corrente de prata 
finamente lavrada. Parecia absorver a luz em vez de refleti-
la.
Jack olhou para Hastings.
        Ponha no pescoo  disse o mago.  Eu gostaria de 
surpreend-los, se eu puder.
Hastings no deu mais nenhuma explicao.
Jack passou a corrente ao redor do pescoo e enfiou a pedra 
dentro do colarinho da blusa. Sentiu-a contra a pele do 
peito, criando uma leve sensao de formigamento. O mago 
pousou a mo sobre o brao de Jack, falou algumas palavras 
em latim e desapareceu.
        Hastings!  Jack conseguia ainda sentir o calor da mo do 
mago.
        Estamos os dois invisveis, Jack. A pedra  chamada dyrne 
sefa. Criada por feiticeiros. Ela d poderes incomuns at 
mesmo para os magos. Fique por perto, no quero perder 
voc.
E Hastings foi em frente, mais devagar agora, descendo o 
lado interno das montanhas que cercavam a Ravina. O solo 
era traioeiro, e Jack tinha de se concentrar para evitar 
tropear e, ao mesmo tempo, manter-se ao alcance de 
Hastings.
Ao se aproximarem da barreira, o mago pronunciou um 
feitio, e um rasgo irregular apareceu na nvoa diante deles. 
Eles passaram, e o rasgo se fechou atrs deles. Agora 
conseguiam enxergar claramente.
A Ravina do Corvo era um vale amplo e raso, cercado por 
todos os lados por penhascos escarpados e montanhas 
carrancudas. Riachos alimentados pela neve desciam dos 
flancos da Cabea do Corvo e serpenteavam pela base do 
vale, cortando-o em clareiras e parques atapetados por 
rvores, finalmente escapando atravs da ravina que haviam 
acabado de escalar. Na extremidade oposta da bacia, a meio 
caminho da encosta, um grande castelo fora construdo na 
montanha.
Havia sido feito da rocha nativa e lembrava um afloramento, 
parte da paisagem. Trs dos seus lados eram cercados por 
jardins em patamares que desciam at a base da Ravina.
Muito acima de suas cabeas, a meio caminho da subida da 
Cabea do Corvo, algo brilhava, refletindo a luz nos olhos de 
Jack. Ele os contraiu, protegendo-os. Um rochedo cristalino 
se projetava do granito, como que tentando escapar de sua 
infeliz priso. "Deve ser imenso, toneladas de pedra", pensou 
ele, "para parecer to alto desta distncia". Tinha vrias faces 
luminosas e uma ponta achatada. O brilho que Jack via no 
era a luz do sol refletida, mas vinha do prprio corao da 
pedra.
        O que  aquilo?  indagou ele a Hastings, apontando. A 
se lembrou de que Hastings no podia v-lo.  Aquela 
rocha brilhante ali?
Ele percebeu, pelo tom de voz de Hastings, que ele achara a 
pergunta engraada.
        No  uma rocha, Jack. Aquela  a Cabea do Corvo, a 
alma da montanha, tambm chamada de Pedra Weir, o 
Dente do Drago. Dizem que os cristais que carregamos em 
ns se originaram daquela pedra, liberta e modelada por uma 
magia mais poderosa do que qualquer uma conhecida hoje. 
 Ele fez uma pausa.   a pedra que nos mantm 
aprisionados  acrescentou ele, baixinho.
Jack no entendeu.
        O que voc quer dizer?
        As Leis do Combate so parte de um contrato que 
mantm o drago dormindo na montanha. Se as regras 
forem quebradas, o drago acorda.
        Isso  verdade?  Jack estremeceu, erguendo o olhar para 
a pedra que cintilava como um farol na parede da montanha, 
enquanto o topo estava ainda coberto pela nvoa.
Hastings deu de ombros; Jack tinha certeza de que ele o fez, 
embora no pudesse v-lo.
         o que dizem  repetiu ele.
O clima estava melhor no vale do que estivera nas 
montanhas, embora tudo estivesse respingando com a 
umidade da chuva recente. A parede de pedra em torno 
deles desviava o forte vento, o que o tornava notavelmente 
mais quente. O capim da clareira era luxuriante, em verdes 
profundos e amarelos onde floresciam os botes-de-ouro. 
Estava quase ensolarado, embora a luz tivesse uma estranha 
tonalidade flamejante criada pelo nevoeiro mgico.
Entre eles e o castelo, a Ravina fervilhava de atividade. 
Prdios, tendas e trailers estavam espalhados de ambos os 
lados do vale, como se uma mo gigante os tivesse jogado l 
ao acaso. As pessoas cruzavam as clareiras como enxames, 
todas parecendo ter pressa. Estandartes brilhantes 
esvoaavam em muitas das estruturas temporrias. Alguns 
traziam uma rosa branca e outros, uma vermelha. Dava para 
sentir vagamente o cheiro de comida. Aquilo lembrava a 
Jack uma feira renascentista que visitara anos antes. Ou 
como imaginava ser um acampamento cigano.
Um grande espao havia sido deixado livre de construes 
na base do vale, diante das paredes do castelo. Equipes de 
trabalhadores estavam construindo arquibancadas em ambos 
os lados. Ele sups que aquele seria o local do torneio. O 
pensamento deixou-o aturdido.
        Quem organiza tudo isso?  perguntou ele a Hastings.
        O nome dele  Claude d'Orsay  disse Hastings de 
imediato.  Ele  mago e, pela linhagem,  o mestre de 
jogos dos Weirs. A Ravina  a sede da Ordem dos Magos, a 
fonte lendria de seu poder. Por sculos, a famlia dele tem 
se ocupado da tarefa de manter a paz entre os herdeiros. 
Pelas regras, o mestre  um chanceler que trabalha com o 
lder do Conselho dos Magos, o detentor do trofu do 
torneio.
Ele fez uma pausa.
        O mestre de jogos deveria ser neutro nesses assuntos, mas 
d'Orsay sempre foi uma figura poltica, mais poderoso do 
que deveria ser. Ele administra as regras. Por exemplo, 
aquela que diz que os magos esto proibidos de atacar uns 
aos outros exceto por meio de seus guerreiros. S que ele faz 
vista grossa quando lhe convm  disse Hastings 
secamente.
Jack havia se perguntado por que Linda parecera achar que 
Hastings estava em perigo, apesar da proteo das regras.
        De onde veio tudo isso?  Ele apontou com a mo, ento 
se lembrou de novo de que estava invisvel.  Todos esses 
prdios. Como chegaram aqui?
Hastings deu uma risada.
 Ns somos magos, afinal. Com servos e outras coisas 
mais, podemos montar tudo bem rpido. Tudo vai ter 
sumido no dia seguinte ao combate.
Os dois seguiram adiante, descendo por um caminho de 
pedra at a base do vale. Logo estavam lutando para abrir 
caminho por entre a multido de pessoas que se espantavam 
ante seu toque.
A cabea de Jack estava girando, tomada por uma cacofonia 
de vozes, de magos vivos e guerreiros mortos, um rudo 
opressor que crescia quanto mais ele se aproximava do forte. 
As vozes dos mortos davam-lhe avisos. "Afasta-te, 
guerreiro", elas imploravam. "Pois  aqui que derramaro o 
teu sangue." A base do vale era um campo de batalha, regado 
a sangue, salgado com ossos, o lugar de descanso de centenas 
de guerreiros. Era brutalmente familiar, graas a Jeremiah 
Brooks. Jack tentou lamber os lbios, mas a boca estava seca. 
Lembrou-se de chegar ali como um prisioneiro, com total 
conhecimento do que o aguardava.
Hastings desativou o feitio de invisibilidade quando se 
aproximaram do lugar do festival. Eles tinham alojamentos 
reservados em uma estrutura permanente, um chal de 
pedra no jardim da manso. Era pequeno e confortvel, com 
dois quartos e uma grande sala que servia como sala de 
jantar, cozinha e sala de estar, disposta em torno de uma 
grande lareira de pedra. Jack estava com frio, cansado e sujo 
aps a viagem montanha acima. Felizmente, o lugar tinha 
um chuveiro.
Ele passou um tempo considervel sob a ducha quente e, ao 
sair, encontrou roupas novas empilhadas sobre a cama: 
calas pesadas de lona; uma camisa branca de mangas 
compridas e uma tnica longa, azul-marinho, com uma 
estampa bordada nas costas e nas mangas. Era um drago 
rampante de prata, se Jack se recordava corretamente da 
terminologia herldica. Ele e Nick tinham passado algum 
tempo estudando herldica havia um ou dois anos. Ele 
nunca pensou que aquilo teria alguma utilidade prtica. Suas 
roupas velhas, inclusive o colete feito por Mercedes, haviam 
sumido.
"Tanto faz." Ele no estava preocupado com questes de 
moda. As roupas serviam perfeitamente e eram bem leves e 
confortveis. Ele deu uma espiada em si mesmo no espelho. 
Parecia um jovem cavaleiro ou escudeiro vestido para um 
dia de banquete. Lembrou-se por um momento do guerreiro 
de cabelos dourados de seu sonho.
Quando retornou  sala da frente, Hastings estava desligando 
o telefone. O mago inclinou a cabea em aprovao quando 
viu Jack.
 Voc parece adequado ao papel  disse ele. Hastings 
estava vestido em suas cores escuras de costume, mas trajava 
um manto curto no mesmo tom de azul-marinho da tnica 
de Jack, preso sobre um dos ombros com um fecho de prata 
na forma de um drago.  O Jogo est em andamento. A 
Rosa Vermelha deve ter conseguido trazer o campeo deles 
aqui inteiro, j que esto convocando o torneio neste 
momento, l na arena. Todas as partes interessadas precisam 
estar presentes. Est pronto?        
Jack fez que sim com a cabea, torcendo para que fosse 
verdade.
        O que vai acontecer hoje?
        O anncio do torneio  feito pelo patrono que apresenta 
um campeo. Os desafiantes, se existirem, se declaram. 
Ento os participantes so qualificados. Muita pompa.  
Hastings jogou para Jack seu manto, que ainda estava mido, 
e vestiu o prprio.  Vamos manter o nosso anonimato 
pelo maior tempo possvel, est bem?
Jack vestiu o manto sobre as roupas e puxou o capuz por 
sobre os cabelos midos. Hastings carregava um grande livro 
com capa de couro sob o brao. Jack reconheceu com 
espanto o seu Livro Weir.
Os eventos progrediam rapidamente, dando-lhe pouco 
tempo para pensar. Talvez seja assim que eles convencem os 
jovens a ir pra guerra, pensou Jack. Voc  simplesmente 
arrastado at que se v olhando para a cara da morte, e a 
voc se pergunta como foi que isso aconteceu.
Uma das galerias ao longo do campo de jogo ficara pronta, e 
uma grande multido j estava sentada l. Muitos ostentavam 
estampas com a rosa branca ou a vermelha. Alguns trajavam 
roupas contemporneas, mas a maioria havia se vestido em 
estilo medieval para a ocasio. Havia mais homens do que 
mulheres, e a maioria parecia estar entre a juventude e a 
meia-idade, mas era difcil saber a idade dos magos. Ele no 
viu nenhuma criana e ficou contente com isso. Tinha cer-
teza de que a multido era composta inteiramente de magos. 
Podia sentir a forte presso do poder vindo da arquibancada.
E as vozes continuavam vociferando dentro de sua cabea. 
"Afasta-te, guerreiro." Ele se forou a ignor-las. "Matars 
algum aqui ou sers morto." Era simples assim.
Na parte central  frente das arquibancadas, havia uma 
pequena rea de camarotes reservados para autoridades. 
Vrios magos elegantemente vestidos sentavam-se ali. 
Jessamine Longbranch estava sentada acima do camarote dos 
juzes, cercada por um grupo em uniformes da Rosa Branca. 
Trajava um vestido de montaria em veludo verde, bem 
decotado na frente, com rosas brancas bordadas e espinhos 
enfatizando a linha do pescoo. O cabelo negro reluzente 
estava puxado para longe do rosto com uma faixa de veludo 
verde. Na mo direita, ela segurava algo que parecia um 
basto ou um chicote para cavalos, batendo-o distrada na 
outra palma. Ela no parecia contente. Jack ficou grato pela 
cobertura do manto, dado o seu ltimo encontro com a 
maga. Ele puxou o capuz mais para a frente, a fim de cobrir o 
rosto. Tinha de admitir: aquela mulher o intimidava.
Hastings apontou para um homem com traos aristocrticos 
e cabelo curto e escuro que se reclinava em seu assento, 
gesticulando com mos de traos delicados, conversando 
com o homem ao lado.
        Claude d'Orsay  disse Hastings.  Os outros so 
membros do Conselho dos Magos, que so juzes de campo. 
A doutora Longbranch est representando a Rosa Branca. 
Ela  a atual detentora do trofu do torneio.
Hastings e Jack se reuniram ao pblico que perambulava 
junto  beira da galeria. Diversos magos em uniformes da 
Rosa Vermelha estavam agrupados no campo. Jack 
reconheceu o mago de barba cinzenta do cemitrio, aquele 
com o rosto queimado.
        Geoffrey Wylie  murmurou Hastings.  Premi da 
Rosa Vermelha.  Havia uma intensidade em Hastings que 
apenas agora se revelava, como a de um lobo que sentira o 
cheiro de sangue. Jack se lembrou de Linda dizendo que 
Wylie havia matado a irm de Hastings.  Que pena  
acrescentou Hastings.  Parece que ele teve algum tipo de 
acidente mgico.
Wylie estava lendo um grosso livro de capa de couro.
        O que eles esto fazendo?  sussurrou Jack a Hastings.
        Esto lendo a rvore genealgica do participante, 
comprovando que ele  um guerreiro legtimo dos Weirs.  
o primeiro passo da qualificao para o torneio.  Hastings 
estufou o peito e cruzou os braos sob o manto.  Isso pode 
levar algum tempo.
Jack olhou ao redor para ver se conseguia avistar o outro 
guerreiro, mas no conseguiu distinguir ningum. 
Obviamente, os patronos da Rosa Vermelha estavam 
preservando o seu prprio mistrio.
Wylie j estava bem avanado na leitura da rvore da famlia 
e levou apenas uns dez ou quinze minutos para terminar 
tudo, l pelos idos do sculo X. Ele levou mais alguns 
minutos para delinear os planos para o torneio, caso um 
desafiante aparecesse. Deveria ser realizado no solstcio de 
vero, dali a dois dias, s duas horas da tarde, no Campo da 
Ravina do Corvo, sob as Leis de Combate.
D'Orsay, que estava visivelmente entediado com o processo, 
voltou sua ateno para o campo quando os anncios foram 
finalizados. Os cinco magos sentados nos camarotes tiveram 
uma breve discusso, e ento d'Orsay disse:
        Em referncia  documentao da mesma, a genealogia  
aceita. A Rosa Vermelha deve submeter a dita 
documentao. Em referncia  verificao da pedra, o 
guerreiro parece estar qualificado.
Um grito de aclamao correu por entre a multido, pelo 
menos entre aqueles trajando o uniforme da Rosa Vermelha. 
Fazia trs anos desde o ltimo torneio.
D'Orsay falou novamente:
        O torneio foi convocado pela Rosa Vermelha. H algum 
desafiante?
Houve uma longa pausa. A multido estava em silncio, 
todos olhando em volta esperando que algum se 
apresentasse.
        Da Rosa Branca?  indagou d'Orsay, olhando para 
Longbranch.
        A Rosa Branca no pode apresentar nenhum campeo no 
presente momento  disse a doutora Longbranch, com 
relutncia.
Um murmrio de desapontamento correu pela multido. 
Parecia que no haveria torneio, afinal.
        O que aconteceu com o ltimo campeo deles?  Jack 
sussurrou a Hastings.
        Se matou  Hastings sussurrou de volta. Ele pousou a 
mo no ombro de Jack por um momento, apertando com 
firmeza.  Agora  a nossa vez. Lembrete do que ns 
conversamos.
Ele se afastou de Jack, aproximando-se do camarote dos 
juzes.
        Ns desafiamos a Rosa Vermelha  anunciou ele com 
voz clara.
D'Orsay varreu a multido com os olhos, tentando 
determinar quem falara.
         a Rosa Branca, afinal?  perguntou ele.
Hastings entrou no campo, sob a luz do sol.
        Sou o patrono do jogador  disse ele.  No sou nem da 
Rosa Branca nem da Vermelha.  E puxou o capuz para 
trs.
Houve um momento de silncio estupefato. Ento...
        Hastings!  d'Orsay exclamou, descrente, pronunciando 
o nome como se fosse um insulto. Os outros juzes de 
campo se levantaram para ver melhor.  O que voc est 
fazendo aqui?  indagou o mestre, com raiva.
Um murmrio correu pela multido, os espectadores 
sentados se ergueram para ver melhor, voltando-se uns para 
os outros. Alguns pareciam saber a identidade do alto mago e 
ficavam explicando aos outros.
Hastings deu de ombros, como se fosse bvio.
        Estou aqui para jogar  disse ele, sorrindo.
Geoffrey Wylie sorria tambm, mas seu sorriso era maligno.
        Estamos to felizes que tenha vindo, Leander. Que 
conveniente! A Rosa Vermelha tem assuntos a resolver com 
voc.  Ele se voltou para seus colegas no campo.  
Peguem este homem!
Quatro magos vestidos de vermelho avanaram sobre 
Hastings com as mos estendidas, e fogo mgico saltou de 
seus dedos como velas romanas.
Aconteceu to rpido que Jack ficou paralisado, inseguro 
sobre se deveria intervir, porque Hastings lhe havia dito para 
esperar. De qualquer modo, o mago no parecia precisar da 
ajuda dele. Ele esticou o brao direito, e o ar entre ele e a 
Rosa Vermelha tremeluziu, solidificando-se em uma barreira 
que bloqueou o ataque dos magos por ora, desviando as 
chamas em curva sobre a multido apavorada. Com a mo 
esquerda, ele tirou um pequeno livro de sob o manto.
        E quanto s regras, Claude?  Hastings ergueu o livro no 
ar.  Como mago e patrono em potencial, tenho proteo. 
Mande que eles parem.
        Esse homem incitou as ordens dos servos  argumentou 
Wylie.  Ele  um traidor que tem derramado o sangue dos 
magos em desacato s regras. Ele no merece a proteo 
delas.
        Prove.  Hastings girou, ainda segurando as regras no 
alto para que todos na multido pudessem ver.  
Obviamente, eu sempre acreditei que sangue fosse sangue: 
mago ou guerreiro, encantador ou feiticeiro ou adivinho.
        No  o que as regras dizem  retrucou Wylie.  Por 
que voc no as l pra variar?
        Desista!  disse d'Orsay com relutncia, balanando a 
cabea para Wylie.  Pare com isso ou vai ser 
desqualificado.
Wylie gesticulou, e o grupo de magos parou.
        Eu deveria ter cortado a sua garganta quando tive a 
oportunidade.  Ele se voltou para d'Orsay.  Isto  
absurdo. Ele no pode ser patrono. Isso no pode ser 
permitido. O torneio  entre as Rosas.
        Onde est escrito isso?  indagou Hastings, com frieza. 
Ele estendeu o livro de regras para Wylie.  Mostre-me.
Mas Wylie insistiu. Ele acabara de ver a bvia desistncia do 
adversrio se transformar em uma possvel disputa.
        Este jogo  baseado em sculos de tradio! Jamais se 
concedeu permisso de jogar a algum que no fosse das 
Rosas.
        Algum algum dia tentou apresentar um candidato?
Hastings olhou de um para o outro. Wylie e d'Orsay ficaram 
sem fala por um momento.
        Que Casa voc representa?  perguntou d'Orsay com 
cautela.
        O Drago Prateado.
Hastings despiu por completo o manto simples e o dobrou 
sobre o brao, revelando o manto azul com a estampa do 
drago por baixo. Um rumor percorreu o pblico mais uma 
vez. O Drago Prateado? Quem j ouvira falar do Drago 
Prateado?
Jack deu uma olhada na galeria,  procura de Jessamine 
Longbranch. Ela observava os procedimentos, franzindo a 
testa, tamborilando as unhas cor de sangue no queixo. 
Aparentemente, ela ainda no estava certa sobre o que 
aquela reviravolta significava para a Rosa Branca.
        Voc precisa colocar um guerreiro em campo, Hastings  
disse d'Orsay, e acrescentou, em tom paternalista, confiante 
de que aquela condio no seria atendida.  Ou no pode 
jogar.
        Eu tenho um jogador que se qualifica  respondeu 
Hastings, que se mantinha alerta, como uma flecha puxada 
para trs e pronta para voar, de costas para o campo aberto e 
de frente para as Rosas Vermelha e Branca na galeria.
O pblico reagiu com ruidosa aprovao. De repente, parecia 
que o torneio poderia, de fato, ir adiante.
Wylie se voltou para d'Orsay em busca de ajuda.
        Precisamos de uma deciso  disse ele, em tom de 
queixa.  Isto  ridculo.
D'Orsay suspirou.
        No h nada nas regras que exclua o Drago Prateado. No 
sei por que ele no poderia apresentar o jogador dele. Talvez 
ele nem mesmo se qualifique.  Ele inclinou a cabea para 
Hastings.  Prossiga.
Wylie manteve-se em p, furioso,  beira do campo.
Hastings abriu o livro de Jack e encontrou o lugar.
        Jackson Downey Swift, filho de Rebecca Downey e 
Thomas Swift...
Agora Jessamine Longbranch se levantou.
        Isso  impossvel!  gritou ela.  Jack Swift est morto!
Longbranch se inclinou para a frente no camarote e quase 
para fora de seu vestido, para o deleite da multido nas 
arquibancadas.
Hastings franziu o rosto para ela.
        Doutora Longbranch, no ? Apesar de todos os seus 
esforos... e dos seus tambm  disse ele, inclinando a 
cabea para Wylie , Jack Swift est muito bem vivo.
Longbranch varreu a galeria com os olhos, os punhos 
cerrados, disparando fascas brancas de to quentes por 
sobre a multido ao redor. Jack se encolheu mais para dentro 
do manto, lamentando no estar com seu colete.
        Posso continuar?  perguntou Hastings a d'Orsay, 
polidamente.
O mestre assentiu, sem fala. Hastings continuou a ler, 
passando por geraes de Downeys, Hales e outros nomes 
menos familiares. A genealogia era prodigamente salpicada 
de herdeiros, guerreiros e magos em sua maior parte. Vinte 
minutos se passaram at atingirem, no sculo XII, seu ponto 
de chegada.
Os juzes conversaram por um tempo maior dessa vez, e 
houve discusses em voz alta e gestos dramticos. Enfim, 
d'Orsay assentiu e se voltou para o campo. Ele no parecia 
muito feliz.
        A genealogia est em ordem. No h nada nas Leis de 
Combate que impea a participao dele. O guerreiro parece 
estar qualificado, dependendo da documentao do mesmo, 
e supondo que ele passe no teste fsico.
O pblico explodiu em aplausos. Tinham vindo para um 
espetculo e agora teriam um. Longbranch e Wylie 
protestaram em altos brados. Wylie queria que se deixasse a 
genealogia de lado, enquanto Longbranch estava disposta a 
aceitar a genealogia, mas contestava o patronato de Hastings. 
D'Orsay estava ficando cada vez mais aborrecido, embora 
Jack suspeitasse que a raiz disso fosse a sua incapacidade de 
encontrar uma razo para desqualificar Hastings ou o jogador 
dele. Qualquer pretexto teria de ser convincente, dados os 
nimos da multido. Finalmente, ele ergueu a mo.
        Doutora Longbranch, a senhora pode registrar um 
protesto formal, se assim desejar. Senhor Wylie, ns j 
tomamos uma deciso sobre a genealogia. Por favor, cale-se 
ou ser desclassificado.
Aquela possibilidade agradou a Jack, mas Wylie se calou de 
imediato.
D'Orsay suspirou. Havia mais um requisito que poderia 
afastar Hastings do torneio.
        O exame fsico. Apresente o seu guerreiro.
Jack olhou rapidamente para Hastings, que baixou a cabea 
imperceptivelmente. Jack caminhou campo adentro, tirando 
o manto enquanto andava. A multido levantou-se de um 
salto para ver o desafiante pela primeira vez. Jack podia 
sentir o calor do poder dos magos atrs de si. Era quase o 
suficiente para derrub-lo.
Um dos juzes de campo desceu do camarote, carregando 
um estetoscpio similar ao que a doutora Longbranch 
utilizava. Ele ergueu a tnica de Jack e pressionou-lhe o 
cone de prata contra a pele do peito. Depois de um mo-
mento, ele removeu o cone e se afastou, examinando Jack 
com interesse. Ele se voltou para d'Orsay e anunciou:
        H uma pedra de guerreiro. Ele est qualificado.
Houve um pandemnio. Passaram-se vrios minutos antes 
que se restaurasse a ordem.
Jassamine Longbranch estava em p de novo. Jack olhou 
dentro daqueles olhos negros, lembrando-se do ltimo 
"exame" no consultrio dela, e estremeceu.
        Sou dona desse menino, Claude. Ele foi roubado de mim 
por meios fraudulentos. Agora que ele apareceu vivo, voc 
tem de me devolver o que  minha propriedade.
D'Orsay sacudiu a cabea.
        Jess, no podemos decidir isso agora. Como eu falei, 
registre o seu protesto, e a veremos. Senhor Wylie, o seu 
candidato?
Wylie olhou para o outro lado do campo. O guerreiro da 
Rosa Vermelha j se aproximava. Jack espremeu os olhos, 
protegendo-os com a mo. Ele parecia ser jovem, no mais 
velho do que Jack e talvez no to alto. Vestia uma tnica 
branca com acabamentos vermelhos e uma rosa vermelha 
gravada na frente, botas de couro at os joelhos e um capuz 
justo cobrindo o cabelo e a maior parte do rosto. Jack estava 
perplexo. Havia algo de familiar no estranho, na maneira 
graciosa com a qual se movia e se postava. O guerreiro 
encarou os juzes e o estetoscpio foi aplicado. O juiz que o 
segurava recuou, espantado, por um momento. Ento ele se 
voltou para d'Orsay.
        H uma pedra de guerreiro. Ela est qualificada.
O guerreiro se virou para Jack e tirou o capuz. Os cabelos 
castanhos caram at a altura do ombro. O rosto era 
inconfundvel. Era Ellen Stephenson.
        Oi, Jack  disse ela.






Captulo Dezesseis
Uma Convocao ao Tribunal

Jack estava deitado de costas na cama, fitando o teto. Eram 
ainda as primeiras horas da noite, mas as cortinas haviam 
sido fechadas a fim de impedir as pessoas de espiar pelas 
janelas. Ouvia o barulho da multido l fora, crescendo e 
diminuindo. Cada vez mais espectadores chegavam, agora 
que se espalhara a notcia de que o torneio realmente 
aconteceria. Parecia certo que a Ravina estaria lotada em 
pouco tempo, se  que j no estava. Era um festim, um 
festival, uma celebrao do antigo sacramento de violncia e 
morte.
De vez em quando havia batidas na porta. Grupos de recm-
chegados ansiosos por encontrar o jogador do Drago 
Prateado. Hastings os mandava embora rapidamente. Ele 
havia passado um tempo considervel colocando armadilhas 
e barreiras em torno do chal, duvidando de que seus 
muitos inimigos respeitariam as regras. Agora o lugar parecia 
preparado para um combate, como uma fortaleza.
Os sons de msica e festividades chegavam debilmente aos 
ouvidos de Jack. Tendas de tabernas haviam brotado em 
todo lugar, vendendo fortes bebidas mgicas. Havia muita 
gente exagerando na bebida.
"Ellen Stephenson." Ondas de dvidas sobre si mesmo 
rolavam sobre Jack. Idiota. Ele era um idiota. Estava muito 
cansado de ser um idiota. Como  que no tinha percebido?
Rememorava as pequenas pistas. O fato de ele nunca 
precisar explicar nada a Ellen. O mistrio sobre o passado e a 
situao familiar dela. Ele nunca havia conhecido os pais 
dela nem sabia de ningum que o tivesse feito. Como ela 
conseguira isso numa cidadezinha como Trinity? Outra 
pergunta idiota. Com um pouco de magia, qualquer coisa era 
possvel.
Ela estava sempre indo a aulas. Aulas de piano, haviam dito a 
ele. Ou ento tinha parentes visitando-a. Jack havia 
admirado seu corpo sadio e musculoso, seus movimentos 
atlticos. "De trabalhar no jardim", ela dissera. No era de 
admirar que Ellen no tivera medo de Garrett Lobeck ou dos 
amigos dele. Ela poderia t-los transformado em 
hambrgueres.
Jack deu uma olhada na Sombra Assassina, apoiada contra a 
parede. Ouvira falar de pessoas em lugares apertados se 
matando ao cair sobre as prprias espadas. A idia era 
atraente, mas ele no achava que conseguiria.
Hastings apareceu  porta.
 Venha e coma alguma coisa.
        No, obrigado  respondeu Jack, indiferente.
O mago fitou-o por um momento antes de retrucar:
        Levante-se e venha aqui.
Hastings retornou  sala principal. Jack ficou deitado por um 
momento, depois suspirou e se levantou.
Hastings havia servido uma ceia de rosbife frio, queijo, 
pezinhos duros, molho de raiz-forte, salada de batatas, 
frutas e bolo. Jack estava realmente faminto, a despeito do 
mau humor. No havia comido nada de substancial desde 
que subira a montanha. Aquilo parecia ter sido h muito 
tempo. Jack se sentou  mesa e encheu o prato. Hastings 
colocou um copo de suco de ma na frente dele.
Hastings sentou-se em frente a Jack, beliscando a comida, a 
expresso em seu rosto incompreensvel. Estava bebendo 
um copo alto de cerveja preta inglesa, um tanto quanto 
rpido. Os dois disseram pouca coisa at Jack terminar de 
comer sua segunda fatia de bolo. Ento Hastings ps de lado 
seu copo vazio, reclinou-se um pouco e disse:
        Quando entrou nisso, voc sabia que daria em luta; e que 
um de vocs terminaria morto.
Jack largou o garfo.
        Eu no sabia que seria ela.  Ele fez uma pausa.  E 
voc?
Hastings sacudiu a cabea.
        No. Algo nela me chamou a ateno no colgio, mas eu 
no cheguei a investigar. Ela deve ter bastante disciplina.
        Eu no posso matar Ellen Stephenson  Jack resmungou.
        Voc nem conhece Ellen Stephenson.  Hastings 
inclinou a cabea para trs e examinou Jack por baixo das 
pesadas sobrancelhas.  A garota que voc achou que 
conhecia no existe. Ela no  a pessoa com quem voc vai 
lutar. Pelo que entendo, ela treina h anos. Ela  uma 
matadora, Jack. Ela vai arrancar o seu corao.
        Escute, talvez seja voc quem no entende. Eu 
simplesmente no curto matar mulheres  Jack retrucou.
Assim que as palavras lhe haviam escapado da boca, 
percebeu que havia cometido um erro. Mas ento j estava 
cado no cho, e o mago estava em p diante dele. Aps um 
instante, Hastings estendeu a mo e o ajudou a se levantar.
        Desculpe  disse Hastings, tenso.  Como voc, parece 
que tenho problemas de controle.
Os dois se sentaram novamente. Depois de uma pausa, 
Hastings disse:
        Uma vez eu lhe perguntei o que faria se algum tentasse 
matar voc.
        Eu disse que mataria a pessoa antes  disse Jack, 
lembrando-se.
        Ela vai matar voc, se puder  disse o mago.  Eu no 
trouxe voc aqui para ser morto.
O que ele no disse foi que talvez Jack no tivesse nenhuma 
chance contra ela, mesmo que se esforasse ao mximo. 
"No  coisa que se diga ao seu jogador antes de um 
combate."
Houve uma nova batida na porta. Hastings atendeu. Jack 
ouviu vozes, mas dessa vez no parecia ser algum do f-
clube. Quando o mago retornou, largou um envelope sobre a 
mesa.
        Parece que foram registrados protestos em relao  sua 
participao no torneio.  Ele abriu o envelope com um 
rasgo e examinou o papel rapidamente, jogando-o em 
seguida sobre a mesa.  H um processo aberto por Linda 
Downey alegando que voc no nasceu guerreiro, e sim 
mago. Que uma pedra de guerreiro foi implantada de modo 
fraudulento em voc por Jessamine Longbranch. Criativo  
disse ele.  Imagino se eles vo engolir essa. O outro 
processo foi aberto por Jessamine Longbranch, alegando que 
voc  propriedade dela, roubada de forma fraudulenta por 
Leander Hastings. A soluo sugerida  que voc jogue no 
torneio como o campeo da Rosa Branca.
        Eu nunca vou fazer isso  disse Jack com convico.  
No sei o que vou fazer, mas nunca vou fazer isso.
        Muito bem.  Hastings tamborilou os dedos na mesa.  
Voc pode acabar descobrindo que ela sabe ser muito 
persuasiva. E, considerando quem vai julgar esses protestos, 
as coisas talvez no saiam como voc quer.
Jack no pde deixar de se perguntar por qual resultado 
Hastings estava torcendo. Se tia Linda vencesse o processo 
dela, ele no teria um guerreiro.
Fitch estudou a fachada sombria da estao de trem na 
Fortaleza de Carlisle, piscando para se livrar das gotas de 
chuva que caam, e ento voltou a ateno ao que estava 
escrito no guia.
"A estao data de 1847. Foi projetada por Sir William Tite, 
que tambm projetou o Banco da Inglaterra e o Royal 
Exchange em Londres. Tite empregou um estilo Tudor 
gtico, a fim de combinar com as torres com ameias da 
fortaleza vizinha. O Castelo de Carlisle foi, certa vez, a priso 
de Maria I da Esccia. Foi conquistado por Bonnie Prince 
Charlie em 1745."
Se as estaes de trem se pareciam com castelos, como 
seriam os castelos?
        Fitch! Voc vem ou no? A gente s tem uma hora. Se 
no acharmos algo pra comer de almoo, vamos passar fome 
at chegarmos a Edimburgo!  Pela expresso no rosto de 
Will, isso era uma tragdia a ser evitada.
        Provavelmente tem carrinho de comida no trem pra 
Edimburgo  sugeriu Fitch.
        Barras de chocolate no matam a fome. E eu no quero 
perder o trem.
        Calma, Will. Um minuto s.  Fitch pegou uma cmera 
digital e bateu vrias fotos, inclusive uma de Will com ar 
zangado. Ele havia tomado emprestado a cmera do centro 
de comunicaes do colgio. Oficialmente, Fitch estava 
cobrindo a excurso para o website da escola. Ele a ps de 
volta no bolso da capa de chuva.  Queria ter tempo pra 
visitar o castelo.
        Sei.  Will estreitou os olhos ante a cena lgubre.  J 
no enjoou de castelos?        
Fitch examinou o mapa no guia e fez um clculo rpido.
        Olhe, a fortaleza e a catedral esto bem ali. Eu volto em 
uma hora. Compre alguma coisa de almoo pra mim. Uma 
torta de carne, quem sabe. Eu pago voc depois.
        Meus pais vo ficar furiosos se voc perder o trem  
avisou Will.
        No vou perder.
Fitch encurvou os ombros para se proteger do frio e da 
desaprovao de Will e atravessou o ptio entre a estao de 
trem e a fortaleza, contornando os encharcados jardins de 
flores. Tinha tempo para uma rpida olhada ao redor, pelo 
menos.
Aps circular e fotografar as torres da fortaleza, Fitch entrou 
na rua English, indo na direo da catedral, cujos pinculos 
despontavam acima dos prdios em redor. Passou s 
cotoveladas por entre os grupos de turistas que o clima 
afugentara dos lagos para a cidade.  frente dele, uma garota 
de capa de chuva em vermelho berrante saiu por uma porta, 
segurando um punhado de seus cachos escuros para impedi-
los de voar ao vento. Quando ela se virou, Fitch pde ver 
seu rosto.
Era Leesha Middleton, aluna do colgio at recentemente. E 
maga.
Ele baixou a cabea e recuou, enfiando-se por uma 
passagem, colidindo com uma mulher carregada de pacotes.
 Seu hooligan miservel! Tem idia de quanto custaram 
estes ornamentos?  Ela sacudiu um dedo cheio de anis 
sob o nariz dele.
Aos tropeos, viu que havia entrado em uma daquelas lojas 
que vendem artigos natalinos o ano inteiro. Murmurando 
desculpas mecanicamente, deu uma espiada na rua outra 
vez. Leesha olhou para ambos os lados, depois se voltou para 
o norte, em direo  catedral.
O que ela estava fazendo ali? "Caando Jack" era a resposta 
bvia. Ser que ele estava por perto? Deixando para trs a 
mulher que o repreendia, Fitch saiu para a rua, seguindo 
Leesha. Precisava dar um jeito de encontrar Jack e avis-lo. 
No importava se perdesse o trem.
Leesha avanava rapidamente, parecendo conhecer bem o 
caminho. Passaram por uma pequena igreja  beira do ptio 
da catedral, depois pela prpria catedral, virando  esquerda 
na rua Castle. "Talvez eu consiga ver o castelo, afinal", 
pensou Fitch. Mas Leesha rodeou as fortificaes, dirigindo-
se a um parque perto do rio. Ela desapareceu entre as 
rvores, e Fitch apressou o passo, procurando pelo ponto 
vermelho para se orientar.
Estava escuro sob as rvores. Quando o vento soprava, 
chovia gua das folhas l em cima. A margem do rio estava 
quase deserta. Os turistas mais sensatos haviam buscado 
refgio nos pubs e cafs do centro da cidade. Aonde ela 
havia ido? Ele girou, secando a chuva do rosto.
O nico aviso que teve foi um leve som atrs dele. Ento 
algo quente apertou-lhe o ombro e as palavras, derrubando-o 
sobre as folhas empapadas. Ele caiu de rosto no cho, sobre a 
terra molhada, e no conseguia virar a cabea para liberar a 
boca e o nariz. Num momento de pnico, pensou que ia 
sufocar, mas mos quentes rolaram-no. Ele ficou l, 
indefeso, piscando diante das gotas de chuva que caam 
sobre ele.
Leesha se ajoelhou ao seu lado. Ela pressionou o joelho nu 
contra sua traqueia at que ele comeou a ver pontos 
escuros diante dos olhos. Finalmente, ela aliviou a presso, e 
ele encheu os pulmes. Ela se sentou no cho molhado 
junto a ele com um suspiro.
        Eu nunca gostei muito de voc, Harmon.  Ela tirou um 
batom da bolsa cor-de-rosa e o reaplicou. Ento ergueu os 
joelhos at que a saia quase desapareceu.  Sempre dizendo 
ao Jack que ele devia dar o fora em mim.
Ela se ps de joelhos de novo, inclinando-se sobre ele. 
Agarrou a pesada corrente no pescoo dele e o puxou para 
cima, at que ficasse meio sentado. O metal se aqueceu, 
queimando-lhe a carne.
        Quem diabos voc pensa que , com suas roupas sujas do 
Exrcito da Salvao, morando naquela pocilga da rua 
Madison com um bando de baratas? Um nada,  isso o que 
voc .
Ela cuspiu no rosto dele, depois o soltou. Ele caiu para trs 
como uma boneca de pano, quicando um pouco.
        A gente vai ver o Jack. Gostaria disso?  Afastou o cabelo 
molhado da testa dele. Notou o aro em sua orelha direita e o 
puxou, s para testar. Puxou de novo, com mais fora, o 
sangue correu para dentro da orelha dele. Fitch inspirou 
fundo e fechou os olhos.  Oh, Harmon  sussurrou ela. 
 Voc devia ver a sua cara! Voc se assusta to fcil!
Ela se levantou, removendo as folhas molhadas da saia.
Fique aqui. Eu vou buscar o Will.
A audincia estava marcada para a manh seguinte, s dez 
horas, no grande salo do castelo. Apenas as partes 
"interessadas" tinham permisso para assistir. Isso no inclua 
os milhares de espectadores agrupados do lado de fora. 
Boatos voavam pela Ravina. Os apostadores nas coloridas 
tendas de listras azuis e brancas estavam perplexos. Uma 
enorme multido estava reunida junto ao chal quando Jack 
e Hastings saram para o salo.
        Jack! Jack!  entoavam eles.
Ao passar pela multido, Jack sentiu uma mo quente de 
mago segurar-lhe o brao, e no foi com gentileza. Ele se 
voltou para encarar um homem de aparncia atltica com os 
cabelos negros, lisos e retos, vestindo o uniforme da Rosa 
Vermelha. Ele tinha uma boca fina e cruel, e uma barba rala 
no maxilar.
        Ol, Jack. Sou Simon Paige, treinador da Ellen. Venho 
trabalhando com ela h anos. S queria que soubesse que eu 
mal posso esperar pra ver o seu sangue derramado amanh. 
 Os lbios se abriram, revelando os dentes numa pardia 
de sorriso.  No se preocupe. Eu disse a ela pra no ter 
pressa. A gente quer ter certeza de que essas pessoas tenham 
um espetculo que valha o preo que esto pagando.
Furioso, Jack desvencilhou-se da mo do mago. Simon Paige 
ria ao se afastar.
A ordem havia armado um tribunal improvisado numa das 
extremidades do grande salo. D'Orsay e os outros juzes 
sentavam-se sobre um estrado, e fileiras de cadeiras haviam 
sido dispostas ao redor da plataforma.
A mo de Hastings no ombro de Jack o pressionava para a 
frente do salo.
        A maioria dessas pessoas  membro do Conselho dos 
Magos, o corpo dirigente da ordem  explicou o mago.
Jack e Hastings foram guiados para cadeiras logo em frente 
ao estrado, onde os juzes poderiam olhar para eles de cima.
Jack avistou Linda sentada em uma ponta da fileira da frente, 
cercada por vrios vizinhos da rua Jefferson. O que eles 
estavam fazendo ali? Jack atraiu a ateno de Linda, e ela o 
saudou com um gesto de cabea, conseguindo sorrir. ris e 
Blaise ergueram as mos em saudao.
Hastings franziu o cenho para Linda.
        Ela devia ter mandado um representante. Aqui no  lugar 
para uma encantadora.
Jack perguntou-se o que ele queria dizer com aquilo.
Jessamine Longbranch e diversos magos da Rosa Branca 
tambm estavam sentados  frente. A cirurgia sorriu para 
Jack sedutoramente.
Geoffrey Wylie invadiu o corredor central em meio a um 
enxame de magos de vermelho. Antes de se sentar, passou 
os olhos pelo pblico. Quando seu olhar pousou em Linda, 
ele estremeceu, como que assustado. Erguendo a mo para a 
face com a cicatriz, fez uma carranca ante alguma lembrana 
desagradvel. Continuou a observ-la aps ter se sentado, 
correndo a lngua pelos lbios danificados. Jack procurou por 
Ellen, mas no a viu.
D'Orsay pediu ordem ao tribunal.
 Esta  uma audincia extraordinria convocada para 
decidir sobre dois processos que foram registrados em 
referncia  participao do guerreiro que representa o 
Drago Prateado no torneio marcado para amanh.  Ele 
espalhou diversos papis  sua frente.  Parece haver uma 
relao entre essas duas alegaes. Colheremos testemunhos 
relacionados a ambas e ento decidiremos da forma que o 
tribunal julgar mais adequada. Primeiro, devemos decidir se 
Jackson Swift  de fato um guerreiro, ainda que ele parea 
atender aos critrios usuais. Eu gostaria de pedir  queixosa 
que se explique.
Linda Downey levantou-se. Estava vestida para o tribunal, 
trajando uma tnica folgada preta e cala, com os cabelos 
presos, o que no era de costume. A pele estava plida, quase 
translcida, e os lbios, vermelho-arroxeados. Movia-se com 
uma graa inconsciente, como a luz que cruzava o palco.
A presena dela comeava a surtir efeito nos juzes. Eles se 
inclinaram para a frente para ver melhor a encantadora.
        Obrigada, mestre d'Orsay. Serei breve. Os detalhes do caso 
esto em meu depoimento. Sou a tia do jogador em questo, 
e tambm sua madrinha. A me dele  minha irm, uma 
Anaweir. O pai tambm  Anaweir. Jack nasceu mago, um 
herdeiro Weir sem uma pedra.  Ela fez uma pausa, e um 
murmrio correu pela galeria.  Eu pedi  doutora 
Longbranch se ela poderia repor a Pedra Weir que lhe 
faltava. Ela aproveitou a oportunidade para implantar uma 
pedra de guerreiro em meu sobrinho, em vez da pedra de 
mago de que ele precisava. Aparentemente, ao fazer isso ela 
pretendia criar um guerreiro a partir de um mago.
Linda apontou para Jack.
        Se o examinarem, vero a cicatriz cirrgica do implante. 
No h nas regras nenhuma clusula sobre guerreiros 
criados. Foi um experimento asqueroso e inapropriado em 
outro mago. O que temos aqui  um menino que, segundo as 
Leis de Combate, nunca deveria ter se qualificado para um 
torneio, embora seja fcil ver por que ele parece atender aos 
critrios.
Jack ficou surpreso ao ver que Linda parecia confortvel 
naquele papel, a despeito da audincia ser composta de 
magos. "Talvez minha me no seja a nica advogada na 
famlia."
        Que prova tem de que o rapaz era um mago?  
perguntou d'Orsay.  Em vez de um guerreiro nascido sem 
uma pedra?
        O Livro Weir de Jack o identifica como um mago e inclui 
o captulo de costume sobre feitios e encantamentos.  o 
mesmo Livro Weir que Leander Hastings usou para 
apresent-lo no campo.
        Isso  verdade?  d'Orsay olhou para Hastings. O Livro 
Weir de Jack estava na mesa  frente dele.
         verdade. O Livro Weir identifica Jack como um mago.
Hastings passou o livro para d'Orsay e olhou para Linda. Ela 
desviou o olhar.
Mais uma vez, um murmrio correu pelo pblico. Ser que 
Hastings pretendia desqualificar seu prprio jogador?
Os juzes pareciam pensativos. Jack fechou os olhos. Era 
uma manobra ousada. Ele se perguntou se funcionaria. Ele se 
sentiu como algum com uma doena terminal que recebia 
notcias de uma possvel cura.
        Tenho aqui vrios dos vizinhos de Jack que podem 
testemunhar tambm, se necessrio. Eles sabem da histria 
de Jack, do que foi feito com ele.  Linda passou em frente 
ao pblico de novo, parando diante dos juzes.  Ao emitir 
uma deciso,  importante considerar as conseqncias a 
longo prazo. A doutora Longbranch transformou um mago 
em um guerreiro. Aceitar esse procedimento poderia pr 
outros magos em risco no futuro e subverter a inteno das 
Leis de
Combate. Afinal, as regras foram feitas para impedir o 
combate direto entre os magos.
D'Orsay voltou-se para Hastings.
        Senhor Hastings, o senhor  patrono do rapaz. Tem 
alguma resposta para isso?
Hastings deu de ombros.
        Jack carrega uma pedra de guerreiro, e eu o treinei como 
tal. No entanto, no contestarei a deciso do juiz. No tenho 
desejo de jogar com um mago num torneio, se a deciso for 
essa.
Hastings depositou a mo quente sobre o ombro de Jack; de 
alguma forma, aquilo transmitiu a Jack uma sensao 
reconfortante. "Ele vai me salvar disso se puder", pensou 
Jack, com surpresa. No importa como isso vai afetar os 
planos dele. Jack olhou para a tia, que encarava Hastings 
com uma expresso indefinvel.
D'Orsay se voltou para Jessamine Longbranch.
        Doutora Longbranch?
A mdica se levantou. Ela encarou os juzes, dando as costas 
a Linda.
        Antes de tudo, todos deveriam tomar conscincia de que 
esto sendo enfeitiados por uma encantadora e enganados 
por um renegado. Eles conspiraram para impedir o torneio 
de ir adiante. Ns todos deveramos ter tapado nossos 
ouvidos antes de eles terem comeado a falar.
Os juzes sorriram.
        A encantadora me chamou, antes de mais nada, porque o 
sobrinho dela era um herdeiro Weir nascido sem uma pedra, 
e por isso estava morrendo. Ela estava desesperada. Como 
sou cirurgia cardaca, achei que podia salvar o menino. 
Aconteceu que uma pedra de guerreiro... ahn... se tornou 
disponvel quando uma guerreira que eu estava treinando 
sofreu um acidente. Implantei o cristal com o total 
conhecimento e consentimento da senhorita Downey. A 
pedra o restaurou. Eu o fiz com a inteno de criar o menino 
para lutar pela Rosa Branca. Esse foi o nosso acordo desde o 
princpio.
        Eu pedi para voc colocar uma pedra de mago  retrucou 
Linda.  Eu nunca concordei com isso. Eu s soube mais 
tarde do que voc havia feito. O fato  que ele ainda  um 
mago e sempre foi. Aqui no  o lugar dele.
        Um veredicto  meu favor neste caso tem poucas 
implicaes para os magos  continuou a doutora 
Longbranch, como se Linda no houvesse falado.  
Ningum pode me acusar de haver removido uma pedra de 
mago e substitudo por outra. O rapaz era, para todos os 
efeitos, um Anaweir, um nada, e eu o transformei em 
alguma coisa ao implantar uma pedra. Ele deveria ser grato 
por isso.
Ela parecia prestes a continuar quando olhou para a direita, 
onde uma espcie de tumulto estava ocorrendo.
        Creio que tenho uma testemunha para apresentar. 
Senhorita Middleton?
Leesha Middleton entrou na sala, empurrando algum  
frente dela. Duas pessoas. Will Childers e Harmon Fitch.
Os amigos de Jack caminhavam por iniciativa prpria, 
olhando por cima de seus ombros para Leesha como se 
estivessem ansiosos por manter uma certa distncia dela. 
Jack praguejou baixinho. Hastings tinha razo. Ningum 
estava a salvo. Os magos das Rosas nunca deixariam sua 
famlia e seus amigos em paz. A no ser que ele conseguisse 
ser morto ou desqualificado.
Ficou surpreso ao ver que Leesha ainda estava trabalhando 
para Longbranch aps a traio com os mercadores. 
Entendeu que Longbranch no teria como saber daquilo. Os 
mercadores estavam mortos e enterrados, graas a Hastings.
Jessamine Longbranch fechou o rosto para Leesha.
        Eu falei para voc trazer a me do garoto  sibilou ela.  
Quem so esses?
Leesha deu de ombros.
        No consegui pegar a me. O velho escondeu.
Jack olhou para tia Linda, e ela falou, sem emitir
qualquer som:
        Snowbeard.
        Estes so Will Childers e Harmon Fitch.  Leesha deu a 
cada um deles um pequeno empurro. Will pareceu querer 
empurrar de volta, mas mudou de idia.  So amigos de 
infncia do Jack. Vo servir.
Leesha e Longbranch trocaram um olhar, e Jack se sentou 
com as costas mais eretas, perguntando-se o que seria tudo 
aquilo.
        Agora eles vo ter de servir, no ?  retrucou a doutora 
Longbranch. Ela fez uma pausa, recomps-se e virou-se para 
os rapazes, que estavam ali perplexos diante dos juzes.  
Qual de vocs  o Will? Ah. Vamos comear com voc, 
Will. Ns estvamos discutindo a cirurgia do Jack quando ele 
era beb e tnhamos esperana de que voc pudesse ajudar. 
 A voz de Longbranch era reconfortante.  O que o Jack 
contou a voc sobre isso?
Will olhou para Jack.
        Eu... eu no sei muito sobre isso. Por que no pergunta ao 
Jack?  acrescentou ele, indicando o amigo com a cabea.
        Estamos perguntando a voc  disse a doutora 
Longbranch, um certo tom perigoso na voz.
Will engoliu em seco audivelmente.
        Tudo bem, ento. Quando o Jack nasceu, ele tinha um 
problema no corao. Essa doutora Longbranch... imagino 
que seja a senhora... consertou.  o que eu sei.  As 
palavras saram numa enxurrada.
        Quer dizer que eu salvei a vida dele, baseado no que voc 
sabe?  indagou Longbranch.
Will confirmou com a cabea.
        Ningum est negando isso  disse Linda.
        Voc conhece o Jack desde o bero, no ?  continuou 
Longbranch.
Will assentiu.
        Por a. Desde que me lembro por gente.
        Voc alguma vez soube do Jack quando pequeno 
demonstrar algum sinal de poderes especiais? Algo que voc 
chamaria de magia?
Will franziu o cenho.
        Ahn, no. Na verdade, no.
Ela se voltou para Fitch.
        Voc j viu algum sinal de magia em Jackson Swift?
Fitch pigarreou.
        No sei o que quer dizer com "magia"  respondeu ele, 
encurvando os ombros como se procurasse se proteger.
        No? Deixe-me demonstrar.
Longbranch ps a mo sobre o ombro de Fitch. Ele se 
enrijeceu, gritou, tentou escapar e, por fim, caiu de joelhos, 
o rosto se acinzentando por causa da dor e do choque. Will 
deu trs longos passos e se lanou sobre a maga. Ela 
estendeu a outra mo, a palma voltada para fora, e Will caiu 
como se houvesse sido atingido por um machado.
Jack tentou se erguer da cadeira, mas Hastings o puxou de 
volta.
        No vai ajudar em nada. Acredite em mim.
        Ela est torturando suas prprias testemunhas!  Linda 
apelou a d'Orsay, estendendo as mos em frustrao.
O mestre deu de ombros, como a dizer que Longbranch 
podia fazer o que bem entendesse. Eram as testemunhas 
dela, afinal, e Anaweirs ainda por cima.
        Vamos, vamos, Harmon  murmurou a doutora 
Longbranch, soltando-o enfim.  No nos faa perder 
tempo.
        Eu nunca notei nada at recentemente  disse Fitch, 
arquejando, afastando-se da mo da mdica.  Em maro. 
Quando ele mandou Garrett Lobeck pro outro lado do 
campo de futebol. E a teve a luta no cemitrio, com... com 
chamas e tudo. Mas isso talvez tenha sido por causa da 
espada mgica  acrescentou ele, sem convico.
        Obrigada  disse a mdica.  Todos ns sabemos que a 
magia se manifesta em tenra idade. Seria de esperar que o 
mago Jack demonstrasse algum sinal dela, algo que at um 
Anaweir notaria.  Ela indicou Will e Fitch com a mo. 
Will estava se esforando para se sentar, com a ajuda de 
Fitch.  Por outro lado, as caractersticas de guerreiro se 
manifestam aps a puberdade, que foi quando Jack comeou 
a exibir seus... talentos.
        Ele estava sendo bloqueado, e voc sabe disso  disse 
Linda com firmeza.  Ele estava tomando Antiweir. Ele 
no manifestou seu poder at parar de tomar.
        Essa mulher  uma mentirosa.  A doutora Longbranch 
esticou os dedos.  A medicao era um placebo. Eu o 
prescrevi a fim de ficar de olho nele, de maneira que os pais 
dele precisassem vir a mim para obter mais. Isso tambm foi 
sugesto de Linda Downey: que eu o deixasse com os pais 
em vez de lev-lo comigo quando era beb. Ela prometeu 
desistir dele quando ele estivesse pronto para o treinamento.
Agora, pela primeira vez, Longbranch encarou Linda.
        Essa encantadora nunca entendeu o lugar que deveria 
ocupar. Ela tem sido rude e pouco cooperativa desde o 
princpio. Ela no deveria estar aqui dizendo aos magos o 
que fazer. Na minha opinio, algum no Conselho deveria se 
oferecer como voluntrio para tomar conta dela. A garota 
precisa de um responsvel que possa fornecer alguma 
disciplina.
Hastings resmungou baixinho. Quando Jack olhou para a sala 
em torno, pde ver vrios homens do Conselho inclinando-
se para a frente com interesse. Parecia que no faltariam 
voluntrios dispostos a se ocupar do problema de Linda 
Downey. Geoffrey Wylie se levantou e sua mo se abriu, 
revelando algo metlico que refletiu a luz, uma pea 
articulada de prata, como uma coleira.
        Eu aceito a responsabilidade pela encantadora  disse ele, 
em voz rouca.
Hastings fez meno de se levantar da cadeira, mas ris 
Bolingame j estava em p.
- Ela j tem uma responsvel, mestre d'Orsay  disse ris. 
 Sou amiga dela e protejo a encantadora.
Ela olhou feio para os outros magos em torno, como se os 
desafiasse a contradiz-la. Linda continuou em p, o rosto 
em chamas, os olhos baixos, sem dizer nada. Agora ficava 
claro para Jack por que Linda havia trazido os vizinhos 
junto. Ele se lembrou das Leis de Combate e da descrio do 
papel dos encantadores, que ele imaginara ser arcaica. Por 
mais inteligente e capaz de organizar suas idias que um 
encantador fosse, ele precisava de um responsvel em uma 
reunio de magos.
Wylie deu de ombros como se no se importasse e se sentou 
de novo. A coleira desapareceu.
Longbranch pareceu um pouco surpresa com ris, mas se 
recobrou num instante.
 Talvez voc deva ensinar a ela algumas maneiras, ento 
 ela retrucou. Andou pela frente do estrado, parando bem 
em frente a Jack.  O fato  que  a Pedra Weir, e nada 
mais, que determina a natureza de um herdeiro. No 
importa o que Jack Swift fosse antes. Ele agora  um 
guerreiro, qualificado como tal para jogar no torneio. Ele 
estaria morto se no fosse por mim. Nesse sentido, eu o 
criei, por isso ele me pertence.  Ela esticou o brao e 
deslizou a mo em torno da nuca de Jack, puxando-lhe o 
rosto para junto do dela. Ele sentiu a carne queimar sob o 
toque.  E  melhor que voc jogue bem, meu mestio, ou 
os seus dois amigos vo pagar o preo  sussurrou ela, para 
que somente ele ouvisse.
Jack fitou-a, horrorizado, antes de empurrar-lhe a mo para 
longe. As unhas da maga deixaram longos arranhes na pele 
de Jack.
Foi a que ele entendeu: Longbranch j sabia qual seria o 
resultado do processo, estava confiante de que ele voltaria 
para o seu controle em tempo para o Jogo. Era por isso que 
os amigos dele haviam sido trazidos para a Ravina. 
Longbranch no havia tido a oportunidade de trazer  tona o 
assassino interior de Jack, como prometera em Londres, por 
isso planejava usar Will e Fitch para for-lo a jogar. Para 
"incentiv-lo", como dizia ela. Ele olhou de Jessamine 
Longbranch para Claude d'Orsay, e soube que estava tudo 
combinado. Will e Fitch estavam sentados juntos nos 
degraus, como se procurassem proteo mtua. Como se isso 
pudesse fazer alguma diferena. Jack estremeceu.
        Jack Swift estaria morto se no fosse por mim  anunciou 
Leander Hastings.
A cabea de Longbranch ergueu-se de imediato.
        Leander Hastings tem sido uma pedra nos nossos sapatos 
por anos. Ele fez de tudo ao seu alcance para sabotar o Jogo. 
Por que ele tentaria apresentar um jogador se no tivesse um 
motivo oculto?
Hastings levantou-se.
        A doutora Longbranch disse a vocs que pretendia usar 
Jack no Jogo. Como saberemos qual era a inteno ou qual 
foi o acordo feito h 17 anos? Nenhum contrato foi feito. A 
pedra foi implantada sob falsas alegaes. A Rosa Branca teve 
contato mnimo com Jack desde ento. Todo o treinamento 
que ele recebeu fui eu que forneci. H duas semanas, a 
doutora Longbranch tentou assassin-lo com um graffe e 
quase teve sucesso.  pelos meus esforos que ele continua 
vivo. Se isso  motivo suficiente, eu digo que o rapaz  meu. 
Eu trouxe Jack para o Jogo como seu patrono. Eu apresentei 
a genealogia dele e assegurei a sua aprovao como jogador. 
Agora a peticionria prope que ele seja tirado de mim. No 
que concerne ao Jogo, a posse sempre foi a lei. Quem vai 
querer trazer um guerreiro para jogar no futuro, sabendo que 
ele poder muito bem lhe ser roubado? Se Jack for julgado 
apto a jogar, ele deve jogar para mim.  Hastings se 
manteve em p.
"Ele deve saber que no pode vencer esta", pensou Jack. "Ele 
no  nenhum idiota."
D'Orsay conversou brevemente com os outros juzes, ento 
voltou o rosto para a corte.
        Esta  a minha deciso  disse ele.  Na primeiro 
questo, se Jack Swift  guerreiro ou mago, eu decido contra 
a peticionria.  a pedra que determina o que ele , nada 
mais.
Jack soltou um suspiro e olhou para tia Linda. Os olhos dela 
estavam fechados, o queixo apoiado nas mos entrelaadas, 
como se ela estivesse rezando. A esperana se extinguira.
Hastings estava ainda em p e agora falava rapidamente, 
antes que d'Orsay pudesse continuar.
        Se Jack permanecer sob o meu patronato, estou disposto a 
aumentar o prmio das apostas.
D'Orsay e os outros juzes ergueram o olhar com interesse. 
Longbranch parecia cautelosa. Hastings manteve-se calmo, 
uma mo segurando o antebrao oposto.
        Se Jack vencer, espero receber o prmio de costume. 
Serei o detentor do trofu e mestre do Conselho. Se Jack 
perder, eu me submeterei a qualquer justia que o Conselho 
julgue apropriada pelos meus crimes passados. Aps o Jogo e 
fora das regras.
Houve um silncio estupefato. Mais uma vez, Jack tentou se 
levantar, mas agora a mo de Hastings estava no ombro dele, 
emanando intenso poder, mantendo-o sentado.
        O que faz vocs pensarem que podem confiar nele?  
indagou Jessamine Longbranch, com voz estridente.
        O que confiana tem a ver com isso?  perguntou 
Hastings, sorrindo.  Vocs podem fazer o que quiserem. 
Estou aqui, um contra todos, na ravina. Vocs tm vrias 
testemunhas do acordo. Se quiserem que eu assine alguma 
coisa...  Ele deu de ombros.
D'Orsay olhou para Hastings, pensativo, o lbio inferior 
preso atrs dos dentes superiores. Ento ele estudou Jack, 
sem dvida avaliando as suas possibilidades contra a jogadora 
da Rosa Vermelha. Virou-se para os outros juzes, e houve 
outra breve conferncia. Quando se voltou aos peticionrios, 
d'Orsay estava sorrindo.
        Sobre a questo do patronato, deixaremos a situao como 
est. Parece que o Drago Prateado tem investido mais nesse 
menino do que a Rosa Branca, apesar do envolvimento 
anterior desta. E ns aceitamos a proposta do senhor 
Hastings. Prepararemos os documentos apropriados para a 
sua assinatura.  Ele esfregou as mos uma, duas vezes, 
como um homem  mesa aguardando um banquete. Fez um 
gesto de cabea para a assemblia.  Podem se retirar.
Assim, os juzes conseguiram emitir uma deciso que no 
agradou a ningum. O pblico debandou rapidamente, 
exceto pelo pequeno grupo de amigos de Jack. Longbranch e 
Leesha deixaram Will e Fitch sentados sozinhos nos degraus, 
abandonados.
Logo que Hastings os soltou, Jack se virou para ele com 
raiva.
        Por que foi fazer isso? No acha que j tem bastante 
presso em cima de mim? Agora, se eu perder, voc pe a 
cabea na forca.
        Improvvel que seja uma forca, Jack  respondeu 
Hastings.  Tenho certeza de que eles vo pensar em algo 
mais... criativo.  Ante a expresso magoada de Jack, ele 
ficou srio.  Olhe, voc queria jogar pela Rosa Branca 
amanh? Eu tinha de dar a eles um motivo pra decidir em 
meu favor. Claude d'Orsay nunca teria deixado voc sob o 
meu controle de outro jeito. Ele tem razes demais pra no 
fazer isso. Nunca espere que os magos joguem limpo.
De repente, Linda Downey estava diante deles, o queixo 
empinado.
        Maldito seja, Leander.  Ela estava plida, os olhos azuis, 
brilhantes de raiva.
Hastings olhou para ela, surpreso.
        O que foi que eu fiz?  Ele parecia genuinamente 
perplexo.
        Voc realmente no liga, no ? Impulsivo como sempre. 
Est determinado a acabar morto antes do fim de tudo isso. 
Maldito  repetiu ela com nfase.
Hastings deu uma rpida olhada para Jack, depois se voltou 
para ela de novo.
        E eu suponho que voc no estava se arriscando ao vir 
aqui?  Ele sacudiu a cabea, sorrindo um pouco.  
Anime-se. Jack vai pensar que voc no leva f nele.
        Eu acredito em Jack.  voc que me pe em dvida, 
Leander.  Ela se voltou para Jack.  Vamos estar aqui 
com voc, Jack.  Linda apontou para os vizinhos com a 
cabea.  Vamos pensar em alguma coisa  prometeu.
Will e Fitch ainda estavam sentados nos degraus, com medo 
de se mover, como paroquianos em uma igreja inclemente.
        Oi, Will. Oi, Fitch  disse Jack, indo at onde eles 
estavam.  No posso dizer que estou feliz em ver vocs. 
Vocs esto bem?
O olho de Will estava ficando roxo por causa do impacto de 
seu rosto com o piso de pedra. Fora isso, ele parecia inteiro.
        Ei, Jack  disse Fitch com tristeza.  Desculpe no ter 
me sado melhor respondendo quelas perguntas. Mas 
quando ela... Foi como se eu no pudesse evitar.
        Foi como se eu estivesse drogado ou algo assim  
acrescentou Will.
        Vocs agiram certo  disse Jack, erguendo as mos para 
deter os pedidos de desculpas.  Se a culpa  de algum,  
minha. Como chegaram aqui, afinal?
        Foi a Leesha  disse Will, abrindo e fechando as mos 
como se a estivesse estrangulando.  Ela preparou uma 
armadilha pra ns em Carlisle, e a gente caiu como patinho.
        Nossa, eu sinto muito  comeou Jack.
Fitch se contorceu, impaciente.
        Certo, vamos todos concordar de uma vez que sentimos 
muito por estarmos aqui. E agora?
Jack viu-se sem palavras sobre o que fazer com os amigos, 
agora que eles estavam ali. L no era um lugar seguro para 
Anaweirs.
        Por que no voltam para o chal conosco at decidirmos o 
que fazer?  sugeriu Hastings.  Acho melhor mantermos 
vocs fora de circulao.
No final das contas, algum ficou feliz com o veredicto. A 
histria vazou para a multido l fora, e um grande aplauso 
irrompeu quando Jack apareceu. Mais uma vez, havia longas 
filas nas bancas de apostas. Os espectadores jogavam 
minsculas bolas de ouro e prata que explodiam em flores e 
fogos de artifcio em miniatura que choviam sobre suas 
cabeas. Jack vira essas bolinhas  venda em diversas 
barracas que flanqueavam a ravina.
Apesar dos esforos de Hastings para mant-las a distncia, 
as mulheres avanaram sobre eles, tentando abraar Jack, 
enfiando presentes em suas mos. Will e Fitch levaram 
cotoveladas e foram empurrados de um lado para o outro 
pela multido que tentava alcanar Jack. Apesar de tudo, ele 
ficou contente ao chegar ao refgio do chal e sacudir as 
ptalas de flores dos cabelos.
        Elas agem como se voc fosse uma estrela de rock ou 
coisa assim  disse Fitch com espanto.
        Mais como um gladiador, acho  disse Jack, dando de 
ombros, ainda perturbado pelos eventos no tribunal.
Quando Hastings saiu para buscar o almoo, Jack relatou aos 
amigos tudo o que lhe acontecera. A nica parte que Will 
achou difcil de aceitar foi Ellen Stephenson.
        No pode ser verdade  disse ele, balanando a cabea. 
 Ela no faria isso. Ela  nossa amiga. Alm do mais, ela 
no falava de outra coisa que no fosse voc. Bem, voc e 
futebol  acrescentou ele.
        Isso foi antes de ela saber quem eu sou. Ou o que eu sou, 
melhor dizendo.
Jack estendeu uma pele de camura sobre a mesa e 
depositou sobre ela suas armas, leo e ferramentas de 
amolar. Tudo, exceto a Sombra Assassina, que nunca perdia 
o fio.
        Ora, ela teve centenas de chances de matar voc em 
Trinity  insistiu Will.  Por que ela no fez isso?
Jack sacudiu a cabea.
        No fao idia.
Metodicamente, ele testou todas as lminas, usou a pedra de 
amolar, aplicou uma fina camada de leo.
        Ela luta bem?  perguntou Will, olhando por cima do 
ombro.
        Como  que eu vou saber? Eu nunca a vi jogar nem um 
videogame.  Ele inspirou fundo, soltou o ar.
        Ouvi dizer que ela vem treinando h anos.
        Talvez seja magia  sugeriu Fitch.  Talvez ela s se 
parea com a Ellen Stephenson. Talvez eles tenham 
percebido que seria difcil pra voc ter de...  ele no 
completou a frase.
Jack realmente gostou dessa idia.
        Acho que tudo  possvel  disse ele devagar.
        No consigo acreditar que o senhor Hastings esteja 
forando voc a fazer isso  disse Will, com raiva.
        Lutar neste torneio, digo.
        Ns no temos muita escolha.  Jack pensou no que 
Jessamine Longbranch havia dito sobre Will e Fitch. Pelo 
menos Hastings os havia salvado do papel destinado a eles 
como refns. Pequenas bnos. Era nisso que ele tinha de 
se concentrar.  Eles teriam me apanhado mais cedo ou 
mais tarde. Ao menos deste jeito  nos nossos termos.
Will no estava impressionado.
        Certo. Nossos termos. E a ou voc ou a Ellen acabam 
mortos. Por que ns quatro no podemos simplesmente 
fugir daqui?  Ele apontou para a Sombra Assassina.  
Podamos ser como os Quatro Mosqueteiros. Com duas 
espadas.
Jack no sabia o que dizer. Estava comeando a se dar conta 
do quo descartveis eles eram, tanto guerreiros como 
Anaiveirs. Tudo o que Will e Fitch tinham de fazer era se 
meter entre um mago e algo que ele quisesse e estariam 
perdidos.
Hastings retornou com dois frangos assados, po e salada, e 
garrafas de suco de ma e refrigerante.
        Andei procurando uma escolta pra vocs dois  disse 
Hastings depois de um tempo, passando a Will um pedao 
de frango.  Mas a Linda e os vizinhos no vo embora 
antes do torneio. Eles tm esperanas de impedir que ele 
acontea. Vocs vo precisar de ajuda pra atravessar o 
nevoeiro mgico e de um guia para voltarem a Keswick.
        Eu no vou a lugar algum sem o Jack  disse Will com 
teimosia.  Pode esquecer.
        Eu tambm.  Fitch separou delicadamente a carne do 
osso.
Hastings suspirou.
        Vocs dois correm perigo aqui.
        E o Jack, no?  disse Will de forma maldosa. Ele lambeu 
os dedos e tomou um gole de refrigerante.
        Eu no quero vocs no torneio amanh, nenhum dos dois 
 disse Jack de repente.  Prometam que no vo.
        Eu no prometo nada  disse Will. Ele voltou o olhar 
para Hastings.  S que os meus pais provavelmente esto 
loucos de preocupao.
        Est certo  disse Hastings, levantando a mo.  De 
qualquer jeito, os dois tm de ficar at que eu encontre uma 
maneira de tirar vocs daqui a salvo. Vou mandar um tipo 
de mensagem para os seus pais. Sabe l Deus como.
Jack e Hastings passaram a maior parte do resto do dia 
examinando o campo e discutindo estratgias. Jack teve uma 
forte sensao de dj vu ao caminhar de um lado a outro 
das galerias, revivendo as memrias dos massacres 
testemunhados por Brooks. Ellen e o treinador dela 
caminhavam pelo campo no lado oposto. Era como se 
houvesse um oceano entre eles.
Um banquete foi oferecido no salo do castelo para 
jogadores, patronos e convidados. O estrado havia sido 
removido, e uma mesa no formato de um grande U ocupava 
metade do comprimento do salo. A Rosa Branca estava bem 
representada, a despeito do fato de no estar apresentando 
um jogador. Afinal, Jessamine Longbranch era ainda a 
mestra do Conselho, pelo menos at o torneio se encerrar. 
Leesha Middleton estava resplandecente, vestida 
inteiramente de preto como a aranha que era, os cabelos 
entrelaados com rosas brancas.
A delegao do Drago Prateado ocupava apenas uma 
pequena parte de um dos braos da mesa. Linda, ris, 
Mercedes e Blaise estavam l, alm de Jack e Hastings. Will 
e Fitch foram tambm, j que estavam mais seguros quando 
acompanhados. Havia sempre a possibilidade de que os 
treinadores de Ellen decidissem tomar seus prprios refns. 
Alm disso, Hastings sugeriu que eles deveriam ver o 
mximo do espetculo que pudessem.
Intimidao parecia ser a ordem da noite. Jack vestia uma 
tnica nova nas cores do Drago Prateado, ainda mais 
elaborada do que aquela que usara antes naquele mesmo dia. 
A Sombra Assassina estava presa  cintura. Jack logo 
descobriu que era bastante inconveniente se sentar  mesa 
carregando uma espada. Hastings trajava preto e prateado. 
Embora dissesse nunca ter colocado um jogador em campo, 
ele parecia  vontade em meio  ostentao associada ao 
Jogo.
D'Orsay, Longbranch e outros altos oficiais estavam sentados 
a uma mesa que conectava os dois braos da mesa em forma 
de U. Os representantes da Rosa Vermelha ocupavam quase 
todo o outro brao da mesa. Ellen estava sentada entre 
Geoffrey Wylie e Simon Paige. Ela vestia uma tnica 
cerimonial de batalha, branca com raminhos de rosas 
vermelhas, e um manto curto de cota de malha de ouro puro 
sobre os ombros. Trazia uma pequena adaga embainhada  
cintura. Muito mais prtico para um jantar do que uma 
espada. O cabelo estava preso em uma trana grossa que lhe 
rodeava a cabea. Parecia muito bonita. E perigosa.
Eles haviam colocado Ellen o mais longe possvel de Jack na 
mesa. Ele sups que era para impedir quaisquer embates 
precoces. No que Jack planejasse comear alguma coisa, 
mas ele queria desesperadamente conversar com ela. 
Elaborou mensagens mentais para transmitir-lhe esse desejo, 
mas ela sempre tinha o cuidado de no deixar que seus olhos 
encontrassem os dele.
A comida era requintada e elegantemente disposta, 
incluindo 35 pratos, muitos dos quais Jack no reconheceu, 
alm de vinhos e bebidas fortes. S experimentar algumas 
delas era o bastante para fazer a cabea dele girar. Vrias 
vezes Hastings teve de interceptar Will ou Fitch antes que 
eles provassem algo particularmente extico. "Isso 
provavelmente vai matar vocs", explicara. Depois disso, 
eles se tornaram consideravelmente menos ousados.
Aps o jantar, milhares de bolhas foram soltas no salo. Elas 
estouraram, libertando minsculos pssaros, borboletas ou 
cascatas de pedras preciosas. Isso parecia ser entretenimento 
rotineiro para a maioria das pessoas presentes.
Geoffrey Wylie foi convidado a propor um brinde como 
patrono do torneio, por assim dizer. Ele se lanou em uma 
longa e sangrenta histria da Rosa Vermelha, terminando 
com uma predio do que esperava que acontecesse a Jack 
no campo no dia seguinte.
 Milhares de guerreiros j foram sacrificados a fim de 
consagrar este solo. Amanh ns continuaremos essa 
tradio. O guerreiro da Rosa Vermelha arrancar o corao 
do Drago Prateado, ainda batendo, e regar a ravina com 
seu sangue.
Will tapou os ouvidos com as mos, o que alguns dos magos 
pareceram achar engraado. Fitch ficou sentado, plido e 
calado, dobrando e desdobrando um guardanapo. Ellen 
olhava direto em frente, o queixo erguido, parecendo capaz 
de qualquer coisa. Jack se manteve impassvel. Estava 
aprendendo a simplesmente pular o dia seguinte e aterrissar 
suavemente no nada que o esperava alm. Quando o brinde 
foi concludo, houve aplausos e aclamaes entusisticos do 
contingente da Rosa Vermelha, exceto por Ellen. No teria 
sido elegante, sups Jack.
Em seguida, Hastings levantou-se e props seu prprio 
brinde, que foi consideravelmente mais breve.
        Eu gostaria de propor um brinde  memria de todos 
aqueles que deram suas vidas ao longo dos sculos para 
tornar possvel essa tradio sangrenta.
A isso, os representantes do Drago Prateado ergueram seus 
clices, mas muitos dos convidados disseram mais tarde que 
o brinde fora de mau gosto.
Aps o jantar, Jack tentou se aproximar de Ellen, mas os 
treinadores dela empurraram-na rapidamente para fora do 
salo. Ele se manteve perto o suficiente para v-los andar em 
direo  ala oeste, em vez de sarem pela porta da frente. 
Assim ele soube que ela estava hospedada no prprio 
castelo.
Hastings permaneceu depois do jantar, para uma reunio 
sobre os planos para o Jogo no dia seguinte. Linda e ris 
ficaram com ele. Jack e seus amigos voltaram para o chal, 
passando mais uma vez pelo corredor polons de fs, alguns 
se esticando para toc-lo, outros pedindo autgrafos. Quando 
estavam dentro da casa de novo, Will se jogou na cama de 
Jack.
        Eu comi aquele enorme jantar e, durante aquele brinde, 
fiquei com vontade de vomitar  disse ele.
        A Ellen parecia diferente mesmo  disse Fitch.  Meio 
fria, cruel e distante.  Ele estudou Jack.  O que vai fazer 
amanh? Voc tem um plano?
        No se preocupe com isso  disse Jack, lacnico.  No 
vai adiantar nada, de qualquer jeito.
Ele removeu a espada e a tnica e substituiu a ltima por 
uma blusa de malha. A dyrne sefa estava ainda no armrio 
onde ele a deixara quando tomara banho no primeiro dia. 
Fazia mesmo apenas um dia que ele chegara  ravina? 
Pendurou a pedra ao redor do pescoo, encontrou o espelho 
de Blaise na bolsa e o enfiou na cinta da cala. Finalmente, 
destrancou a janela.
        O que voc est fazendo?  indagou Will.
        Vou sair por um instante. Tentem impedir o Hastings de 
descobrir que eu sa.  Jack se lanou ao parapeito de pedra, 
passou as pernas para o outro lado e pulou para o cho. 
Inclinou-se novamente  janela.   melhor fechar depois 
que eu sair. Eu bato quando estiver pronto pra entrar. No 
durmam pesado demais ou no vo me ouvir.
Will esticou o brao pela janela aberta e agarrou um 
punhado da blusa de Jack.
        Voc vai passar por aquela multido? Provavelmente vai 
voltar com uma faca nas costas.
        Eles vo ter de me encontrar primeiro.  Jack 
pronunciou o feitio de invisibilidade que fizera questo de 
memorizar quando Hastings o utilizara.
Will largou-o num instante, praguejando, quando Jack 
desapareceu.
Ele era o campeo do Drago Prateado, o assunto da ravina, 
aquele cujo nome estava nos lbios de todos e nos trajes dos 
torcedores. Clientes espirravam das tendas-tabernas, 
danavam nos pavilhes sob as rvores, jogavam suas 
moedas nas barracas de apostas.
Festas particulares estavam s comeando a esquentar. Mas 
ningum o notou enquanto ele seguia nas sombras o 
caminho que levava do chal ao castelo.
A jovem criada no o viu se esgueirar para dentro do castelo 
enquanto ela fumava do lado de fora da cozinha. Ele 
atravessou rapidamente os corredores na rea de servio, 
rumando para a ala oeste, sempre virando  esquerda quando 
possvel. A princpio, sentiu o cheiro da comida do 
banquete. Depois o odor desapareceu, e ele passou pela 
lavanderia e pela despensa. Encontrou diversos servos, a 
maioria Anaweirs. Enfim, viu-se no que pareciam ser os 
aposentos da famlia. Agora eram magos que passavam por 
ele nos corredores. Ele no disse nada e, felizmente, eles 
pareceram no notar sua presena.
Jack no tinha nenhum plano em especial para descobrir 
onde Ellen estava, e estava comeando a compreender quo 
impossvel poderia ser encontr-la no labirinto de 
corredores. Especialmente se ela j estivesse em seu quarto. 
Ento ele ouviu uma voz familiar atrs de um canto de 
parede. Instintivamente, achatou-se contra a pedra fria da 
parede quando Paige e Wylie surgiram. Eles pareciam 
prestes a tomar direes diferentes, pois pararam por um 
momento na interseo, a uns 30 centmetros de Jack. Ele 
lutou para controlar sua respirao, sabendo que estaria 
perdido se aqueles dois magos o avistassem num corredor 
deserto.
Wylie passou um livro para Paige. Eram as Leis de Combate.
        Faa com que ela repasse mais uma vez  disse o mago. 
 No quero nenhum tropeo amanh.
        Ela tem tudo memorizado. Para ela,  to natural como 
respirar. No vai haver nenhum problema  replicou Paige, 
cheio de confiana.
        Esperemos que voc esteja certo  disse Wylie, com um 
esboo de sorriso.   melhor ir dormir. Eu ainda tenho 
algumas reunies esta noite.
Wylie continuou pelo corredor, e Paige fez a curva passando 
por Jack, to perto que Jack poderia toc-lo, se quisesse. Jack 
seguiu-o a uma distncia cautelosa. Paige fez mais algumas 
curvas at chegarem a um curto corredor que terminava em 
duas portas na extremidade. Paige bateu com fora em uma 
das portas. Houve uma longa pausa, e Ellen a abriu. Ela 
estava vestindo uma curta camisola de seda e havia soltado o 
cabelo. Jack chegou o mais perto que se atreveu. Ela havia 
apenas entreaberto a porta, mas Jack deu sorte, pois Paige a 
escancarou e entrou no quarto. Jack conseguiu se esgueirar 
atrs dele.
        Est se sentindo bem?  Paige olhou feio para o quarto 
em torno.  Voc no comeu muito no banquete. No 
queremos correr nenhum risco, to perto do evento.
        Estou tima  respondeu Ellen, estendendo a mo para 
pegar o livro.  No quis estragar o treinamento, com toda 
aquela comida.
Paige passou-lhe o livro.
        Voc entendeu bem a estratgia?
        Entendi  respondeu Ellen, sem encarar o mago.
Ela estava obviamente desconfortvel, ansiosa para que o 
treinador fosse embora, e tentava esconder isso.
Paige insistiu.
        O rapaz  mais forte, ento  com isso que voc tem de se 
preocupar. Alm disso, o alcance dele  maior. No deixe ele 
se aproximar, nem mesmo uma vez. Se no conseguir atingir 
ele no corpo, parta para o brao da espada. Ele no vai 
esperar por essa. Ele  novato, sem experincia. Quando ele 
ficar incapacitado, faa-o sangrar.
        Sangrar  repetiu Ellen, obediente.
        Voc sabe, no tenha pressa. Corte ele devagar. A 
multido vai adorar. Mas, como eu falei, no se arrisque. 
Arranque o corao para acabar com ele de uma vez.
Jack descobriu que gostava menos de Simon Paige a cada vez 
que ele abria a boca.
         s isso?  Ellen olhava para o cho.
O treinador esticou o brao, segurou o queixo de Ellen e 
ergueu-o para que ela o encarasse
        Voc no vai me desapontar.  No era uma pergunta.
        No  sussurrou ela, plida como cinzas, os olhos 
cinzentos enevoados por alguma memria dolorosa.
        Vou estar no quarto ao lado.
O mago saiu do quarto, e Ellen fechou a porta atrs dele. Ela 
encaixou o ferrolho no lugar e apoiou o rosto
contra a pesada madeira da porta. A adaga que levara consigo 
no jantar estava sobre a mesa junto  cama. A espada estava 
apoiada contra a parede. Jack se sentou  mesa entre Ellen e 
as armas, acomodando-se com cuidado na cadeira. Primeiro 
ele dissolveu o feitio de invisibilidade. Depois pronunciou o 
feitio para travar a porta.
Logo s primeiras palavras, Ellen se virou, buscando uma 
arma que no estava l.
        Jack!  sussurrou ela.  Como voc...?
Ela se virou, soltou o ferrolho e puxou a porta, mas esta no 
se moveu.
        No vai abrir  disse Jack.  No envolva o Paige nisso. 
Eu quero falar com voc.
Ellen se encostou contra a porta, ainda vasculhando o quarto 
com os olhos.
        Est procurando por isso?  Jack ergueu a adaga pela 
ponta e colocou-a de volta na mesa.  Por favor, sente-se 
aqui por um instante. No vou demorar muito.
Ellen finalmente se sentou em uma poltrona do outro lado 
do quarto em relao a Jack. Ficou empoleirada na borda, as 
palmas apoiadas contra o assento como se esperasse que ele a 
atacasse a qualquer momento.
        O que voc est fazendo aqui?  indagou ela.  Como 
entrou aqui?
        Eu preciso fazer umas perguntas a voc.
Ellen estava recuperando parte de sua confiana. Ela o 
estudou com ateno.
        Ou voc  louco ou estpido. O Paige est no quarto ao 
lado.


        Chame-o, se quiser.  Jack se recostou na cadeira, 
fingindo indiferena.
Ele realmente no fazia idia do que Ellen faria, mas tinha 
visto o modo como ela se portara diante do treinador e 
resolveu arriscar.
Aps um instante, ela disse:
        O que voc quer comigo?
        Por que voc foi para Trinity?  disparou Jack.
Ela o encarou por um momento, ento revirou os
olhos como se ele fosse um idiota.
        Eu fui l matar voc, Jack.  Ela flexionou as mos diante 
do corpo.  Ou capturar voc, melhor dizendo. Mas eu no 
sabia que era voc, na poca. O Wylie descobriu que a Rosa 
Branca tinha um jovem guerreiro escondido em Trinity. 
Ento eu fui para o colgio procurar voc.  Ela fez uma 
pausa.  Houve uma enorme descarga de poder no dia do 
teste de futebol. O Paige e o Wylie foram atrs de voc, mas 
acho que o treino j tinha terminado. A gente sabia com 
certeza que devia ser algum no time. Mas depois disso no 
houve nada, nem uma pista.
        Eu... ahn... encontrei o Wylie em Coal Grove  admitiu 
Jack.  Ele tentou roubar a minha espada.
        Aquele era voc?  Ellen estudou-o com uma expresso 
especulativa.  O Paige me contou. O Wylie andava lendo a 
histria das Sete. Ele tinha esperana de encontrar uma das 
espadas. O Wylie tinha certeza de que voc era um 
Anaweir, porque no conseguiu detectar nenhuma pedra. 
Ele atribuiu todos aqueles fogos  espada. Foi voc que fez 
aquilo com ele? Queimou o rosto dele, digo.
Jack sacudiu a cabea.
        J estava queimado quando eu o vi pela primeira vez. 
Parecia recente.
Ellen ficou olhando-o, como se avaliasse se deveria acreditar 
nele ou no.
        O Wylie deixou a cidade depois daquilo. O Paige disse que 
ele estava caando uma encantadora, alguma agente da Rosa 
Branca que tinha roubado a espada. Acho que era a sua tia. O 
Wylie nunca fez a conexo entre voc e Trinity. Ento o 
Hastings apareceu, e o Paige se escondeu. Eu era a infiltrada. 
A espi. E todo aquele tempo, voc e a espada estavam bem 
debaixo dos nossos narizes.  meio engraado, quando a 
gente pensa a respeito.  Mas ela no sorriu.
        Eu tambm no percebi quem voc era  comentou Jack.
        Depois de todos esses anos, sou boa em manter meu 
poder sob controle. Como acha que eu sobrevivi? Suponho 
que a gente nunca imagine que o seu inimigo  to esperto 
quanto a gente  acrescentou ela.
Ela deixou as mos carem no colo.
        Depois de um tempo, eu me convenci de que no era 
voc. Talvez eu no quisesse acreditar que fosse voc. E eu 
estava realmente curtindo o lance todo de cidade pequena, o 
time de futebol e tudo o mais. Eu nunca tinha morado em 
nenhum lugar como Trinity.
Que diabo, acho que eu nunca morei nove meses no mesmo 
lugar.
        Quer dizer que voc sabia sobre o Hastings?  insistiu 
Jack.
Ellen fez que sim com a cabea.
        Ns imaginamos que ele devia estar tentando pegar voc 
antes de todo mundo. Achamos que era por isso que ele 
estava se concentrando no time de futebol. Mas ele estava 
trabalhando com vrios jogadores e, alm disso, tinha a 
Sociedade Chauceriana. Isso nos atrapalhou, porque voc 
no estava envolvido nela.  Ela deu de ombros.  Pensei 
que devia ser o Will. Ele  musculoso, voc sabe, e levou 
algum tempo para voc... para voc...  Ela pareceu perder 
o fio da conversa. Os olhos dela estavam no peito e nos 
ombros de Jack.
        Era por isso que voc passava tempo com o Will?
        No incio, sim. Mas eu finalmente percebi que ele era 
Anaweir, e ele se tornou um amigo. O Fitch tambm.  Ela 
olhou para Jack.  Fiquei surpresa quando vi que eles 
estavam no banquete.
        Eles foram trazidos aqui como refns, para garantir que eu 
lutasse.
Ellen franziu a testa.
        Hastings?
Jack sacudiu a cabea.
        Longbranch. Ela est furiosa por eu estar lutando pelo 
Hastings.  A conversa morreu por um momento.  De 
onde voc ?  perguntou Jack.
Ellen deu de ombros.
        No sei.  Ela se levantou e comeou a andar de um lado 
para o outro.  Eles nunca me disseram. Devo ter sido 
raptada quando era beb. Desde que me lembro, o Paige foi 
meu treinador.
Ela estremeceu e envolveu o prprio corpo com os braos.
Jack pensou sobre o que Hastings havia dito. "Voc sabe o 
que eles fazem com os guerreiros que preparam para o Jogo." 
Ela obviamente morria de medo de Simon Paige. Ele queria 
fazer alguma coisa, abra-la ou, pelo menos, segurar-lhe as 
mos, dizer-lhe que sentia muito, mas ficou ali como um 
bobo, sabendo que ela poderia no reagir bem a tais gestos.
        Todo o tempo em que voc esteve escondido em Trinity 
naquela sua maravilhosa casa velha com a sua maravilhosa 
me excntrica, eu estive fugindo. Eu vi o mundo. Sei falar 
sete lnguas. No perteno a lugar nenhum e no tenho 
ningum. Eu sempre parto no meio da noite. Nada de 
despedidas pra mim. Voc, por outro lado, teve os mesmos 
amigos a vida toda.
        No  minha culpa  sussurrou Jack.
Ele finalmente se dava conta do que significara a 
interveno de tia Linda. Ela o havia salvado daquela vida 
para que ele pudesse ficar em Trinity, com Becka, e crescer 
do modo como crescera. As coisas poderiam ter sido muito 
diferentes. Ele pensou em Jessamine Longbranch e 
estremeceu.
Ellen ainda estava andando de l para c, ainda zangada.
        E todo esse tempo eu estive treinando, semana aps 
semana, desde que eu tinha trs anos de idade. Voc no faz 
idia do que eles fizeram comigo.  Ela parou, engoliu em 
seco e prosseguiu.  No apenas eu nasci pra isso, mas fui 
criada pra isso tambm. Amanh vou receber minha 
recompensa  disse ela, deixando-se cair de volta na 
poltrona.
Jack sentiu a necessidade de mudar de assunto.
        Foi a briga com Lobeck que fez voc perceber?
Ellen assentiu.
        Ainda no acredito que voc levou aquele soco no rosto 
antes de revidar. Eu estava tentando ajudar voc sem me 
revelar. Voc tem muito mais controle do que eu.
Era hora da pergunta fatal. Ele tirou o espelho do cinto e 
brincou com ele, ento o virou de forma que pudesse ver o 
rosto de Ellen.
        Ento voc contou ao Paige, e a ele tentou me envenenar 
em Cedar Point.
Ela j sacudia a cabea antes de ele ter terminado de falar.
        Swift, voc s vezes  to idiota.
        Como assim?
        O Wylie queria ter certeza sobre voc antes de convocar 
um torneio, para que ele pudesse ganhar por desistncia. 
Para que arriscar a guerreira dele sem necessidade? Mas eles 
no teriam matado voc, a menos que precisassem. Eles 
planejavam capturar voc. Com voc e eu, ele e o Paige 
poderiam comear um...  As palavras pareceram travar em 
sua garganta.  Eles queriam iniciar um programa de 
procriao, est bem? Criar guerreiros para o Jogo.  Ela 
parou de novo, as faces ardendo de embarao. Prendeu uma 
mecha reluzente de cabelo atrs da orelha.  S Deus sabe 
por que estou contando tudo isso pra voc.
Jack no sabia o que dizer. Aquela era a garota que se 
sentava  frente dele na sala de chamada. Algum cujo maior 
problema deveria ser conseguir entrar no time de futebol, ou 
pagar a faculdade. Ele respirou fundo, ento pigarreou.
        Se o Paige e o Wylie no tentaram me envenenar, ento 
quem foi?
        Fui eu.
        Voc tentou me matar?
Jack encarou-a, sem fala. "Ela preferiria me ver morto a..."
        Idiota.  Ela soltou o ar dos pulmes, com desprazer.  
Se eu quisesse matar voc, voc estaria morto. E eu no 
envenenaria voc. No  o meu estilo.
        Qual  o seu estilo, ento?  indagou Jack.  Desculpe-
me se estou um pouco perdido aqui.
Ela apontou para a adaga sobre a mesa.
        Desse jeito  melhor, suponho.  Ela inclinou a cabea 
para o lado, estudando-o.  Eu sabia que era s uma questo 
de tempo at voc ser descoberto. Trinity no  um lugar 
muito grande. Eu envenenei a sua bebida e a joguei na 
lagoa. A idia era assustar voc, fazer com que deixasse a 
cidade. Pensei em dar a voc um gostinho daquilo por que 
eu passei. Mas voc no foi embora.
        Eu queria fugir  admitiu Jack.  Mas eu no tinha lugar 
algum pra ir.
        No se foge para algo, Jack, voc s foge.  assim que se 
faz. De qualquer modo, no minuto seguinte, fogos estavam 
explodindo para todos os lados no colgio, e voc e o 
Hastings estavam no meio de tudo aquilo. A gente no 
conseguiu entender nada. Os raptores, eu quero dizer. A 
gente achava que estava com tudo sob controle.
        Mercadores  disse Jack, lacnico.  Leesha Middleton 
trabalhava com eles.
        Eu deveria saber!  Ellen fez uma carranca.  A o Paige 
finalmente percebeu, mas a essa altura voc e a sua famlia 
estavam completamente inacessveis. Magos e feitios de 
proteo para todos os lados. Quando voc desapareceu, a 
histria era de que voc tinha ido para a Inglaterra. A Rosa 
Vermelha imaginou que voc tinha vindo lutar, ento eles 
convocaram um torneio para que pudessem decidir a data e 
o local.
        Voc poderia ter evitado isso  retrucou Jack.  Voc 
sempre teve acesso, mesmo depois do rapto fracassado. Teria 
sido bem fcil, uma lmina na garganta, uma fuga rpida. Por 
que eu ainda estou vivo?
Jack baixou o olhar para o espelho e esperou pela resposta 
dela. Pela verdade.
        Eu no sei! O Paige estava sempre me atormentando por 
causa disso. Ele tornou as coisas... bastante desagradveis. Eu 
ficava dizendo para ele que nunca havia uma oportunidade, 
que Snowbeard ou Hastings estavam sempre por perto. E 
ficava s pensando na sua... na sua me encontrando voc, e 
a confuso que ia ser. Acho que eu preferia ter uma luta 
justa, uma com regras. E agora vamos ter uma.
Ela pegou as Leis de Combate e comeou a folhear.
         hora de ir embora, Jack. Considerando que eu tenho dez 
anos de vantagem, sugiro que voc estude bastante  disse 
ela, zombeteira.  No pense que a Sombra Assassina vai 
salvar voc. Vou ficar com a sua espada quando isto tiver 
terminado. E tire essa coisa de perto de mim!  Ela apontou 
para o espelho.
Jack deu de ombros e o guardou sob a blusa. Pensou sobre o 
que tinha visto.
        No quero lutar com voc, Ellen  disse ele.
        No acha que  um pouco tarde pra isso?  A voz dela 
era cruel.  Muitas pessoas vo ficar desapontadas. Elas 
esto ansiosas por ver algum ser morto.
        Eu no quero matar voc  disse Jack.
        Duvido que isso v ser um problema  disse ela com 
frieza. Ela indicou a arma sobre a mesa.  Talvez voc deva 
aproveitar a vantagem enquanto pode.
Jack se levantou.
        Boa noite, Ellen.
Ele andou at a porta, dissolveu o feitio de tranca, 
esgueirou-se silenciosamente para fora e saiu.

Captulo Dezessete
O Jogo

Jack no dormiu bem na primeira parte da noite, mas nas 
primeiras horas da manh caiu num sono profundo e 
restaurador. Acordou com uma algazarra do lado de fora e, 
em seguida, os xingamentos de Will em direo  janela. 
Partidrios da Rosa Vermelha estavam encenando uma 
prvia do torneio junto ao chal. Como era de se esperar, 
Jack estava levando a pior.
 No os encoraje, Will  disse Jack, sem se mover.
Sentia-se estranhamente em paz. Recostou-se nos 
travesseiros e rezou uma prece pelo dia que estava se 
iniciando. Finalmente, deixara para trs a terrvel 
preocupao com os resultados possveis do torneio. Sabia 
do que era capaz e do que no era. E agora tinha um esboo 
de plano. No era um grande plano nem lhe daria muitas 
possibilidades de ficar vivo. Mas era um esboo, mesmo 
assim.
Jack deslizou para fora da cama e entrou no chuveiro. 
Ajustou a gua para o mais quente que conseguia suportar e 
ficou sob ela por um longo tempo. Ento vestiu uma 
camiseta e um short, secou o cabelo com a toalha, mediu o 
remdio e o tomou. Tudo tinha o carter sagrado de um 
ritual sendo realizado pela ltima vez.
Ele pegou o espelho de Blaise e o virou de modo que 
refletisse a luz. Estava com medo de olhar dentro dele e, ao 
mesmo tempo, era incapaz de no o fazer.
Quando Jack olhou no espelho, viu um jovem em p numa 
clareira. Seu cabelo era cor de ouro avermelhado e caa at 
os seus ombros. Brilhava sob os raios de sol que se 
derramavam atravs da copa das rvores. Estava vestido para 
a batalha, em refulgente cota de malha, e carregava uma 
espada. A Sombra Assassina. Carregava um elmo sob um dos 
braos.
Mas talvez a batalha j houvesse ocorrido, pois o guerreiro 
estava cercado de corpos. Centenas de homens jaziam ao 
redor dele, alguns cortados em pedaos, homens que 
morreram lutando. Havia algo assustadoramente familiar nos 
traos do jovem. Jack ergueu a mo, passou-a por seu 
prprio rosto.
Os corpos no campo. Eram amigos ou inimigos? Jack no 
sabia.
Hastings j havia sado. Will andava de um aposento para o 
outro como um animal enjaulado procurando por uma sada. 
Fitch estava carrancudo, o rosto parecendo sado de um 
filme de horror. Parecia no ter dormido muito. Quando 
Jack voltou do quarto de Ellen, Will e Fitch lhe perguntaram 
sobre a visita. Jack disse apenas:
         a Ellen mesmo.
Depois do caf da manh, Jack se sentou  pequena 
escrivaninha na sala da frente e achou papel e envelopes na 
gaveta. Comeou a escrever cartas: para os pais, tia Linda, 
Will, Fitch, Nick Snowbeard... e para Ellen. Selou os 
envelopes e os endereou com cuidado. Tentou deix-los 
com Will e depois com Fitch, mas ambos se afastaram, com 
expresses de pnico.
        Voc est louco, Jack  disse Will.  Pare de pensar 
desse jeito.
Jack deu de ombros e deixou as cartas na escrivaninha. Ele 
se perguntou como a morte dele seria explicada se ele 
morresse na Ravina do Corvo. Felizmente, o problema no 
era dele.
Hastings retornou, raspando a grama molhada de suas botas 
junto  entrada. Ele estivera na arena, examinando as 
condies do campo.
        Muito mido, mas ainda tem sombra. O tempo est firme, 
ento deve estar seco at de tarde.
Jack e Hastings haviam ido ao campo diversas vezes no dia 
anterior. Era relativamente plano, considerando o terreno 
em volta, mas traioeiro, atravessado por pequenas valas e 
riachos que formavam tneis. Trechos de grama alta e 
pequenos arbustos os tornavam difceis de ver. Jack estimava 
que o campo inteiro fosse mais ou menos do tamanho de um 
campo de futebol. Parecia grande demais para duas pessoas.
Hastings estava nervoso, o que no lhe era caracterstico. 
"Talvez esteja arrependido do acordo que fez", pensou Jack. 
Dados todos os anos de treinamento de Ellen, Jack parecia 
no ser o cavalo certo para se apostar. A menos que se 
estivesse apostando em uma espada lendria.
O mago remexia nas armas de Jack. Ele havia disposto a 
Sombra Assassina com uma adaga curta, um pequeno 
escudo, uma maa e uma funda. Havia tambm um machado 
afiado como navalha, semelhante ao que Jeremiah Brooks 
carregara. Seu peso e manejo eram familiares a Jack, por 
cortesia do antigo dono.
O chal zumbia de tenso. Will estava to zangado com 
Hastings que mal conseguia olhar para ele. Jack passou meia 
hora revisando as Leis de Combate, mas percebeu que estava 
lendo e relendo o mesmo pargrafo. Fitch tentou, sem 
sucesso, concentrar-se no Livro Weir. Foi quase um alvio 
quando chegou a hora de se aprontar.
Jack vestiu metodicamente as pesadas calas de lona, a 
tnica, as botas e um manto sobre os ombros feito de cota de 
malha. As Leis de Combate permitiam pouca coisa no que 
dizia respeito a armaduras. Ele calou as luvas de couro, 
laando-as com os dentes. Prendeu a espada  cintura e 
apanhou o pequeno escudo.
         s disso que vou precisar  disse ele, deixando o resto 
onde estava.
Hastings franziu o cenho. Quando Jack passou por ele, o 
mago ergueu a mo para det-lo.
        Esse plano s funciona se voc vencer  disse ele 
baixinho.
        Funciona para quem?  indagou Jack, virando- se para 
encar-lo. Eles se fitaram por um longo momento, e ento 
Jack fez um sinal de cabea para os amigos.  Vocs podem 
trazer as minhas luvas? Acho que as deixei no quarto.
Os rapazes estavam ansiosos para fazer alguma coisa, 
qualquer coisa, e desapareceram no outro aposento.
        No estou vendo  dizia Fitch, quando Jack fechou e 
trancou a porta.
        Ei!  Will esmurrou a porta.  Jack! Deixe a gente sair!
Jack falou atravs da porta.
        Vocs vo estar melhor aqui. Confiem em mim. Vejo 
vocs daqui a pouco.
Houve uma tempestade crescente de protestos por trs da 
porta. Algum se jogou contra o outro lado dela, e a porta 
estremeceu com o impacto. Era uma porta boa e robusta, 
porm, e Jack achou que agentaria. Ele se virou para 
Hastings.
        Vamos.
Jack calculava que as galerias pudessem conter vrios 
milhares de pessoas. Ele sabia que havia uma grande 
quantidade de dinheiro investida na luta, embora 
deliberadamente no perguntasse sobre as apostas.
Pelo jeito as festas haviam virado a noite. Servos com 
carrinhos recolhiam garrafas vazias e outros destroos dos 
pavilhes privados. O dia estava ficando agradvel. 
Agradvel nas arquibancadas, Jack sabia, mas mortalmente 
quente dentro do campo.
Havia ainda assentos vazios na seo reservada e nos 
camarotes, mas estavam se enchendo rapidamente. As 
galerias estavam salpicadas com pontos brilhantes vermelhos 
e brancos, quebrados por um prateado ocasional. Estandartes 
trazendo as rosas vermelha e branca estalavam ao vento. 
Aqui e ali um espectador erguera um estandarte montado s 
pressas para o Drago Prateado. Membros influentes do 
Conselho haviam armado tendas ao longo das laterais do 
campo. Jack deu uma espiada em uma delas e viu um 
requintado buf servido em seu interior. Cerveja e vinho j 
corriam livremente. Os gritos dos vendedores soavam acima 
da algazarra da multido. quela altura, o cu tinha um tom 
azul-esbranquiado. Era um lindo dia.
Uma aclamao vigorosa veio da multido quando Jack foi 
avistado andando junto  lateral. Jack era popular at entre 
os que haviam apostado em sua adversria. Era do 
conhecimento de todos que ele s vinha treinando havia 
poucos meses. Alguns dos presentes haviam assistido ao seu 
treino com Hastings no dia anterior. Todos concordavam 
que o guerreiro do Drago Prateado tinha talento 
considervel. Com alguma experincia, ele seria 
impressionante. Uma pena que ele no voltaria, diziam 
alguns.
Linda, Mercedes, Blaise e ris estavam todos aguardando 
junto  lateral. O rosto de Linda estava abatido, e os olhos, 
vermelhos de choro. Ela vestia cala jeans e uma blusa 
folgada, propositalmente discreta. Ela abraou
Jack por um longo tempo, depois o segurou a distncia do 
brao.
        No mudou de idia?
Jack no tinha certeza se mudar de idia ainda era uma 
opo, mas sacudiu a cabea.
        No, vou participar.  Jack viu quo triste ela parecia.  
Vai dar tudo certo. Por que no vai ficar com o Will e o 
Fitch no chal at que tudo tenha acabado? No que eles vo 
ser muito boa companhia...
Ela se aprumou e empinou o queixo com teimosia.
        Se voc vai participar, eu fico.
Algum mais estava l tambm. Jack viu uma figura 
cruzando o campo, alto e magro, empurrando uma bengala 
na grama  sua frente, revelando a idade que tinha, mas se 
movendo com rapidez. Era Nicodemus Snowbeard, o Urso 
Prateado.
        Nick!  Jack abraou o mago.  Ouvi dizer que voc 
estava aqui. Voc tinha razo, sabe?  muito barulhento na 
Inglaterra.
        E a comida continua sendo ruim  acrescentou 
Snowbeard.  Quem quer que tenha decidido pr fil e rins 
juntos numa torta cometeu um srio erro de julgamento.  
Ele estudou Jack com ateno.  Voc est com um ar 
mortfero, meu rapaz.
        Mais mortfero do que me sinto  admitiu Jack.
O mago sorriu com um pouco de tristeza.
        Voc se lembra do que eu falei pra voc quando partiu de 
Trinity?
Jack inclinou a cabea.
        Voc me disse pra eu me lembrar de quem eu sou.
Snowbeard assentiu.
        Hastings transformou voc num Drago, mas voc vai ser 
sempre um membro do cl do Urso Prateado. No deixe que 
tornem voc em algo que no . A sua fora vem dessa 
coerncia.
Jack concordou.
        No vou esquecer.
Snowbeard, Linda e os vizinhos formaram um crculo ao 
redor de Jack. Ele sentiu o poder naquilo, o amor fluindo at 
ele de todos ao redor. Ele estava cercado por rostos amigos, 
todos familiares desde a infncia. Mercedes disse:
        Lembre-se da festa de Jack, e da oferta de presentes 16 
anos atrs, completados hoje.  Ela circulou o pescoo dele 
com uma corrente, prendendo o fecho. Dela pendia um 
amuleto, um urso prateado. Ela ps a mo sobre a cabea de 
Jack, dizendo uma bno.  Mantenha-o a salvo no dia de 
hoje.
"Mantenha-o a salvo no dia de hoje", repetiram todos eles 
solenemente. Sentindo-se mais confiante, Jack enfiou o urso 
por dentro do colarinho de maneira que tocasse em sua pele. 
Ele ainda no tinha certeza de por qual resultado deveria 
torcer.
Houve uma agitao e outra aclamao se fez ouvir. Ellen 
Stephenson havia chegado  arena em meio a uma escolta de 
magos. Ela trajava uma tnica vermelha coberta de botes de 
rosa de um tom mais escuro, perneiras cor de canela e botas 
altas. A espada estava presa  cintura, e uma funda pendia-
lhe do ombro. O cabelo tranado reluzia ao sol da tarde 
como uma coroa.
Jack soltou um longo suspiro ao v-la. Embora cercada por 
magos, ela estava absolutamente sozinha. Ele disse sua 
prpria prece para que ela fosse protegida, uma voz entre 
milhares, sem se importar se fazia sentido ou no.
"Mantenha-a a salvo no dia de hoje."
quela altura, as galerias estavam lotadas, e d'Orsay e os 
juzes se dirigiam aos seus assentos. Uma mesa diante do 
camarote das autoridades exibia um grande clice de ouro. 
Deveria ser o trofu, o prmio do dia. Junto ao clice, estava 
um volume com uma elaborada capa de couro. As Leis de 
Combate, pensou Jack, no caso de algum ter de consult-las 
sobre uma questo de ordem.
Quando bateram duas horas, trs arautos em trajes 
requintados avanaram para a margem do campo e tocaram 
fanfarra. Os guerreiros e seus patronos se aproximaram do 
camarote dos juzes, Jack com Hastings, e Ellen com 
Geoffrey Wylie. Jack deu uma espiada em Ellen. Ela olhava 
direto para os juzes, o rosto plido e abatido, olheiras sob os 
olhos. Talvez houvesse ficado acordada a noite toda 
estudando as regras. S que ela j as sabia de cor. "Como 
respirar", Paige havia dito.
Claude d'Orsay aparecera em uma tnica cinza, uma espada 
cerimonial atada  cintura. Um cachecol vermelho e branco 
que lhe caa sobre os ombros o identificava como o mestre 
do Jogo. Ele baixou o olhar para os jogadores e seus 
patronos.
        Este torneio foi convocado pela Rosa Vermelha para o 
solstcio de vero, s duas horas da tarde, na Ravina do 
Corvo  proclamou ele, numa voz que alcanava a 
extremidade oposta das galerias.  Os anncios foram 
proclamados em 19 de junho. O desafio foi aceito pelo 
Drago Prateado. O campeo atual, a Rosa Branca, no 
apresentou nenhum campeo, o que caracteriza uma 
desistncia. O clice do torneio e as propriedades reais e 
monetrias associadas sero oferecidos como prmio ao 
patrono do vencedor da partida. Pelas regras, o patrono do 
vencedor se tornar o mestre do Conselho dos Magos at 
que um novo torneio seja convocado. O torneio  um 
combate at a morte, sob as Leis de Combate, como 
publicadas pela ordem, em 1532 d.C.  Ele pousou as mos 
no volume sobre a mesa.  Todas as contestaes sero 
decididas pelos juzes de campo com base nas regras.  Ele 
olhou para Jack e Ellen.  Vocs entenderam?
Ambos concordaram.
        Vocs devem aceitar as regras ou desistir da partida. 
Qualquer guerreiro desistente ser morto pela espada e seu 
corao, entregue aos juzes.  Ele se voltou a Wylie e 
Hastings.  No deve haver nenhuma interferncia da parte 
dos patronos, dos apostadores ou dos espectadores.  Ele 
fez uma pausa.  Haver um intervalo de cinco minutos 
aps cada meia hora de luta.
Os juzes podem interromper a luta a qualquer momento, 
caso haja uma questo de ordem. As janelas para apostas 
devem agora ser fechadas para esta partida, e os patronos 
devem deixar o campo.
Hastings ps a mo no ombro de Jack.
        Voc consegue vencer se estiver com o corao 
empenhado nisso  disse ele.  E, se voc vencer, vai ser 
o fim desse Jogo maldito, no que depender de mim.
Hastings olhou para Ellen do outro lado do campo, ento se 
virou e foi para a lateral.
Ellen e Jack foram deixados sozinhos no meio do campo, 
encarando-se um ao outro, a uns trs metros de distncia. 
Ela estava imvel, aprumada, o rosto incompreensvel. O sol 
acabava de passar de seu ponto culminante, e as sombras ao 
redor dos ps deles haviam diminudo at desaparecer. A luz 
refletiu-se nos cabelos de Ellen quando ela inclinou a cabea 
para o lado, e depois no escudo pendurado sobre seu brao 
esquerdo. Ela olhou para a Sombra Assassina, e de volta para 
Jack. Uma brisa fez os estandartes sobre a galeria 
tremularem, mas a multido estava em silncio.
        Comecem  disse d'Orsay.
O torneio quase acabou antes de comear. Ellen sacou uma 
adaga de uma bainha no cinto e lanou-a na direo de Jack. 
Foi por pouco, mas ele conseguiu erguer o escudo ao nvel 
do peito, e a lmina rebateu e caiu em algum lugar na grama. 
A multido ofegou. Ellen retirou a funda do ombro em um 
movimento gil. Jack desembainhou a espada bem a tempo 
de aparar um enxame de estrelas flamejantes com o escudo e 
o lado cego da lmina. Elas se estilhaaram em cacos de 
fascas azuis que choveram sobre ele, cegando-o por um 
momento.
Ellen desembainhou a prpria espada e a apontou para a 
frente, lanando pela ponta longas lnguas giratrias de fogo. 
Jack levantou a espada para se defender. Era como defender 
um chute a gol do meio do campo de futebol: quela 
distncia, sempre havia tempo de sobra para interceptar. Ele 
se perguntou se Ellen estaria com receio de confrontar a 
Sombra Assassina a curta distncia.
Mas quando o ataque areo se provou ineficiente, Ellen se 
aproximou com a espada. Sem levar em conta os mritos da 
arma dele, esgrima sempre fora um dos pontos fortes de 
Jack, e agora ele tambm se beneficiava da experincia de 
Brooks. Descobriu que conseguia resistir muito bem. Ellen 
era rpida e precisa, mas Jack era mais forte, e sua arma o 
tornava ainda mais poderoso. Quando bateu a lmina de sua 
espada contra a dela, ela quase a deixou cair. s vezes ela 
precisava segurar o punho da espada com as duas mos, o 
que diminua ainda mais seu alcance, deixando-a vulnervel 
a um ataque lateral rpido. Mas Jack nunca aproveitava a 
oportunidade. Seu jogo era estritamente defensivo, embora 
s vezes ele avanasse no espao entre eles e a forasse a 
recuar.
Ellen se movia com graa de uma posio a outra, e Jack 
movia-se para acompanh-la. O jogo dela era instintivo, de 
tirar o flego, uma dana aprendida desde o nascimento. A 
espada assobiava e cantava, uma mancha brilhante  luz do 
sol. Embora ele muitas vezes se sentisse desajeitado em 
comparao a ela, descobriu que podia prever seus 
movimentos razoavelmente bem. Um outro presente de 
Brooks. Era um pas de deux mortal no qual os danarinos 
nunca se abraavam, embora cada um estivesse em delicada 
harmonia com os movimentos do parceiro. Ellen franziu a 
testa e enxugou o suor dos olhos. Talvez ela estivesse 
surpresa por eles estarem to bem equilibrados.
O barulho do pblico havia diminudo para um zumbido nos 
ouvidos de Jack, mas ele podia sentir a presena 
intimidadora de milhares de magos como uma presso quase 
fsica. Tentou estreitar seu foco para o pequeno espao entre 
os dois, o alcance da espada de Ellen. Ficou aliviado quando 
o tempo de meia hora terminou. Sua vida agora era medida 
em segmentos de trinta minutos.
O suor escorria do rosto de Jack, apesar da temperatura 
amena do dia. Hastings lhe passou uma grande garrafa de 
gua, a qual ele esvaziou. O mago fitou-o com ar crtico, as 
mos na cintura.
 Vai se arrepender dessas oportunidades perdidas, Jack. 
Mais cedo ou mais tarde, voc vai se descuidar ou ela vai dar 
sorte. Nunca vai conseguir se igualar a ela movimento por 
movimento. Use o seu poder contra ela. V para o lado 
esquerdo dela. Ela tem dificuldades com o ataque lateral 
contrrio.
"Ele no deixa nada passar", pensou Jack, mas no 
respondeu. Enxugou o rosto com uma toalha e fez uma 
prece pedindo proteo para a meia hora seguinte. O 
intervalo acabou, e eles retornaram ao campo. Ellen estava 
mais agressiva do que antes. A espada dela estava em toda 
parte e, por uma vez, cortou o tecido da tnica dele, mas 
sem atingi-lo. Com a intensificao da luta, porm, Ellen 
ficou mais descuidada, e quando Jack despejou um pesado 
golpe contra a sua espada junto ao punho, a arma voou da 
mo dela.
Ellen ficou paralisada por um momento antes de pular atrs 
da arma. Caiu rolando e apanhou-a, pondo-a em posio 
defensiva enquanto ainda estava deitada de costas. Jack 
baixou a ponta da espada e ficou esperando at ela se 
levantar. Isso incitou uma reao mista do pblico: muda 
descrena e algumas vaias dispersas.
Ellen tinha uma expresso peculiar no rosto, que foi logo 
substituda por irritao. Ela se aproximou de Jack.
        Qual  o problema, Jack? Acha que tem de me dar moleza 
porque eu sou uma garota?  indagou.
Jack deu de ombros.
        Eu j falei, Ellen, que no quero matar voc.
        Bom, isso facilita o meu trabalho!  retrucou ela.
Com um ataque da espada, ela penetrou as defesas de Jack e 
o cortou no brao direito acima do couro.
O escudo dele chocou-se contra a lmina dela com um som 
estridente e uma chuva de fascas, empurrando-a para o 
lado, e ele recuou para fora de alcance. Ele ouviu os urros da 
multido, reagindo ao golpe. Era incrvel o quanto doa, e 
Jack no conseguia fazer nada alm de segurar a espada com 
fora. Sua bela casaca estava rasgada do pulso at o cotovelo, 
e logo ficou encharcada de sangue. "Parta para o brao da 
arma", Paige havia dito, e parecia que Ellen havia acatado o 
conselho do treinador. Ela se lanou contra ele sem lhe dar 
descanso, a espada na frente, aproveitando a vantagem que 
tinha. Atacou-o uma, duas, trs vezes, e Jack tinha 
dificuldades para deter sua espada.
Em desespero, ele lanou um feitio. Ellen praticamente 
ricocheteou na barreira cintilante que subitamente surgiu 
entre eles. Ela cambaleou, mas se manteve em p, e lanou-
se contra Jack de novo, com o mesmo resultado. Ento ela 
parou, a espada a seu lado, respirando pesado, as faces 
coradas, olhando aquilo espantada.
Houve um pandemnio. O pblico se ps em p. Geoffrey 
Wylie, furioso, apontava o dedo para Leander Hastings.
 Questo de ordem!  gritou ele.  O Drago Prateado 
est interferindo na luta!
Hastings parecia desconcertado. Ele sondou a multido, 
concentrando-se nos vizinhos da rua Jefferson, pensando 
que talvez ris ou Snowbeard houvesse interferido. ris 
estava virada, gesticulando, falando com Snowbeard, que 
deu de ombros inocentemente. O olhar de Hastings passou 
para Linda Downey, que no parecia nada inocente. Ele 
franziu os lbios e se voltou para d'Orsay.
        No tive nada a ver com isso  disse ele.  No sei de 
quem  o feitio.
Enquanto isso, Jack examinava o corte em seu brao o 
melhor que podia. Felizmente, parecia ser apenas superficial. 
Ele abriu e fechou a mo. Tudo parecia estar em ordem. Os 
msculos e tendes estavam intactos. Estava sangrando; no 
muito, mas o bastante para incomod-lo. Ellen o encarava 
atravs da parede cintilante, a cabea inclinada para o lado, 
os ps separados.
D'Orsay se dirigiu ao pblico em geral.
        Repetindo: no deve haver nenhuma magia ou outra 
interferncia dos patronos ou das galerias segundo as Leis de 
Combate. Esse foi o ltimo aviso.
Wylie ainda protestava.
        Foi o Hastings. Deve ter sido. Quem mais?
D'Orsay silenciou-o com um olhar e apontou para a barreira, 
que se dissolveu, definhando at faiscar como orvalho na 
grama. A luta prosseguiu.
Agora, ambos os jogadores estavam um pouco desnorteados. 
O brao de Jack ainda sangrava, deixando manchas de 
sangue no lado direito da tnica. Tambm estava latejando, o 
que lhe dificultava a concentrao. Ellen parecia nervosa, 
sem dvida esperando pelo prximo feitio. Ela pareceu 
aliviada quando o tempo de meia hora acabou. Era como se 
estivessem lutando desde sempre. Jack se perguntou quanto 
tempo uma luta costumava levar. Outra coisa que ele deixara 
de pesquisar. Ellen provavelmente sabia com exatido.
Hastings no tinha permisso de usar magia para curar o 
brao de Jack, por isso aplicou um ungento e o enfaixou 
bem apertado. Jack bebeu outra garrafa d'gua enquanto 
Hastings lhe dava um sermo sobre sua falta de ofensiva.
        Voc  mais forte do que ela  comentou ele.
        Mas isso no vai adiantar nada se voc nunca der um 
golpe.
        Eu sei o que estou fazendo  disse Jack, lacnico.
        Se voc perder de modo justo,  uma coisa. Mas no vou 
ver voc se sacrificar, se  isso o que tem em mente.  Ele 
ps uma mo quente sobre o ombro de Jack.  Eu posso 
obrigar voc a lutar, voc sabe.
        Ento me obrigue. Mas, agora que estou em campo,  
melhor voc fazer isso sem magia  retrucou Jack, 
apontando para os juzes com a cabea.
Os olhos de Hastings cintilaram, mas ele no tinha 
alternativa, e sabia disso.
Quando a luta foi retomada, Ellen parecia ter adotado uma 
nova estratgia. Ela lanava um fluxo constante de 
provocaes e desafios. Parecia estar tentando enfurec-lo.
        Vamos l, Jack, est com medo de me enfrentar?
        ela gritava.  No me faa perseguir voc por todo o 
campo. Ser que voc  s um homenzinho com uma 
espada grande? Voc sempre foge das mulheres?
Ela continuou gritando esse tipo de insulto, e Jack tentou 
ignorar. Ele tinha menos fora no ataque agora, o que havia 
sido sua principal vantagem. s vezes precisava das duas 
mos para conter um golpe. Jack manteve a postura 
defensiva bsica, aparando os ataques o melhor que podia. 
Ela se tornou mais ousada ao compreender que ele no 
estava preparando nenhuma ofensiva. De repente, ela fintou 
para a esquerda e se arremessou ao encontro de Jack, com a 
espada  frente. Mais uma vez, penetrou-lhe a defesa. Jack 
esticou uma mo em desespero e, de repente, Ellen brandia 
um enorme buqu de gladolos, em vez de uma espada. Ela 
fitou as flores em sua mo e depois Jack, finalmente 
compreendendo.
         voc  sussurrou ela.
Ellen no foi a nica que percebeu. Agora Wylie tinha um 
novo alvo.
         o garoto!  gritou ele, claramente espantado.
         bvio que ele foi treinado em magia!  Ele lanou um 
olhar acusador a Hastings.
        Se o rapaz foi treinado em magia, no foi por mim  
replicou Hastings, os olhos em Linda Downey. Ela o 
encarou com coragem. Ele se virou para d'Orsay.  E, se ele 
fosse realmente um guerreiro, no faria diferena. Ele nunca 
seria capaz de utilizar a magia.
        Isso  inaceitvel  Wylie espumava de raiva.
        O guerreiro do Drago Prateado deveria desistir da partida, 
e seu patrono ser punido.
        Onde est escrito isso?  indagou Hastings abruptamente, 
voltando-se para Claude d'Orsay com as mos na cintura.
Wylie esbravejava.
        Todos sabem disso. No precisa estar escrito. A Alta Magia 
no so truques e frivolidades para serem praticadas pelos 
Weirs Anamagos. Quem sabe que mal pode resultar disso?
Jack achou interessante que toda a comunicao era feita por 
meio dos patronos, como se ele e Ellen fossem incapazes de 
responder a uma pergunta.
        Onde est escrito?  insistiu Hastings.
D'Orsay suspirou.
        As Leis de Combate dizem que no deve haver magia ou 
qualquer interferncia partindo da galeria ou dos patronos.
        Exatamente.  Hastings indicou a assemblia com a mo. 
 No h magia vindo da galeria. H magia no campo. As 
regras no falam sobre isso.
D'Orsay ficou perdido por um momento.
        Os guerreiros no deveriam ser treinados como magos  
disse ele, enfim.
        Isso tambm no est escrito  respondeu Hastings. Ele 
tirou um pequeno volume com as regras da tnica. A pgina 
j estava marcada. Ele leu o trecho.  "O Jogo pode tambm 
ser jogado como um combate pessoal entre dois guerreiros. 
Apenas armas manuais devem ser utilizadas, inclusive 
lminas, fundas, clavas, maas e maas-estrela. O resultado 
da luta depender das armas escolhidas, alm de qualquer 
talento, habilidade e treinamento pessoais que o guerreiro 
trouxer para a luta." No h nada aqui que exclua magia. 
Vocs j decidiram que ele  um guerreiro. Se  isso o que 
ele , ento o uso de magia pelo Jack  perfeitamente legal.
D'Orsay ainda folheava o tomo antigo sobre a mesa, como se 
ele pudesse ter negligenciado alguma passagem que o 
salvasse. Ele finalmente parou, olhou para Jack e depois 
novamente para Hastings. Mil pensamentos pareciam se 
refletir em seu rosto. Era claro que ele pensava ser vtima de 
uma astuta conspirao. Jack era um lobo-mago em pele de 
guerreiro. O mestre de Jogos havia sido ludibriado, e agora 
sabia muito bem qual seria o resultado da luta. O Drago 
Prateado venceria, e Leander Hastings seria o mestre do 
Conselho ao fim de tudo.
Claude d'Orsay no gostava de ser feito de tolo.
Ele ajustou sua elegante casaca, endireitou o cachecol, soltou 
o lao das mangas, ganhando tempo.
        Nesse caso  disse ele, com determinao , parece que 
devemos mudar as regras.
Houve um momento de silncio, e ento um grande clamor 
irrompeu do pblico, a favor e contra.
Agora era a vez de Hastings protestar.
        Voc no pode mudar as regras no meio de uma partida 
 disse ele, com raiva.
        Onde est escrito isso?  perguntou Wylie, zombeteiro.
        Voc no pode  repetiu Hastings.  Os guerreiros 
devem lutar sob as regras como foram proclamadas.
D'Orsay se virou e consultou os outros juzes. O pblico 
estava em p, berrando sua opinio. Ellen segurava ainda o 
estranho buqu, sem dizer nada. Jack sentia-se um pouco 
tonto e desejou poder se sentar por alguns instantes.
D'Orsay voltou-se para os patronos.
        Por ordem dos Juzes de Campo, em considerao  
situao atual, ns alteraremos as Leis de Combate. No deve 
haver uso de Alta Magia pelos jogadores no Jogo. Que isso 
seja escrito.
Algum ofereceu uma caneta. D'Orsay abriu o livro de capa 
de couro na ltima pgina e rabiscou alguma coisa.
A luz mudou, como se uma sombra cruzasse a paisagem. 
Uma brisa fria soprou, erguendo o cabelo mido de Jack da 
testa e secando-lhe o suor da carne exposta. Ele sondou o 
cu. Uma massa de nuvens apareceu, rolando sobre as 
montanhas, uma linha escura no horizonte. Eram de uma 
estranha cor cinza-esverdeada, e a parte frontal fervilhava 
como vapores de uma poo asquerosa. Uma mudana no 
clima se aproximava.
Alguns dos juzes ergueram os olhos para o cu, mas d'Orsay 
no percebeu nada, ou fingiu no perceber. Ele apontou para 
Ellen, restaurando-lhe a espada.
        Se o meu jogador est usando magia, ento ele deve ser 
um mago  insistiu Hastings.  E, se  esse o caso, voc 
deve reverter a deciso de ontem e desqualific-lo do jogo.
D'Orsay sorriu.
        No h nada que eu deva fazer, Hastings. Teremos um 
intervalo de cinco minutos. Controle o seu guerreiro ou ser 
declarado desistente.
Hastings balanou a cabea, um msculo se movia em seu 
maxilar. Jack deixou-se cair, cansado, em uma cadeira na 
lateral do campo. Hastings passou-lhe outra garrafa d'gua, 
que ele tragou com avidez.
        Quer dizer que voc andou estudando fora da escola  
murmurou o mago.
Jack estava cansado demais para responder, mas manteve o 
olhar direto em frente. Aps quase uma hora e meia de jogo, 
no lhe restavam muitas foras.
        Isso est errado  disse Hastings com convico.  Eu 
sei que est.
        A coisa toda est errada  retrucou Jack.
Jack atirou a cabea para trs e observou as nuvens 
espumando l em cima.
        Se voc usar Alta Magia de novo, vai ter de desistir  
sussurrou Hastings.  Vo arrancar o seu corao.
        Talvez isso seja o melhor  replicou Jack.
Jack havia chegado em um ponto em que no se importava 
mais. Pensou em Brooks, cado de costas, o suave abandonar 
da vida. A perda de controle sobre tudo o que o cercava.
        Guerreiros, ao campo  chamava d'Orsay.
De algum modo, Jack conseguiu se levantar da cadeira. A 
ponta de sua espada traou uma linha na grama quando ele 
cambaleou de volta ao campo. Ellen parecia cansada tambm 
e, quando d'Orsay deu a ordem para recomearem a luta, 
houve pouca reao por um instante. Ento Ellen ergueu a 
espada e avanou, implacvel, e Jack recuou. Ellen no 
falava mais; era sistemtica e mecnica, pressionando-o 
teimosamente e cada vez mais para a extremidade do campo. 
A Sombra Assassina faiscava quando ele aparava os golpes 
vigorosos de Ellen. A espada era uma parte dele, mas todas 
as partes de seu corpo estavam pesadas agora; os braos e 
pernas pareciam de chumbo, e a respirao era custosa. Pelo 
menos a dor no brao parecia distante agora, como se 
pertencesse a outra pessoa.
Ficava cada vez mais difcil manter a concentrao. O vento 
soprava mais forte, e ele sentia o cheiro de chuva no ar. Ele 
se viu pensando sobre veleiros, sobre a vez em que se 
encontrara em meio a uma ventania, correndo para a costa 
com uma tempestade atrs dele, a gua respingando sobre a 
proa do barco enquanto ele atravessava as ondas. Ele teve de 
se forar para voltar ao momento presente. Ellen. Ellen era 
to bonita, graciosa, determinada. Ellen estava se esforando 
ao mximo para mat-lo. Ele bloqueou outro golpe mortal e 
recuou de novo.
Ele pisou no vazio. Jack no havia percebido que havia 
alcanado a margem de um dos pequenos riachos. Ele se 
debateu por um momento, procurando se equilibrar, e ento 
tombou para trs. Ao cair, o p se prendeu nas razes de um 
pequeno arbusto que crescia  margem do riacho. Houve 
um horrvel estalo quando o osso do tornozelo cedeu. Ele 
aterrissou com os quadris no riacho e os ombros 
parcialmente na margem oposta.
Jack suava frio. A dor no tornozelo superava tudo o mais. 
Conseguiu soltar o p, gritando ao faz-lo, mas este pendia 
num ngulo impossvel. A Sombra Assassina cara a poucos 
metros de distncia, mas tanto faria se fosse um quilmetro. 
Ele no tinha nenhuma outra arma. Talvez devesse ter 
levado uma adaga para o combate, tambm. No que isso 
fosse mudar alguma coisa.
"Acabou", pensou ele. Embora houvesse previsto isso, a idia 
do fim o amedrontava. Ele se ergueu desesperadamente, 
apoiando-se nos cotovelos, subindo parte do declive, de 
modo que estava agora meio sentado. Viu Ellen aparecer no 
topo da margem oposta. Ela o encarou por um momento e 
ento desceu num pulo, as botas aterrissando na lama macia 
junto a ele. Ela parecia muito alta vista da perspectiva de 
Jack, que estava deitado de costas no pequeno barranco. 
Embora ele no conseguisse ver o pblico, podia ouvi-los 
suficientemente bem. Imaginou que pudesse usar magia para 
conter Ellen e deixar os juzes estriparem-no, a fim de 
poup-la da tarefa. Mas talvez eles preferissem pedir a Ellen 
que o fizesse por eles. Talvez ela mesma preferisse faz-lo.
Agora ela estava entre ele e o cu, enchendo-lhe o campo 
de viso, e baixou a ponta da espada at pousar levemente 
sobre a base da garganta dele. Jack fechou os olhos, tentando 
no engolir.
Aps um longo instante, a lmina foi erguida, e Ellen disse 
alguma coisa. Ele no a entendeu a princpio, e ela repetiu 
com impacincia:
        Levante-se, Jack.
Ele abriu os olhos e a viu se inclinando sobre ele, uma 
expresso ilegvel no rosto.
Ela o estava provocando de novo.
        V em frente  disse ele, cansado.  Conquiste a vitria. 
Esta  a sua recompensa, como voc falou.
Ento ele se lembrou do que Paige havia dito. Talvez Ellen 
fosse faz-lo sangrar, agora que ele estava indefeso. Cort-lo 
lentamente em pedacinhos. Bom, ele  que no ia 
mencionar essa parte.
        Levante-se, Jack  disse ela de novo, com maior 
urgncia, e estendeu-lhe a mo.
Ele a encarou.
        No consigo  murmurou ele.  Minha perna est 
quebrada. Estou acabado.
        Voc precisa se levantar  disse ela, com teimosia.
Ela se ajoelhou ao lado dele, empurrou para cima a perna das 
calas dele, tirou a faca do cinto e cortou-lhe com eficincia 
a bota e a meia. Correu os dedos de leve pelo tornozelo dele. 
Estava inchando rpido, e adquirira uma estranha cor roxa. 
Quando ela o olhou de novo, tinha o rosto manchado de 
lgrimas.
        No posso, Jack  disse ela, com fria.  No sei por 
que, mas no posso matar voc.
Ela tirou de debaixo da tnica uma pequena garrafa de mago. 
Arrancou a rolha com os dentes, agarrou um punhado do 
cabelo dele, ergueu-lhe a cabea e despejou-lhe o contedo 
dentro da boca. Veneno no era o estilo dela, fora o que ela 
havia dito. Veneno ou no, Jack engoliu. O lquido estava 
morno por ter estado junto ao corpo dela.
Era a mesma poo que Hastings usara na clareira, e 
eliminou a maior parte da dor. Com toda a probabilidade, era 
completamente contra as regras, pensou ele. Jack observou-
a, sem poder fazer nada, enquanto ela sacava uma longa faca 
embainhada das costas. Ela a colocou ao lado do p e 
tornozelo dele e a prendeu com a funda. Ele arquejou 
quando ela lhe endireitou o p, mas a droga corria dentro 
dele, e no foi to ruim.
Ela trabalhava rpido, resmungando para si mesma o tempo 
todo.
        Se pelo menos voc me desse um motivo pra matar voc, 
talvez eu conseguisse; mas no, voc no morde a isca, nem 
mesmo quando eu corto voc, nem mesmo quando eu 
provoco. Voc s fica danando, to bonito com esses olhos 
azuis e esse belo...  Ela ergueu o olhar e viu Jack fitando-a. 
 Quer dizer que Hastings nunca ensinou voc a pr uma 
tala num osso quebrado?  isso o d fazer o curso intensivo.
O pblico e os juzes deviam ter visto Jack cair no leito do 
riacho e Ellen pular atrs dele, mas, por conta do relevo e da 
distncia, no podiam ter certeza do que estava 
acontecendo. De repente, Jack ouviu a voz de d'Orsay 
elevar-se por sobre o rudo:
        Guerreiros, temos um vencedor?
        Venha, Jack  disse Ellen, dando um ltimo n em seu 
trabalho.  Voc tem de se levantar, seno vo considerar 
como desistncia.
Ellen tremia, as mas do rosto coradas.
        Ellen, no posso lutar com a perna quebrada  protestou 
Jack.
S o que ele queria era se deitar no declive coberto de grama 
e deixar o riacho jorrar sobre ele.
Mas nada podia det-la.
        No se preocupe com isso  disse ela, resoluta.
Ela apanhou a espada e a colocou na mo esquerda de Jack. 
Em seguida, deslocou-se para o lado direito dele, agarrou-lhe 
o pulso, puxou-o at que ele estivesse em p e passou o 
brao direito dele por sobre seus ombros, enlaando Jack 
pela cintura de forma a carregar a maior parte de seu peso. 
Jack sentiu o cheiro dela  seu lado, uma mistura inebriante 
de flores e suor. Diferente de qualquer soldado que Brooks j 
encontrara. Ela era incrivelmente forte, e meio que 
empurrou, meio que ergueu Jack para fora do declive.
Os dois guerreiros emergiram do barranco agarrados um ao 
outro. Jack do Drago Prateado mancava fortemente, sem 
uma das botas, carregando a espada na mo errada.
A guerreira da Rosa Vermelha declarou, ofegante:
        No h vencedor.
D'Orsay ficou sem fala por um instante. Ento, replicou:
        Aproximem-se dos juzes, guerreiros.
Jack reuniu todas as suas foras e tentou ajudar Ellen a 
manobr-los para a frente. Hastings e Wylie estavam em p 
embaixo do camarote dos juzes. Hastings parecia espantado, 
os olhos passando de Jack a Ellen, enquanto Wylie parecia 
furioso, como de hbito.
        Expliquem-se  exigiu d'Orsay, pela primeira vez se 
dirigindo aos guerreiros.
Ellen fitou o mestre dos Jogos nos olhos.
        A luta acabou. No h vencedor. Deu empate.
Um rumor descontente passou pelo pblico.
        No pode haver empate  retrucou d'Orsay.  Segundo 
as regras,  uma luta at a morte.
        No desta vez  disse Ellen, com bravura.  A luta 
terminou, e ningum morreu. Acho que vocs receberam 
pelo que pagaram. Podem todos ir pra casa agora!  gritou 
ela para o pblico.
A voz de d'Orsay era glida.
        Patronos, controlem seus guerreiros.
Hastings deu de ombros quase imperceptivelmente.
Seu guerreiro estava em p apenas pela boa vontade da 
adversria. Wylie, por outro lado, partiu para cima de Ellen 
de imediato.
        Qual  o problema com voc?  sibilou ele.  Acabe 
com ele e vamos dar um fim nisso.
Wylie avanou como se fosse agarrar o brao da espada dela, 
como se pretendesse resolver a questo por conta prpria, 
mas ela o empurrou com fora. Ele caiu na grama.
        Voc  uma assassina, Ellen!  gritou ele.  Voc 
treinou pra isso a vida toda. Agora faa o que  natural pra 
voc!
Ellen apontou sua espada para Wylie e chamas correram ao 
longo da lmina.
        Tenha cuidado com o que deseja  disse ela com frieza.
Um tremor correu pelo pblico. Guerreiros ameaando 
magos. Era contra as leis da natureza. Como em celebrao 
ao momento, houve o resplandecer de um relmpago, um 
estrondo de trovo, e as primeiras grossas gotas de chuva 
comearam a cair.
D'Orsay levantou-se, seu calmo desinteresse arruinado. 
Apontou para Jack e Ellen.
        Por violaes das Leis de Combate, as suas vidas lhes sero 
tiradas!
Os outros juizes se levantaram tambm, a sentena de morte 
se espelhando em seus olhos.
        No!  Hastings se ps entre os juzes e os dois 
guerreiros.  Este torneio teve falhas desde o princpio. 
Vocs realmente querem sacrificar os ltimos guerreiros 
remanescentes por causa de um conjunto de regras s quais 
nem vocs mesmos aderem? Que regras eles violaram? O 
perdedor do torneio morre, mas no tem nenhum perdedor 
aqui. As regras no falam sobre isso.
Os dois magos se encararam com raiva.
        Para algum que nunca cumpriu regras, voc se tornou 
um especialista, no  verdade? Se as regras no falam sobre 
isso  disse d'Orsay com suavidade , ns simplesmente 
mudamos as regras de novo.  Ele apontou para Hastings. 
 Tomamos a nossa deciso. Saia do caminho!
 No  disse Hastings outra vez.
Hastings moveu o brao, e uma luz explodiu da ponta de 
seus dedos. Um cercado cintilante desceu em torno de Ellen 
e Jack, como uma casa feita de vidro. De repente, o som do 
pblico foi abafado e a chuva no mais os tocava.
Todos os cinco juzes apontaram para a barreira, lanando 
um feitio de dissoluo. A parede desmoronou, mas 
Hastings ergueu outra a tempo de deter uma nevasca de 
chamas mgicas azuis que ricochetearam e explodiram sobre 
o campo como fogos de artifcio.
O pblico se remexeu, nervoso, alguns dos espectadores 
levantando os braos para proteger os rostos contra a chuva 
e as chamas que traavam um arco em sua direo. O sol 
havia desaparecido por completo, e a ravina estava 
encoberta por um turvo crepsculo, embora fosse pouco 
mais de quatro da tarde. Houve um retumbar grave que 
poderia ter sido um trovo, mas era mais persistente, como 
se as montanhas falassem com milhares de vozes. O rudo os 
cercou, cada vez mais alto. As montanhas brilhavam de 
forma misteriosa na escurido, como que iluminadas por 
uma fonte invisvel. Bem acima, no declive da Cabea do 
Corvo, a Pedra Weir se destacava contra a encosta negra da 
montanha como uma chama azul.
O trio cercado na arena mal notou. Era s uma questo de 
tempo at que os cinco magos na galeria superassem o nico 
mago no campo. Jack tentou desesperadamente seguir os 
feitios que voavam de um lado a outro. Queria ajudar, mas 
aquilo estava alm de suas habilidades. Hastings mudava de 
posio constantemente, ficando entre os juzes e os 
guerreiros. Os juzes miravam nos jogadores, mas 
dificilmente hesitariam em mandar Hastings pelos ares a fim 
de atingi-los. Os cinco juzes desceram de seus estrados, 
claramente com a inteno de cercar os guerreiros e lanar 
um ataque de todas as direes, o que tornaria a defesa mais 
difcil. Wylie gritou alguma coisa, mas, se ele estava 
implorando pela vida de sua guerreira ou encorajando os que 
estavam prestes a execut-la, Jack no saberia dizer.
Mercedes, Blaise, Snowbeard, ris e Linda juntaram-se a 
Hastings no campo e formaram um crculo apertado em 
torno de Jack e Ellen. Snowbeard e ris lanavam suas 
prprias chamas no ar, levantando barreiras to rpido 
quanto o Conselho conseguia derrubar. A chuva caa com 
fora, e chamas bruxuleavam na parte inferior das nuvens, 
em relmpagos brancos e fogo mgico azul. Agora o clamor 
da batalha competia com o uivo da tempestade. Muitas 
pessoas do pblico fugiam de seus assentos, o medo de 
morrer superando o amor pelo espetculo.
De repente, a prpria terra estremeceu. Jack pde senti-la 
vibrando sob os ps, como toras rolando montanha abaixo. 
Ellen no conseguiu mais segur-lo, e ele foi lanado ao 
cho. Cado de costas, a chuva fria no rosto e a dor 
renovando-se na perna fraturada, Jack no pde deixar de 
pensar em Brooks morrendo naquele mesmo campo. Mas 
ele podia ainda sentir uma vibrao  um terremoto, como 
pensara a princpio. Com cuidado, ele se apoiou sobre os 
cotovelos. Sua viso do campo estava bloqueada pelo resto 
do grupo, a maioria dos quais estava de quatro, tentando se 
levantar de novo. Quando ele ergueu os olhos para as mon-
tanhas ao redor, pde ver uma vasta sombra descendo pelos 
flancos, acumulando-se ao sop e se espalhando pela ravina. 
Uma enorme fissura se abrira no campo da Ravina do Corvo, 
e dela surgia um exrcito.
No chal, Will estava ficando cada vez mais agitado com o 
passar do tempo. Ele havia tentado abrir a porta e a janela 
uma centena de vezes. Tentara at mesmo forar os ombros 
enormes pela chamin. Fitch estava deitado na cama de 
Jack. como que em transe. Na verdade, Fitch estava 
tentando escutar os rudos que vinham l de fora. Preso no 
quarto de trs, no fora capaz de ver nada do torneio, mas 
podia ouvir o rugido do pblico e, assim, sabia que no havia 
acabado ainda. Mas agora o som que ouvia era mais como 
uma gritaria, cheia de pnico e horror. Ele sentira o clima 
mudar e o vento ganhar fora. A luz havia sumido, e a casa 
tremia sob o assalto da ventania. Chuva e granizo se 
chocavam contra a janela, e o cheiro selvagem e eltrico da 
tempestade vinha atravs das paredes.
" o fim do mundo", pensou Fitch. "E a gente vai morrer 
aqui." Nesse momento, o cho se ergueu e o piso c se 
entortou, dispondo os ladrilhos num ngulo esquisito. Gesso 
e ardsia caram sobre eles, a poeira encheu seus pulmes e 
fez com que seus olhos ardessem. Parte da parede junto  
lareira se curvou, destacando-se da construo. No havia 
luz do dia que pudessem discernir, mas o vento e a chuva 
uivavam atravs de uma grande brecha na parede.
 Venha!  gritou Will para Fitch por cima do barulho 
crescente.  Vamos sair daqui antes que a casa desabe!
Fitch teve ombros, joelhos e cotovelos arranhados e 
esfolados, deixando sangue em algumas das pedras, mas 
conseguiu deslizar pela brecha. Will se espremeu atrs dele.
Assim que Fitch ps os ps do lado de fora, a chuva lhe 
bateu com tanta fora no rosto que ele mal conseguia 
enxergar. Viu-se no jardim do castelo, olhando para baixo, 
para o campo da Ravina do Corvo.
A princpio, pareceu como se o prprio solo estivesse 
marchando em ondas cinzentas fantasmagricas que 
cruzavam o vale. Ento ele viu que era uma espcie de 
exrcito, um exrcito variado, cujos soldados pareciam 
trazidos de muitas terras e pocas. Havia homens e 
mulheres, e alguns no passavam de crianas. Alguns 
trajavam armaduras, outros, roupas mais leves e carregavam 
armas de todos os tipos. Aqui e ali havia pingos de ouro 
avermelhado: guerreiros com os cabelos da mesma cor que 
os de Jack.
Fitch ouviu tambores e o grito selvagem de gaitas de foles. 
Os guerreiros haviam ultrapassado o meio do campo, as 
tendas e os trailers na outra extremidade do vale. As 
estruturas estavam em chamas, a fumaa somando-se s 
trevas.
 No pode ser  murmurou Fitch.
O chal no parecia mais um refgio, com as paredes caindo 
em torno deles.
Os espectadores das galerias passavam por eles em fuga. 
Outros pareciam paralisados em seus assentos. Fitch sondou 
a cena catica, procurando por Jack. Finalmente, avistou o 
que parecia ser uma guerra particular se desenrolando diante 
das galerias. Hastings, Linda e alguns dos vizinhos da rua 
Jefferson estavam num crculo apertado, sitiados por um 
grupo de magos que os atacava sem cessar em um 
impressionante espetculo de luzes. Ele viu Jack e Ellen no 
centro do crculo, sentados no cho, abraando-se com 
fora. Fitch sacudiu a cabea. Nada daquilo fazia sentido.

Os longos braos do exrcito de sombras se estenderam para 
cercar a batalha no campo. Os guerreiros brandiam 
machados e espadas largas, massacrando quaisquer magos 
que se pusessem em seu caminho. Poucos dos magos 
tiveram tempo de reagir, e aqueles que o fizeram estavam 
em nmero to reduzido comparativamente que no tinham 
a menor chance. Hastings e o grupo do Drago Prateado, 
voltados para fora, pararam e olharam sem poder acreditar, 
mas os juzes do torneio no viram o perigo em que estavam 
at que um musculoso guerreiro celta de cabelo dourado-
avermelhado brilhante agarrou um deles e o atravessou com 
a espada. Ele atirou o corpo no cho, o sangue correndo da 
lmina sob a chuva. A batalha se interrompeu logo depois 
disso. D'Orsay e os quatro juzes remanescentes formaram 
seu prprio crculo apertado.
Houve uma pausa em que ningum respirou, enquanto 
guerreiros e magos se encaravam, embora pequenos grupos 
de guerreiros continuassem seu trabalho na orla da multido. 
As fileiras do exrcito se abriram e duas mulheres 
caminharam na direo deles. Uma era bem jovem, no 
muito mais velha do que Jack, e tinha os cabelos escuros 
cacheados. Estava vestida com uma camisa de linho branco e 
uma cala de um outro sculo, e se movia com uma graa 
elegante e atltica. A outra era um pouco mais velha e mais 
alta do que a primeira, com luminosos cabelos louro-
avermelhados. Trajava um longo vestido que parecia flutuar 
sobre a grama. Elas pararam diante dos partidrios do Drago 
Prateado, e a mais velha falou:
 O Jogo acabou  anunciou ela.  Onde esto os 
guerreiros?
A voz dela era assustadoramente familiar. Jack a havia 
ouvido antes, certa noite em um cemitrio. Em outra era, 
parecia. Ellen o ajudou a se levantar, e eles se moveram 
desajeitadamente at a frente do crculo, ele mancando e ela 
o amparando. Quando se aproximou da mulher que o havia 
chamado, ele ficou mais uma vez surpreso com a 
semelhana entre ela e a me dele. Ele a havia visto antes s 
em fotografias.
        Ol, Jack  disse ela, sorrindo.  Vejo que est cuidando 
bem da minha espada.  Ela apontou para a Sombra 
Assassina.  Acho que voc fez mais uso dela do que eu.
        Susannah  murmurou Jack.
Jack percebeu uma energia controlada com esforo, a 
presena de Hastings logo atrs dele. Ele se virou. O mago 
fitava as duas mulheres como se estivesse vendo fantasmas, 
o que era bem verdade.
A mulher mais jovem disse:
        Lee, veja s o homem em que voc se tornou.
Ela correu e passou os braos ao redor de Hastings.
Ele a abraou com fora, a alegria em seu rosto mesclada ao 
assombro.
        Carrie  murmurou ele, a voz rouca pela emoo.  No 
acredito. Voc parece igualzinha.
Carrie sorriu para ele, e Jack pde ver a semelhana entre os 
dois: narizes fortes, as mas do rosto altas, cachos escuros 
colados  cabea.
        Eu estou morta h mais de cem anos, e voc est vivo. A 
vida marca uma pessoa. Essa  a diferena.
Ela o soltou e deu um passo atrs.
Jack mal conseguia ficar em p, mesmo com o apoio de 
Ellen. O terremoto podia ter acabado, mas ainda sentia a 
cabea girando. Cada parte de seu corpo competia por 
ateno.
Susannah percebeu isso.
        Ser que algum pode arrumar uma cadeira para o rapaz? 
 pediu ela.  Acho que ele j agentou o suficiente por 
hoje. Tragam duas cadeiras  acrescentou, olhando para 
Ellen.
Dois guerreiros desceram cadeiras do camarote dos juzes e 
as ajeitaram na grama. Jack ficou surpreso ao ver que ambos 
lhe eram familiares. Um deles era Jeremiah Brooks, e o outro 
era o jovem cavaleiro com quem lutara na clareira, no 
primeiro combate que vencera.
Brooks ajudou Jack a se sentar, tomando cuidado com o 
brao cortado e a perna ferida, com Ellen auxiliando do 
outro lado.
        Parece que hoje levaste uma surra, meu amigo
        observou Brooks, lacnico. Ele indicou Ellen com a 
cabea.  Tendo em vista que somos quase irmos e tudo o 
mais, quero dar-te um conselho: da prxima vez que a dama 
te desafiar, no vs negar fogo!  Ele esfregou o nariz e 
sorriu para Jack, que lhe retribuiu o olhar, cansado demais 
para ficar embaraado.
O cavaleiro trouxe uma garrafa d'gua, revirando-a com 
curiosidade nas mos antes de pass-la a Jack.
        Fui sempre grato por no teres me matado  explicou ele. 
 A hora da morte chega para todos, mas no imaginas o 
que  ter de passar por isso vez aps vez.
        Ele apontou para Ellen com o polegar.  Ela sempre 
matava todos.
Ellen pareceu envergonhada. Sentou-se na beirada da 
cadeira, nervosa, como que em dvida sobre se teria de lutar 
para fugir dali. Jack compartilhou a garrafa d'gua com ela, 
recostou-se e fechou parcialmente os olhos. A perna 
latejava, e ele sentia nuseas. Aps um minuto, Ellen se 
levantou e posicionou sua cadeira em frente  de Jack, 
usando-a como suporte para a perna dele.
        Precisa manter a perna para cima, seno incha  
aconselhou ela.
Ellen se sentou na grama junto a ele e descansou a cabea no 
quadril de Jack, parecendo no notar a gua que corria em 
regatos pelo solo. A chuva diminura at quase parar.
        Susannah  comeou Hastings, sem jeito.
Ela se voltou para ele, reconhecendo a presena dele pela 
primeira vez.
        Ol, Lee.
        Susannah, eu sinto muito  disse ele simplesmente.
Ela correu os dedos pelos longos cabelos.
        Eu no vi meu filho crescer. Isso  difcil de perdoar.
        No estou pedindo que me perdoe.  A mo do mago 
estava estendida, algo brilhando sobre a palma. Era o anel 
com a pedra de Susannah.  Acho que devo devolver isto a 
voc.
Ela o estudou por um momento.
        Cem anos  muito tempo para guardar rancor. Isso vale 
para ns dois. Carrie e eu pedimos a voc que abandone o 
seu, e eu direi adeus ao meu.  Ela fez uma pausa.  A 
pedra no tem utilidade alguma para mim, agora ou nunca. 
Fique com ela e se lembre de mim. Creio que voc aprendeu 
alguma coisa desde a ltima vez em que nos vimos.
Hastings fez meno de dizer mais alguma coisa, mas 
d'Orsay avanou.
        Por que trouxe esse exrcito para a ravina?  indagou ele. 
 Voc destruiu nossa propriedade e perturbou nosso 
torneio.
Susannah voltou-se para ele.
        Seu torneio j estava arruinado antes de chegarmos.
Susannah ergueu a saia e subiu at o camarote dos juzes.
         ilegal que essa corja de guerreiros venha at a ravina 
sem ser convidada. Os guerreiros mortos no devem fazer a 
travessia a no ser que sejam invocados, de acordo com as 
regras. Vocs j assassinaram um juiz - prosseguiu d'Orsay. 
 Espero que entenda que ser responsabilizada por isso.
Susannah no estava mais sorrindo.
        Voc nunca se importou quando estvamos matando uns 
aos outros.  Ela estendeu o brao para pegar o tomo de 
capa de couro das Leis de Combate.  Est pronto para 
escrever mais algumas regras, mestre D'Orsay?
        O que voc est fazendo?  retrucou ele.  Largue isso.
        Ns temos algumas alteraes a sugerir tambm - disse ela 
com tranqilidade.  Agora que voc despertou o drago.
A expresso no rosto de d'Orsay era um misto de 
incredulidade e medo.
        Entenda, as Leis de Combate nos tm mantido 
aprisionados desde 1532. O contrato foi escrito e jurado 
pelos ossos da terra... a pedra da Cabea do Corvo... para 
nunca ser alterado. As regras do torneio, a relao entre 
magos e guerreiros. Nosso lugar no limbo, sempre 
aguardando sermos chamados para o massacre. Mas voc 
abriu o livro. Primeiro, violou as regras ao jogar com um 
mago, e depois se atreveu a mudar as regras. Voc  o 
mestre dos Jogos por linhagem, e voc fez isso aqui,  
sombra da pedra, a toca do drago. Elas precisam ser 
reconsagradas.  por isso que estamos aqui.  Ela indicou 
com a mo o exrcito reunido.  Ns somos o drago.
        No era a nossa inteno abrir as regras para emendas. 
Vamos restabelecer sua forma original  apressou-se em 
replicar d'Orsay.
        Ns decidimos que no gostamos de como elas so.  
Susannah empurrou o livro sobre a mesa em direo a 
d'Orsay.
        Isso  um assunto de magos  protestou o mestre do 
Jogo.  As regras no podem ser mudadas sem um voto do 
Conselho.
Susannah estudou os magos presentes.
        Acho que temos representao adequada aqui. Faremos 
uma votao verbal. Mas devo avisar que alguns de ns 
podem ficar descontentes com o resultado.  Ela apontou 
para o mar de guerreiros.
D'Orsay olhou para eles e depois para ela. Seu rosto havia 
perdido toda a cor.
Susannah sorriu.
        Voc precisa entender que h um risco em manter um 
exrcito, mesmo um exrcito de mortos. H sempre o risco 
de um motim. Agora, mestre d'Orsay, as regras?
Com relutncia, d'Orsay subiu ao camarote dos juzes e se 
sentou diante da mesa. Ele abriu o livro, folheou-o at achar 
a primeira pgina em branco e pegou a caneta.
Susannah ditou:
        Emenda nmero um. O sistema de torneio existente desde 
1532 est abolido.
D'Orsay largou a caneta.
        Impossvel  disse ele.  Assim voc destruiria a nossa 
tradio mais importante. Esse  o sistema que mantm a paz 
entre ns.
        Segunda emenda  continuou Susannah, ignorando-o.  
Todas as ordens dos Weirs so iguais perante as leis. No h 
relaes hierrquicas de superior e subordinado entre magos, 
guerreiros, encantadores, feiticeiros ou qualquer outra classe.
D'Orsay ainda sacudia a cabea, mas havia apanhado a caneta 
e estava escrevendo.
Susannah observou a multido, pensativa. Linda Downey 
avanou at a beira do camarote dos juzes, inclinou-se para 
a frente e lhe falou com urgncia.
        Terceira  disse Susannah.  A cidade de Trinity, em 
Ohio, fica estabelecida como um santurio.
Os Weirs no devero executar assassinatos, seqestros, 
magia mental ou quaisquer artes negras dentro de seus 
limites.
D'Orsay continuou escrevendo, esforando-se para 
acompanhar.
Susannah olhou para Carrie, depois para o resto da 
assemblia e, em seguida, voltou-se para d'Orsay.
        Quarta. Os magos no podem mais invocar os guerreiros 
mortos  vontade. Os guerreiros mortos, entretanto, 
retornaro em grande nmero se essas emendas forem 
violadas.
D'Orsay terminou de escrever.
         isso?  perguntou ele, em tom azedo.
        Mais uma coisa. De agora em diante, as regras no podem 
ser alteradas, exceto por voto da maioria de um Conselho no 
qual todas as ordens dos Weirs so representadas com 
igualdade, cada uma com um nico voto.
Quando terminou, d'Orsay empurrou o livro com raiva na 
direo de Susannah. Ela leu o que estava escrito e assentiu.
        Agora a votao. Todos a favor digam sim.
D'Orsay e os quatro juzes olharam entre si, depois para o 
exrcito, e hesitaram. Mas apenas por um momento.
        Sim  murmuraram eles.
         unnime, ento  disse Susannah com satisfao. Ela 
fechou o livro ruidosamente.  Gostamos mais das regras 
deste jeito.  Ela se virou e estendeu as mos para a Pedra 
Weir.  Somos todos herdeiros da Pedra Weir e 
apresentamos estas regras corrigidas que governaro todas as 
ordens mgicas.
A pedra se iluminou, lanando uma fria luz azul por sobre a 
ravina e todos ali. E l no fundo, sob a cicatriz em forma de 
estrela, Jack, o herdeiro guerreiro, sentiu a pedra de mago 
em seu peito responder.
Susannah ficou imvel por um momento, os braos em 
torno de si mesma, os olhos fechados. Depois, suspirou e 
abriu os olhos.
        Agora  hora de fazermos a travessia.
Ela se virou e viu Nicodemus Snowbeard ali em p, 
apoiando-se na bengala, o vento aoitando-lhe as roupas em 
torno da magra figura.
        Bom trabalho, Susannah  disse o mago, sorrindo.  
Estou orgulhoso de voc.
Ele a abraou com cuidado, como se ela pudesse quebrar.
         bom ver voc tambm, Velho Urso  disse ela, 
passando os braos em torno dele. Ficaram assim por alguns 
minutos. Hastings estava ali perto, observando, a cabea 
inclinada para o lado, como se tentasse montar um quebra-
cabeas em que faltavam peas.
Jack caiu num estado de semi-conscincia, mas fez um 
esforo para acordar quando um pequeno grupo de 
guerreiros se aproximou dele e de Ellen. Brooks parecia estar 
no comando, mas fazer discursos no era, claramente, a sua 
especialidade.
         o seguinte  disse ele afinal, coando-se sob o 
colarinho da camisa de couro e puxando a prpria orelha.  
Estamos gratos pelo que vocs dois fizeram aqui, forando-
os a mudar as regras e tudo o mais. E se algum dia quiseres 
nos chamar para praticar, estamos a.  Ele olhou para Ellen 
e sorriu com alguma arrogncia.  Acho que posso ensinar 
para tua mulher aqui uma coisinha ou outra. S por diverso, 
sabe, e talvez uma dose ou duas de cerveja, para tornar as 
coisas interessantes  acrescentou ele rapidamente, vendo 
Ellen eriar-se.
E Jack lembrou-se da delcia que era uma ou duas doses de 
cerveja quando um homem tinha sede. Parte de sua variada 
educao nos ltimos seis meses.
        Obrigado  disse Jack.  Eu gostaria disso, mas acho que 
no por uns tempos.
Carrie abraou Hastings mais uma vez. Falou com voz baixa, 
as palavras somente para ele.
        No tenho como dizer quanto significa para mim ver voc 
de novo.  hora de voc deixar pra trs essa obsesso de 
vingana. Precisa encontrar sua prpria vida.  Ela olhou 
para Linda e depois de novo para Hastings.  No se 
esquea de mim, mas nunca vai encontrar a felicidade se 
continuar vivendo no passado.
Hastings segurou-lhe as mos.
        Vou fazer o que diz quando esse negcio estiver 
totalmente terminado.  Ele apontou para os cadveres 
espalhados a seu redor.
        Uma promessa tnue para a irm que ama voc.  Ela 
sorriu, mas j havia algo de etreo nela, como se estivesse 
desaparecendo.  Agora eu preciso ir.
Hastings avanou para ela, como que para captur-la em seus 
braos.
        Voc volta? Ou talvez eu possa visitar voc... onde voc 
est.
Ela deu de ombros.
        Quem sabe possamos viajar com mais liberdade agora, nos 
dois sentidos. S que  difcil para mim ficar no mundo por 
muito tempo  disse ela com tristeza.
Ele olhou por sobre o ombro dela para Susannah, que estava 
ainda ao lado de Snowbeard.
        Adeus, Susannah.
Susannah sorriu.
        Talvez nos vejamos de novo. Nunca se sabe.
As duas mulheres se afastaram com seus camaradas. O 
exrcito de guerreiros tremeluziu, tornou-se imaterial. Por 
um momento, pairou como uma nvoa na ravina, e depois 
se dissipou ao vento. Com eles, foram-se as galerias e todos 
os acessrios dos torneios, as multides e estandartes, os 
prdios que haviam sido erguidos para a ocasio. Tudo o que 
restou foram o castelo e o chal em seu jardim, as estruturas 
permanentes da ravina. At as cadeiras desapareceram, e 
Jack se viu subitamente sentado no cho.
Jack e Ellen, Hastings e Linda, Mercedes, Blaise, Snowbeard 
e ris pareciam ser os nicos seres vivos no vale, a no ser 
por algumas ovelhas que pastavam nas colinas. At o tempo 
parecia estar clareando, e o nevoeiro dos magos no mais 
cobria o sol, que flamejava ao se pr atrs da Cabea do 
Corvo.
        Will e Fitch!  exclamou Jack, de sbito.  Eu os deixei 
no chal.
Jack tentou se levantar, o que descobriu ser impossvel. 
Ellen plantou uma mo com firmeza no peito dele e 
empurrou-o de volta para baixo.
        Eu vou busc-los  apressou-se em dizer Linda 
rapidamente, virando-se em direo ao chal.
        Eles esto trancados  acrescentou Jack.
Linda olhou-o com curiosidade.
        Bom, eles devem ter achado um jeito de sair.
Duas figuras se destacaram da lateral do chal e caminharam 
na direo deles. Eram Will e Fitch. Eles olhavam em torno 
com assombro. Quando estavam prximos o bastante para 
serem ouvidos, Will gritou:
        Cad todo mundo?
        Foram pra casa  gritou Linda em resposta.  O torneio 
acabou.
Will avistou Jack e Ellen sentados lado a lado na grama.
        No entendi  disse ele devagar.  Um de vocs devia 
estar morto.
Will fuzilou Ellen com os olhos, desafiando-a a se defender. 
Ela no fez nenhuma tentativa nesse sentido. Ela ergueu os 
ombros, soltou-os de novo e desviou o olhar.
        Ellen podia ter me matado  disse Jack baixinho , mas 
no fez isso. Ela salvou a minha vida.
        Por qu?  indagou Fitch.  Depois de tudo isso?
Ellen ficou rubra e fitou o cho.
        Vai ver que  porque nenhum dos meus adversrios tenha 
me dado flores antes  resmungou ela.
Hastings se ajoelhou junto a Jack.
        Voc quer que eu d uma olhada na sua perna?  
perguntou ele.  Ou prefere que eu o leve at Keswick?
        Se voc pode tratar dela, v em frente  disse Jack.  O 
brao tambm, j que voc est aqui.
Jack se deitou de costas, fechando os olhos para fazer a 
cabea parar de girar. Hastings ps a mo sobre a fratura e 
pronunciou um feitio. Jack sentiu como se gua fria flusse 
pela perna, levando embora a dor e o inchao. Alguns 
minutos mais e o mago passou a cuidar do brao. Logo toda a 
dor havia sumido, e ele estava flutuando, confortvel, mas 
incrivelmente cansado.
Hastings voltou-se para Ellen.
        Voc est bem?  indagou ele.
Ellen no respondeu de imediato. Desatou a funda da perna 
de Jack, usando os dentes para soltar os ns. Pendurou-a 
sobre o ombro e guardou a faca na bainha que trazia s 
costas. Ento se levantou e embainhou a espada.
        Estou tima  disse ela.  Sinto muito por toda a 
confuso.  Ela hesitou, depois se inclinou de novo e beijou 
Jack na boca, pressionando-o contra o cho.  Adeus, Jack. 
Preciso pegar umas coisas no castelo, e a tenho de me 
mandar.
        Como assim? Aonde voc vai?  indagou Jack, 
esforando-se para se sentar. Linda postou-se  seu lado, 
amparando-o.
Ellen deu de ombros.
        No fao idia. Pelo menos estou por conta prpria agora. 
Ei, no se preocupe  acrescentou ela, com afobao, ao 
ver a expresso no rosto de Jack.  Isso  um meio de vida 
para mim. No sei de onde vim, no sei para onde vou. Eu 
sempre quis voltar para a Esccia. Talvez eu v para l.
Ela lanou um olhar cauteloso a Hastings e aos outros, como 
se eles pudessem tentar det-la.
        Volte pra Trinity conosco  pediu Jack.  Voc disse 
que gostou de l.
Ellen deu uma risada.
        Tenho 16 anos, Jack. No tenho famlia nem como me 
sustentar. No posso nem alugar um apartamento. E aquilo 
que sei fazer melhor  matar pessoas. Acho que sou o tipo 
de indivduo de alto risco, se entende o que quero dizer.  
Ela era direta, sem pedir por simpatia.
Surpreendentemente, foi o tmido Will quem veio em sua 
defesa.
        Voc vai ficar bem. Voc tem amigos. A gente ajuda voc 
a encontrar um lugar pra ficar. Aposto que voc pode 
aprender a no matar pessoas.  Ele sorriu.  E no tenho 
a menor dvida de que voc entra no time de futebol 
feminino no outono.
        Talvez Trinity seja o lugar mais seguro pra voc  disse 
Linda , agora que  um santurio. Quem sabe como a 
Ordem dos Magos vai reagir ao que aconteceu hoje? Voc 
pode virar um alvo. Alm disso, voc no tem dinheiro nem 
equipamento pra acampar. E no pode perambular pelo 
Reino Unido carregando uma espada.
Ellen hesitou.
        Eu no costumo ficar num nico lugar por muito tempo.
Hastings, que estivera olhando para a ravina com uma 
expresso ilegvel, ps a mo sobre o ombro de Ellen. Ela 
estremeceu.
        Por que voc no acompanha o resto da excurso com a 
Sociedade Chauceriana?  sugeriu ele.  Posso submet-la 
a um interrogatrio, para que possamos determinar 
exatamente quo perigosa voc . A a gente traa um plano.
Como sempre, no havia como resistir a Hastings. E esse foi 
o acordo.




Captulo Dezoito
Trinity

Cada vez mais, no havia revelaes, apenas o desvelar de 
verdades sabidas havia muito tempo, mas lembradas 
vagamente. Tudo tinha sido escrito havia muito tempo. No 
havia nada verdadeiramente novo no mundo, apenas a lenta 
marcha circular do tempo que revelava as velhas coisas uma 
vez mais.

        Voc massacrou a Jen DeBrock. Ela nem viu que voc 
estava l at que voc passou com a bola.  Will sorriu, 
contente, e chamou a garonete.  S que, se for como na 
ltima temporada, vocs vo enfrentar Garfield de novo nas 
finais. A no vai ter moleza.
Jack contou algum dinheiro sobre a mesa.
        Pena que o Slansky no pode clonar voc, Ellen  disse 
ele.  Desse jeito ele no precisaria escolher. Voc poderia 
ser goleira e atacante ao mesmo tempo.
Nada passava por Ellen quando ela estava na frente do gol. A 
temporada de outono de futebol feminino em Trinity foi 
uma longa srie de derrotas sem gols para os times 
adversrios. Era o assunto do momento.
Futebol era uma boa vlvula de escape para a agressividade 
natural de Ellen. O que era uma boa coisa, j que ela via 
pouca utilidade nas intrigas sociais de um colgio de cidade 
pequena.
Ellen deu um sorriso cruel.
        Prefiro jogar como atacante. Voc sabe que eu gosto do 
ataque, Jack.  Ela sustentou o olhar dele por um longo 
momento, ento se levantou, pendurando a bolsa de futebol 
no ombro.  Vou voltar agora, Will. Falei pra sua me que 
eu ia cuidar do jardim da frente. J tem uma tonelada de 
folhas l de novo.
        Eu disse que ia eu fazer isso!  protestou ele debilmente.
Os dois rapazes a viram bater a porta da frente do 
Corcoran's. Will estava descobrindo que havia imensas 
vantagens em hospedar Ellen.
Linda Downey havia armado tudo. Durante a ltima parte 
da excurso com a Sociedade Chauceriana, ela contara aos 
pais de Will uma histria da qual ningum conseguia se 
lembrar sobre os pais de Ellen se mudarem para longe e 
sobre Ellen querer terminar o colgio em Trinity. J que a 
irm mais velha de Will havia partido para a faculdade, eles 
tinham um quarto extra, e o ofereceram de imediato a Ellen. 
Talvez houvesse magia envolvida, mas Will estava feliz com 
o arranjo, e Hastings sentia que Ellen representava pouco 
perigo para algum que no partisse para cima dela com uma 
lmina.
Ela parecia ansiosa por merecer a acolhida. Estava 
constantemente cortando lenha, varrendo folhas ou 
escavando com uma p para aplicar adubo. Ela explicara a 
seus anfitries que viera de uma famlia de militares e estava 
acostumada a um estilo de vida bastante disciplinado. Alm 
disso, gostava de se manter em forma.
Ellen tambm se juntara ao clube de teatro, pois dissera estar 
acostumada a interpretar vrios papis, e se inscrevera no 
basquete feminino. Ainda no fizera outros amigos fora do 
pequeno grupo deles, mas isso se devia principalmente  
falta de interesses comuns. Ela tivera uma infncia pouco 
tradicional  um verdadeiro pesadelo. Jack se preocupava 
com ela, mas ela resistia terminantemente a quaisquer 
tentativas de fazer com que se abrisse.
Os eventos da primavera e do vero haviam deixado sua 
marca. Os sonhos de Jack eram povoados de magos 
sanguinrios, feitios, emboscadas e armadilhas. s vezes, 
ele no conseguia dormir e, quando conseguia, acordava 
gritando. Ele convencera Becka de que terapia 
provavelmente no ajudaria no caso dele.
Quando chegou o outono, Trinity tivera um vero inteiro 
para esquecer os eventos do fim do ano letivo, j que a 
maioria dos envolvidos havia passado o vero fora do pas. 
Alguma especulao ressurgiu com o retorno deles, mas a 
cidade retomou gradualmente seu ritmo usual de outono, 
com o incio das aulas tanto na universidade quanto no 
colgio, e com a partida dos veranistas. Algumas pessoas 
notaram que Jack e Ellen pareciam diferentes aps a viagem 
 Inglaterra, mas viagens ao exterior muitas vezes mudam as 
pessoas.
        Voc quer jogar um pouco de bola antes que fique 
escuro?  Will parecia inclinado a permitir que Ellen 
cuidasse das folhas, afinal.
Jack balanou a cabea.
        O senhor Hastings est na cidade de novo. Minha me o 
convidou para jantar.
Nos primeiros dias, eles tinham visto Hastings com 
freqncia. Ele passara longas horas com Ellen, 
interrogando-a sobre o treinamento dela e as tticas da Rosa 
Vermelha. Poderia ter sido embaraoso, dado o histrico 
entre eles, mas Ellen pareceu achar aquilo teraputico.
Depois de um ms, as aparies dele se tornaram mais 
espordicas, s vezes coincidindo com as de Linda. Ela 
visitava a cidade com maior freqncia que de hbito. Para a 
surpresa de Becka, Linda ficara em Oxford com eles durante 
a segunda metade do vero e os havia visitado vrias vezes 
desde que retornaram a Trinity. Era como se ela estivesse 
estranhamente vida pela companhia deles.
Linda e Hastings pareciam ter superado suas diferenas 
sobre a participao de Jack no torneio, dada a maneira 
como as coisas se desenvolveram. Fora isso, Jack no sabia 
em que ponto estava o relacionamento entre eles. Os dois 
passavam um tempo considervel juntos, discutindo 
poltica. Mas a tia de Jack parecia determinada a manter a 
relao deles num plano profissional, o que no devia ser 
fcil.
O Colgio de Trinity tinha um novo diretor-assistente, 
embora todos concordassem que Hastings deixaria saudades. 
A disciplina nunca fora um problema enquanto ele estivera 
no cargo, a despeito do fato de ele raramente ter passado 
detenes. Simplesmente havia algo nele que tornava a 
disciplina desnecessria.
Becka muitas vezes convidava Hastings para jantar quando 
descobria que ele estava na cidade. Ela sempre dizia que 
queria lhe agradecer pelo que havia feito naquele dia no 
colgio e por sua hospitalidade quando estavam na 
Inglaterra. Mas s vezes Jack a flagrava estudando o rosto de 
Hastings, como se quisesse se lembrar de algo esquecido. O 
mago era um convidado afvel, mas Jack tinha a sensao de 
que ele se mantinha sempre sob grande controle, 
mantendo-a a distncia.
Mantendo a promessa que fizera a Jack.
Os sentimentos de Jack em relao ao mago eram 
complexos. Hastings havia empenhado sua vida para manter 
Jack fora do alcance de Jessamine Longbranch. A mera 
possibilidade de uma vida sob o controle de Jessamine ainda 
lhe dava calafrios. Considerando o resultado provvel se ele 
tivesse optado por no lutar, a deciso de jogar parecia ter 
sido boa em retrospecto. Mas ele sabia que as coisas 
poderiam ter terminado de modo bem diferente. Sob a 
influncia do mago, Jack chegara perto de cometer um 
assassinato.
Em uma de suas visitas, Hastings deu a Jack trs livros sobre 
magia de sua coleo. Jack se lembrava de t-los visto na 
biblioteca em Cmbria.
 Se continuar com seus estudos, talvez eles sejam teis.  
Ento Hastings entregou a Jack um minsculo livro de capa 
de couro sobre feitios de ataque. Jack o examinou, 
surpreso. Nunca tinha visto aquele antes.  No mantenho 
esse aqui na prateleira  acrescentou Hastings, com um 
leve sorriso. Jack encarou-o, perguntando-se quanto o mago 
sabia, e h quanto tempo sabia.
O Conselho dos Magos ainda no havia reagido aos eventos 
do solstcio de vero. Era difcil imaginar que fosse aceitar 
em silncio o desmantelamento do sistema que havia 
mantido por sculos. Talvez naquele mesmo instante o 
Conselho estivesse planejando uma reao. Jack tentou tirar 
aquilo da cabea. No havia nada que pudesse fazer a 
respeito, afinal.
Nick Snowbeard retomou facilmente o papel de zelador ao 
retornar a Trinity. Ele terminou de pr o papel de parede no 
segundo andar da casa e completou a reforma do banheiro. 
Jack suspeitava que houvesse mais do que um pouco de 
magia envolvida naquilo. Nick ainda devotava tempo todos 
os dias  educao de Jack. s vezes eles se concentravam 
em magia, s vezes em outras matrias. Havia menos 
intensidade nessas sesses agora, era mais como nos velhos 
tempos.
Jack sempre vira Nick como uma pessoa tranqila, mas 
agora parecia que algum tipo de fardo havia cado dos 
ombros do velho mago. Talvez fosse a existncia do 
santurio. Nick costumava freqentar os cafs e tabernas 
junto  universidade, passando horas em dilogos filosficos 
com os amigos. Ele tambm gostava de passear  beira do 
lago, s vezes por muito tempo aps o cair da noite, 
observando as estrelas e o fluir da gua cinzenta. Quase 
sempre Jack caminhava com ele, velho mago e jovem 
guerreiro, enquanto o frio vento noroeste trazia o cheiro de 
folhas queimadas vindo da terra.
        Suponho que voc no tenha mais de ficar de olho em 
mim  comentou Jack. Ele hesitou em mencionar o 
assunto, mas receava que o velho pudesse ter negcios em 
algum outro lugar e se conservasse em Trinity por um 
sentimento de dever.
Snowbeard sorriu e passou-lhe um brao ao redor dos 
ombros.
        Jack, essa guerra j dura sculos. Descobri que  sbio 
curtir cada momento de trgua, sem perder a conscincia do 
que ela : somente uma trgua.
Aquilo no era exatamente reconfortante. Ainda assim, Jack 
no podia evitar o otimismo. Liberto dos efeitos do 
Antiweir, ele havia renascido para a raa dos Weirlind. A 
despeito do jeito mal-humorado de tratarem um ao outro, 
ele via uma promessa no seu relacionamento com Ellen. E 
se sentia mais seguro do que em qualquer outro momento 
desde o dia em que tirara sua espada do solo em Coal Grove.
s vezes Jack ou Ellen sentiam-se inquietos, assaltados por 
uma necessidade irreprimvel. Ellen telefonava para Jack ou 
vice-versa, e eles combinavam de se encontrar na clareira. 
Jack erguia uma barreira de mago e eles se enfrentavam com 
floretes ou invocavam
Brooks ou alguns outros velhos amigos do exrcito de 
guerreiros para um combate. Brooks ensinou alguns 
movimentos a Ellen, como prometido, e ela o ensinou a no 
subestimar as mulheres guerreiras.
Eles lutavam porque adoravam a dana e o peso de uma 
espada em suas mos. O choque e as fascas saltando do 
metal e os sibilos da chama eram como uma msica escrita 
especialmente para eles. Eles lutavam pela glria, no por 
sangue. Eram Weirlinds, herdeiros da pedra de guerreiro. E 
eles sempre dormiam melhor com as espadas sob suas 
camas.




rvore frondosa, cuja folha est na bandeira do Canad.
